Todos os posts de Daniel Rocha da Silva

Teixeira de Freitas Ano 2000: Um “indigente” conhecido

Por Daniel Rocha

A morte é denunciante de contextos, dramas e conflitos e diz muito sobre o lugar onde ocorre.Como no caso registrado pelo extinto programa jornalístico “TV Verdade” exibido pela emissora local TV Sul Bahia no ano 2000 que registrou a tentativa e o sepultamento de um homem classificado como “indigente.”

No final do mês de outubro de 2000, semana antes do Dia de Finados, o jornalista Getúlio Ubiratan, repórter e apresentador, se dirigiu ao Cemitério Jardim da Saudade para averiguar denúncias de que estava “abandonado e com mal cheiro” e acabou flagrando a tentativa do sepultamento de “um indigente” por três moradoras do bairro Bela Vista que denunciou às dificuldades para enterrar um conhecido sem identificação oficial.

Ambulância chega com o corpo

Sem revelar o nome dos envolvidos, o repórter apurou que uma das presentes era companheira e convivia com o falecido há sete anos e que a mesma não sabia muito sobre ele, pois havia o conhecido as margens de uma estrada quando ele ainda era “um andarilho.”

Ainda de acordo com a companheira o “desconhecido” havia falecido em casa após receber alta no Hospital Regional. Apenas a mulher e duas vizinhas acompanhava o corpo não sepultado por falta de identificação e autorização judicial. A causa da morte também era desconhecida. Os funcionários, temendo repreensão da polícia se recusaram realizar o sepultamento.

Mulheres pela dignidade do cidadão

Contudo, o motorista da ambulância declarou que foi chamado por um representante da prefeitura que havia ligado para ele solicitando que o corpo fosse levado para o sepultamento até que fosse providenciado a documentação, horas depois apresentada pelo funcionário da prefeitura que atestou que o cidadão era um “indigente” e que assim deveria ser enterrado.

“Como vão dizer que ele é indigente se ele morreu ontem,” indagou o repórter. O representante da administração municipal informou que a liberação da prefeitura autorizava o enterro e que havia também uma outras das autoridades competentes, juiz e promotor, que antes de autorizar o sepulto apuraram informações sobre a companheira e o indivíduo.

Representantes do município

Mas o que diz o registro sobre a sociedade teixeirense da época? Da minha perspectiva o Estado, através de seus representantes, municipal e federal, promoveu o silenciamento da existência de um cidadão, que se encontrava fora da dinâmica formal do mundo do trabalho, que teve direitos negados durante a vida através de uma ordem discursiva oficial. O mesmo faz o programa da TV ao negar o nome dos envolvidos, mulheres, que lutaram até o fim pelo direito de um sepultamento digno para o seu indigente conhecido.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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Foto : Vídeo da reportagem

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Caravelas 1888: um Elixir foi usado no combate a sífilis

Por Daniel Rocha

Do final do século XIX ao início do século XX remédios à base de infusões de ervas e folhas, produzidos e comercializado por boticários e pequenos farmacêuticos, era popular entre os brasileiros. Na cidade de Caravelas o Elixir Tibornina foi empregado, dentre outras coisas, no tratamento da sífilis.

Por isso a maioria, sobre tudo os mais pobres, recorriam com frequência aos medicamentosos elixires cujo à propaganda era feita em jornais impressos através da divulgação de relatos dos usuários e médicos “satisfeitos com o uso.”

Em 1909, por exemplo, estava em alta o Elixir Tibornina, “específico eficaz da Flora Brasileira” que prometia trazer a “cura radical das moléstias e das impurezas do sangue por mais crônicas e rebeldes que sejam.” Como destacou a propaganda do produto em um jornal soteropolitano de 1908 que publicava relatos dos usuários e de médicos para conferir credibilidade ao produto.

Como o do tal Dr. José Carlos Gomes da Silva, de Caravelas, datado de 1º de dezembro de 1888 que relatou: “Atesto que tenho empregado na minha clínica o Elixir de Tibornina do farmacêutico Floriano Serpa obtendo sempre ótimos resultado na sífilis em suas diversas manifestações, razão que obriga-me a preferira-o a outro qualquer medicamento aconselhado nas preferidas moléstias”.

Sífilis em Caravelas? Como isso? Em 1888 a cidade de Caravelas era dona de um dos portos mais movimentados da região, a Companhia Baiana e a Companhia Espírito Santos e Caravelas de Navegação de passageiros realizava paradas regulares no lugar que desde 1882 era ponto final da estrada de ferro Bahia-Minas, que no primeiro momento ligava Caravelas a cidade de Serra dos Aimorés, então limite entre os Estados da Bahia e Minas Gerais, no período a sífilis  era uma doença já comum entre os brasileiros desde sempre.

Propaganda da Companhia de Navegação

No livro Casa grande e Senzala, Freyre traz citações e afirma a partir destas que desde o século XVIII o Brasil era assinalado em livros estrangeiros como “a terra da sífilis por excelência” e que na zona mais colonizada, litoral, sempre foi larga a extensão da doença associada ao grande vigor sexual dos colonizadores e dos negros escravizados. Tanto que a publicidade de remédios, elixires e garrafadas para tratamento de males venéreos “faz-se de forma escandalosa.”

Fatos que permite supor que o trânsito intenso de trabalhadores e passageiros elevaram os casos da doença transmitida por via sexual, uma das mais combatidas pela saúde pública nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, na cidade portuária onde os moradores eram tratados com o Elixir Tibornina em clínicas como a do tal Dr. José Carlos, como sugere o texto da propaganda.

Fontes e referências:

Diário de Notícias 02 de maio de 1900. Acervo site tirabanha.

SAGGIORO. Elder Sidney. SINTOMAS DO MOMENTO: MEDICAMENTOS E PROPAGANDA NO “COMÉRCIO DO JAHÚ” : https://www.unisagrado.edu.br/custom/2008/uploads/anais/historia_2016/Sintomas_do_momento_Elder_Saggioro.pdf


FREYRE. Gilberto. Casa Grande e Senzala .

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.Fontes e Referências

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Foto : Caravelas.

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O que rolava no Orkut de Teixeira de Freitas?

Por Daniel Rocha


Você se lembra o que rolava no Orkut da cidade? A interação virtual, com as características que conhecemos hoje, se popularizou entre a maioria dos internautas brasileiros quando foi lançado o Orkut em meados da década de 2000, período em que a internet começou a revolucionar os meios e as formas de comunicar de milhões de pessoas no país.

Em Teixeira de Freitas não foi diferente, com a difusão da rede surgiu as primeiras comunidades virtuais relacionada à cidade, como a pioneira “Teixeira de Freitas-BA, criada em 2004, onde todo internauta, seja em casa ou nas Lan houses, que democratizam o uso da Internet, se encontrava para interagir,  comentar festas e acontecimentos, publicar novidades responder perguntas e enquetes.


Lan houses democratizam o uso .

Por exemplo, na Enquete postada no dia 22/08/07 o perfil “Fábio Nogueira Soares” buscava saber qual era o gosto musical dos teixeirenses lançando a pergunta: “Qual o ritmo de música que o teixeirense mais gosta?”

Ao final o placar indicou que para 31%, o Axé era o ritmo musical preferido dos teixeirenses. O Pagode e o Rock dividiu o segundo lugar com 24% da preferência, a frente do Forró que foi escolhido por 22% dos participantes. A enquete destacou a diversidade de preferências existentes na cidade, mas também que houve exclusões na lista de opções, tanto que o perfil “Dhea” protestou: “Arrocha! os teixeirenses em geral! eu ainda tenho cultura!”

Resultado da Enquete

Já na Enquete de 2008 o perfil “Betinho Chagas” perguntou como os membros da comunidade avaliava a administração do prefeito Padre Apparecido, o resultado revelou que estava ótima para 11%, Boa para 17%, Regular para 19%,Ruim para 11% e Péssima para 42% dos que se manifestaram. Apparecido Staut foi reeleito naquele mesmo ano para um segundo mandato.

