Roda de Conversa “Violência contra a mulher e representatividade nos espaços de poder

Reuniram-se na sexta-feira, 24 de agosto, na sede FUNPAJ- fundação padre José Koopmans, na cidade de Teixeira de Freitas, militantes de diversos movimentos sociais: ambientalistas, sindicalistas, secundaristas, feministas para uma Roda de Conversa tendo como tema “violência contra Mulher  e representatividade nos espaços de poder”.

 

A atividade contou com a presença de Isadora Salomão, candidata a Deputada Estadual pelo PSOL e foi organizada pelo Núcleo de Mulheres do partido em razão dos altos índices de violência contra a mulher registrados no estado da Bahia e região e da necessidade de abordar a temática como parte do movimento Agosto Lilás, campanha realizada anualmente, durante o mês de agosto, em alusão à data de sanção da Lei Maria da Penha.

 

Lei que trouxe avanços, mas que não assegura a inserção da mulher nos espaços de poder para que essa transformação continue ocorrendo de forma sólida. “Quando falamos em representatividade e de uma nova proposta política é imprescindível pensar na participação da juventude e da mulher como construtora e agente dessa transformação. Só assim conseguiremos uma maior participação popular nos espaços de poder”. Destacou Laís Assunção, uma das organizadoras da atividade.

 

Um relato sobre a “Gangue da Lagoa” de Teixeira de Freitas

Por Daniel Rocha

Em meados da década de 1990 causos e narrativas sobre a “atuação violenta” da “Gangue da Lagoa” aterrorizava moradores e estudantes de Teixeira de Freitas, cidade do extremo sul da Bahia. Um antigo membro conta detalhes da formação e fim do grupo juvenil.

Se não todos, pelo menos a maioria dos teixeirenses que foram estudante na década de 1990 ouviram falar da “Gangue da Lagoa” que era formada por moradores, adolescentes de 14 a 17 anos, da comunidade localizada no centro da cidade popularmente conhecida como “Bairro da Lagoa”. O nome faz referência ao antigo lago existente no lugar.

A extinta “gangue” atuava em defesa dos moradores e do território localizado entre as avenidas Presidente Getúlio Vargas e AV. Marechal Castelo Branco, centro da cidade, que no passado serviu de refúgio para famílias de trabalhadores pobres e tinha parte de sua área coberta pela lagoa, posteriormente soterrada pelo pó de serra, oriundas de uma serraria, e a construção do Shopping Teixeira Mall.

 

Teixeira mapa antigo
Mapa da cidade de 1977 evidencia a lagoa no centro do bairro

 

Mesmo sendo algo que povoa o imaginário popular durante dois anos (2015 e 2016) conversando informalmente com alguns dos moradores residentes na comunidade não encontrei alguém com disposição para falar sobre a “gangue”, seus integrantes, causas ou narrativas da suposta atuação violenta da mesma.

Diante das dificuldades encontradas a busca estava centrada no silêncio, até que nos últimos meses o estudante do curso de Humanas da UFSB – Lucian Salviano me procurou em busca de algumas informações sobre a violência na cidade.

A princípio interessava ao estudante compreender o contexto que antecedeu a instalação do Conjunto Penal de Teixeira de Freitas no ano de 2001 e o histórico da violência em Teixeira de Freitas. Sobre compartilhei textos e documentos e durante uma conversa informal relatei os casos de violências associados a “Gangue da Lagoa” e as dificuldades encontradas para gerar registros.

Ocorre que o estudante é morador criado na comunidade da Lagoa e já estava a coletar informações sobre o grupo com fácil acesso a antigos membros da gangue, diante disso ele disponibilizou algumas informações sobre a formação e atuação dos juvenis anotadas durante uma conversa realizada com Abel Nascimento, um dos participantes do grupo, que concordou com a divulgação.

 

A Gangue da Lagoa por Abel Nascimento

Morador da comunidade a mais de 40 anos Abel, que tem aproximadamente essa idade, conta que a princípio os jovens que formaram o grupo na década de 1990 se conheceram e criaram afinidades brincando e jogando futebol nas imediações do pó de serra, rejeitado, pela Serraria Ronimar que ficava na extremidade norte do bairro posteriormente ocupado e tomado por outros empreendimentos comerciais.

 

De acordo registro feito por Salvino na adolescência o grupo passou a frequentar o clube do lugar, Cabana Nova Onda, conhecido pelos bailes e os concorridos concurso de ritmos dançantes. Segundo Abel a badalada cabana começou a atrair grupos organizados de outros bairros, provocando neles a necessidade de marcar o território por conta de questões relacionadas a relacionamentos amorosos  e tensões com outros grupos.

Por essas razões, segundo Abel, o grupo foi formado é denominado “Gangue da Lagoa” ao qual faz questão de afirmar que não se tratava de um grupo organizado como denota a classificação e nem tinha no primeiro momento outro objetivos a não ser o de defender o bairro da invasão dos de fora  e medir forças, sendo esse o motivo principal.

