Por Daniel Rocha
Durante as décadas de 1960 a 1990, as festas juninas em Teixeira de Freitas-BA eram uma celebração dedicada aos santos São João e São Pedro, superando em popularidade as festividades natalinas. O evento abrangia tanto a zona rural quanto o centro do então povoado teixeirense. Embora São Pedro não fosse inicialmente o mais popular entre os moradores, acabou ganhando destaque graças à construção da igreja na praça e à dedicação dos fiéis.
De acordo com relatos da pioneira professora Maria Bernarda Batista, em uma entrevista concedida em 1985 à revista Teixeira de Freitas, as festas juninas na cidade, realizadas em suas primeiras décadas, possuíam características peculiares.
Segundo ela, a festa de São João era um momento para desfrutar de licor de jenipapo, deliciosos biscoitos de polvilho conhecidos como “voadores”, frango assado, pernil de leitoa, brincadeiras como o pau de sebo e danças.
Ainda conforme as lembranças da senhora, registradas pela revista, naquela época as ruas eram enfeitadas com coloridas bandeirolas e palhas de coqueiro verde, o que conferia um charme especial ao ambiente da festa realizada onde hoje fica a praça dos Leões.
Além disso, segundo o registro, as famosas fogueiras eram feitas no estilo baiano, com lenhas entrecruzadas e superpostas, formando um quadrado onde as pessoas se reuniam para assar milho, conversar e desfrutar de guloseimas.
Com o passar do tempo, estima-se que na década de 1970, em Teixeira de Freitas, a tradição das festas juninas foi gradualmente substituída pelo Natal como a celebração mais aguardada e festejada do ano. Supõe-se que isso tenha ocorrido em decorrência da influência da televisão, do comércio e das religiões.
Nesse período, o santo São Pedro também foi ganhando popularidade, sendo declarado o padroeiro da cidade pela Igreja Católica, que se ocupa desses assuntos, contrariando os antigos moradores que tinham predileção por São Sebastião, muito festejado no mês de janeiro.

Segundo o frei Elias, em seu livro de memórias intitulado “Os desbravadores” do Extremo Sul da Bahia, a “nova igreja” de São Pedro foi inaugurada em 9 de fevereiro de 1969, durante a festa de São Sebastião. A festa popular, tradicionalmente realizada pelos moradores desde o surgimento do povoado no espaço da praça dos Leões, passou a ter São Pedro como padroeiro, em uma decisão que foi tomada democraticamente, mas com “certa pressão do vigário”.
A partir de então, a festa passou a ser realizada costumeiramente na praça dos Leões, em torno da igreja construída graças a mobilização e trabalho dos moradores da comunidade que realizou diversos bailes e festinhas para arrecadar fundos para a concretização da mesma.
Por esse motivo também, na década de 1970, as festas juninas também adquiriram novas configurações, passando a ser realizadas em residências, comunidades, igrejas, salões e ruas mais distantes do centro.
Outro fator que colaborou para isso foi à chegada da energia elétrica e os costumes de outros moradores chegantes, mineiros, capixabas e baianos de outras partes, que foram acrescendo novos costumes à mesa típica da festa, como diferentes preparos de quentão e “canjicas” (mungunzá), que passaram a fazer parte das celebrações.
Em 2017, a festa, que desde da década de 1970 era realizada na Praça dos Leões, historicamente ligada à antiga Catedral São Pedro, hoje convertida em capela de adoração, deixou seu antigo local de culto pela primeira vez para ser realizada na nova Catedral do padroeiro.
Essa mudança teve como objetivo proporcionar mais espaço, conforto e segurança aos fiéis e visitantes que buscam reflexões de paz, amor, comunhão e interações saudáveis durante a festa, que é realizada até o dia 29 de julho, dia do padroeiro.
É importante lembrar que a tradição das Festas Juninas, além de celebrar os santos católicos mais populares, São João e São Pedro, representa uma festa genuinamente brasileira, resultado da miscigenação cultural que caracteriza o país, envolvendo negros, povos indígenas e europeus.
Essa mistura de costumes trouxe uma riqueza cultural imensurável para as Festas Juninas, que têm origem na colonização europeia, tornando-as uma oportunidade única de celebrar a diversidade e a identidade mestiça do povo brasileiro.
Essa festividade, com suas danças, comidas típicas e decoração festiva, é um verdadeiro testemunho da história e do legado cultural que moldaram Teixeira de Freitas e o Brasil como um todo, desde a cultura nativa da fogueira até as influências africanas nas cores e pratos, passando pela religiosidade católica.
Além do simbolismo religioso, a festa de São João e São Pedro também traz elementos construtores de uma sociedade, como modos de produção, comportamentos, mentalidades e outros aspectos, criando espaços de encontro e mediações sociais que ainda podem ser observados na cidade até hoje.
Daniel Rocha da Silva*
Historiador graduado e Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com
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