Por Daniel Rocha

Na década de 1970, no então povoado de Teixeira de Freitas, um acontecimento no cemitério da cidade foi associado a lenda do “Corpo – Seco, que segundo a crença popular é um ser recursado pela terra e pelo mundo espiritual condenado a vagar em busca de quem o aceite. 

Segundo relatos, tudo teve início quando em mais um dia de trabalho o coveiro da cidade ao abrir uma nova cova para um enterro se deparou com um corpo clandestino enterrado no lugar. Contam os moradores antigos que ao analisar o achado o trabalhador concluiu que estava diante de um “Corpo – Seco”, pois a triste figura ainda conservava pele e cabelo não digerido pela terra. 

Não demorou a notícia se espalhar por todo o povoado, lembra um antigo morador que sua esposa gestante que visitava a casa da sua sogra, próximo ao cemitério, foi a primeira a ir ao local onde estava o corpo cuja a aparência lhe provocou um susto tão grande que causou a perda do bebê que esperava. Graças a esse fato foi possível datar o acontecimento, pois para o casal ano de 1973 ficou marcado por essa perda. 

Segundo os relatos, logo que a notícia se espalhou uma multidão se dirigiu ao cemitério para ver o dito corpo exposto. Ainda conforme os moradores, diversas interpretações sobre o fato passaram a ser criadas e disseminadas em todos os bairros do povoado, dentre elas a de que o defunto era de um morador muito ruim que se enforcou e foi sepultado clandestinamente pela família, sendo o suicídio e as ruindades a razão da “terra não ter comido”. 

Aproveitando da popularidade do defunto seco, alguns fotógrafos registraram a exposição do corpo e passaram a vender a fotografia da aparição misteriosa para os moradores mais assombrados, naqueles tempos fotos bizarras eram vendidas com facilidades, por isso quem não foi ao local ver, conferiu uma das diversas versões que circulou de mão em mão. Algumas continha montagens e alterações na imagem.  Uma destas trazia o defunto “com o pinto aceso”, revelou a moradora Márcia Mariana, 70 anos. 

Ainda de acordo com relatos, durante três dias o corpo ficou exposto no cemitério gerando grande comentários e confusão alterando a rotina do lugar e provocando reflexões e apavoramento sobre a morte. 

Segundo a moradora Isabel Rodrigues, soube de ouvir dizer, o tumulto e as especulações sensibilizaram alguns representantes da Igreja Católica que para pôr fim aquela polêmica toda recolheu o corpo devidamente em um caixão e enviou para a sede da igreja em Alcobaça, onde provavelmente foi sepultado.    

 No presente as pessoas demonstram medo e graça ao lembrar da trágica figura, mas para além da narrativa popular o causo revela um pouco do universo fantástico de uma população formada por migrantes que cultivava a lembrança de narrativas folclóricas em um espaço cada vez mais urbano.

Fontes: 

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

O conteúdo  deste Site não pode ser copiado, reproduzido, publicado no todo ou em partes por outros sites, jornais e revistas sem a  expressa autorização do autor. Facebook

Foto: www.facebook.com/Alcobaca.fotoshttps://www.facebook.com/Alcobaca.fotos/photos/a.462116750497825/620285621347603

Compartilhar: