Por Daniel Rocha

Um vídeo documentário amador postado no YouTube pelo perfil  Gilberto Filho, intitulado “Viagem a Caravelas”,  traz o registro de viagem de dois turistas,  moradores do Rio de Janeiro, à cidade de Caravelas, extremo sul da Bahia. 

No vídeo, além do registro dos turistas, fragmentos de memórias e instantes da vida de pescadores, da praia dos distritos da Barra e Ponta de Areia, se destacam.  O que mais revela o vídeo sobre a região e a cidade? O que permitem saber sobre os trabalhadores e trabalhadoras do mar?

Como já lembrado em outros textos postados aqui no site, como na reportagem “Extremo sul: um paraíso cheio de problemas”,  na década de 1980 a região do extremo sul  foi divulgada em jornais e revistas nacionais como um novo destino turístico, apesar das dificuldades estruturais e sociais que eram  ignoradas pelos anúncios e reportagens, como a do jornal do Brasil de 1986 que frisou:

 “Ainda há cidades históricas não invadidas pelo turismo de massa. Por exemplo: Caravelas, Alcobaça e Prado, no Sul da Bahia. Chega-se lá de ônibus a partir de Vitória (ES). (…) Além da compensação cultural, o circuito oferece muito sossego, praias encantadoras, passeios de barco, divertidas pescarias e boa cozinha regional, baseada no peixe e a preços de fato modestos”.

Esse discurso e aspectos da realidade descrita pelo jornal podem ser percebido no  video amador que traz a perceptivas dos turistas sobre o município de Caravelas  de forma explícita (mais facilmente percebida) ou implícitas (menos facilmente percebida) no contexto vivido pelo lugar  que,  ao que indica os diálogos,  já era conhecida pelos visitantes. 

Na década de 1970, o historiador dor Marc Ferro, no artigo “O filme: uma contra-análise da sociedade?” asseverou sobre o uso de filmes e registros imagéticos como documento histórico passível de urso pela historiografia que, “A crítica não se limita somente ao filme, integra-o no mundo que o rodeia e com o qual se comunica necessariamente.”

Assim, com base no postulado por Marc Ferro, no registro explícito é  possível observar o trajeto feito pelos turistas  até o extremo sul e a  cidade de Caravelas,  as dificuldades de acesso e os problemas estruturais de uma região que contava com estradas ruins.

Estrada do Boi e BR-101,   essa última com pouco  mais de 15  anos de inauguradas,  em estrado lastimável de conservação, principal via de acesso à região que faz a transição do sudeste para o nordeste do país, o que reforçava a narrativa de subdesenvolvimento nordestino também presentes no vídeo.

Sobre os moradores,  enquadra os distritos pesqueiros da Barra e Ponta de Areia, com população, homens e mulheres, trabalhadores do mar,  ligados a  fortes  tradições, laços familiares e comunitários.  Ainda a respeito do lugar, a cidade de Caravelas é apresentada como um destino turístico de arquitetura e  ares coloniais, mas organizada para o turismo e consciente da força da sua cultura. 

Para além dos aspectos explícitos, o registro amador  capta falas, sotaques e lembranças de alguns moradores dos distritos pesqueiros, acontecimentos oriundos da rotina e mundo de trabalho, os circuitos sociais de vivência, oralidade, crenças e fé através dos relatos de memórias. Elementos, por exemplo, observados  no causo narrado por um pescador sobre “a pesca de um peixe grande”.

Na narrativa, registrada pelo video, um pescador do distrito da Barra, conta que  na semana santa de 1962  foi abençoado com uma sorte grande ao pescar um peixe espadarte que pesou uma tonelada,  próximo a um lugar chamado “Ponta da Coroa Alta”, no dia de uma “quinta-feira maior,” Semana Santa.   

Segundo conta, o peixe que chamou a atenção de todos, foi avaliado  na época em 2000 réis, uma boa grana para uma pessoa comum, mas que decidiu não vender para pagar uma promessa feita antes de entrar no mar de que se pescasse um peixe grande naquele dia, repartiria entre todos da comunidade, vizinhos e amigos pescadores. 

Tal como fez ao chegar na Barra e  após ter tirado a parte do dono do barco de pesca, que ele provavelmente arrendou ou pegou emprestado, tendo como acordo  dividir ao meio tudo  o que fosse pescado naquele dia santo.

O causo do pescador também revela aspectos da sociabilidade da época, estranhos aos visitantes do sudeste, e um imaginário local que reforçava uma cultura asca ao interindividualista que cada dia mais ganhava força com as novas rotas rodoviárias existentes e do desenvolvimentismo capitalista crescente desda década de 1970.

No início do video, também  é possível notar  uma incipiente cultura do eucalipto despontando com pequenas mudas plantadas às margens da BR 101 e, dessa forma, o dimensionamento do modelo político de organização social permitida pelas forças governamentais da época e  as transformações sofridas  pela  paisagem rural. Realidades e elementos  que escapam da intenção do video feito unicamente para exibição a um público privado.

Daniel Rocha*

Historiador graduado e Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.  Contato WhatsApp: (73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com. O conteúdo deste Site não pode ser copiado, reproduzido, publicado no todo ou em partes por outros sites, jornais e revistas sem a expressa autorização do autor. Facebook 

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