Teixeira de Freitas antes da formação do primeiro povoado

Por Daniel Rocha e Domingos Cajueiro Correia.

Em uma época que durou até a década de 1960, as cidades litorâneas de Alcobaça e Caravelas, Costa das Baleias, eram tidas como uma referência para essa parte do extremo sul da Bahia. Nesse lugar as fazendas do interior movimentavam os portos  dessas cidades com a venda de suas produções agrícolas.

Essas propriedades rurais ocupavam o território que hoje compreende o município de Teixeira de Freitas. Este texto tem como objetivo informar a denominação, características ,os respectivos proprietários e a origem de algumas dessas antigas fazendas.

Fazenda Angelim. Conhecida como “Dona Angelita” a proprietária cultivava café e mandioca nas margens do rio Alcobaça/Itanhém. O café para venda era secado por trabalhadores residentes no lugar ou nas proximidades. Os vizinhos também  faziam uso do terreiro e da estufa para deixá-lo, o café,  adequado para venda. O nome Angelim é uma referência a uma árvore nativa da região.

Fazenda Futurista e Fazenda Itabaiana: Pertencentes a Manoel Euclides de Medeiros a fazenda tinha uma boa extensão sobre as margens norte do Rio Itanhém. Produtora de cacau e mandioca a propriedade era  conhecida pela criação de gado.

Fazenda Guerreiro. Pertencente ao “Capitão Jonguinha” a fazenda cultivava cana-de-açúcar, café, mandioca e também servia a criação de gado. A produção era comercializada no porto de Alcobaça ou cidades vizinhas. Até 1950 só era acessível via transporte aquático, canoas, ou por condução animal.

Posteriormente passou a pertencer a João Barro  que investiu em mudas de cana-de-açúcar e montou uma Alambique que o elevou à categoria de grande produtor e exportador de cachaça. Os famosos barris de madeira se tornaram uma marca registrada do alambique que gerava empregos para os moradores próximos carentes de alternativas.

Fazenda Janina. Pertencente a Ricardo Muniz  foi uma reconhecida fazenda cafeeira que em 1920, como outras da região, passou a cultivar cacau. A secagem das amêndoas era realizada de forma rústica em barcaças ou no chão batido do terreiro.

Fazenda Serraria: Fazenda Serraria: pertencia ao pai do Sr. Quinca Neto, o primeiro a cultivar cacau nessa parte do extremo sul foi também o primeiro a fazer uso de estufas e posteriormente  de barcaça (cacau e café). O seu nome pode estar associado ao fato de que antes da exploração extensiva já realizava a retirada de madeira para comercialização. A exploração era feita de forma rústica e não industrial, de modo que a madeira era serrada com instrumentos antigos  como o “traçador”.

Fazenda Cascata. Pertencente a Quincas Neto foi adquirida por Joaquim Muniz de Almeida em 1891 e  por muito tempo  grande produtora de café e cacau do baixo extremo sul baiano.  Exportava sua produção para a capital Salvador via os navios da Empresa Baiana de Navegação e  por essa razão tornou-se uma referência para essa parte da costa. Também cultivava com sucesso legumes e outras culturas como abóbora, mandioca, voltadas  para o consumo local. O açougue da fazenda também  abasteceu as comunidades próximas com a carne do gado criado no local.

Fazenda Imbiribeira. Pertencente a Manoel Félix Correia ficava próxima ao rio Itanhém foi  grande produtora de café e de farinha de mandioca até a década de 1920. Sua produção era vendida em casas comerciais no porto de Alcobaça acessível via  Rio Itanhém. O nome da fazenda pode ser relacionado a  uma árvore  nativa cultivada pelos nativos chamada ” Imbira” da qual eram retirados fios para produção de cordas e cestos artesanais.

 

Fazenda Estiva. Pertencente a “Idelfonso”  como a maioria das fazendas da região se dedicava ao cultivo do café e mandioca. O café colhido por trabalhadores locais era secado do modo tradicional, no chão batido ou em gavetas para serem transportados e vendidos em sacos de “Calamaço”. Situava-se às margens do rio Itanhém.

