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O DIA EM QUE A TERRA PAROU

Esta é uma das canções mais conhecidas de Raul Seixas, o “maluco beleza”, que se dizia capaz de se comunicar com extraterrestres, além de ter sido profundamente conectado com os movimentos de contracultura de sua época. Será que Raul realmente teve um sonho do que realmente está acontecendo nos dias atuais?

Considerado o pai do rock ‘n’ roll no Brasil, e grande cinéfilo, Raul compôs esta canção após ter assistido ao filme “O dia em que a Terra parou”, de 1951, dirigido por Robert Wise. No filme, o personagem Klaatu (Michael Rennie) , acompanhado do robô Gort, são enviados por uma federação de planetas para ordenar que o povo da Terra pare seus testes nucleares.

De lá para cá, o mundo não somente ampliou os armamentos de guerra, como também aumentou a devastação do planeta, com os altos índices de consumo, característica primordial do capitalismo global.


Em um dos seus versos, a canção diz “que o professor não tem mais nada a ensinar” e “o médico não tem mais nada pra curar”, evidenciando uma certa ironia, característica muito presente na maioria de suas composições, visto que o conhecimento é infinito e está sempre em questionamento, e é claro, os médicos hoje têm muito para curar.


De qualquer forma, a letra da música prevê o colapso do sistema, que para o sociólogo Émile Durkheim, deve ser harmonioso entre todas as suas partes, o que evidentemente, não acontece nos dias que correm, haja visto a crescente desigualdade social, a vilolência, a degradação constante do planeta, exaurindo-se aos poucos, para dar conta da sede de consumo da sociedade moderna.

Os sinais são visíveis, como os recentes incêndios na Austrália, as queimadas e a degradação na Amazônia, o aumento da temperatura do planeta, ano após ano. E eis que de repente, como diz na canção “O dia em que a Terra parou”, somos obrigados a ficarmos confinados em nossas casas, levando-nos a um encontro consigo mesmos e com o próximo, e como sempre acontece nesses casos, o homem é levado a refletir sobre o sentido e o valor da vida, e isso não aconteceria, se dependesse da simples boa vontade de todos.

É triste, é penoso , é sofrido, tudo o que está acontecendo, e ficamos abismados, quando vemos países ricos e desenvolvidos sem ter muito o que fazer, e quando constatamos que a ciência e a tecnologia, em que pese o seu desenvolvimento, não tem nenhum domínio sobre a natureza.


Em meio a tudo isso, percebemos que o Estado ainda tem um papel forte e gerenciador na economia, e que o nosso SUS é uma grande conquista do povo brasileiro, que necessita na verdade, de mais apoio e incentivo. Que após vencermos estas dificuldades e este momento atual, possomos nos tornar pessoas melhores, mais humanas e fraternas.

ERIVAN SANTANA
Crônica publicada no jornal A Tarde, Salvador, 23/03/2020

Caravelas 1885: Epidemia matou milhares na cidade

Por Daniel Rocha 

Dos males que assustam a humanidade, as grandes epidemias infecciosas são as mais assustadoras. Como em outros lugares do país e do estado a população de algumas cidades do extremo sul da Bahia também encarou epidemias mortais ao longo da história, como a cólera que levou sofrimento e desolação a Caravelas em 1885. 

Segundo Onildo Reis David, entre 1855 -1856 uma devastadora epidemia de cólera-morbus levou pânico e medo na população da cidade de Salvador que desconhecia completamente a doença. Nesse cenário os médicos não estavam bem orientados sobre a prevenção e o tratamento. 

No seu início a doença causou a morte de 08 a 10 pessoas por dia e a população desesperada passou a associar a doença a um castigo divino. “As preces e as procissões de penitência sucediam-se na flagelada cidade do Salvador.” 

O adoecimento de trabalhadores ligados à produção e transporte agravou ainda mais a situação provocando uma crise de abastecimento e a carestia de produtos básicos. A doença se espalhou e chegou a outras cidades portuárias da província, estado, como Caravelas. 

