O causo da Marrom Glacê e a copa de 1986

Por (Daniel Rocha)

Teixeira de Freitas 1985, faltando menos de um ano para a Copa do Mundo do México a expectativa dos brasileiros era grande. No bairro Recanto do Lago funcionava o badalado Bar Boate e Boliche Marrom Glacê. Como era de costume todas as noites diversas pessoas procuravam o local para se divertir e paquerar ao som das músicas do momento, recorda um ex-funcionário e antigos frequentadores.

Em meados da década de 1980 estudar durante  a noite estava em alta e diferente de hoje, a faixa etária que cursava o segundo grau era na maioria formada por pessoas com idade acima de 20 anos, homens e mulheres, trabalhadores, que só tinham tempo para estudar durante a noite e a gíria da moda era dizer “qual é a transa” e com ela se conseguia “muitas”, diga-se de passagem.

Por essas e outras razões no período noturno, ao final da aula, rapazes com os carros estacionados na Avenida Getúlio Vargas, aguardavam próximos a escola Rômulo Galvão, as estudantes afins de convidá-las” para um trago” em uma boate/bar ou danceteria mais próxima, segundo contou Maria Mariana (em memória) em uma conversa informal.

Ainda de acordo com a versão dela, alunas “desavisadas” acabavam conhecendo alguém por acaso. Acontecia de confundir o carro do namorado com o de qualquer outro parado em frente à escola e esticar a confusão até um bar próximo. Nesta condição, como aluna e trabalhadora do comércio, revelou, também frequentou o bar boate Marrom Glacê.

Endereço da moda entre estudantes a boate usava a estratégia da boa música e do som alto para atrair a clientela. As longas filas na entrada e o auto volume do som fazia parte da rotina do espaço, acontece que o movimento e barulho incomodavam os vizinhos.

Narram alguns moradores do bairro Recanto do Lago que em um dia de um mês desconhecido do ano de 1985 a reação de um morador migrante capixaba pôs fim às atividades da próspera boate.

Segundo o garçom e gerente de confiança do estabelecimento, Francisco Ferreira, uma família de capixabas, moradores das proximidades da boate, reclamavam constantemente do alto som durante a noite.

Narra que de tanto reclamar o vizinho perdeu a paciência, pegou a arma que tinha disponível em casa, e disparou diversos tiros no Toca Discos. “Quando o dono chegou falei que os caras apareceram dizendo que iriam baixar o som… Desceram a bala eu que não podia fazer nada, fiquei quieto!”

Segundo o narrador do causo o fato foi registrado na polícia, porém não foi necessário ir além do Boletim de Ocorrência (BO) porque no outro dia eles pagaram o prejuízo esclarecendo ao proprietário e os desavisados a razão da atitude tomada.

A família tinha um filho doente que não dormia com o som naquele volume, incentivado pela situação e os vizinhos o pai da criança depois de pedir por diversas vezes para diminuírem o som tomou, dominado pelo desespero, aquela atitude drástica.

Ainda de acordo com o antigo funcionário ouvido depois do incidente o bar não demorou baixar para sempre as portas. “Porque sem o som o público jovem perdeu o interesse. A moçada gostava era de música alta sem ela o bar ficou sem o atrativo”.

Sobre o fim da Marrom Glacê lamenta Francisco. “Estávamos esperando com ansiedade a copa do mundo de 1986 começar para fazer uma grande festa, pena que não alcançou.”

 

Daniel Rocha

Historiador, Cinéfilo e blogueiro criador do blog Tirabanha em 2010.

Fontes Orais:

Francisco Ferreira

Edivaldo “sombra”

Maria Mariana Esteves.

 

A canção não oficial da Copa de 1998 em Teixeira de Freitas

 

Por Daniel Rocha

Quando procuramos ou compramos um Game Play esportivo para jogar a última coisa que pensamos é na trilha sonora, afinal queremos apenas nos divertir. Porém em alguns momentos o tema principal e a trilha ,como o todo, roubam a cena e marca para sempre uma geração, como por exemplo marcou a música Song 02 da banda Blur, do Game Play FIFA Soccer 1998, uma das músicas não oficiais de maior sucesso da história do evento esportivo.

 

Videogame locadora (7)

 

A música é uma das mais lembradas em época de Copa do Mundo pela geração do final dos anos 1990 que perdia tardes inteiras nas badaladas games. Em Teixeira de Freitas a Sport Games que ficava na Av. Getúlio Vargas e que atendia os jovens dos Bairros Bela Vista e Recanto do Lago, chegou a organizar torneios de Winning Eleven 03 em 1998, Copa na França, o mais popular da época, ao som do tema principal da FIFA Soccer a pedido dos jogadores e espectadores hoje saudosos da época e ligados na copa da Rússia 2018 . Nunca ouviu? Confira!

 

Foto: Imagem ilustrativa

 

 

 

A segregação das identidades em Teixeira de Freitas

Por Daniel Rocha

Tem crescido na cidade de Teixeira de Freitas um sentimento de segregação que se expressa na construção de fronteiras invisíveis evidentes através  da adoção de um modelo de sociedade que possibilita a lógica da “guetização” da  identidade local.

É importante salientar que não existe uma situação de segregação, mas a meu ver pode se dizer que há um sentimento parecido em vigor que ganha força com o avanço de um modelo de sociedade que tem valorizado, de forma intensa, a formação de grupos e guetos sociais em um processo de  “guetização” das identidades culturais.

Atualmente, percebe-se que, o discurso de que a “localização define seu status social” já pode ser compreendido como um sintoma desse sentimento crescente na cidade quando, por exemplo,  se analisa, informalmente, o modo que lidamos com as classificações dos espaços de residências como bairros para os ricos e bairros para os pobres, condomínios do governo, condomínios de luxo etc.

Categorização que evidencia uma lógica da guetização dos locais de convivência e  também dos cidadãos que acabam rotulados por denominações ligadas a essas separações.

É válido ressaltar que outros fatores arrojaram esse sentimento nas últimas décadas na cidade e no país como o avanço do individualismo, o crescimento desordenado da cidade, as redes sociais e disseminação pela mídia de costumes estranhos à cultura, memória  e identidade local.

O resultado desse enquadramento é a crescente mutação e empatia de alguns quanto a diversidade social existente na cidade e o abandono  de eventos tradicionais de vivência e manifestações populares,por exemplo, como as festas juninas que a cada ano têm  sido levadas para espaços privados e fechados onde prevalece o viés da capitalização da tradição.

Tendo em vista esses pressupostos, compreendo que há em Teixeira de Freitas a manutenção e o fortalecimento das fronteiras invisíveis que vem se consolidando através de um modelo de sociedade que possibilita a lógica da “guetização” que também influencia o modo como o cidadão vem interpretando o conceito de igualdade, cidadania, cultura e identidade nos últimos anos.