 

Fazenda Nova América   Adquirida de João Marques de Moura pelo Sr. José Félix de Freitas Correia ,em 1922, produziu entre 1930 e 1940 café em grande escala. Mais de que uma propriedade rural é lembrada como uma referência para os moradores próximos

Além de um movimentado “Porto” a fazenda também tinha uma pequena capela católica, que data de 1930, onde a população costumava frequentar para casamentos e batizados, se estivesse de pé uma das mais antigas do território.

No local havia também a venda de Anthímio de Freitas Correia, existente próximo ao rio por onde também era escoada a diversificada produção, café, farinha, feijão, milho, cacau até a década de 1950.  A carne de porco e a banha eram negociados por Isael de Freitas Correia na estação de ferro da  Bahia-Minas.

Na década seguinte, 1960, período da abertura das primeiras estradas de rodagem e do surgimento do povoado de Teixeira de Freitas, a fazenda aderiu outras atividades como o beneficiamento de peles de animais, através de um curtume ali instalado, cujo as ruínas ainda se encontram próximas ao rio Itanhém, e a extração de pedras para construção de casas. Da fazenda nasceram os bairros: Nova América, São José, Caminho do Mar, Jerusalém, Mirante do Rio e Monte Castelo.

O “primeiro” a negociar  partes da fazenda, pensando na expansão do povoado, foi Isael de Freitas Correia e seus irmãos  Valfrido de Freitas Correia ,Servidio Nascimento Correia e Antimio de Freitas Correia. A parte onde se localizava a sede principal ainda está conservada e fica na BR 101, próximo a ponte do rio Itanhém,  hoje conhecida como Prainha.

Japira. Classificada por antigos moradores como uma aldeia às margens do Rio Itanhém  pertencia ao descendente de escravo Vovô Guilherme que vivia da pesca e de cultivos de subsistência. A pequena comunidade era um reduto de descendentes de colonos africanos que são lembrados pelo “sotaque carregado”.

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Além do Vovô Guilherme moravam no lugar Maximiliano, Teófilo, Virgílio, Dos Santos e Sabino, muito conhecidos pela habilidade com armas brancas, facas e facões. No mapa do município de Alcobaça de 1958 (  foto ) a fazenda  e identificada próximo ao rio Itanhém. Ficava onde hoje se localiza o bairro Colina Verde.

Fazenda Araras. Produtora de café se destacou e ainda hoje se destaca pela produção de farinha de mandioca. Sua existência data desde o final do século IXI,  nas proximidades de sua cede organizou se uma pequena comunidade que prospera ainda hoje. Cortada pelo rio  Itanhém  é  assim conhecida pela antiga abundância de  Araras azuis e vermelhas que embelezavam o lugar.

Fazenda São Gonçalo. Estima-se que foi fundada na primeira metade do século IXI pela família Neves. Atualmente é administrada pelo atual proprietário, Orlando Neves,  e fica localizada às margens do Rio Itanhém a poucos quilômetros da fazenda Araras. Apesar de grande produtora agrícola ainda é lembrada por moradores antigos que recordam o cemitério existente na fazenda, onde por séculos foi sepultado moradores do entorno.

Relatam que os caixões de lugares distantes eram levados por condução humana em trilhas dentre as matas que tinham que ser iluminadas por tochas de “biribas” e só deixou de ser procurado quando um cemitério clandestino foi aberto por moradores no antigo centro do povoado de Teixeira de Freitas, na década de 1950.

Fontes:

SAID.Fabio M.História de Alcobaça – Bahia (1772-1958). São Paulo 2010. Edição do Autor.

Foto:

Mulheres da zona rural de Teixeira de Freitas. Ano desconhecido. Acervo departamento de cultura.

Mapa do município de Alcobaça, 1958. IBGE.

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