Na portuária Caravelas a doença chegou pouco tempo depois de ter se manifestado em Salvador atingindo uma população já traumatizada pelo surto de disenteria de sangue que atacou a população dois anos antes, 1853. Segundo Ralile, um surto de “Cólera Morbus”  que já tinha dizimado parte da população. 

O drama diante da situação fez com que algumas medidas fossem tomadas para evitar o contágio. Moradores desolados passaram a marcar paredes e portas das residências dos contaminados com uma cruz vermelha e a seguinte frase: “Passa de largo, o cólera-morbus visitou esta família.” 

O governo da província, fez chegar à cidade remédios, auxílio e os médicos José Cândido da Costa e Ernesto Muniz Cordeiro Gitahy, caravelense formado pela Faculdade de Medicina da Bahia que com o amigo José, lutou arduamente contra o cólera.  

Sobre a passagem da doença por outras localidades próximas observou Said (2011) “Não há notícias em Alcobaça de vítimas de epidemia da cólera que abalou Caravelas na década de 1850, mas é bem provável que tenha havido vítimas, sim. De qualquer forma, o medo de epidemia e doenças vindas de vilas vizinhas era constante. A câmara municipal vivia pedindo ao governo provincial o envio de medicamentos para que a população pudesse se precaver de contágios vindo de Prado, por exemplo”. 

A epidemia manteve se ativa até finais de abril de 1856, quando depois de matar cerca de 36,000 começou a declinar.  Segundo Luís Henrique Dias Tavares, sem esgotos, a cidade do Salvador manteve-se aberta às moléstias infectocontagiosas que vez ou outra atacavam sua população, não é difícil supor era também a realidade de Caravelas 

 
Citações e Referência. 

SAID, Fabio M. O clã Muniz de Caravelas e Alcobaça. São Paulo: edição do autor, 2010. p. 39. 

SAID, Fabio Medeiros. História de Alcobaça Bahia(17721958). São Paulo.p. 92 

David. Onildo Reis. UFBA. O inimigo invisível: epidemia do cólera na Bahia em 1855-56.  1993. p 07,08,09,10. 

Japoneses na conquista do Nordeste: 40 anos da colonização Japonesa no Sul da Bahia.  

Caravelas, BA: Fundação Professor Benedito Ralille, 2006.  

 
Daniel Rocha da Silva* 

Historiador graduado e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. 

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Foto :Fundação Professor Benedito Ralille, 2006 

Surtos e epidemias na história de Teixeira de Freitas – Parte 01

Por Daniel Rocha

A Pandemia do Coronavírus está longe de ser a primeira doença na história que preocupou o país e os teixeirenses. Surtos e epidemias como o da paralisia infantil (1968) e do cólera (1992), marcaram a história de Teixeira de Freitas.

Em 1968 o país enfrentou um terrível surto de Poliomielite (paralisia infantil) que afetou diversas crianças e em Teixeira de Freitas. Na época o hospital mais próximo ficava em Caravelas e o acesso era difícil. No povoado Teixeirense havia apenas um consultório médico que atendia mediante pagamento e  que não disponibilizava a vacina. 

Propaganda de um consultório médico de Nanuque de 1968

A vacina de Sabin, que combate a doença, estava disponível para quem podia pagar em cidades próximas como Nanuque (MG) e Linhares (ES). ” Muitas crianças morreram por falta de dinheiro para pagar por consulta”, afirmou a moradora Antônia Silva em 2011.

Entre 1964 e 1974 cidades do interior e algumas capitais do país, apresentaram expressivo aumento na taxa de mortalidade infantil, evidenciando que naquele período as mortes estavam relacionadas a falta de um sistema público de saúde e não a quantidade de hospitais e médicos. Faltava um sistema público de saúde organizado para a execução de estratégias preventivas.

Já em Janeiro de 1992 o Jornal do Brasil noticiou que Várias equipes de sanitaristas da vigilância epidemiológica do estado, órgão do SUS, estavam espalhadas em pontos estratégicos da Bahia: “Uma delas está atuando na cidade de Teixeira de Freitas, passagem dos ônibus que vêm de São Paulo, Rio e Espírito Santos e outros entroncamentos rodoviários no estado para conter a entrada da cólera.”