Contudo havia uma estrutura hierárquica uma vez que o mesmo informa que havia um líder. A gangue costumava fazer uso da praça dos Leões como ponto de encontro e também tinha o Beco do Belo, localizado no bairro, como referência.

 

Texeira final

 

Acrescenta que só em meados dos anos de 1990 (1994 a 1996) a rivalidade do grupo, formado por homens e mulheres, extrapolou a delimitação do bairro e começou a ser respondido com troca de agressões e violência na porta das escolas causada pelos mesmo motivos e tensão vivida na comunidade.

Nesse período a gangue cresceu de forma assustadora e “introduziu” o uso de armas de fogo, fato que fez aumentar os casos de confrontos, reações violentas e incidentes fatais que custaram “a vida de alguns”, o que levou a sociedade a exigir uma “repressão maior do grupo” por parte das autoridades.

Relatou que o grupo passou dos limites quando em confronto com outra gangue, provavelmente a do Castelinho, na Exposição Agropecuária de Teixeira de Freitas, se envolveu em uma arriscada troca de tiros.

Tal fato, segundo conta, levou a polícia, dias depois, intervir na situação detendo 170 pessoas, homens e mulheres, para atividades socioeducativas no batalhão da cidade, algo que segundo disse foi fundamental para o amadurecimento de todos e para o processo de extinção da gangue.

O morte de uma pessoa querida e o fim da gangue

O outro fator por ele apontado como uma das causas que levou o fim da formação além da intervenção policial foi a morte de uma pessoa querida no grupo o “Helinho” que ao fazer “uma bobagem” fora executado com 17 tiros aos 17 anos em uma área dominado por outra gangue na região do Mercado Caravelas. Fato que assustou e serviu de alerta para maioria dos membros.

Ainda sobre o período de atuação do grupo, informou que a gangue teve seu auge nos anos de 1991 e 1992 e o declínio ocorreu entre os anos de 1995 e 1996. Sobre o presente diz sentir que ainda existem receios quanto ao bairro, mas tudo não passa de um velho preconceito uma vez que os antigos participantes e moradores do lugar são pessoas comuns, trabalhadoras e do bem.

 Através dos relatos é possível perceber que os jovens da Lagoa viram na formação do grupo uma forma de adquirir um reconhecimento que não tinham socialmente, dedicando a defesa do território. Espaço que ao ter sua geografia natural alterada por empreendimentos comerciais, fez emergir questões relacionadas ao baixo desenvolvimento social existente na cidade, pobreza, falta de oportunidade e marginalização, entendido por alguns como uma causa e não uma consequência. Como um caso de polícia.

 

 

Anos 80 em Teixeira de Freitas e o reisado de Dona Boló

Por (Daniel Rocha)

O Reisado ou Folia dos Reis é uma tradição católica que consiste em um grupo de cantores e instrumentistas fantasiados que prestam homenagem aos três Reis Magos e ao menino Jesus. No Brasil apresenta-se sob diversos aspectos.

Em Teixeira de Freitas a tradição e anterior a formação do povoado  na década de 1950. No presente a não realização está associada às mudanças de comportamento  ocorridas nas últimas décadas na cidade e no país.

No bairro Bela Vista, ao que tudo indica, a tradição foi mantida por algum tempo,1978-1983, pela moradora Maria da Ressurreição Manuel natural da comunidade rural  Serrinha onde nasceu no ano de 1940.

A serrinha é uma comunidade rural formada inicialmente por famílias negras localizada às margens da BA-290, próxima à entrada do aeroporto 9 maio. Até a década de 1980 a comunidade pertencia ao município de Alcobaça, no presente faz parte do município de Teixeira de Freitas.

Filha de Maria José da Conceição e “pai aventureiro” Maria da Conceição,(foto 02) que é mais conhecida pelos moradores do bairro Bela Vista como Dona Boló  narrou , durante uma conversa informal no ano de 2014, o seu envolvimento no reisado.

Conta que se interessou pela tradição porque cresceu encantada pelas apresentações de reisados realizados naquela comunidade por uma mulher conhecida como Tia Joana.

Quando já estava “crescida” passou a fazer parte da turma e assumiu o cargo de pastora. Tempos depois assumiu o cargo de mestre cujo a função era organizar e puxar o grupo entoando cânticos.

Após alguns anos sem participar, período de casamentos e filhos, mudou-se para o povoado de Teixeira de Freitas no ano de 1978, onde enfim, com a ajuda dos amigos das antigas Turbidez (foto 03) , Caboclo e Bituca, formou um grupo de reisado aos moldes da Serrinha.

O grupo era formado por doze pessoas, homens e mulheres, divididas em dois cordões, filas, com três pastoras e dois marujos cuidadosamente fantasiados além de um guia.

Segundo Isidro Nascimento que recebeu o grupo em sua casa em algumas ocasiões,  no grupo também havia o Boi iaiá (foto 01) que também acompanhava o grupo . “Tinha como função assustar  crianças desobedientes.”

