Memória estudantil – Escola Anísio Teixeira / AABB Part 03

 

Por Daniel Rocha

Após deixar o antigo endereço ,no bairro Bela Vista,  hoje escola Cooperativa, deu-se início do ano letivo de 1992  na rede estadual de ensino  e desta forma  na escola Anísio Teixeira ,  no antigo prédio da Associação Atlética Banco do Brasil, AABB, um espaço inadequado para os alunos.

Tal situação fez com que os estudantes das escolas próximas  tirassem sarro da situação precária ao qual havia sido colocados os alunos  criando denominações depreciativas  para os alunos, rebatidas com a mesma criatividade pelos meninos do Anísio Teixeira.

 Na nova escola, a primeira providencia dos alunos foi rebater a denominação dada à escola pelos estudantes dos colégios vizinhos, Ângelo Magalhães e Rômulo Galvão que apelidaram a escola de AABB – Associação de Bestas e Burros.

Assim para rebater as gozações criou-se uma leitura para as siglas  CEPROG – Centro Educacional Professor Rômulo Galvão,   que na interpretação dos alunos se tornou  CEPROG –  Crescendo Para Roubar Galinhas.

Portanto, quando um aluno do CEPROG falava “olha os bestas e burros” respondia-se “olha os ladrões de galinhas”. Além destas gozações foi criada uma para cada escola, só que vou ficar devendo porque me falha a memória.

Na escola a situação seguia caótica, buracos nas salas de aula gerava quedas e risadas, hora ou outra a diretora Conceição entrava na sala para falar do absurdo em que havíamos sido colocados.

A professora de mesmo nome era muito alegre e sorridente ria de tudo, principalmente, das brincadeiras dos alunos, uma em especial, o medo que as crianças tinham de ir ao banheiro e deparar com a lendária mulher do algodão. No recreio quem entrava ficava preso, porque sempre tinha alguém para segurar a porta.

O fato sobrenatural havia ganhado verossimilhança depois que o Jornal do Meio Dia da rádio local tinha noticiado o caso que assombrava as escolas da cidade. O Jornal do Meio Dia da  Caraípe FM (100.5) alcançava uma audiência espantosa. Mesmo quem não possuía rádio ouvia o do vizinho tamanho era o volume que se usava na época.

Já as meninas não ficavam apenas envolvidas com os fenômenos sobrenaturais muitas  se dedicavam a expressar sua admiração pelos meninos da 5ª série, algumas mais assanhadas  entregavam declarações feitas em papéis de carta para os amados de 15 anos de idade completos.

Na sala de aula alguns apelidos provocava brigas no recreio ou na saída, porém no final das contas todo o mundo tinha um, então, não passava de  motivos de risadas constantes. A ofensa maior, recordo, era ter o nome da mãe sendo caluniado ou algum apelido referente a ela, então quando se queria ofender verdadeiramente alguém bastava dizer algo do tipo ”a sua mãe aquela  alguma coisa….” ou apontava se algum defeito na fisionomia, era porrada na certa.

No banheiro a literatura registrada nas paredes era os palavrões, dentre os mais citados, fulano é viado ou  etc… Diante deste perturbador fenômeno uma professora (sei que deveria citar o nome mais neste caso prefiro não) resolveu liberar o linguajar “buceta”, pois, segundo ela, não havia mal nenhum em falar este nome porque o órgão sexual feminino tinha outro, foi uma graça chamar os alunos de outra sala e mostra que na 3º terceira série era permitido falar aquele nome em frente à a professora, claro que não demorou ela rever a permissão.

Politicamente o Brasil estava mal e economicamente também, não era difícil um aluno passar mal na escola e sair o comentário que tinha saído de casa sem comer, o caso dele relata a realidade de muitos alunos da época.

As manifestações pedindo a  saída do presidente Collor do poder foi o assunto do dia na escola, alguns usavam uma camisas com o desenho do Baby do seriado do momento, Família Dinossauro, com os dizeres “não quero Collor” um trocadilho bem engraçado.

Em 1992, ano olímpico o chicle da moda era o das Olimpíadas do Pateta que disputava a tapa com o Ping Pong a atenção da molecada. As figurinhas numeradas funcionavam como moeda de troca por lanches ou qualquer outra coisa, como por exemplo, beijinhos no rosto quando o interesse era das meninas.

O filme  mais comentado sem dúvida foi  Batman, o retorno. A criançada ficava a catar nos trailers da cidade as tampinhas do refrigerante Pepsi para trocar por um pôster do filme na distribuidora Brahma,  que ficava onde hoje funciona a secretaria municipal de Assistência Social da cidade.

Além da ampla divulgação da mídia (com direito a uma reportagem longa sobre a produção do filme no programa dominical Fantástico, um carro de som rodava as ruas anunciando que já estava em exibição no Cine Brasil, o filme mais esperado do ano, quem se dirigia ao cinema noticiava as filas e a disputa ferrenha por bilhetes nas matinês.

Com toda dificuldade estudar na escola Anísio Teixeira era muito bom, pois, o espaço da antiga AABB improvisado não tinha muros e isso fazia da escola um lugar diferente de qualquer outro. Hoje, quando ando pelas ruas da cidade ou procuro um serviço de alguma instituição pública ou privada, encontro os antigos  colegas, que fazem questão de recordar os bons momentos vividos na escola improvisada.

Daniel Rocha

Historiador, Bacharel em Serviço Social, Pós-Graduado em Educação à Distância (EAD), Cinéfilo e blogueiro criador do blog Tirabanha em 2010.

 

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