O ser, a neurociência e a internet

Por Erivan Augusto Santana*

Ao longo de toda a história, o homem adaptou técnicas e criou instrumentos, num processo natural de progresso e desenvolvimento, com consequências diretas no modo de produção, consumo e informação.

A década atual tem sido marcada tanto pela expansão da variedade de mídias eletrônicas quanto pela expansão ao acesso a cada uma delas. É caracterizada também pelos almoços em família nos quais as pessoas trocam animadas conversas  pela utilização de aparelhos eletrônicos.

Estes são usados também para comunicação por meio de mensagens instantâneas entre pais e filhos que se encontram em cômodos distantes da casa. Grupos de amigos que saem à noite para conversar permanecem de cabeça baixa, atentos ao que se observa na tela do celular.

O uso dos aparelhos  eletrônicos tem se tornado uma das melhores formas de entreter crianças, que têm deixado de querer bicicletas, bolas ou bonecas e passado a desejar ansiosamente um celular para uso pessoal. Já se sabe que a exposição abusiva a mídias eletrônicas tem impactos negativos, tais como a redução das horas de estudo, de sono e atividade física.

Neste sentido, convém analisar todos estes impactos no que diz respeito ao desenvolvimento das habilidades associadas à teoria da mente. O contato excessivo com as novas mídias digitais tem prejudicado as interações sociais em tempo real, no “mundo real”, o chamado “olho no olho”.

Com isso, as oportunidades para aprender a ler as emoções e sentimentos alheios – e assim desenvolver a capacidade de se colocar no lugar do outro – estão  diminuindo à medida que outras formas de comunicação vão ganhando espaço, assim como as conversas presenciais são substituídas por e-mails, posts, mensagens ou até fotos, tornando os relacionamentos na era moderna extremamente superficiais.

Há ainda, outra consequência imediata, diante do exposto: a ausência do encontro consigo mesmo, da introspecção, necessários para o armazenamento e fixação da aprendizagem, aquilo que Jean Piaget chama de “acomodação”, importantes em qualquer faixa etária, mas sobretudo em crianças e adolescentes, posto que estão em desenvolvimento.

Do ponto de vista educacional, importa observar que a atenção é um fator primordial para a aprendizagem. Nosso sistema nervoso tem uma enorme capacidade de computação, mas ainda assim não é capaz de processar todas as informações que chegam a ele sincronicamente.

Os jovens costumam estudar envolvidos em multitarefas: livro aberto, mas com o computador ligado, o celular transmitindo música e recebendo mensagens, tudo ao mesmo tempo. Não é a melhor maneira de aprender e definitivamente não conduz a uma aprendizagem mais profunda, necessitando de uma urgente reeducação e orientação no que se refere ao uso de toda essa tecnologia.

No campo social, observa-se uma fragmentação cada vez maior no que se refere ao modo como lemos e nos informamos, proporcionados pelas diversas plataformas digitais, levando por vezes, a um conhecimento supérfluo e insuficiente sobre temas essenciais para a nossa vida em sociedade.

É inegável os benefícios e possibilidades trazidos pelo advento da internet e das novas mídias digitais, mas é preciso equacionar o seu uso adequadamente, em proveito do ser e da sua qualidade de vida.

*Professor, escritor e poeta

Artigo originalmente publicado no jornal A Tribuna, Vitória – ES, 22/07/2017

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