Por Daniel Rocha

Na década de 1960, os cinemas das cidades do extremo sul da Bahia desempenhavam um papel central na exibição de filmes e na promoção de eventos musicais locais. Influenciados pelo movimento da Jovem Guarda, que propagava um estilo de vida individualista e a cultura de consumo, os jovens da região formavam bandas musicais e animavam festas comunitárias.

Um exemplo marcante ocorreu em maio de 1968, na cidade de Medeiros Neto, onde a sala do Cine Arte, além de exibir filmes, organizou uma grande festa em homenagem ao Dia das Mães, animada pelo grupo musical local “Os Otimistas”. Essa festa ganhou destaque em um jornal regional da cidade próxima, Nanuque – MG, cujo correspondente Hermógenes Mendes elogiou o desempenho do grupo, ressaltando a variedade de músicas populares brasileiras apresentadas.

No entanto, é interessante notar que o público presente no cinema, incluindo adolescentes e suas mães, apresentava um comportamento mais conservador em comparação ao estilo provocativo propagado pelo gênero musical originado em São Paulo. Enquanto a Jovem Guarda nas grandes cidades desafiava os costumes e convenções sociais da época, os eventos no extremo sul da Bahia se davam de forma mais comedida em alguns momentos.

Em Itanhém, cidade vizinha a Medeiros Neto, o movimento também se fazia presente, e o grupo musical local “Os Leões” animava festas e bailes com o som do “iê-iê-iê” da Jovem Guarda e outros ritmos. Essas bandas locais contribuíram para a formação de uma identidade musical na região e para a animação das festas em toda a região.

Em Teixeira de Freitas, os filmes também faziam parte do entretenimento, mas um grupo de jovens costumava frequentar festas na casa de amigos e shows de artistas locais no Cine Elisabete. Entre os artistas mais populares estavam os já conhecidos  rapazes do grupo musical “Os Leões” de Itanhém. 

Esses shows eram organizados por pessoas da comunidade e ocorriam após a última sessão do cinema, sendo abertos a públicos de diferentes idades, até o horário determinado pelo motor gerador de energia, uma vez que o povoado ainda não possuía energia elétrica.

A Jovem Guarda, enquanto movimento musical, era alvo de críticas e questionamentos por parte de artistas e intelectuais, devido à sua simplicidade formal e aparente alienação diante dos problemas sociais enfrentados pelo país na época. No entanto, para estudiosos como Ricardo Cravo Albin, a Jovem Guarda permitiu uma aproximação da poética musical em relação ao cotidiano e à linguagem da época, o que se assemelha aos exemplos citados no movimento na região.

Conforme Liliane Maria Fernandes Cordeiro Gomes aponta em seu estudo sobre a sociabilidade no extremo sul da Bahia, que os projetos governamentais de “desenvolvimento e integração da região” eram amplamente divulgados por jornais como símbolos de uma modernidade transformadora.

No entanto, esses discursos muitas vezes ocultavam os graves problemas socioeconômicos enfrentados pelas cidades e vilas da região naquele momento, utilizando uma nova sociabilidade como justificativa para um progresso que nem sempre era legítimo.

Por fim, a influência da Jovem Guarda no extremo sul da Bahia representou um importante marco cultural, impulsionando a formação de bandas musicais locais e animando festas comunitárias. Essa transformação cultural ocorreu em um contexto de mudanças sociais e econômicas, em que a região buscava integrar-se aos projetos de desenvolvimento da época, embora muitas vezes escondendo as desigualdades e problemas estruturais existentes.

Fontes:

ALBIN. Ricardo Cravo. O livro de ouro da MPB: a história de nossa música popular de sua origem até hoje.Ediouro. 2003

GOMES, Liliane Maria Fernandes Cordeiro. Dimensões de sociabilidade no Extremo Sul da Bahia (1960/1980): Violência em progresso.

ROCHA. Daniel; OLIVEIRA.Danilo. Cinema – Contribuições no Processo de Formação da Sociedade de Teixeira de Freitas nos anos de 1960, 1970 e 1980. UNEB, Campus X – Teixeira de Freitas – BA.

Compartilhar: