Por Daniel Rocha
Lá pelos anos 1960, quando Teixeira de Freitas ainda era apenas um povoado em crescimento, aconteceu algo que o povo nunca esqueceu: Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, esteve por aqui.
E não foi apenas mais um show; foi quase uma contemplação do cantor sobre o presente e o futuro da cidade, além dos rumos da música no país.
A passagem do Rei do Baião pelo então povoado foi relembrada por Militão Guerra (in memoriam), dono do antigo Cine Elizabete — a primeira sala de cinema da cidade —, em entrevista ao jornal Alerta, em 2009.
Militão falava com orgulho não apenas da presença de Gonzaga, mas também da importância que o cinema tinha na vida daquele povoado.
Isso porque o Cine Elizabete, localizado bem no centro, próximo à antiga rodoviária, era muito mais do que um cinema. Ali passava de tudo: filmes de kung-fu, Mazzaropi, faroestes.
A sala vivia cheia e funcionava também como uma espécie de clube social popular, salão de festas e palco para shows e apresentações de artistas da região e de fora.

Tudo isso acontecia em um tempo difícil. Não havia fornecimento regular de energia elétrica. O cinema funcionava no limite de um gerador a diesel — quando o motor aguentava, a festa seguia; quando falhava, tudo se encerrava.
Foi nesse cenário simples, mas cheio de vida, que ocorreu um dos momentos mais marcantes da história do Cine Elizabete: o show de Luiz Gonzaga.
Militão não se recordava com precisão do ano da apresentação, mas pesquisas posteriores confirmaram que o artista esteve na região em julho de 1967. Naquele mesmo ano, Gonzaga percorreu diversas cidades do sudoeste, sul e extremo sul da Bahia.
Em maio, por exemplo, apresentou-se em Ilhéus, e o registro do repertório executado naquela ocasião ajuda a reconstruir como deve ter sido o show realizado em Teixeira de Freitas.
Em Ilhéus, Gonzaga abriu a apresentação com “Samarica Parteira” e seguiu com sucessos como “Sanfona do Povo”, “O Xote das Meninas”, “Respeita Januário”, “Cintura Fina” e, naturalmente, “Asa Branca”, além de outras canções que o público se divertio bastante, como “Xote dos Cabeludos”.
Naquele ano de 1967, a música brasileira vivia o auge da Jovem Guarda. Ainda assim, Luiz Gonzaga seguia firme em sua trajetória, lançando compactos, realizando turnês e defendendo a música nordestina e fazendo comentários engraçados sobre o novo movimento músical.
Durante o show em Ilhéus, interagiu intensamente com o público e chegou a ironizar o movimento da Jovem Guarda com “Xote dos Cabeludos” — algo que provavelmente também se repetiu em Teixeira de Freitas.
É possível também que, antes do show, Luiz Gonzaga tenha percorrido de carro as ruas do então povoado, observando com atenção as casas, o ritmo do lugar e o seu povo e concluido algo sobre o nosso futuro.

Segundo lembrou Militão, após a apresentação o artista teria dito uma frase que ficou marcada em sua memória: “Teixeira de Freitas está ‘condenada’ a ser uma grande cidade no futuro.”
Hoje, olhando de frente para trás e de trás para frente, podemos afirmar com segurança que ele estava correto e que desda daquela época a cidade, então povoado, já era um lugar de grandeza reconhecida.
No próximo texto, vamos relembrar com detalhes o show de Luiz Gonzaga em outra importante cidade do Extremo Sul Baiano, no mesmo ano e mês da apresentação realizada em Teixeira de Freitas, e seguir esse roteiro musical que marcou época na região.
Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
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Fonte:
Jornal Alerta 2009.
ROCHA. Daniel; OLIVEIRA.Danilo. Cinema – Contribuições no Processo de Formação da Sociedade de Teixeira de Freitas nos anos de 1960, 1970 e 1980. UNEB, Campus X , Teixera de Freitas.
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