Por Daniel Rocha

No ano de 1963, as páginas de um jornal regional revelaram uma situação alarmante que se desenrolava na cidade de Mucuri, um local então marcado pelo subdesenvolvimento. A cidade pouco conhecida e noticiada logo chamou a atenção dos leitores e leitoras de um jornal mineiro de Nanuque. Um testemunho vívido da resiliência das mulheres da educação que, com coragem e determinação, enfrentaram desafios inimagináveis


Como toda cidade do extremo sul baiano, na época, Mucuri era um retrato de uma cidade pequena e rural. Sua população era modesta, a densidade demográfica era baixa, e a taxa de alfabetização era alarmantemente pequena, com apenas 21,1% da população sendo capaz de ler e escrever, realidade triste de uma comunidade onde a maioria das pessoas vivia no campo.


A cidade mais desenvolvida da região era Caravelas, e a vizinha Nanuque, em Minas Gerais, que oferecia recursos e melhores escolas, um privilégio reservado a poucos, já que para a maioria estudar em outra cidade, mesmo que próxima, era um sonho distante e caro.


Porém o que chamou a atenção do jornal mineiro não foi essa realidade, mas sim a condição das professoras leigas de Mucuri. Nomeadas pelo governo estadual da Bahia, essas mulheres dedicavam suas vidas ao ensino, contudo recebiam uma remuneração irrisória de Cr$ 1.090,00, um mil e noventa cruzeiros por mês. Naqueles tempos, com uma inflação crescente de 80%, esse valor mal representava alguns centavos nos bolsos das pobres professoras.

Foto: camaramucuri.ba.gov.br


A situação se tornava ainda mais revoltante quando se descobria que o Estado deixava essas professoras durante os doze meses do ano sem receber. Um ano inteiro de trabalho árduo, mas sem qualquer vencimento. A situação foi denunciada pelo periódico como o “cúmulo da servidão”. Sobre destacou o jornal:

Isto é o cúmulo da servidão. Não se pode explorar mais estas heroicas e resignadas criaturas que desta sorte dão ao país mais extraordinários exemplo de espírito público e desprendimento aceitando remuneração simbólica pelo seu trabalho desinteressado. Aos anjos, apresentamos a estas admiráveis mestras as nossas homenagens e o nosso respeito pelo belíssimo exemplo de superioridade e grandeza que oferecem aceitando espontaneamente esta dolorosa e desumana injustiça sem abandonar a gloriosa trincheira desta grande batalha que devemos manter contra o analfabetismo.”


Este relato é um testemunho vívido da resiliência das mulheres que, com coragem e determinação, enfrentaram desafios inimagináveis pelo direito a educar e inspirar aquela geração. Suas histórias são uma demonstração da luta incessante em uma sociedade que era fortemente marcada pela desigualdade.


Embora seus nomes possam ter sido omitidos das páginas da história oficial, a dedicação e sacrifício dessas educadoras devem ser celebrados como um exemplo brilhante de como o comprometimento pela educação pode triunfar sobre as adversidades mais cruéis impostas por um sistema que prioriza o capital em detrimento do bem-estar daqueles que podem transformar o futuro.


E também nos faz lembrar, que a luta por remunerações justas e condições de trabalho dignas ,ainda hoje realizada pelos professores no país, é uma parte essencial da luta mais ampla por um sistema educacional que atenda às necessidades de toda população, e não apenas dos privilegiados.

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FONTES:
KOOPMANS. Padre José. Além do Eucalipto: O papel do Extremo Sul. 2005.
IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo demográfico 1960. Rio de Janeiro: IBGE, 1960.
Mucuri e suas Mestras. JFN. Março de 1963.


Daniel Rocha da Silva*
Historiador graduado e Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com
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