No fórum da comunidade o um perfil não identificado,   questionou no dia 29 de agosto de 2010: “Gostaria de saber porque  a BR 101 na região de Teixeira, isso é, da divisa BA-ES até a cidade de Itamaraju, estar e sempre foi abandonada. Quem viaja pela BR pode ver na região de Eunápolis e Itabuna, várias frentes de trabalho limpando a rodovia, pintando o meio fio, recuperando trecho ruins, etc. E na região de Teixeira nada é feito (…) porque os deputados radialistas nada fazem?”

Capa da comunidade

Através da comunidade os internautas locais dinamizaram discussões antes restritas a pequenos grupos e pessoas que ao interagir expressavam suas angústias e necessidade de falar da “realidade” sem os filtros e os tratamentos dos tradicionais meios de comunicação, rádio e televisão.

Com os olhos do presente, as enquetes revelam a pluralidade de opiniões dos moradores da cidade da primeira década do século XXI . Criada em 2004 a comunidade foi desativado dez anos depois quando o Orkut encerrou suas atividades no dia 30 de setembro de 2014.

Fonte: Acervo Site Tirabanha

lançamento do livro “Caminho para Texas”

Por Daniel Rocha

Qual tipo de literatura mais te interessa? As de simples lazer e entretenimento? Ou populares, novas e plurais, que tem algo a dizer sobre o nosso cotidiano e vivência?

Independente de qual seja sua resposta, uma boa oportunidade para conhecer os sabores do cotidiano de uma parte do fronteiriço extremo sul da Bahia será apresentada no dia 13 dezembro quando o alcobacense Marciel Cordeiro irá lançar o livro “Caminho para Texas” (Editora Cousa), 2019, que entretém ao narrar uma multiplicidade de situações vivenciadas na região.

Segundo divulgação, o livro traz personagens ambulantes imersos em um caos onde a cidade de Teixeira de Freitas torna-se o ponto de partida e chegada de vários desses vultos, mesclados com narrativas plurais recheadas de sexo, sangue e humor.

O autor, Marciel Cordeiro, nasceu no povoado de Rancho Queimado, zona rural do Município de Alcobaça, trabalhou na lavoura e com a criação de gados e hoje vive na Região Metropolitana da Grande Vitória. É escritor e fotógrafo.

O lançamento do Livro “Caminho para Texas” ocorrerá no Bar e Distribuidora Ritão, espaço popular e plural, localizado na Avenida Getúlio Vargas, 804, na Sexta-feira, 13 de dezembro, das 19:00 as 21:00. O evento é aberto a todos.

Avenida São Paulo, o cordão umbilical da cidade

Por Daniel Rocha

A Avenida São Paulo, um dos endereços mais conhecidos de Teixeira de Freitas, Bahia, foi aberta na década de 1950 e pode ser chamada de cordão umbilical da cidade. A narrativa de sua abertura traz detalhes sobre a dinâmica de ocupação do território teixeirense que você vai conhecer agora.

A história desta famosa avenida remonta ao início da década de 1950, quando, conforme contou o senhor Emanuel Siquara, homens e carros contratados pela empresa instalada em 1948 no município de Nova Viçosa partiram de Juerana em direção a antiga delimitação dos  municípios de Alcobaça e Caravelas onde surgiu a cidade.

Outrora chamada de estrada de rodagem da “Eleosippo Cunha” o logradouro surgiu quando no início da década de 1950 a referida empresa abriu o trajeto para extração de madeiras nobres e chegou onde hoje é a avenida e o centro comercial da cidade, afrontando um percurso complicado e rico em lagos e córregos que inúmeras vezes levou a empresa mudar o traçado planejado.

Tanto que ao chegar à direção ao espaço do lago, hoje ocupado pelo centro comercial PátioMix, os madeireiros tiveram que fazer uma curva para evitar a lagoa que existia no lugar e dessa forma avançar, com trabalhadores e máquinas, descerrando a vegetação.

De acordo com Servídio Nascimento Correia, em memória, em entrevista cedida em 1992 a Revista Regional Sul, as máquinas utilizadas na abertura eram provenientes da empresa que administrava a linha férrea Bahia- Minas, “um patrol e dois tratores” que e quinze dias depois dos trabalhas iniciados alcançaram o lugar onde hoje se localiza o território teixeirense.  

