Relatos sobre os anos 90 em Teixeira de Freitas: Parte 01

Por (Daniel Rocha) Os anos de 1990 conferiram a Teixeira de Freitas, recém-emancipada, o rápido crescimento urbano e o avanço das redes de telecomunicação radiofônica e televisiva.

Bombardeados por anúncios em programas de TV e de rádio, os moradores, quase que em tradição, na última década do século passado, alimentavam o sonho e a esperança de vencer a pobreza e ascender socialmente, por meio da sorte, apostando em teleloterias e bingos.

 

Neste contexto, a Liga de Futebol de Teixeira de Freitas era, na época, a instituição responsável pela organização de bingos temáticos dos dias dos pais e das mães, com o sorteio de diversos prêmios como carros, motocicletas e, também, dinheiro.

 

Os sorteios eram realizados no Estádio Municipal Robertão, hoje chamado de Tomatão, e no Parque de Exposições de Teixeira de Freitas, diante de uma multidão sedenta pelos prêmios. Multidão que não era formada, apenas, por moradores da cidade.

Diversas pessoas da zona rural  e da região fronteiriça, mineiros e capixabas, também estavam entre os apostadores que vinham tentar a sorte grande.

 

Prova disso, é que em dias de sorteios, a grande quantidade de carros e de ônibus estacionados na Avenida Getúlio Vargas, com placas de diferentes cidades, revelavam a presença de visitantes de outras cidades, bem como de outros estados.

 

 Muitos deles chegavam por meio de caravanas organizadas por vendedores e populares.  Os vendedores das cartelas corriam até o último minuto para lucrar um pouco mais com o evento.

 

No Bingão do Dia das Mães, realizado em 11/05/1997, às 15h da tarde, no Estádio Municipal de Teixeira de Freitas, não foi diferente. Apesar de serem sentimentos completamente opostos, a alegria e a tristeza dividiam aquele espaço de expectativas. Naquele dia, foram sorteados duas motos CG 125 e um carro Ford KA zero quilômetro. Estes prêmios foram expostos desde o início da campanha, para encher os olhos e os corações dos esperançosos apostadores.

 

Dentro do estádio, antes do sorteio, locutores faziam a festa das pessoas presentes, com brincadeiras e recados engraçados como a famosa anedota:   “João, Maria mandou avisar para não passar na casa dela hoje, porque o marido dela já chegou.”

Neste momento, a multidão explodia uma saraivada de palmas, assobios e gritos. Recordo de que em um desses, uma mineira da cidade de Serra dos Aimorés – MG, por sinal, minha tia, acreditou na anedota do locutor e traçou o seguinte comentário: “O pessoal daqui é saliente”.

 

Os “comedores de pança”, assim chamados àqueles que marcavam os números errados na cartela, não eram perdoados facilmente e saiam do palco sobre vais e gritos.

 

Segundo documento oficial sobre o evento, os prêmios sorteados, na tarde daquele domingo, foi para uma moradora do bairro Monte Castelo, um morador do distrito de Posto da Mata, um morador da zona rural de Alcobaça e um mineiro da cidade de Palmópolis – MG.

 

Infelizmente, não foi possível encontrar um dos ganhadores deste dia, mas para saber o que acontecia depois dos sorteios na vida dos premiados, conversei informalmente com dois ganhadores e o irmão de um dos premiados.

 

José da Silva cujo irmão foi um dos premiados em um daqueles bingos, não recordou do ano exato. Contou que o irmão mais velho,  André da Silva, solteiro na época, viu a vida mudar da noite para o dia, ao ser ganhador de um carro e de uma boa quantia em dinheiro. Tal fato trouxe alegrias e tristezas. Segundo suas palavras:

 

“As mulheres gostavam de carro. Todo homem que tinha um era irresistível. Como ele foi ganhador de um carro, não demorou ele conquistar uma mulher. Foi morar com ela, vendeu o carro e, com o dinheiro que havia ganhado no Bingão, ia comprar uma casa. Só que a mulher pegou o dinheiro e caiu fora, deixando ele com pouco mais do que tinha antes”.

 

Outra ganhadora, a Elizete Nascimento, conta que o marido ganhou um destes carros, no ano de 1995. Ao contrário do outro ganhador, o automóvel trouxe muitas alegrias à família, que não tinha expectativa de comprar um por ser, na época, muito caro para as famílias humildes.

 

Naqueles anos, não era todo mundo que podia ter um carro, pois não existiam as facilidades de hoje e, por isso, o prêmio facilitou e deu mais conforto a família.

 

Em um bingo realizado no ano de 2001, na Praça Caravelas, o morador da zona rural de Alcobaça, que é popularmente conhecido como Bidu, José Eduardo, ganhou, pela segunda vez, um carro zero quilômetro.

 

 Ele ganhou o primeiro em 1985, num bingo realizado no Parque de Exposição. José Eduardo, por sua vez, não ficou rico e/ou mudou de status econômico-social, mas aproveitou o prêmio para abrir novas portas e criar outras oportunidades, tendo o carro contribuído para o trabalho e o conforto da família.

Fonte:

ROCHA. Daniel; OLIVEIRA.Danilo. Cinema – Contribuições no Processo de Formação da Sociedade de Teixeira de Freitas nos anos de 1960, 1970 e 1980. UNEB, Campus X – Teixeira de Freitas – BA.

 

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