Curso de corte e costura

 

Com o crescimento do povoado de Teixeira de Freitas, na década de 1960 , a comunidade em alguns aspectos sofreu transformações, como por exemplo, abertura de novos postos do trabalho e mudança no papel desempenhando pela mulher.

Recorda Maria Gomes, aluna do curso de corte e costura do Instituto Visconde de Mauá, o primeiro do povoado em 1968, que a oferta do curso foi uma grande novidade para as garotas da época. As aulas eram ministradas em um barracão improvisado na Praça dos Leões, onde também eram realizadas as missas da igreja São Pedro que estava em reforma.

De acordo o diploma da ex-aluna o curso era uma iniciativa do Instituto Industrial Visconde de Mauá, da capital Salvador. O conteúdo expresso pelo documento informa que a formatura ocorreu no dia 24/04/1969.

As aulas foram ministradas por uma moradora da cidade a senhora “Gilca de Deusdete”. Lembra Maria que a maioria das alunas estava noivas ou em idade de casamento. O curso era visto como mais uma prenda preciosa altamente prezada pelos pretendentes, com ele a mulher poderia trabalhar em casa e ajudar nas despesas.

Conforme suas memórias, Maria diz que a mulher tinha pouca liberdade e mesmo comprometida não podia  sair muito com um noivo, “só voltinhas pela praça, ir ao cinema e à igreja”.

A vigilância da família era constante. A obediência ao pai era transferida ao marido depois do casamento. Após concluir o curso, Maria casou se com o namorado, hoje separada não exerce a profissão de costureira.

Outra moradora, Nelzuita Conceição, em entrevista ao trabalho monográfico de Ferreira (2010), esclarece que também foi aluna deste curso, não concluiu porque o casamento estava demorando de ocorrer.

O pai havia comprado uma máquina de costura no Rio de Janeiro para a filha aprender costurar, só que o noivo tinha pressa, então o patriarca pediu que deixasse  o curso.

Diferentemente do que se imagina, nem todas as moças tinham o privilégio de ser mantidas pelo pai até o casamento. Em alguns casos, ainda solteira a mulher trabalhava para ajudar a família, como relata Izabel Rodrigues que em 1960, trabalhou como passadeira para a uma senhora que era a lavanderia do dormitório da serraria “Eliosippio Cunha”:

“Eu consegui trabalho com uma mulher que lavava roupa para o dormitório da  empresa Eliosippio Cunha, ela lavava e eu passava com o ferro de brasa, tinha dia que vinha 80 lençóis eu passava  todos, eu ganhava cinco mil réis. Neste alojamento quando tinha pouco homem era 50 todos vinham de fora para extrair madeira.”

O mercado de trabalho para mulher estava relacionado aos afazeres domésticos, como passar, lavar, cuidar, e ensinar. É importante ressaltar a existência de pequenas exceções, temos como exemplo, Creusa Medeiros Nascimento, a primeira telefonista da cidade.

Referencias e Bibliografia

DEL PRIORE, Mary. História do amor no Brasil. 2ª ed. – São Paulo: Contexto, 2005.

BANCO DO NORDESTE, As origens. Teixeira de Freitas, Fortaleza – Ceará. P.05-07, Janeiro 1986.

FERREIRA, Susana Teodoro. A vida privada de negros pioneiros no povoamento de Teixeira de Freitas na década de 1960. UNEB, Campus X, Teixeira de Freitas- BA, 2010.

ROCHA. Daniel; OLIVEIRA. Danilo. Cinema – Contribuições no Processo de Formação da Sociedade de Teixeira de Freitas nos anos de 1960, 1970 e 1980. UNEB – Campus X, Teixeira de Freitas-BA.

Daniel Rocha

Historiador, Bacharel em Serviço Social, Pós-Graduado em Educação à Distância (EAD), Cinéfilo e blogueiro criador do blog Tirabanha em 2010.

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