O movimento fez aumentar o trânsito de pessoas e carros na referida estrada, fazendo surgir à pequena aglomeração de comerciantes negros às margens do caminho, cuja parte do antigo traçado hoje é denominados Avenidas Lomanto Júnior e Avenida Marechal Castelo Branco, dando origem ao chamado “Comércio dos Pretos”, também apelidado de Tira- banha.

Foto: Teixeira 1960.

“O povoado começou com um barraco de palha construído por Manoel de Etelvina e de Chico D’Água, assim conhecido devido sua habilidade de mergulhar para retirar madeira do fundo do rio, lembrou Isael de Freitas Correia em uma entrevista em 1985.

Com o passar dos anos a estrada aberta pela empresa foi interligada a estradas de rodagem de Alcobaça e Medeiros Neto, atualmente BA – 2090, construída entre os anos de 1950 e 1953, se estendendo desta forma em direção a Princesa Isabel até a Rua Mauá.

Como um dos principais eixos da cidade, não foi utilizado apenas para o transporte de madeira nas décadas de 1950 e 1960. Na década seguinte a abertura, 1960, mesmo com um estado ruim, lamas e buracos, muitas vezes pedregoso, a estrada promoveu importantes ligações sociais através da circulação de pessoas residentes nas proximidades, caminhoneiros e ônibus de passageiros.

Tais pessoas tinham como  ponto de encontro rodoviário, a partir de 1964, a pensão da Dona Maria Tupi, em frente a Praça dos leões, e o comércio de Maria Mil Réis que foi tão importante que  hoje nomeia o trecho inicial da avenida.

Dessa forma, sua abertura representou o início do processo de urbanização e exploração da madeira, a decadência das antigas rotas comerciais e o fim de um estilo de vida rural de subsistência, vendas dos excedentes e o início da formação de uma sociedade de consumo que fez crescer  um próspero comércio e bairros populosos.

Por ter favorecido como uma estrutura que ligou núcleos urbanos e rurais, trazendo novas demandas, perspectivas e estilo de vida e que ainda hoje, de certa forma, liga os interesses  e movimento comerciais ao centro que a Avenida São Paulo pode ser chamada de “o cordão umbilical da cidade.”


Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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Foto : imagem meramente ilustrativa


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Fontes:

Revista Regional Sul. Teixeira de Freitas – Bahia. Março de 1992.

BANCO DO NORDESTE, As origens. Teixeira de Freitas, Fortaleza – Ceará. P.05-07, Janeiro 1986

FERREIRA,Susana. A vida privada de negros pioneiros no povoamento de Teixeira de Freitas na década de 1960. Uneb campus-x.

Diagnóstico socioeconômico da região cacaueira de 1976. Comissão executiva do plano da lavoura cacaueira – CEPLAC 1976.

Conversa informa com o senhor
Emanuel Siquara. Setembro de 2017.

Foto: AV. São Paulo década de 1980. Dr Fortunato.

Teixeira de Freitas antes do SUS : caridade, farmacêuticos e folhas

Por Daniel Rocha

O SUS foi criado em 1988 pela Constituição Federal Brasileira que  também estabeleceu o acesso a saúde como um direito de todos. Antes dos primeiros hospitais e atendimentos médicos como se tratava os moradores do povoado de Teixeira de Freitas? Quais alternativas e saídas diante das dificuldades de acesso a medicina pública?

Sobre isso contou o senhor Isidro Alves em uma entrevista ao site em 2013 que chegou em Teixeira de Freitas na década de 1960 para morar em uma casa localizada no bairro Recanto do Lago, que não passava de um matagal sem acesso a luz elétrica e água encanada, e que não tinha acesso a nenhum tipo de atendimento no povoado.

Distante do centro do povoado ele e a família vivia como se estivesse em uma fazenda e que antes da construção do hospital, no início dos anos de 1960, não se via médico em Teixeira de Freitas “nem pago , nem de graça” e  quando passou a ter só quem tinha acesso era os conveniados ao Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) , logo não havia atendimento público universal neste período.

Por essa razão os moradores, trabalhadores comuns, enfrentavam os males diários com remédios de base natural que eram vendidos em farmácias como o xarope   “Saúde das Crianças” que “resolvia tudo”. De modo que em certos momentos era preciso apelar para sorte e ervas naturais, a primeira opção em caso de mal-estar e crises.

