Março de 1960. Era madrugada em Cuba, quando o então presidente do Banco Nacional e ministro da Indústria, Che Guevara, recebeu em seu gabinete o casal francês. Estavam ali reunidas, personalidades mais representativas do que poderia haver de mais revolucionário, combativo e vanguardista para a época e para a história.

Beauvoir significava a presença feminina, ela, que a esta altura, já era conhecida, mundo afora, como uma combativa feminista e dava ao encontro um ar absolutamente inesperado, inovador e excêntrico, em um ambiente notadamente dominado pela presença masculina.

Sartre estava ansioso para provar um autêntico charuto cubano, no que foi prontamente atendido, e em seguida, Che providenciou um café para os ilustres visitantes. Lá fora, a lua já ia alta e iluminava a ilha, anunciando que eram altas horas. Alguns soldados combatentes cochilavam no recinto, outros, mantinham-se em vigília.

O filósofo francês ficou impressionado com o olhar corajoso, vivo e penetrante do líder revolucionário, que tinha uma fisionomia iluminada. Viu também que estava diante de alguém com uma vasta cultura, tudo que falava dava margens para explicações ou respostas posteriores, além de uma impressionante rapidez de raciocínio.

Beauvoir, em que pese a atmosfera do lugar, um ambiente carregado de ideologias e atitudes extremamente combativas, sentia-se muito à vontade. No fundo, ela se identificava com toda aquela atitude corajosa e revolucionária.

Sartre ficou também admirado com a juventude dos que faziam a revolução. Che, Fidel e os combatentes, todos eram muito jovens, então ele imediatamente compreendeu o espírito daquele lugar, vindo a escrever um livro, fruto de sua visita à ilha, com o título “Furacão sobre Cuba”, com depoimentos, aqui no Brasil, de Rubem Braga e Fernando Sabino.

Quatro anos depois deste encontro, Che deixaria Cuba para retornar à guerrilha, primeiro no Congo e depois na Bolívia, onde é capturado em 8 de outubro de 1967 e morto no dia seguinte, para entrar para a história e se tornar um mártir e símbolo de revolução, luta e resistência em todo o mundo, e em particular, na América Latina.

Erivan Santana é professor e poeta, cronista e titular da Cadeira 36 da Academia Teixeirense de Letras, (ATL).

Compartilhar: