Por Erivan Santana*

Era já final do dia, quando precisei ir ao banco. Logo na porta, chamou-me a atenção um mendigo sentado à entrada da porta, e ao lado um cachorro. Ao sair, perguntei-lhe se o cachorro era seu – disse-me que sim. Peguei alguns trocados que tinha e lhe entreguei, ele sorriu, em sinal de agradecimento. 

Fiquei observando o cachorro, estava agora bem em frente à porta, muito tranquilo e dócil, de modo que quem fosse entrar precisava pedir licença ou se desviar dele, que aliás estava feliz e bem cuidado. Aquele cachorro jamais abandonaria o seu dono, independentemente de quem seja ele, faça chuva ou faça sol. 

Aquela cena fez-me refletir sobre a relação daquele mendigo com o cachorro. Ele procurava meios de sobrevivência para si e para o animal, ao passo que muita gente abandona seus animais de estimação, quando surge qualquer dificuldade ou inconveniência. 

A outra questão que chama a atenção nesta cena, é a falta de proteção social para as pessoas e os animais em situação de rua, um fato que infelizmente já se tornou algo “normal” em nosso país, as pessoas já se acostumaram com isso, nem estranham mais. 

É o que o sociólogo Georg Simmel chama de “atitude de reserva”: diante da distopia dos nossos tempos, o indivíduo cria mecanismos de defesa, passando a não se importar com nada mais, a não ser a própria sobrevivência, acentuando o individualismo que marca a chamada “pós-modernidade”.

Este é apenas mais um flagrante entre tantos outros do cotidiano desumano e injusto de nossas cidades, uma comprovação de um país que ainda tem muito a caminhar e se desenvolver, para ser chamado de “civilizado”.

Erivan Santana é professor, cronista e poeta, membro efetivo da Academia Teixeirense de Letras – ATL

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