Teixeira 1970. Ao fundo da multidão uma farmácia

“Dores, o sumo de Maria preta com leite, quando quebrava o braço usava bambus cortado amarrado, dores no estômago chá de cidreira, também usado para dor de cabeça, outro excelente remédio era a água de sapucaia, destacou Isidrio”.

Dentre os farmacêuticos que atuaram no povoado de Teixeira de Freitas nas décadas de 1960 e 1970 destaca se o trabalho do índio Urias. Segundo a moradora Isabel Carmo, em uma conversa informal em 2013, Urias era de fato um nativo, “farmacêutico e raizeiro que vendia de tudo em sua farmácia  que ficava nas imediações da Rodoviária Velha”.

Também neste período, para além dos farmacêuticos e folhas, prestavam assistência a população às irmãs da caridade católica Viane e Georgette, supervisionadas pelo médico Jacob Medeiros realizando pré-natal e triagem médica dos menos favorecidos, revelou  Frei Elias no livro “Os “Desbravadores do Extremo Sul Da Bahia.”

Os primeiros atendimentos feitos pelas irmãs de caridade ocorreram na casa do senhor Alcenor Barbosa, um posto médico improvisado que foi Inaugurado em 1972, na AV. Marechal Castelo Branco no local conhecido como Casa Barbosa, já pequeno para o tamanho da necessidade local.

Os fatos, aliás, como visto, demonstram que antes da chegada da assistência pública  e a criação do Sistema Único de Saúde, os moradores se valiam da solidariedade, dos conhecimentos farmacêuticos e populares para cuidar para curar o seus males que, provavelmente, nem sempre recuava diante dos tratamentos precários.

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Daniel Rocha da Silva*

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Foto : Construção do hospital SOBRASA


Gugu Liberato foi popular entre os teixeirenses

Por Daniel Rocha*

Na década de 1990 o programa do SBT “Domingo Legal”, apresentado pelo carismático Gugu Liberato, era popular e líder de audiência nos domingos. A visita do apresentador à cidade e a participação de uma teixeirense em um famoso quadro do programa deu mostras da popularidade que tinha o  programa entre os teixeirenses.

O “Domingo Legal,” que era  transmitido das 16h00 às 20h00, tinha entre os seus destaques um dos quadros mais emblemáticos da TV brasileira, a “Banheira do Gugu”, onde os convidados disputava pegar o maior número de sabonetes. A Teixeirense Isolda Vasconcelos, Miss Bahia 1991, participou da icônica banheira em 1996. A participação repercutiu na época entre os moradores fãs do programa.

Isolda Vasconcelos na banheira

Antes, em meados dos anos 1990, Gugu esteve na cidade com a caravana do Show circenses “Pintinho Amarelinho”, disco lançado em 1994, como uma das atrações da Expo Agropecuária de Teixeira de Freitas onde cantou o “Melô do Pintinho” fazendo a bizarra coreografia. A repercussão foi muito positiva e segundo o morador Carlos Pereira agradou em cheio toda gente que lotou o parque.

Povo que diante da notícia da morte do apresentador, anunciada oficialmente no dia 22 de novembro, lembra não só das distrações televisivas, mas também da boa companhia do Gugu  na década de 1990, período em que a TV se firmou como uma das principais alternativas de lazer e de socialização das famílias baiana e teixeirenses, popularizando padrões de beleza, comportamento e consumo.

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Fontes

Angela Franco, ‎Marcelo Santana. Panorama social da Bahia nos anos 1990 – Página 157

Almanaque do SBT – 35 Anos – Página 198

Trecho do programa ‘Domingo Legal’ com a participação da modelo e atriz Isolda Vasconcelos, a Miss Bahia 1991. Augusto ‘Gugu’ Liberato, Luiza Ambiel, Zezé Motta, Bia Seidl. (VHS CAP)(PT DUB). Disponível em: https://www.aflamget.com/video/DyrT2XxQVeE?fbclid=IwAR2utjHC9ndW0hS7HxJ8dnW5RPjAlnLuNBmi8IPMgc5RAziYMRtgcjLXftM

Recordações:

Carlos Pereira.