O Reis começava em 06 de janeiro e terminava em três de fevereiro sempre animados com instrumentos como o pandeiro. O grupo saía por volta das 19h cantando pelas ruas do bairro em duas filas separadas, seis marujos de cada lado e cinco pastoras guiados pelo capitão responsável pelo estandarte.

No início a atuação do grupo ficou restrita ao bairro Bela Vista mas diante de diversos pedidos o grupo passou a visitar outros moradores de bairros próximos.

“A gente ia onde era convidado, por isso fizemos várias ruas do bairro, chegamos ir ao Jerusalém e Recanto do Lago na casa de Isidro, a gente passava nas casas brincando até meia-noite… Tinha xote, manjuba, apito e a coreografia dos marujos.”

Sobre a origem do costume na Serrinha Boló recorda que a tradição chegou trazida pelos negros Dona Júlia e Turbides da fazenda Jerusalém, hoje onde o bairro de mesmo nome.

“Foi trazida pelos antigos… naquela época faziam por promessa mas eu sempre fiz por divertimento”.

Apesar da alegria ao recordar o passado uma frustração machuca o coração de Dona Boló, com a saída de Turbidez por problemas de saúde ela não conseguiu terminar o que havia começado.

Isso porque a tradição pede que quem começar um reisado o realize por seis vezes para então passar a outro grupo.

“Faltou apenas uma…Tenho vontade de juntar um grupo para terminar o Reisado que comecei, mas tenho medo da criminalidade e dos malandros. A violência de hoje me assusta, não dar para fazer em lugar fechado tem que ser na rua e elas estão bem movimentadas”.

As recordações da senhora Boló revelam em pequena escala que a população rural ao migrar para zona urbana do povoado ,ainda  que por um tempo, manteve como referências as tradições coletivas da vida no campo. Referências que aos poucos foi sendo reprimida sobre a pressão do espaço delimitado das cidades  e um estilo de vida pautada no individualismo.

Fontes:

Conversa informal com Maria da Ressurreição Manuel 2014.

conversa informal com Isidro Nascimento 2014.

Colaborou com a pesquisa: Domingos Cajueiro Correia

 

Veja também:

Relatos Sobre Os Anos 90 Em Teixeira De Freitas: Parte 02

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Em 1973 um caravelense agitou “a capital do extremo sul da Bahia”

Por Daniel Rocha

Com uma aposta de 8,00 cruzeiros, o que na moeda atual equivale aproximadamente 10 reais, o tabelião caravelense Odorico Lopes, na época com 67 anos, dono de um cartório na cidade de Caravelas, e de uma fazenda em Nanuque, MG, acertou sozinho na antiga “Loteria Esportiva” um prêmio de 13 milhões, apontado , até então, como o maior já pago no mundo.

O cartão do vencedor foi perfurado na cidade vizinha de Nanuque, cidade mineira próxima à fronteira entre os dois estados, onde o tabelião tinha uma fazenda de criação de gado, por essa razão as primeiras notícias sugeriram que o ganhador poderia ser  um  nanuquense.

Agitação que chegou a provocar um desmaio e muito movimento na porta da Prefeitura, que precisou de proteção especial para conter a multidão que horas mais tarde acalmou o movimento quando foi divulgado que o ganhador era na verdade  um caravelense.

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O apostador Odorico Lopes

O episódio  faz lembrar algo que é bem conhecido entre os estudiosos da história da região, até a década de 1970 essa parte do extremo sul da Bahia tinha como “capital” a cidade mineira de Nanuque, que era assim chamada  por ser o centro de referência de compras para o vale do Mucuri e as cidades do Extremo Sul da Bahia e norte do Espírito Santo.

Influência construída pelo trânsito constante de mineiros e baianos nos dois lados da fronteira, movimento que por muitos anos foi favorecido pela estrada de ferro Bahia -Minas  (EFBM) linha ferroviária implantada em 1882 que ligava o nordeste de Minas Gerais ao sul da Bahia, desativada em 1966 em detrimento da abertura de novas estradas como a BR-101, que subordinou a região a influências dos estados do sudeste do país e da capital Salvador.

Por fim a Bahia e Minas foi mais do que um canal de trocas comerciais, foi também um lugar de intercâmbio cultural e de costumes, tal como expressa o caso do apostador caravelense e outros relatos de acontecências que ligam os dois povos  que ainda hoje, independente das delimitações oficiais das fronteiras entre os dois estados,  possuem culturas autonômicas.

Fontes:

ELEUTÉRIO,  Arysbure Batista. Estrada de Ferro Bahia e Minas “A Ferrovia do Adeus”.

NETO, Sebastião Pinheiro Gonçalves de Cerqueira. Contribuição ao estudo Geográfico do município de Nanuque. 2001.

Jornal O Globo, março de 1973

Correio Manhã Abril de 1974

Foto principal: Cidade de Nanuque

Veja também:

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O comércio em Teixeira de Freitas