Por Daniel Rocha*

O Reisado ou Folia dos Reis é uma tradição católica que consiste em um grupo de cantores e instrumentistas fantasiados que prestam homenagem aos três Reis Magos e ao menino Jesus. No Brasil apresenta-se sob diversos aspectos. Em Teixeira de Freitas, extremo sul da Bahia,  a tradição nasceu com a cidade sendo  algo anterior à formação do  povoado  na década de 1950.  Na década de 1970, o reisado foi organizado com muito sucesso no bairro Bela Vista.

No  bairro, ao que tudo indica, a tradição foi mantida por algum tempo,1978-1983, pela moradora Maria da Ressurreição Manuel, a popular Boló, que é natural da comunidade rural  Serrinha, onde nasceu no ano de 1940.

A Serrinha é uma comunidade negra formada, inicialmente, por diferentes famílias e se localiza às margens da BA-290, próxima à entrada do Aeroporto Nove de Maio. Até a década de 1980 a comunidade pertencia ao município de Alcobaça, no presente faz parte do município de Teixeira de Freitas.

Filha de Maria José da Conceição e “pai aventureiro” Maria da Conceição, (na foto identificada com o número 02) que é mais conhecida pelos moradores do bairro Bela Vista como Dona Boló  narrou , durante uma conversa informal no ano de 2014, a sua liderança e envolvimento na organização do reisado.

Na entrevista, contou que se interessou pela tradição porque cresceu encantada pelas apresentações  da tradição realizadas naquela comunidade por uma mulher conhecida como Tia Joana. Quando já estava “crescida” passou a fazer parte da turma e assumiu o cargo de pastora. Tempos depois assumiu o cargo de mestre, cuja função era organizar e puxar o grupo  que entoava os cânticos.

Após alguns anos sem participar, período de casamentos e filhos, mudou-se para o povoado de Teixeira de Freitas no ano de 1978, onde enfim, com a ajuda dos amigos das antigas Turbidez ( identificado na foto  com o número 03), Caboclo e Bituca, com quem formou um grupo de reisado aos moldes da Serrinha. No total, o  grupo era formado por doze pessoas, homens e mulheres, divididas em dois cordões, filas, com três pastoras e dois marujos cuidadosamente fantasiados, além de um guia.

Segundo Isidro A. do Nascimento, que recebeu o grupo em sua casa em algumas ocasiões, no reisado também havia uma figura de destaque que não foi citado por Boló,  o “Boi iaiá” (identificado na fotografia com o número 01) que também acompanhava o reisado e “Tinha como função assustar as crianças desobedientes.”

O Reis começava em 06 de janeiro e terminava em três de fevereiro sempre animados com instrumentos musicais como o pandeiro. O grupo saía por volta das 19h cantando pelas ruas do bairro em duas filas separadas, seis marujos de cada lado e cinco pastoras guiados pelo capitão responsável pelo estandarte.

No início a atuação do grupo ficou restrita ao bairro Bela Vista, mas diante de diversos pedidos o grupo passou a visitar outros moradores de bairros próximos. “A gente ia onde era convidado, por isso fizemos várias ruas do bairro, chegamos ir ao bairro Jerusalém e Recanto do Lago na casa de Isidro, a gente passava nas casas brincando até meia-noite… Tinha xote, manjuba, apito e a coreografia dos marujos.”

Sobre a origem do costume na Serrinha Boló recorda que a tradição chegou trazida pelos negros Dona Júlia e Turbides da fazenda Jerusalém, hoje bairro de mesmo nome.

“Foi trazida pelos antigos… Naquela época faziam por promessa mas eu sempre fiz por divertimento”.

Apesar da alegria ao recordar o passado, uma frustração machuca o coração de Dona Boló, com a saída de Turbidez por problemas de saúde ela não conseguiu terminar o que havia começado. Isso porque a tradição pede que quem começar um reisado o realize por seis vezes para então passar a outro grupo.

“Faltou apenas uma…Tenho vontade de juntar um grupo para terminar o reisado que comecei, mas tenho medo da criminalidade e dos malandros. A violência de hoje me assusta, não dá para fazer em lugar fechado tem que ser na rua e elas estão bem movimentadas”.

As recordações da senhora Boló revelam em pequena escala que a população rural ao migrar para zona urbana do povoado ,ainda  que por um tempo, manteve como referências as tradições coletivas da vida no campo. Referências que aos poucos foram sendo reprimidas sobre a pressão do espaço delimitado das cidades  e um estilo de vida pautada no individualismo social.

Fontes:

Conversa informal com Maria da Ressurreição Manuel 2014.

conversa informal com Isidro Nascimento 2014.

Colaborou com a pesquisa: Domingos Cajueiro Correia

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Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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