Um relato sobre a “Gangue da Lagoa” de Teixeira de Freitas

Por Daniel Rocha

Em meados da década de 1990 causos e narrativas sobre a “atuação violenta” da “Gangue da Lagoa” aterrorizava moradores e estudantes de Teixeira de Freitas, cidade do extremo sul da Bahia. Um antigo membro conta detalhes da formação e fim do grupo juvenil.

Se não todos, pelo menos a maioria dos teixeirenses que foram estudante na década de 1990 ouviram falar da “Gangue da Lagoa” que era formada por moradores, adolescentes de 14 a 17 anos, da comunidade localizada no centro da cidade popularmente conhecida como “Bairro da Lagoa”. O nome faz referência ao antigo lago existente no lugar.

A extinta “gangue” atuava em defesa dos moradores e do território localizado entre as avenidas Presidente Getúlio Vargas e AV. Marechal Castelo Branco, centro da cidade, que no passado serviu de refúgio para famílias de trabalhadores pobres e tinha parte de sua área coberta pela lagoa, posteriormente soterrada pelo pó de serra, oriundas de uma serraria, e a construção do Shopping Teixeira Mall.

 

Teixeira mapa antigo
Mapa da cidade de 1977 evidencia a lagoa no centro do bairro

 

Mesmo sendo algo que povoa o imaginário popular durante dois anos (2015 e 2016) conversando informalmente com alguns dos moradores residentes na comunidade não encontrei alguém com disposição para falar sobre a “gangue”, seus integrantes, causas ou narrativas da suposta atuação violenta da mesma.

Diante das dificuldades encontradas a busca estava centrada no silêncio, até que nos últimos meses o estudante do curso de Humanas da UFSB – Lucian Salviano me procurou em busca de algumas informações sobre a violência na cidade.

A princípio interessava ao estudante compreender o contexto que antecedeu a instalação do Conjunto Penal de Teixeira de Freitas no ano de 2001 e o histórico da violência em Teixeira de Freitas. Sobre compartilhei textos e documentos e durante uma conversa informal relatei os casos de violências associados a “Gangue da Lagoa” e as dificuldades encontradas para gerar registros.

Ocorre que o estudante é morador criado na comunidade da Lagoa e já estava a coletar informações sobre o grupo com fácil acesso a antigos membros da gangue, diante disso ele disponibilizou algumas informações sobre a formação e atuação dos juvenis anotadas durante uma conversa realizada com Abel Nascimento, um dos participantes do grupo, que concordou com a divulgação.

 

A Gangue da Lagoa por Abel Nascimento

Morador da comunidade a mais de 40 anos Abel, que tem aproximadamente essa idade, conta que a princípio os jovens que formaram o grupo na década de 1990 se conheceram e criaram afinidades brincando e jogando futebol nas imediações do pó de serra, rejeitado, pela Serraria Ronimar que ficava na extremidade norte do bairro posteriormente ocupado e tomado por outros empreendimentos comerciais.

 

De acordo registro feito por Salvino na adolescência o grupo passou a frequentar o clube do lugar, Cabana Nova Onda, conhecido pelos bailes e os concorridos concurso de ritmos dançantes. Segundo Abel a badalada cabana começou a atrair grupos organizados de outros bairros, provocando neles a necessidade de marcar o território por conta de questões relacionadas a relacionamentos amorosos  e tensões com outros grupos.

Por essas razões, segundo Abel, o grupo foi formado é denominado “Gangue da Lagoa” ao qual faz questão de afirmar que não se tratava de um grupo organizado como denota a classificação e nem tinha no primeiro momento outro objetivos a não ser o de defender o bairro da invasão dos de fora  e medir forças, sendo esse o motivo principal.

Contudo havia uma estrutura hierárquica uma vez que o mesmo informa que havia um líder. A gangue costumava fazer uso da praça dos Leões como ponto de encontro e também tinha o Beco do Belo, localizado no bairro, como referência.

 

Texeira final

 

Acrescenta que só em meados dos anos de 1990 (1994 a 1996) a rivalidade do grupo, formado por homens e mulheres, extrapolou a delimitação do bairro e começou a ser respondido com troca de agressões e violência na porta das escolas causada pelos mesmo motivos e tensão vivida na comunidade.

Nesse período a gangue cresceu de forma assustadora e “introduziu” o uso de armas de fogo, fato que fez aumentar os casos de confrontos, reações violentas e incidentes fatais que custaram “a vida de alguns”, o que levou a sociedade a exigir uma “repressão maior do grupo” por parte das autoridades.

Relatou que o grupo passou dos limites quando em confronto com outra gangue, provavelmente a do Castelinho, na Exposição Agropecuária de Teixeira de Freitas, se envolveu em uma arriscada troca de tiros.

Tal fato, segundo conta, levou a polícia, dias depois, intervir na situação detendo 170 pessoas, homens e mulheres, para atividades socioeducativas no batalhão da cidade, algo que segundo disse foi fundamental para o amadurecimento de todos e para o processo de extinção da gangue.

O morte de uma pessoa querida e o fim da gangue

O outro fator por ele apontado como uma das causas que levou o fim da formação além da intervenção policial foi a morte de uma pessoa querida no grupo o “Helinho” que ao fazer “uma bobagem” fora executado com 17 tiros aos 17 anos em uma área dominado por outra gangue na região do Mercado Caravelas. Fato que assustou e serviu de alerta para maioria dos membros.

Ainda sobre o período de atuação do grupo, informou que a gangue teve seu auge nos anos de 1991 e 1992 e o declínio ocorreu entre os anos de 1995 e 1996. Sobre o presente diz sentir que ainda existem receios quanto ao bairro, mas tudo não passa de um velho preconceito uma vez que os antigos participantes e moradores do lugar são pessoas comuns, trabalhadoras e do bem.

 Através dos relatos é possível perceber que os jovens da Lagoa viram na formação do grupo uma forma de adquirir um reconhecimento que não tinham socialmente, dedicando a defesa do território. Espaço que ao ter sua geografia natural alterada por empreendimentos comerciais, fez emergir questões relacionadas ao baixo desenvolvimento social existente na cidade, pobreza, falta de oportunidade e marginalização, entendido por alguns como uma causa e não uma consequência. Como um caso de polícia.

 

 

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