Por Erivan Santana

Sempre que importantes fatos históricos são comemorados e colocados em evidência – inclusive com mérito – como é o caso das comemorações do Bicentenário da Independência do Brasil na Bahia – é preciso levar em consideração que os fatos históricos são contados a partir da visão do historiador, o que equivale dizer, que tais relatos são passíveis de influências políticas, econômicas e ideológicas.

Esses fatores explicam, em boa parte, a invisibilidade e a pouca importância dada à decisiva participação da Bahia no contexto da Independência do Brasil. Uma rápida pesquisa aos livros didáticos de ensino fundamental e médio – e mesmo no contexto acadêmico – comprovam esta afirmativa. 

As verdadeiras batalhas contra as tropas portuguesas que definiram a nossa independência de Portugal, ocorreram em solo baiano, mais precisamente na então capitania de São Salvador, no Recôncavo e no Baixo Sul.

A resistência aos portugueses foi organizada, basicamente, a partir da participação popular. Negros, mestiços, indígenas e até mesmo as mulheres, tiveram papel importante e decisivo nas batalhas, que compreenderam o período de 17 meses – de fevereiro de 1822 a julho de 1823.

Pesquisas históricas recentes, mostram que um dos fatores decisivos foi a alimentação das tropas, sendo que nesse quesito, as mulheres tiveram papel importante. Além de garantir a alimentação das tropas baianas, os combatentes bloquearam a entrada de alimentos dos portugueses, em Salvador, no Recôncavo e no Baixo Sul.

As mulheres se disfarçavam durante a noite, levando comida aos combatentes baianos. A comemoração mais expressiva desse fato, ocorre todo 2 de Julho em Saubara, num folguedo conhecido como “As Caretas do Mingau”.

Uma dessas lideranças chamava-se “Brígida”, e era muito amiga de Maria Felipa. Esta por sua vez, permaneceu desconhecida por décadas, até a descoberta das obras de dois itaparicanos: o romancista Xavier Marques (1861-1942) e o cronista e historiador Ubaldo Osório (1883-1974), avô do romancista João Ubaldo Ribeiro.

Maria Felipa era negra, pobre e analfabeta. Tinha o ofício de marisqueira, tendo liderado um grupo de mulheres que lutou lado a lado com os soldados baianos, muitos deles, pescadores e roceiros, na defesa da Ilha de Itaparica. 

Maria Quitéria, outra conhecida heroína, sabia montar, atirar, caçar e plantar, mas isso era diferente de guerrear. Atraída pela propaganda independentista que circulava nos sítios, feiras e lugarejos, alistou-se espontaneamente, usando as roupas do cunhado, como “Soldado Medeiros”.

São histórias e registros como esses que tornam a “Independência do Brasil na Bahia”, um processo singular, épico e dramático, diferente do que ocorreu nos outros estados do Brasil.

Nesse contexto, outra personalidade marcante foi Joana Angélica, que se tornou uma mártir, ao se pôr à frente dos portões do Convento da Lapa, para impedir a entrada dos soldados portugueses, num local que era habitado por freiras enclausuradas. Joana Angélica, que tinha 60 anos à época, foi abatida com golpes de baioneta pelos soldados e sua morte estimulou ainda mais a revolta dos brasileiros.

A história contada até aqui necessita ser constantemente revisitada, inclusive porque os relatos das revoltas regionais não aparecem nos livros tradicionais, como nos mostra por exemplo, o artigo do historiador Daniel Rocha da Silva, neste  mesmo site Tirabanha, intitulado “O 2 de Julho no Extremo Sul da Bahia: A resistência ao Império Luso-Brasileiro” no qual é relatado episódios de insatisfação e revolta, na então Vila de Alcobaça, oportunidade em que foi cunhada a expressão “Pés de chumbo”, numa clara alusão às forças opressoras portuguesas.

Como vimos, a história é viva e dinâmica, e continua a ser escrita. Viva o Bicentenário da Independência do Brasil na Bahia, avantemos!

*Erivan Santana é professor, cronista e poeta. Titular da cadeira 36 na ATL (Academia Teixeirense de Letras).

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