Daniel Rocha da Silva*

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Relações fronteiriças no Extremo Sul da Bahia – Parte 01

Por Daniel Rocha

O extremo sul da Bahia é um território de fronteiras aberto às interações com a realidade política, agrícola, econômica e social dos estados vizinhos, Espírito Santo e Minas Gerais, território amplo e perigoso, por exemplo, para os trabalhadores itinerantes do café.

Tanto que em 22 de junho 1999, uma operação conjunta do extinto Ministério do Trabalho, Ministério Público, Procuradoria da República e polícias Civil e Federal, no Espírito Santo, identificou 38 pessoas em situação análoga à escravidão em uma fazenda na cidade de Santa Teresa (339 km de Teixeira), entre os quais trabalhadores teixeirenses.

Segundo o jornal Folha de São Paulo, de 24 junho de 1999, os trabalhadores rurais foram “aliciados para fazer colheita de café” e estavam no local havia dois meses, sem registro em carteira de trabalho, sem salários e sem poder sair da fazenda devido à falta de dinheiro e de veículos.

Conforme denúncia , os trabalhadores que foram aliciados nas regiões de Teixeira de Freitas (BA) e Teófilo Otoni (MG) com a proposta de ganhar R$ 4 por cada saca de café, em uma lavoura onde se colhia muito pouco, eram mantidos em alojamentos precários com alimentação ruim e sem pagamento. Por essa razão o patrão, o fazendeiro Schmidt, foi preso em flagrante por trabalho análogo à escravidão. Os trabalhadores foram levados a suas respectivas cidades.

Recentemente, em maio de 2019, o site capixaba tconline.com, informou que um homem acionou a Polícia para relatar que ele e outros seis trabalhadores contratados por um aliciador para a colheita de café em Jaguaré ,ES, estavam sendo impedidos pelo contratante de retornar para Teixeira de Freitas, cidade de residência.

Ainda de acordo com o site todos estavam sendo mantidos e sobrevivendo em condições sub-humanas e foram aliciados na cidade natal com promessas de bons ganhos. Encontrados passavam por necessidades no lugar de repouso. O acusado pela situação não foi preso.

Os acontecimentos citados evidenciam o fato de que, nas relações estabelecidas, a proteção jurídica é muito importante para o trabalhador fronteiriço, cuja área de atuação é bem mais ampla, perigosa e complexa do que se pode imaginar dentro das delimitações oficiais da região.

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Daniel Rocha da Silva*

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Os teixeirenses “farofeiros”

Por Daniel Rocha

Até a década de 1990 o costume de organizar passeios coletivos, preparar e comer farofas na praia, rendeu aos teixeirenses o apelido de “farofeiros”. As excursões eram organizadas por homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras, que ao fazer isso permitia aos mais pobres acessar a praia.

Para saber mais sobre esse tipo de turismo conversei em  informalmente com duas moradoras da cidade,  Folha Lima e Aurenice Nunes que tem boas lembranças deste período.

A Moradora do Bairro Jardim Europa, Folha lima de 48 anos, por exemplo, recordou com alegria que organizou esse tipo de passeio no bairro do Ulisses Guimarães na década de 1990.  Durante o bate- papo  ela detalhou que a organização do passeio começava com o levantamento dos custos e a definição do destino, Alcobaça ou Prado. Em seguida saia pelas ruas do bairro procurando interessados.

Com a lista de excursionistas fechada, os moradores pagavam o valor definido para o aluguel do carro, ônibus ou caminhão, comprar bebidas e  o frango para fazer a farofa, detalhou .

Ainda de acordo com a moradora, a farofa era no geral feita com frango, porém na falta da carne nada impedia que outro tipo fosse utilizado, recordou, por exemplo, que em uma oportunidade fez uma farofa com “Bofe bovino”.

Antes do dia do embarque, todos os passageiros eram comunicados do local e horário, no bairro o ponto de partida era enfrente a igreja Católica onde todos os moradores deveriam estar as 5h00 da manhã.

No destino os “farofeiros” armavam barracas e em algumas ocasiões faziam churrascos animados por pagodeiros da turma, como bem lembra ter acontecido no verão de 1994 em Alcobaça.

Folha revelou que nunca ouviu ou sentiu se ofendida com conversas ou observações depreciativa e preconceituosa por parte dos moradores e tão pouco dos turistas. “Se juntavam ao grupo para brincar e comer farofa chamando uns aos outros de farofeiros. Era um tempo bom de namoro e boas amizades, todo mundo era unido”, disse ela.

No bairro São Lourenço também  era muito comum à realização deste tipo de passeio para Alcobaça. Afirmou  Aurenice Nunes que no final da década de 1980 e início da década de 1990 participou de algumas  organizadas pelos vizinhos que costumavam fretar ônibus para o passeio. “Ficava mais barato”.

Tal como no Ulisses Guimarães, o grupo de passageiros era formado  por rapazes e moças, trabalhadores do comércio, autônomos, estudantes e domésticas, famílias e moradores de outras parte da cidade que iam subindo ao longo do percurso. “Saíamos cedo para voltar no finalzinho da tarde”.

De acordo com os relatos das moradoras durante o passeio acontecia de tudo e mais um pouco. Namoros na praia que se estendia ao mar, pais preocupados com crianças, brigas  por conta de interesses amorosos ou motivada por bebidas, brincadeiras e sátiras envolvendo a divisão da farofa e os trajes de banho de alguns, tudo sem interferências internas e sem rancor no final.

Conforme enfatizam os relato a farofa ainda faz parte da rotina de veraneio de alguns moradores principalmente na virada do ano quando o discurso consumista ligado ao turismo e o forte calor atiçam nas pessoas o desejo de ir à praia.

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Daniel Rocha da Silva*

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O texto foi originalmente publicado em 2016 no site tirabanha. Versão adaptada.

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Veja também:

Filmes que marcaram época na cidade: O exorcista

Flamengo: uma paixão teixeirense

Por Daniel Rocha

Teixeira de Freitas é uma cidade apaixonada pelo Flamengo desde a sua formação há mais de 40 anos. Embora não exista uma estatística oficial sobre o assunto, informações sobre a relação do time no passado e o hábito dos torcedores de sair às ruas e ocupar bares com suas camisas vermelhas não deixa dúvida que , mais do que uma atividade de distração, torcer pelo o time é uma obrigação amorosa.

Tanto que a cidade tem um Consulado e uma Embaixada oficial, o “Fla Texas”, criadas por grupos de amigos para organizar atividades sociais, viagens ao Maracanã e reunir fãs durante as transmissões dos jogos em locais específicos como ,por exemplo, a Caldaria e Cia, localizada na Avenida São Paulo, onde acompanhei a vitória do Flamengo sobre o Grêmio pela semifinal da Taça Libertadores da América 2019, no dia 23 de outubro.

Caldaria sempre lotada

No local, além de saborosos lanches, petiscos e bebidas, encontrei orgulhosos rubro-negros, jovens e adultos, trabalhadores de todas as classes, prestigiando o jogo televisionado com a mesma vibração da torcida que em 2009 ocupou todo o centro da cidade para comemorar a conquista do Hexacampeonato nacional.

Reação esperada diante de uma equipe formada com alguns dos melhores jogadores da temporada que ao conquistar vitórias, como a de 5×0 sobre o Grêmio,  colabora para o avanço da paixão local pelo time, sentimento que na verdade é bem mais antiga do que se pensa.

Torcedores de todos os times

Segundo o historiador William Moacir Dethling, na década de 1960 o time amador “Cruzeiro”, uma das primeiras equipes do então povoado de Teixeira de Freitas, também era conhecido como “Flamenguinho” porque jogava vestidos com a camisa do Flamengo, sendo muito popular. O time costumava jogar com outros da região e tinha como lugar de treinamento a antiga praça da TeleBahia. 

Uma prova que o sentimento pelo time vem de longe e contribuiu para formação cultural da cidade que cresce apaixonada pelo clube carioca que ainda hoje incentiva novas formas de interação social, coletiva e de consumo dos torcedores locais. A empolgação dos torcedores permite considerar isso.

Fonte: 

DETHLING, William Moacir. Teixeira de Freitas entra em campo: A história do futebol da cidade de Teixeira de Freitas entre os anos de 1970 e 2000. UNEB – X. 2011.