Rito fúnebre. Enterro. Av Castelo Branco 1975

Já em 1993, quando a doença avançava na cidade de Salvador e em todo o estado baiano o jornal Tribuna da Bahia de 21/03/1993, destacou: “Cólera ameaça 88% da população”. Segundo o periódico a epidemia teve início em 1992 e avançou por falta de medidas para contê-la”, já que era redutível por saneamento.

Em Teixeira, alguns pais moradores de áreas mais segregadas e sem saneamento, preocupados com a notícias e confiantes na crença de que o alho afastava a doença, confeccionaram pequenos cordões contendo uma bolsinha costurada com alho para uso dos filhos na escola, o que não impediu que crianças com alguns sintomas suspeitos fossem internadas e tratadas nos hospitais conveniados aos SUS, Santa Rita, Sobrasa, além do estadual Hospital Regional que com toda dificuldade impediu um mal maior.Até 1997, o Centro de Saúde Mãe Maria era a única unidade de saúde que ofertava vacinas para imunização no município. 

A partir de julho de 1998, com a municipalização da saúde foram abertos novos postos de saúde que hoje cobrem mais de 90% do município democratizando os serviço de vacinação e assistência médica em todos os bairros da cidade que no presente se encontra assustada com o coronavírus que alastra pelo mundo.

Fontes e Referências

MAZZOLENIS, Sheila. Almanaque Abril de 1981, são Paulo: Abril, 1981.MARTINELLI, Maria Lúcia. Serviço Social: identidade e alienação: 2° ed. São Paulo: Cortez, 1991.

Dos Santos.Jonival Alves, Dos Santos. Eliomar Pires.O tratamento médico e as práticas populares em Teixeira de Freitas nas décadas de 1960 e 1970. Uneb 2011.

Motorista é o primeiro caso de cólera na Bahia. Jornal do Brasil.  28/01/92

Tribuna da Bahia 18 de junho de 1992. Anais da Câmara dos deputados – Volume 18,Edição 27 – Página 17907

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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Foto da capa: Av. Castelo Branco. Autor e ano desconhecido.

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Movimento separatista de 1988: O posicionamento de Teixeira de Freitas e Itamaraju

Por Daniel Rocha

Em 1988 foi à vez da cidade de Itamaraju se tornar por alguns dias, simbolicamente, a capital do Estado da Bahia. Tal como fez o antecessor Antônio Carlos Magalhães (PFL) na década de 1970 elevando Teixeira de Freitas a essa posição, o governador Waldir Pires (PMDB), acompanhado de todos os seus secretários, elegeu a cidade capital simbólica e despachou durante dois dias no município.

Do mesmo modo que nas primeiras transferências para região em 1970, outro movimento separatista pedia uma nova divisão do Brasil e  emancipação do Sul e Sudoeste Baiano e parte de Minas Gerais para a criação do Estado independente de Santa Cruz. O movimento foi incentivado pelos produtores de cacau da região sob a liderança do prefeito de Itabuna Fernando Gomes, na época deputado Federal pelo PSDB.

Mapa mostra movimentos que pediam a criação de novos estados no país

O estado seria formado pelo desmembramento de áreas dos Estados da Bahia e Minas Gerais, englobando 153 municípios do primeiro e 12 do segundo, transferindo para Minas Gerais parte do mar da Bahia, através de municípios como Alcobaça, Caravelas e juntando cidades como Ibirapuã, Lajedão, Medeiros Neto e Nova Viçosa a outras mineiras.

Em 18 de Agosto de 1987 o assunto fez parte da pauta de uma reunião orquestrada por lideranças políticas do extremo sul, Deputado Maurício Cotrim. O evento foi realizado na Câmara Municipal de Itamaraju que na época nutria grande insatisfação com a política estadual para com o município. “Atualmente no extremo sul do estado, existe um grande número de pessoas que esperam a pronta divisão do estado, inclusive vereadores locais,”destacou  o jornal A tarde.

