Por Daniel Rocha 

Em fevereiro de 1884, ocorreu uma das primeiras greves na região do extremo sul da Bahia que temos notícia. Mais de 300 trabalhadores da Estrada de Ferro Bahia e Minas, liderados pelo empreiteiro João B. Alien, partiram armados de Caravelas até a estação dos Aymorés,  atual Serra dos Aimorés, que fica na região de fronteira do estado da  Bahia com Minas Gerais, para tomar conta do trem de passageiros da companhia e cobrar seus salários atrasados.

Conforme noticiou um jornal da época, na cidade mineira, os trabalhadores pernoitaram no trem impedindo sua circulação e, no dia seguinte, desceram  de volta em direção à  comarca de Caravelas, dispostos a recorrer naquela vila novamente para o pagamento de seus numerários.

Conforme o relato dos jornais,  o superintendente interino da empresa, Dr. Hilário Massow, foi avisado do ocorrido, e entrou em contato com o empreiteiro da empresa que declarou que não tinha condições financeiras para efetuar o pagamento. Temendo a revolta grevista, o mesmo telegrafou para salvador solicitando tropas policiais.

Diante da situação, diz o jornal, o Dr. Massow decidiu tomar para si a responsabilidade de pagar os trabalhadores, já que a empresa não era obrigada a fazê-lo porque era de responsabilidade da empreiteira contratada, expedindo um telegrama aos trabalhadores grevistas pedindo  para que ficassem tranquilos, pois a empresa se responsabilizaria pelos pagamentos reivindicados.

Assim, o Dr. Massow e outros influentes seguiram de máquina ao encontro do trem que vinha para Caravelas. De acordo com a perspectiva do periódico, “com muito tino e prudência, ele conseguiu convencer os trabalhadores a voltarem aos seus trabalhos, prometendo pagar os salários no meio do mês de março, o que foi efetuado nos dias 13 e 18”. 

Dessa forma, o superintendente interino evitou que os trabalhadores “sublevados”, assim era chamado os grevistas, chegassem a Caravelas, onde poderiam causar problemas ou prejuízos à comarca e aos negócios, já que sem o trabalhador não existem lucros e serviços prestados.

Ainda conforme o registro, quando o Capitão Durval, da força policial da capital da província da Bahia, Salvador,  chegou à  Vila em comissão da presidência, encontrou Caravelas “em paz”, diferente do que se supunha as notícias enviadas à capital, onde os telegramas sobre a sublevação dos trabalhadores foram considerados  “exagerados” depois do levantamento no local dos fatos.

Na época em que o fato ocorreu, o acesso à educação e informação era limitado, sendo que somente uma parcela da população tinha acesso aos jornais e à leitura e à educação em espaços formais. Portanto, as notícias publicadas  tinham como leitores a elite, a principal consumidora dos periódicos, a fonte de informação mais rápida e popular entre os letrados e patrões.

Por esse viés, concebe-se que a greve dos trabalhadores da Estrada de Ferro Bahia e Minas em 1884, na cidade de Caravelas, Bahia, foi  descrita dando destaque a ação dos patrões e empreiteiros e ignorando a fala e o nome das lideranças dos  trabalhadores “sublevados” tal como as reivindicações e a forma de organização dos  mesmos e  se entre os mais de 300 trabalhadores houve a participação de mulheres, sempre invisibilizadas.

Além disso, é importante considerar que na época da greve, o Brasil ainda vivia sob o regime escravagista, e não havia leis trabalhistas que protegessem os trabalhadores livres nem escravizados, que também reagiam fugindo das fazendas e formando quilombos para resistir, e nem organização sindical organizada. 

Isso pode explicar a falta de  informações detalhadas, bem como a convocação da autoridade policial da capital da província, Capitão Durval, para intervir no caso tratado como uma rebeldia criminosa dos operários e não uma luta organizada.

Desse ponto de vista, torna-se interessante destacar que, para o historiador E. P. Thompson, a classe trabalhadora não é uma estrutura fixa ou uma categoria estática, mas   um fenômeno histórico que se manifesta nas relações humanas. 

Nesse sentido, a greve dos trabalhadores da Estrada de Ferro Bahia e Minas pode ser vista como um exemplo de uma classe trabalhadora em ação, buscando seus direitos e lutando contra a exploração e a opressão no extremo sul da Bahia, como seguiu e segue fazendo seus entrincheirados, trabalhadores e trabalhadoras e sindicatos, de forma mais intensa, desde o fim do regime escravista e início da era republicana.

Assim, ao longo do século XX, a luta pelos direitos trabalhistas se tornou uma pauta cada vez mais importante, e o Brasil conseguiu conquistar importantes avanços nessa área, como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em 1943. No entanto, ainda há muitos desafios a serem enfrentados pelos trabalhadores e trabalhadoras para garantir condições dignas de trabalho e remuneração justa para todos, especialmente em um momento em que o mundo do trabalho está em constante transformação devido às novas tecnologias e à globalização escravista selvagem.

Fontes:

THOMPSON, E. P. A Formação da classe operária inglesa. Vol I. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p. 9)

Jornal Gazeta da Bahia –  1884. Acervo Site Tirabanha.

Referências e Bibliografia

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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