Por Daniel Rocha

No início do novo milênio, ano 2000, a Esquadrilha da Fumaça realizou uma grande exibição aérea em Teixeira de Freitas, Bahia. O evento pode ter sido organizado com o objetivo de criar uma falsa consciência de festividade na cidade e região do extremo sul da Bahia, então anfitriã das celebrações pelos 500 anos do “Descobrimento do país”.

Transformado em um grande evento midiático em defesa de uma narrativa de país cordial que negava as contradições sociais e políticas das comemorações, a festa cívica realizada  no dia 22 de abril de 2000, em Porto Seguro-Ba, foi rechaçada por movimentos sociais com protestos na cidade e em Santa Cruz Cabrália.

Embora não exista mais do que os relatos dos moradores de Teixeira de Freitas sobre a apresentação, é importante ressaltar que a Esquadrilha da Fumaça é formada por pilotos da Força Aérea Brasileira, uma instituição ligada ao Estado e que representa os interesses oficiais dos governos, que naquela época vislumbrava popularidade com a realização das comemorações.

Assim, considerando que já existia um clima de contestação do evento no país e na região, é possível supor que a exibição aérea naquele momento para os teixeirenses, a poucos dias do grande evento, pode ser vista como uma ação ideológica destinada a propagar o ideal a celebração entre os moradores da cidade, uma das maiores da região do descobrimento. 

Durante o show, os antigos aviões de combate da esquadrilha que  partiam do aeroporto de Caravelas realizando manobras incríveis e impossíveis nos céus da cidade fronteiriça, apresentação nunca antes vista pelos teixeirenses  no local do estádio municipal e por todos os moradores e várias partes da cidade que sentiu qual a sensação de ser tomada por uma bateria aérea, em uma apresentação inesquecível.

No estádio, em um palanque armado no centro do campo, o então prefeito Wagner Mendonça, os representantes da esquadrilha, aeronáutica, e um locutor local, comentaram as manobras e informaram os nomes dos pilotos responsáveis pelo show, visto de hoje pode se dizer que foi mostrando como a estrutura de poder político e militar costumam trabalhar em conjunto em defesa de um discurso dominador e ideológico sobre a sociedade lançando mão de várias estratégias.

A apresentação contou com uma hora de duração e presenteou a cidade com um dos espetáculos que seria apresentado dias depois em Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália durante os eventos de comemoração do quinto centenário da chegada dos portugueses à região e no Brasil em 1500. 

Grande evento que ficou marcado por diferentes  reações  de algumas comunidades e movimentos sociais que  questionaram a forma como a data vinha sendo celebrada, sem fazer lembrar o povo negro, trabalhador e nativo e a ocupação do espaço simbolico. O posicionamento crítico da sociedade cessou a narrativa oficial dos 500 anos que estava sendo vendida com repressão dos movimentos sociais e contestatórios.

Imagem: site Memorial da democrácia

Durante as comemorações oficiais em Coroa Vermelha/ Santa Cruz Cabrália, no dia 22 de abril, grupos de indígenas, estudantes e movimentos sociais foram impedidos de fazer uma passeata contestatória e reprimidos com o uso de gás lacrimogêneo. A reação gerou protestos e indignação em todo o país e mais críticas ao presidente Fernando Henrique e sua parceira Rede Globo, que teve seus famosos relógios dos 500 anos destruídos em várias cidades.

Em resposta, e sem compromisso como a festa armada para convencer,  indígenas de diferentes partes do país se reuniram na cidade e escreveram a “Carta dos 500 anos”, em que reafirmaram a violência da colonização e a necessidade de lutar por justiça e reconhecimento dos direitos dos povos nativos. 

Segundo o jornal folha de São paulo, de 22 de abril 2000, a carta ressaltou que os índios compareceram à cerimônia “sem rancor e sem raiva”, mas alertaram que os territórios demarcados para os indígenas “continuavam sendo ameaçados pelos projetos de desenvolvimento que não levava em consideração o pensamento ea vida dos povos nativos. ” O povo brasileiro não conhece o povo indígena”. 

Assim, a comemoração dos 500 anos mostrou  mais uma vez que a  história do Brasil sempre foi marcada por diversas formas de opressão e violência contra grupos sociais marginalizados, e que a importante comemoração histórica  não levou em consideração essa complexidade e diversidade dos diversos atores sociais do país e suas reivindicações históricas. A repercussão dos conflitos foi enorme, especialmente na mídia local e internacional.  Segundo o site memorial da democracia: 

“Depois da impressão negativa deixada pelo evento, o ministro da Cultura, Rafael Greca, foi demitido por Fernando Henrique. O presidente da Funai, Carlos Frederico Marés, deixou a instituição em protesto contra as agressões aos índios que a própria autarquia havia mobilizado para a comemoração. “Não havia intenção de dissolver a marcha, mas de machucar as pessoas”, disse.

Por fim, é fundamental que as vozes das comunidades e movimentos sociais sejam ouvidas e valorizadas, para que possamos construir uma sociedade mais justa e inclusiva para todos, sem espetaculização das datas comemorativas que se constitui uma oportunidade de se promover debates sobre o sentido do achamento do país em 1500, algo que não foi citado durante a apresentação da esquadrilha da fumaça em Teixeira de Freitas em março do ano 2000.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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Fontes:

O Brasil dá vexame nos 500 anos. Jornal A região. Abril de 2000.

Memorialdademocracia.com.br

Índios entregam carta de protesto a Fernando Henrique. Folha online.

E la Nave Va …As Celebrações dos 500 Anos no Brasil. Afirmações e Disputas no Espaço Simbólico. Micnel Herschll e Carlos Alberto Mcsserler Pereira 

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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