Campanha do governo do Estado de 1988 contra o movimento de divisão da Bahia

De acordo com um Informativo Publicitário de 1988, o então prefeito da cidade de Teixeira de Freitas, Temóteo Brito, em seu primeiro mandato,  também estava insatisfeito com a política estadual de repasse de recursos do estado governado pelo adversário de seu grupo político e apostava na divisão  da Bahia para obter recursos necessários às demandas da cidade.

” O Extremo sul deveria ser desmembrado e vinculado posteriormente ao Estado de Minas Gerais, debatendo a máxima de que ‘dividir a Bahia é dividir Caetano Veloso’. Na sua opinião, Minas sempre almejou este casamento que propiciaria ao estado uma abertura para o mar e em consequência, um futuro corredor de exportação”,  algo que beneficiaria o município que tinha como principal atividade econômica a agricultura e a pecuária ligada a fronteira mineira.

Tais reações podem ter motivado a transferência simbólica  da capital para a cidade de Itamaraju onde o governador Waldir Pires lançou um programa para o desenvolvimento econômico e social da região, que, por falta de infraestrutura, vinha sendo fortemente influenciado pelos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo e enfrentava uma estiagem sem precedentes.

O governador foi  recebido com grande entusiasmo pela população e membros do MST local que perseguidos por pistoleiros esperavam a concessão de áreas para assentar famílias acampadas, muitas expulsas de suas terras pela grilagem.  O projeto conservador para a criação do Estado de Santa Cruz foi derrotado na Câmara Federal por não ser considerado viável financeiramente, tal como outras propostas existentes na época. 

Fontes:

Bahia de todos os fatos: cenas da vida republicana, 1889-1991. Front Cover. 1997 – Bahia

Memórias das Trevas – uma Devassa na Vida de Antônio Carlos Magalhães. João Carlos Teixeira Gomes; Ano: 2001; Editora: geração editorial. 

Informe Publicitário. 1988. Arquivo site tirabanha

Deputados fazem debate em Itamaraju. A tarde. 18/08/1987.

Daniel Rocha da Silva*

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Veja também:

TEIXEIRA DE FREITAS FOI CAPITAL DA BAHIA POR ALGUNS DIAS

Teixeira de Freitas foi capital da Bahia por alguns dias

Por Daniel Rocha*

Você sabia que Teixeira de Freitas já foi a capital da Bahia? Em algumas ocasiões o então povoado se tornou por alguns dias a capital simbólica e administrativa dos baianos. Mas por que isso ocorreu?

Em 1971 o então povoado de Teixeira de Freitas recebeu a visita do governador do estado da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, ACM, que simbolicamente a transformou em capital administrativa do estado por alguns dias.

Na ocasião o governo travava uma intensa guerra fiscal com Minas Gerais e Espírito Santo devido à retirada sem controle de madeiras extraídas no seu território da região. No momento o governador assinou um decreto proibindo a saída exigindo o beneficiamento na Bahia. Segundo fontes o decreto obrigou a instalação na cidade de diversas empresas madeireiras.

Vista do trevo da cidade. Av. Getúlio Vargas em direção ao centro.

Outras fontes sugerem que em um segundo momento o governador voltou a usar da mesma estratégia antes de terminar o mandato em 1974. Segundo o livro: Bahia de todos os fatos. Cena da Bahia Republicana 1889 – 1991, o governador despachou por dois dias com o seu secretariado, tornando o povoado como capital provisória do estado durante o tempo que esteve na região.

No período o governador ACM fazia uma política de interiorização do governo estadual para o fortalecimento do seu nome, já que ele vinha perdendo apoio no seu principal reduto, a capital Salvador.

Segundos os historiadores Jailson Guerra e Leonardo Alves a visita do governador fez parte da política de expansão do território iniciado pelo governo naquele ano.

Na mesma época, um tímido movimento separatista conservador discutia a emancipação do extremo sul da Bahia e parte do Vale do Mucuri ,Minas Gerais, que pretendia formar um Estado independente para fugir do “atraso e abandono” que se encontrava a região fronteiriça com a Bahia, historicamente ligadas pela estrada de ferro Bahia – Minas, extinta em 1966.

Já em 1988 a cidade de Itamaraju se tornou por alguns dias, simbolicamente, a capital do estado. Não perca os detalhes na próxima postagem.

Daniel Rocha da Silva*

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A COR DA ESPERANÇA

Os dias sombrios se sucedem

Na plena era da luz

Marielle, João, Pedro

E alguém que não é ninguém

Perdem a vida sob a égide

Do preconceito, da estupidez

A alma chora, o corpo pesaroso

Teima em despertar e pisar o chão

Faço destes versos um vicejar

De esperança, uma oração

Mas a poesia, acabrunhada, tímida

Retorna de mãos vazias.

Não vês que estás por demais

Espirituoso, meu pobre poeta?

ERIVAN SANTANA.

O poema “A cor da esperança”, recebeu Menção Honrosa no Prêmio Castro Alves de Literatura 2020,versão interna da Academia Teixeirense de Letras.


Relatos sobre a tragédia na “Biquinha” do Teixeirinha

Por Daniel Rocha

Esse registro é sobre  um acidente ocorrido no início da década de 90 na “Biquinha do Teixeirinha” uma nascente de água pura e cristalina que fica entre os bairros Teixeirinha e Colina Verde largamente usada pelos  trabalhadores comuns, moradores do bairro, para realização de atividades domésticas, abastecedoiro de água e lazer.

Até o início da década de 90, embora a cidade já contasse com um sistema de abastecimento, a busca por água em locais impróprios e mal conservados era muito comum na cidade. Isso ocorria em partes devido o abastecimento irregular e a má qualidade dos serviços prestados pelo empresa de abastecimento do Estado.

Foto: Autor desconhecido

Esse cotidiano de dificuldades e perigo se encontra hoje memorizado e presente nos relatos dos moradores Elenildes Pinheiro, Valfrido de Freitas Correia, Ricardina Maria e Marcos Silva, que recordam um triste acidente que aconteceu naquele lugar quando o teto da fonte, que se assemelhava a uma caverna, desabou vitimando quatro pessoas presentes no local.

Sem saber qual foi o ano exato do ocorrido, conta a moradora Elenildes Pinheiro que a tragédia vitimou uma mulher e três filhos que estavam no local no momento do sinistro  causado pelo período chuvoso que encharcou a terra e favoreceu o desabamento.

Por sua parte, Ricardina Maria, criada no bairro, traz outra versão sobre a causa, conta que havia no local a retirada predatória do barro branco, ideal para a construção de fogões de lenha, que enfraqueceu a base da fonte levando ao desabamento. Relato que vai de encontro às lembranças do senhor Valfrido de Freitas Correia que também associou  a tragédia a retirada predatória do barro.  

Fonte construída logo a frente do local onde ocorreu o desabamento. Ano 2014

Já Marcos Silva, criado frequentando a Biquinha, filho de lavadeira,  conta que o acidente foi causado pelo excesso de chuva e extração do barro branco no local. Extração, como lembrado, que enfraqueceu as paredes que cederam com excesso de chuva que encharcou o solo.

Ainda sobre, recordou que na época o comentário era de que sete pessoas , entre lavadeiras, “aguaeiras” e crianças,  morreram no local, mas que apenas três corpos foram retirados. Por fim, de acordo com a perspectiva de Marcos os fatos narrados aconteceram entre os anos de 1991 e 1992 na “Biquinha do Teixeirinha,” uma nascente de água pura e cristalina que fica entre os bairros Teixeirinha e Colina Verde que era largamente usada pelos moradores do bairro.

Daniel Rocha da Silva*

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 Fontes:

Ricardina Maria. Conversa informal em 12/2014

Enildes Pinheiros. Conversa informal em 12/2014

Domingos Cajueiro Correia. Conversa informal com Valfrido de Freitas Correia. 11/2014

Marcos Silva. Conversa informal em setembro 2019.

Uma história da “Praça do Shopping”

Por Daniel Rocha

A praça Hilton Chicon, conhecida popularmente como “ Praça do shopping, foi construída no período de 1995 e 1996, e é uma das maiores atrações da cidade, Este nome teve origem devido a sua proximidade com o Shopping Teixeira Mall. A praça possui  espaço amplo e é cercada por inúmeras memórias, observações e lembranças.

Domingos Viana, que mora  próximo a praça, relata que antes da sua construção aquela área era uma grande lagoa natural. Nas mediações existia uma serraria por nome “Divilan” que tal como outras jogava  detritos da madeira naquela área da lagoa até então coberta por uma vegetação chamada “taboa”. 

A vegetação alta por sua vez era usada por alguns casais de namorados para encontros amorosos escondidos. Em algumas ocasiões a lagoa também servia como esconderijo para “pivetes” e “assaltantes” que praticavam assaltos no centro da cidade.

Praça do Shopping: ano desconhecido

Neste cenário, preocupado com o grande número de crianças na rua o Sr. Domingos resolveu aproveitar um campinho de pó de serra popularmente chamado de “Fofão” para desenvolver um trabalho com as crianças do bairro formando então uma “escolinha de futebol. O trabalho que teve continuidade na “Praça da Rinha” evoluiu em outros espaços, como o Ginásio de Esportes, onde ficou até 2006.

Além disso, segundo a perspectiva do senhor Domingos, a lagoa era lugar de vida abundante, cobras, insetos e rãs tomavam conta da área quando chovia demasiadamente. Na época, a era uma iguaria apreciada por alguns moradores e por essa razão ele e alguns adolescentes entravam na lagoa durante a noite para capturar o anfíbio para vender aos interessados, (bares e hotéis).

“Íamos durante a noite com um saco de plástico desses de arroz para colocar as rãs e uma lata de óleo com uma vela dentro, uma lanterna improvisada, catando as maiores para vender, tinha boa saída… Perto da praça era a parte mais funda da lagoa, onde se encontrava mais rãs, até hoje a chuva vem, só que não acha a lagoa….. Só o Shopping.”

Domingos, primeiro da direita para esquerda. Escolinha de Futebol

Já sua esposa, Doracy Pereira, trabalhadora como todos os moradores do lugar, lembra se das dificuldades vividas em períodos de chuva e das antigas valas de drenagem e esgoto que cortava o Bairro da Lagoa e suas mediações. De acordo  com as suas lembranças durante os episódios de alagamento as águas das valas empurrava para dentro das casas insetos, cobras, lagartos e até preás. O mau cheiro do esgoto doméstico jogado na via era tanto que incomodava os moradores da Rua Tomé de Souza.

“Para atravessar a vala tinha que passar por uma “pinguela” de madeira”, improvisada como ponte. “Cansei de tirar gente de dentro que caiu após se desequilibrar, era comuns bêbados, crianças…. Isso tudo aqui na porta de casa, a poucos metros da Praça”.

Depois desta etapa houve a construção da praça, onde no final dos anos 90 e toda década de 2000,  um coreto que existia na paragem se tornou o palco preferido dos apaixonados estudantes que usavam aquele lugar para antecipar seus primeiros beijos e amassos, atitude comum entre os jovens que também ocupavam o lugar para fazer música, praticar esportes e fumar, rotina prejudicada pelo abandono e desleixo que tomou conta do lugar com o tempo.

Tanto que em 2009 o poeta e cronista Zarfeg escreveu na sua coluna no site de notícias Teixeira News um texto que no presente se mostra mais atual do que nunca, como pode ser observado no trecho:

“Me permitam narrar as tristes impressões que me causou a recente visita que fiz à Praça Hilton Chicon, situada no coração de Teixeira de Freitas. (…) À primeira vista, a impressão que se tem é que o shopping vai afundar a qualquer momento no meio de tanto abandono político-administrativo. E chegamos ao xis da questão: a drenagem do shopping foi sempre tratada com descaso pelas últimas administrações, mas é, reconhecidamente, a única forma de transformar aquele espaço público decadente em motivo de orgulho para os teixeirenses. A verdade é que chegamos ao ponto em que adiamentos e promessas não bastam. É preciso compromisso, ação, mãos à obra, que a cidade tem pressa”.

Fontes

A. Zarfeg. A praça é ou não é do povo? Teixeira News. 31/01/2009. Acessado Março de 2009. Acervo site Tirabanha.com.br.

Conversa informal com Domingos Viana. Maio de 2016. Março de 2019.

Daniel Rocha da Silva*

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Fotos: Ano desconhecido. 

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O novo e o velho: A dualidade teixeirense

Por Daniel Rocha

Você já disse frases como: vou a  Rodoviária Velha, Rodoviária Nova, ao Shopping Velho, ao  Shopping novo, ao invés de se referir a esses endereços pelos nomes corretos? Você já parou para pensar o porquê nós, os teixeirenses, usamos o termo “novo” e “velho” para denominar esses  e outros espaços? 

Rodoviária Velha 1985. O velho cotidiano

Esse jeito de se referir aos antigos espaços reclassificados com novos noves deixa transparecer a influência exercida pela Ideologia desenvolvimentista que nasceu no país nas décadas de 1930 e 1950, e foi incorporada à perspectiva patriótica das décadas de 1960 e 1970 e chegou a região invocada pela abertura de estradas, como a BR-101, exploração da madeira e o próprio surgimento do povoado teixeirense.

O discurso alimentou a crença de que somente os maciços Investimentos em urbanização e a industrialização levariam o país ao patamar de desenvolvimento desejado. Percepção que no passado chegou ao fim com a crise econômica do início da década de 1980, que mudou a perspectiva dos brasileiros em relação ao futuro e levou a sociedade a requerer direitos de acesso à saúde, educação e assistência social.

Novo Terminal: novas iterações

Entretanto, em Teixeira de Freitas, durante o processo de eleição para escolha do primeiro prefeito da cidade emancipada, em 1985, o discurso foi repaginado e mesclado à esperança de que com autonomia a cidade iria definitivamente se desenvolver com a chegada de empresas e asfaltamento de ruas.

Embora tenha favorecido, com o tempo  também ficou claro que esse chamado desenvolvimento tendia em partes a justificar discursos políticos e investimentos que pouco ajudaram resolver as necessidades básicas da população sujeita ao discurso divulgado em sites e jornais propagandistas  das aplicações do poder administrativo.

Antigas interações no fundo da “Rodoviária Velha.” Senhora Diomar ( camisa Branca) e Angelina ( camisa vermelha) de chapéu o Luiz do Jogo do Bicho. Foto: Ernani Silva.

Contudo, ao reclassificar com novas nomenclaturas os populares reagem criando propriedades dialógicas mostrando que é necessário diante de qualquer avanço estabelecer relação entre o presente e o  passado, nem sempre valorizado pelos desenvolvimentistas.

Assim, em tese, ao classificar com os termos “novo” e “velho” os populares fazem lembrar que  os lugares abandonados de sua função originais como a Rodoviária Velha, são lugares de memória e de interações sociais vividas pela comunidade, para que nossas lembranças e  identidade não seja apagada pelo eterno desejo de progresso contínuo.R

Daniel Rocha da Silva*

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Fotos:  Rodoviária . Revista Banco do Nordeste 1985

Vendedores ambulantes. Foto de
Ernani Silva.

Fontes:

MELLO, João Manuel Cardoso; NOVAIS, Fernando A. Capitalismo tardio e sociabilidade moderna: Companhia das Letras.SAID, Fabio Medeiros. História de Alcobaça – Bahia (1772-1958). São Paulo.

TEIXEIRA DE FREITAS – DITOS E NÃO DITOS: Uma cidade em disputa de memórias. LILIANE MARIA FERNANDES CORDEIRO GOMES.

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Teixeira de Freitas 1988: Uma história do “Mercadão”

Na feira a interação social é a protagonista das mais espantosa realidade e histórias. A  da feira do Centro de Abastecimento de Teixeira de Freitas, mais conhecido como “Mercadão”, data de muito antes da sua inauguração  em 1989 e revela um acontecimento que o povo não esquece.

Segundo um dos relatos sobre,  tudo começa na década de 1970 quando a igreja e os comerciantes do centro do povoado de Teixeira de Freitas, extremo sul da Bahia, fizeram um abaixo-assinado contra a realização da feira de domingo na então praça São Pedro, hoje conhecida como Praça dos Leões,  porque a mesma escravizava lojistas e feirantes no dia sagrado.

