Por Daniel Rocha

O acontecimento triste, que lembra uma fábula, mas sem um final feliz, aconteceu na cidade de Ibirapuã, extremo sul da Bahia, na década de 1970, quando em torno de doze crianças, moradoras de uma mesma casa, morreram de forma misteriosa depois de comer apetitosas formigas tanajuras, saúvas, que brotou da terra depois de um dia de chuva. 

Convém contextualizar que nas primeiras décadas da segunda metade do século passado, XX, comer formiga era um costume muito comum de alguns dos habitantes do extremo sul da Bahia. De acordo com a historiadora e professora Uerisleda Alencar Moreira e Daniel Rocha, este que vos escreve, em um texto publicado no livro “Redescobrindo a Gastronomia Baiana”, provavelmente tal hábito alimentar foi herdado dos povos indígenas do Estado. 

Foto da cidade de Ibirapuã

Esse costume foi um dos motivos que levaram ao óbito as crianças de Ibirapuã, isso porque, conforme revelou o Jornal do Brasil, de 1975, fonte utilizada por essa matéria, doze crianças, de um a oito anos de idade, morreram entre maio e julho daquele ano, em consequência da ingestão de formigas saúvas, tanajuras, contaminadas por um perigoso formicida.  

A desconfiança em relação aumentou depois que os investigadores souberam através dos relatos dos parentes das vítimas que as crianças adoeceram e morreram após terem ingerido as formigas capturadas e “fritas em gordura” e que o proprietário da chácara vizinha estava usando o formicida no combate às saúvas. A chácara que fazia uso do agrotóxico ficava defronte da casa onde moravam todas as vítimas. 

Ainda conforme o jornal, as suspeitas foram confirmadas depois de uma investigação feita pela polícia com base em exames realizados no estômago e fígado da última criança morta. Os exames no estômago e fígado de uma das vítimas, uma criança de oito anos, realizado no instituto de Biologia da Secretaria de Agricultura de São Paulo, revelaram a presença das substâncias do inseticida Aldrin no fígado e no estômago do cadáver analisado. 

Nos dois órgãos foi também constatada a presença de outra substância resultante do processo metabólico do Aldrin, uma das composições do formicida utilizado na chácara vizinha a casa onde moravam as crianças que provavelmente ingeriram a iguaria envenenada depois de brincar e se divertir seguindo os antigos costumes locais. 

A notícia publicada no jornal não traz informações sobre o fim do inquérito, não diz se alguém foi responsabilizado, e nem se alguma providência foi tomada para que algo do tipo não acontecesse mais. O jornal também não informou os nomes e nem falou sobre a localização exata do local onde ocorreu esse acontecimento trágico. Não foi encontrado nenhum outro documento ou registro sobre. 

 Da forma que foi noticiado, com ausências e silêncios, não é possível identificar se o acontecido ocorreu em um contexto causal, como é dado a entender, ou em uma circunstância de tentativa de dominação ou resistência.  

Fontes:

MOREIRA. Uerisleda Alencar. Galvão. ROSÁLIA. Ferreria Machado. DE SÁ. Thiago Serravale. (Re)descobrindo a Gastronomia Baiana. Editora Mondodrongo. Itabuna. 2019.

Saúva Frita Matou os 12 meninos na Bahia. Jornal do Brasil. 1975

Imagem: IBGE

Compartilhar: