O carnaval

Por Erivan Santana

O Carnaval deste ano suscitou reflexões e questionamentos sobre a sua importância, não somente como festa alegre e momesca, mas como a maior manifestação cultural do país.

O desfile da Mangueira, com um samba-enredo que reescreve a história do Brasil a partir de uma narrativa indígena e africana, elevou a auto-estima do povo, despertou o olhar crítico e dialogou com as manifestações dos blocos e dos foliões país afora. Ao colocar na avenida uma homenagem a Marielle Franco, expôs o Estado brasileiro, incapaz de dar respostas à população sobre o seu assassinato, assim como de outras injustiças e mazelas que assolam o país.

Com um cotidiano sofrido e injusto, o brasileiro vive como pode, se sustentando com o seu famoso “jeitinho”, mas não vê políticas públicas voltadas para as suas necessidades. O atual presidente apressa-se em aprovar uma reforma da previdência que mais uma vez, penaliza os mais pobres e a classe trabalhadora, enquanto as perguntas sobre os grandes devedores da previdência e as mordomias incrustadas em muitas elites do setor público, a exemplo do legislativo e do judiciário, não são respondidas.

E assim, os foliões ocuparam as ruas, com manifestações espontâneas e criativas, que criticam o status quo, demonstrando mais uma vez a sabedoria popular. Rompendo com a monotonia da rotina diária o povo se manifesta com suas brincadeiras, fantasias e marchinhas de carnaval que acabam se integrando em discursos solidários com os desfiles das escolas de samba, formando um eixo natural.

As marchinhas de Carnaval de Ataulfo Alves, Lamartine Babo, Noel Rosa e outros refletem a miscigenação da sociedade brasileira e suas pluralidades culturais, resgatadas muitas vezes de forma inconsciente pelo povo, dando uma autenticidade ímpar ao Carnaval, em termos de criatividade e originalidade.

Por alguns dias, o Carnaval consegue quebrar as algemas opressoras do sistema econômico e social, deixando às claras tudo aquilo que nos controla e nos oprime, o que de certa forma, incomoda as instituições de controle social, que se sentem indefesos diante de tamanha visibilidade e força popular.

Ao recorrer a uma narrativa da história colocando como protagonistas o índio e o afrodescendente, como fez a Mangueira, nos damos conta da injustiça, violência e desigualdade que sempre marcaram o Brasil, a partir das forças dominantes, ou melhor dizendo, de quem detém o poder político e econômico neste país, e que não é de hoje, mas que vem desde o seu descobrimento.

Quando vemos o Carnaval nos principais centros do país, como no Rio de Janeiro, Salvador e Recife, nos damos conta da grandeza, sabedoria e criatividade do povo brasileiro que está em nossa essência, em nossa origem.

 

Erivan Santana

Professor, escritor e poeta

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