O morador que esteve na festa que terminou com dois feridos em 1967

Por Daniel Rocha*

Tudo começou no salão de uma pensão onde moradores do então povoado de Teixeira de Freitas dançavam em um baile beneficente em prol da construção da igreja “São Pedro” quando um “desconhecido” provocou uma confusão que terminou com dois policiais esfaqueados. 

Quem era o desconhecido? O motivo do desentendimento? Ninguém sabia responder até o antigo morador Jair de Freitas Correia, da dupla “Primo e Sobrinho”, que esteve presente no baile, falar sobre os detalhes que não foram revelados pela notícia publicada no jornal de 1967.

Segundo Jair naquela época o povoado estava tomado por pensões e animado pelos geradores de energia que movimentavam o cinema e os bailes. A festa onde ocorreu a confusão foi organizada em um salão localizado na Praça dos Leões, onde hoje fica uma farmácia. Como foi relatado pelo jornal, o baile tinha como fins arrecadar dinheiro para construção da igreja “São Pedro”, então capela de “São Sebastião.” 

O baile reuniu moças e rapazes e casais do lugar que tinham a intenção de se divertir e namorar “com decência e respeito.” Contudo, a presença de “Sivaldo” um trabalhador do DERBAdepartamento de Infra Estrutura de Transportes da Bahia ,que não seguiu esse roteiro alterou as expectativas e a rotina do baile.

Conforme rememora Jair, alguns desses jovens trabalhadores, oriundos de Salvador, chegaram no povoado em 1964 para trabalhar na estatal baiana e trouxeram hábitos e comportamentos estranhos aos olhos e o modo local, nem todos eram queridos e bem-vindos em todos os espaços. 

“Alguns, não todos, assediavam as mulheres e gostavam de ter fama de pegadores…. Gostavam de dar uma de “macho” e andavam armados provocando brigas por onde passava como se fossem os donos do povoado” destacou Jair. 

Igreja São Pedro

No povoado já existia um certo estresse provocado pela interferência de migrantes em relação ao nome da igreja que passou de “São Sebastião” para “São Pedro.”De acordo com ele o nome foi trocado a pedido dos migrantes entrosados com o padre e envolvidos na campanha para “construção da igreja”.

A “nova igreja” de São Pedro foi inaugurada em 09 de fevereiro de 1969, durante a festa de São Sebastião. A festa popular era tradicional e realizada pelos moradores desde o surgimento do povoado no espaço da praça dos Leões. Sobre isso cita frei Elias que a capela ganhou “democraticamente, mas com alguma pressão do vigário, São Pedro como padroeiro.”

Sobre a alcunha “Arrepiado” contou Jair que o povoado nunca foi chamado pelos moradores por esse apelido: “Na verdade era “Rupiaria” e não tinha nada ver com o jeito de ser dos moradores como costumam contar. “Arrepiado” foi arranjado pelos de fora, como foi também o nome Teixeira de Freitas”.

Conforme lembra, foi nesse contexto de incômodo que a presença indesejável e o mau comportamento do Sivaldo, um capoeira soteropolitano, provocou o dono da pensão que reagiu gerando a confusão que terminou com dois policiais “furados”, Arlindo e José, e o próprio Sivaldo que foi baleado na perna por um disparo do policial. “Foi sangue para tudo que é lado.”

Assim é possível supor que a chegada de grande leva de migrantes ao pequeno povoado e o chamado “desenvolvimento ” nada tinha a ver com a visão de mundo, cotidiano e querer dos moradores motivando assim casos de violência. No presente o crescimento econômico do município que historicamente privilegia alguns e não todos, também pode ser considerado um fator gerador de confrontos. 

Fontes:

Homem quis matar soldados a facadas em Teixeira de Freitas. FN. Fevereiro de 1967.

HOOIJ, Frei Elias. Os desbravadores do Extremo sul da Bahia, Belo Horizonte, 2011.

Conversa informal com Jair de Freitas Correia em  02 dezembro de 2019.

Foto: Festa de São Sebastião. Ano desconhecido. Fonte: Documentário Histórico da TV Sul Bahia, 1996. Print.

 Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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