Por Daniel Rocha

No século IXI, a navegação de transporte e passageiros estava literalmente a toda velocidade. Com o advento da embarcação movida a vapor no Brasil, na década de  1830, as viagens se tornaram mais rápidas e o transporte de pessoas e mercadorias também. 

No entanto, isso não mudou o fato de que o mar era um lugar perigoso. Os naufrágios continuaram a assolar as embarcações, ocorrendo em locais ainda mais traiçoeiros, como o arquipélago de Abrolhos, um conjunto de ilhas localizadas a cerca de 700 quilômetros do Rio de Janeiro e apenas a 70km da litorânea cidade de Caravelas, extremo sul da Bahia. 

As ilhas são compostas de rochas e corais, e o mar ao redor é repleto de recifes e correntezas fortes. Isso torna a navegação na região extremamente perigosa. Ao longo da história muitos navios afundaram nas águas de Abrolhos, como o Navio Inglês Guadiana, em 1885,  um dos mais famosos naufrágios que se tem notícias no selvagem arquipélago que é uma verdadeira pedra no caminho dos apressados e desatentos.

Detalhes de como e quando ocorreu o naufrágio foram encontrados nos relatos do espanhol Dr. Casimiro Rouré y Boufill, que relatou na época ao jornal O Paiz sua trágica experiência enquanto passageiro. Segundo narrou, no dia 18 de junho de 1885, ele  embarcou  no Rio de Janeiro a bordo do navio Guadiana com destino aos Estados Unidos, juntamente com 45 passageiros e uma valiosa carga de café, rumo  à cidade de Nova York.

De acordo com o relato,  os primeiros dias de viagem foram agradáveis, com o Guadiana navegando suavemente pelas águas. Realidade que não mudou no dia seguinte,  dia 19,  quando o mar ainda estava calmo, apesar do  tempo nublado que não  preocupava a tripulação confiante na rota que percorria. 

Entretanto, no dia 20, o que parecia impossível mudou radicalmente. Por volta das 07 horas da manhã, o navio sofreu um terrível choque que abalou a todos a bordo da embarcação obrigando o Dr. Rouré  correu  para o convés para saber o que estava acontecendo. Na cobertura superior  ele se deparou com a tripulação  frenética e nervosa lutando para desencalhar o navio que havia se deparado com rochas submersas.

Navio paquete do mesmo modelo do Guadiana, 1883.

Infelizmente, o capitão Charles W. Hanslip tinha julgado erroneamente que estava em alto mar, mas, na verdade, estava entre a costa e os perigosos Abrolhos. O Guadiana havia encalhado nas paredes rochosas do fundo do mar criando uma situação desesperadora e urgente. Contudo, apesar do caos e do terror, o comandante Hanslip e sua dedicada tripulação mantiveram a calma e começaram a evacuar rapidamente os passageiros em botes e salva-vidas:  

“Durante este tempo encheu-se o convés de passageiros, que, com o terror estampado nas fisionomias, haviam abandonado os seus camarotes, com as vestes em que estavam.(…). Este, reconhecendo que o navio estava irremediavelmente perdido, deu ordem para serem postos nos botes e salva-vidas.  Terminada esta difícil manobra, embarcaram primeiro as senhoras, as crianças e os homens casados; depois o resto dos passageiros, a equipagem,as malas e algumas bagagens. Cada um destes botes era dirigido por um oficial,” relatou o Dr passageiro. 

Enquanto os botes se afastavam com os passageiros, o navio afundava lentamente. O comandante Hanslip e alguns marinheiros permaneceram heroicamente a bordo, recusando-se a deixar o posto até que todas as vidas fossem salvas e colocadas em segurança aos gritos desesperados dos salvos para que deixassem logo o navio.

Horas depois, após a evacuação, o grupo de sobreviventes  e a tripulação avistou uma embarcação próxima, a garoupeira, tripulada por um velho e dois rapazes. Desesperados por ajuda, pediram ao homem que os levasse até a cidade mais próxima, Caravelas. No entanto, ele hesitou em prestar auxílio e só concordou após uma oferta de pagamento.

Enquanto alguns náufragos foram levados pelo velho, uma segunda embarcação garoupeira apareceu, com um patrão generoso que não aceitou pagamento e resgatou parte dos sobreviventes. Enfrentando o vento e as ondas, eles finalmente chegaram a Caravelas, sob chuva torrencial, naquela noite. “Havia muita gente na praia, mas nenhuma autoridade”. 

Não o bastante, segundo o relato, a  acolhida não foi calorosa em Caravelas, e os náufragos encontraram pouca hospitalidade no primeiro momento. Passaram a noite em um humilde hotel, com poucas camas e uma comida péssima. “Todos estavam famintos e encharcados até os ossos”. 

Apesar dessas adversidades, o médico Dr. Casimiro Rouré y Boufill expressou com mais ênfase a gratidão à coragem e ao compromisso do Comandante Hanslip e sua tripulação, que zelou por cada vida a bordo do naufrágio do Guadiana:  “O Comandante Hanslip, portou- se sempre na autora da situação, e estou certo que o testemunho de todos os meus companheiros de viagem será unânime neste ponto”. 

Dessa forma, encerrou-se essa triste e angustiante jornada, em que a bravura e o sacrifício dos heróicos marinheiros tornaram-se um farol de esperança para aqueles que sobreviveram, no final do século 19, à terrível provação nos traiçoeiros mares do arquipélago de Abrolhos.

Essa narrativa trágica e verídica reforça a noção de que, mesmo diante dos avanços tecnológicos, a imprevisibilidade do oceano continuava a exigir coragem e resiliência daqueles que buscavam cruzar seus mares traiçoeiros.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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