Teixeira de Freitas,1985, faltando menos de um ano para a Copa do Mundo do México, a expectativa dos teixeirenses era grande. No bairro Recanto do Lago funcionava o badalado Bar Boate e Boliche Marrom Glacê. Como era de costume todas as noites, diversas pessoas procuravam o local para se divertir e paquerar ao som das músicas do momento, recorda um ex-funcionário e antigos frequentadores, estudantes.

Em meados da década de 1980, estudar durante  a noite estava em alta. Diferente de hoje, a faixa etária que cursava o segundo grau noturno era na maioria formada por pessoas com idade acima de 20 anos, homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras do comércio local, que só tinham tempo para estudar durante a noite.

Naqueles tempos de novidades a gíria da moda era dizer “qual é a transa” e com ela se conseguia “muitas”, diga-se de passagem. Por essas e outras razões, no período noturno, ao final da aula, a saída dos alunos mais parecia com uma reunião coletiva de namorados.

Isso porque  rapazes com  bicicletas, motos ou carros, costumavam ficar estacionados na Avenida Getúlio Vargas,  próximos ao Colégio Rômulo Galvão, a espera das estudantes, namoradas, ou em busca de alguém  interessante para sair, ou beber algo no bar mais próximo,  assim lembrou Maria Mariana (em memória) em uma conversa informal em 2005.

Ainda conforme o relato da antiga aluna do  Rômulo Galvão,  nesse cenário, alunas “desavisadas” acabavam conhecendo alguém por acaso, pois diante de tantos carros parados acontecia de entrar em um carro “enganada” achando que era do namorado ou alguém da família. Engano que rendia uma esticada até o bar mais próximo para um bom bate-papo.

Ainda conforme, foi nesta condição, como aluna, trabalhadora do comércio e “enganada”,  que também frequentou o Bar Boate Marrom Glacê, que era o endereço da moda entre os estudantes daquela época.

Contudo, a boate  que usava a estratégia da boa música e do som alto para atrair a clientela, além de conquistar os frequentadores, também costumava perturbar os vizinhos com o barulho incômodo. 

Narram alguns moradores do bairro Recanto do Lago que em um dia de um mês desconhecido do ano de 1985, a reação de um morador migrante capixaba pôs fim às atividades da próspera boate que aguardava a Copa do Mundo para realizar grandes exibições e festa.

Segundo o garçom e gerente de confiança do estabelecimento, Francisco Ferreira, uma família de capixabas, moradores das proximidades da boate, reclamavam constantemente do alto som durante a noite. Situação que levou um dos perder a paciência e disparar com arma de fogo contra o toca disco do Bar.

 “Quando o dono chegou falei que os caras apareceram dizendo que iriam baixar o som… Desceram a bala, eu que não podia fazer nada, fiquei quieto!”

Segundo o narrador do caso, o fato foi registrado na polícia, porém  as autoridades não precisaram ir além do Boletim de Ocorrência (BO) porque no outro dia eles pagaram o prejuízo do bar, esclarecendo ao proprietário e os desavisados a razão da atitude tomada.

A família tinha um filho doente que não dormia com o som naquele volume e que incentivado pela situação e os vizinhos, e  cansados de pedir por diversas vezes para diminuírem o som, o patriarca tomou, dominado pelo desespero, aquela atitude extrema.

Ainda segundo o antigo funcionário, depois do incidente não demorou para o bar baixar para sempre as portas. “Porque sem o som o público jovem perdeu o interesse. A moçada gostava era de música alta, sem ela o bar ficou sem o atrativo”.

Sobre o fim do Marrom Glacê, lamentou Francisco: “Estávamos esperando com ansiedade a Copa do Mundo de 1986, que foi realizada no México, começar para fazer uma grande festa, pena que não alcançou.”

 Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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