O ESTADO DAS COISAS

Erivan Santana*

Este é o título de um filme de produção americana, de 2017, e em que pese o fato de a maioria dos filmes produzidos pelo cinema americano seguirem a linha “blackbusters”, de grande apelo comercial, este se difere, ao procurar analisar a ordem social, poltítica e econômica em que vivemos, através dos conflitos existenciais vividos pelo personagem Brad Sloan, interpretado por Ben Stiller.

O filme mostra um personagem plenamente inserido nos dilemas da era moderna, sempre preocupado em se comparar aos amigos e antigos colegas de faculdade, numa perspectiva de poder, fama e dinheiro. Apesar do filme se ambientar nos EUA, em tempos de capitalismo globalizado, a relação com outros contextos é imediata, incluindo a brasileira.

Nos tempos atuais, não há na verdade, a preocupação em ser feliz, mas uma atenção voltada sobretudo para o sucesso econômico, status social e posses materiais, daí a surgir sempre esta tendência de estar se comparando ao próximo.

Outra tendência, esta amplamente estudada e percebida pelo filósofo francês Michel Foucault em obras como “Vigiar e Punir” e “Microfísica do Poder” é a constante vigilância que ocorre na sociedade moderna, feita pelos indivíduos, uns aos outros, sempre afeitos ao julgamento, sendo que o desenvolvimento tecnológico tem muito a contribuir.

É importante observar que diante de tais realidades, instala-se na sociedade uma espécie de controle, dos corpos e das mentes das pessoas, vivendo em sociedade, sempre visando a interesses de ordem econômica, social e política.

Neste particular, conforme salienta o filósofo francês, até mesmo a educação – que em tese, deveria ser crítica e independente – atua sempre voltada para o “controle disciplinar”, muitas vezes impedindo o desenvolvimento da leitura crítica de mundo pelos discentes.

Portanto, as engrenagens do sistema capitalista globalizado atuam em conjunto, envolvendo, segundo Foucault, grandes empresas, meios de comunicação, instituições religiosas e jurídicas, entre outras.

Desta forma, este é o grande mérito do filme “O estado das coisas”, ao colocar na tela do cinema um personagem confuso e angustiado, refletindo os grandes dilemas da era moderna, uma realidade facilmente percebida na vida de muitas pessoas e nas nossas, o que é pertubador.

Nunca se pergunta: você é feliz? Pergunta-se sempre se a pessoa estuda em uma escola ou universidade de renome, se formou em uma profissão (normalmente aquelas reconhecidas como de status social) ou se adquiriu o mais novo carro do ano ou o último modelo de celular.

Assim caminha a humanidade, esperamos que a arte também continue a caminhar, como testemunha do nosso tempo, numa perspectiva humana e crítica.

Erivan Santana (professor, escritor e poeta)
Crônica publicada no jornal A Tarde, Salvador, 21/11/2018

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