Diante disso, a prefeitura de Alcobaça transferiu a para um espaço na praça da Bíblia, um pequeno Mercado Municipal erguido na administração do prefeito Amazias Barreto de Morais em 1968. Contudo a feira ficou na contramão do povoado e por essa razão os feirantes e camelôs deram  início à realização de uma nova feira livre onde hoje é o Mercadão. 

Feira da “Pausoeira”: Foto Junior Guimarães de Pádua

“Disseram que onde eles estavam na praça da Bíblia era muito longe. E era verdade, ninguém queria vir comprar. Eu falei para os feirantes pegar as coisas de madrugada e voltar para antiga praça. O prefeito de Alcobaça era contra, mas eu disse a ele que “a feira da Vila Vargas” está suplantando a daqui. O senhor quer que isso aconteça? Tempos depois mudaram de vez a feira para onde é hoje o Mercadão”, Narrou o senhor Godoaldo da Silva Amaral.

Devido a quantidade enorme de barracas de madeira  que se fixaram no espaço a nova feira foi apelidada pelos moradores de “Pausoeira”. Na versão contada por Godoaldo da Silva Amaral ao jornal Alerta em 2013, a cidade estava  se desenvolvendo, por isso a feira foi transferida para o local onde hoje fica a praça da Bíblia para dar lugar a abertura da Praça São Pedro/ Praça dos leões. 

Em tese, como na Praça São Pedro, na  “Pausoeira” o comércio corria livre ,ou seja, qualquer um podia colocar uma barraca para vender sem ter que prestar esclarecimento ou pagar impostos, como vinha ocorrendo no Mercado da praça da Bíblia. Porém na década de 1980 um triste acontecimento pôs fim a essa liberdade.

Feira da Pauzoeira

De acordo com a ex – feirante da “Pausoeira”, Ricardina Maria e moradores ouvidos pelo site em 2016,   um incêndio criminoso ocorrido em uma noite de 1986 destruiu toda o aglomerado de barracas que formavam a  feira reduzido a cinzas o ganha pão de muitos trabalhadores, um fato traumático no presente muito lembrado com lágrimas e silêncio.

“Ao perguntarmos sobre a causo do incêndio o feirante, meio desconfiado, diz ter sido alguém que mandou fazer o serviço, quem sabe por questões políticas.” Registrou Alzinete Ferreira e Talita Maia no trabalho monográfico “A feira livre, um olhar para a cidade de Teixeira de Freitas – 1960 a 2009.”

Segundo um Informe Publicitário de 1988, Teixeira de Freitas era  “um dos principais eixo de comercialização dos produtos hortifrutigranjeiros” da região, e para por essa razão foi  construído a Central de Abastecimento, o “Mercadão”, para incentivar a comercialização dos produtos agrícolas produzidos pela Agroindústria local. 

Centro de Abastecimento 1988

A construção do centro de Abastecimento foi autorizado pela Pela Prefeitura de Teixeira de Freitas em 1987 no valor correspondente, em cruzados, a 155.000,00. Para além da história oficial a construção, três anos depois da emancipação  política da cidade, revela um pouco de como se deu a apropriação do espaço pela administração  municipal que fez valer seu poder ordenando o território urbano para atender os interesses dos comerciantes e agricultores.

Fontes:

HOOIJ, Frei Elias. Os desbravadores do Extremo sul da Bahia, Belo Horizonte, 2011.

SANTOS, Alzinete Ferreira; MAIA,Talita Alves. A FEIRA LIVRE, UM OLHAR PARA A CIDADE DE TEIXEIRA DE FREITAS-1960 a 2009. UNEB-X 2010.

Brazil. Congresso Nacional, ‎Brazil. Congresso Nacional. Câmara dos Deputados – 1988.

Joranal Alerta. XVIII Nº 1392.

Referência.

Fotos: 

Feira da Pausoeira. Ano desconhecido. Fonte: Júnior Guimarães de Pádua. Disponível no Museu Virtual de Teixeira de Freitas.

Construção do Centro de Abastecimento. 1988. MR

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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