Lembranças de uma das vítimas da barragem improvisada no bairro Santa Rita

Por Daniel Rocha

Hlton Silva de Souza de 18 anos, foi uma das vítimas do colapso de uma barragem improvisada sobre um córrego no bairro Santa Rita em 1982. As irmãs Edna Souza e Josete Souza entraram em contato com o site, via Whatsapp, para compartilhar lembranças e perspectivas em memória do irmão e dos  padecidos ignorados pelos relatos e registros oficiais.

Filho de migrantes mineiros, Angelina Alves da Silva e José Paulo, em memória, Hilton morava com os pais e a família numerosa, 15 pessoas, em uma casa de madeira no bairro Santa Rita, na rua próximo ao Posto Pioneiro que dá acesso ao bairro.

Segundo contou Josete, que atualmente reside na cidade de São Mateus,ES, antes de chegar em Teixeira a família morou em uma pequena propriedade do avô na zona rural de Itanhém, e chegou no então povoado de Teixeira de Freitas em 1976 em busca de trabalho e  escola para os filhos.

 Brincalhão e carioso, Hlton sonhava em se tornar policial Militar e já se encontrava inscrito no concurso. Trabalhador, ajudava o pai que atuava como carroceiro e nas horas vagas vendia leite e fazia extras, bicos, pelo então  povoado.

Naquela época,  década de 1980, alguns jovens viviam como pardais circulando pelo povoado e se submetendo a exploração laboral sem qualquer tipo de contrato formal  ,estabilidade e expostos a todo tipo de sorte e acidentes. “Uma juventude sem prazer e perspectiva.” Afirmou Frei Elias ao comentar as consequências do êxodo rural para a cidade em seu livro lançado em 2012.

Por essa razão, revelam as irmãs, Hlton que também era conhecido como Cula, foi chamada por um amigo, “Chicão” com quem costumava fazer extras, “bicos”, para trabalhar por algumas horas no desentupimento de um bueiro que dava vazão a água represada na barragem, improvisada, que ficava  uns 400 metros da própria casa.

As irmãs lembram-se ,de ouvir dizer, que no momento em que o irmão trabalhava junto com outros rapazes a contenção desabou e liberou uma grande quantidade de água que o arrastou juntamente com outras pessoas que se encontravam no lugar. Minutos depois a família foi avisada por um dos jovens trabalhador sobre o ocorrido e o desaparecimento do adolescente.

Conforme a perspectiva de Edna Souza, na época com 06 anos, e Josete Souza, 11 anos, o pai e os irmãos saíram em busca do jovem e três quilômetros depois do local do rompimento, o corpo do irmão foi encontrado  às margens do Córrego Charqueada.

Auxiliado pelos filhos o senhor José Paulo retirou o corpo do Hlton da lama e o conduziu nos próprios braços até a carroça que o transportou à residência da família e só durante o banho de retirada de toda lama que cobria o filho,  concluiu que ele já não tinha mais chances de vida. Recordou Edna.

Segundo Josete Souza nenhuma assistência foi prestada a família, embora um “funcionário da prefeitura” procurou o seu pai e recolheu todos os documentos do irmão prometendo arcar com as despesas, algo que não aconteceu. Importa dizer,  que o corpo de Hlton não passou por exames de necropsia e foi enterrado sem o devido registro de óbito.

Sobre outras vítimas afirmou Josete que foram três mortos e não oito como afirma o jornal “O Estado de São Paulo”, sendo o irmão Hlton e outros dois garotos, um de 15 anos que não recorda o nome e a origem e outro de 17 anos filho de uma moradora da rua Mauá, também conhecida como “Rua do brega.”

Para a antiga moradora a lavadeira citada por testemunhas pode ter sucumbido a lama enquanto lavava roupa em alguma parte do Córrego Charqueada, onde se encontrava água limpa, e não no local onde foi vitimado três. No dia da tragédia registrou o jornal do Brasil que “Foram três vítimas, “Hélcio” Silva Souza, Ademir Ferreira dos Santos e Joselito Pereira da Silva, todos adultos.”

Cinco anos depois do acontecimento, 1987, atormentados pelas lembranças, a família mudou para o bairro São Lourenço da cidade já emancipada. No presente, apesar de já ter se passado mais de 30 anos, a mãe e os irmãos sentem saudade e lembra constantemente do parente brincalhão  que comemorava aniversário todo dia 09 de maio. Mesma data que a cidade comemora a emancipação.

Fontes e créditos

Informações sobre a família e acidente com o Hilton Souza:

O texto foi construído a partir da perspectiva de Josete Souza e Edna Souza passadas através de  conversas informais realizadas entre os dias 03/02 a 08/02/19 , via aplicativos eletrônicos Whatsapp.

Informação sobre a rotina laboral dos jovens teixeirenses na década de 1980.

HOOIJ. Frei Elias. Os desbravadores do Extremo sul da Bahia. História da presença franciscana nessa região – raízes e frutos, Belo Horizonte, 2011. Pg 70.

KOOPMANS. Padre José. Além do Eucalipto: O papel do Extremo Sul. 2005. Pg 75 – 80

Conversa informal Josete Souza e Edna Souza

Jornais consultados:

Morrem 8 em barragem que ruiu na Bahia. O estado de São Paulo, 1982 . Acervo site tirabanha

Barragem desaba e mata três. Jornal do Brasil. 1982. Acervo site tirabanha.

Daniel Rocha*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769

e-mail: samuithi@hotmail.com

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