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Teixeira de Freitas 1971: A primeira agência bancária da cidade

No dia 20 de novembro de 1971 foi instalado no povoado de Teixeira de Freitas o Banco do Estado da Bahia (BANEB), a primeira agência do então povoado. A chegada da agência foi alardeada como o início de uma “ nova fase de progresso” para o lugar.

Antes, para realizar algumas atividades bancárias os moradores tinham que se deslocar até alguma cidade próxima, como Nanuque, para acessar serviços bancários e realizar transações financeiras. Com a agência o comércio do povoado que já sonhava com a emancipação cresceu ainda mais servindo como muleta para o desenvolvimento econômico da cidade.

“A agência pioneira terá requisitos de agência de alto estilo e à altura das congêneres das capitais pois somente o fato de possuir ar condicionado para o público demonstra o gabarito de sua classe. Começa, assim, uma nova fase de progresso para Teixeira de Freitas”, observou um jornal da época.

Com a instalação da agência o governador, Antônio Carlos Magalhães (1971 – 1975), cumpriu com uma das providências prometidas aos empresários e agropecuaristas durante o período que o povoado foi transformada na capital simbólica do estado por alguns dias como parte de uma política iniciada pelo Governador Lomanto Júnior ( 1963-1967) para inserir a região na dinâmica econômica do estado e diminuir a influência de Minas Gerais e do Espírito Santo nesta parte do território baiano.

No campo econômico, em tese, a agência dinamizou a circulação de dinheiro e facilitou a vida dos moradores  e dos empresários do povoado e possibilitou ao Estado o recolhimento dos tributos nos prazos legais. 

Para além disso, como ganho político, ACM fortaleceu sua narrativa propagandista de que o progresso do Extremo Sul ocorria em consequência da sua motivação investindo pouco no social. 

Agência BANEB 1999

Convém lembrar que no ano de 1979, por exemplo, com seus 33.031 mil habitantes Teixeira ainda não tinha rede de esgoto e o sistema de abastecimento de água instalado em 1974 já se mostrava deficitário  desde dia da inauguração e não tinha sequer uma biblioteca pública ou um mercado organizado para os feirantes. Realidade que perdurou até o final da década de 1980.

Sob essa perspectiva, é possível observar que o anunciado progresso não ocorreu por completo, pois no primeiro momento não trouxe investimentos para cidade que ainda no presente sofre com sérios problemas estruturais, sociais e urbano.

Fontes:

Governo vai inaugurar Agência Bancária. F N.  Novembro de 1971.

As origens.Banco do Nordeste. 1985. Pg 28.

HOOIJ, Frei Elias. Os desbravadores do Extremo sul da Bahia, Belo Horizonte.2012. Pg 65

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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Foto Principal: AV. Marachal Castelo Branco. Ivonildes Hoffman. Ano Desconhecido.

Caravelas 1885: Epidemia matou milhares na cidade

Por Daniel Rocha 

Dos males que assustam a humanidade, as grandes epidemias infecciosas são as mais assustadoras. Como em outros lugares do país e do estado a população de algumas cidades do extremo sul da Bahia também encarou epidemias mortais ao longo da história, como a cólera que levou sofrimento e desolação a Caravelas em 1885. 

Segundo Onildo Reis David, entre 1855 -1856 uma devastadora epidemia de cólera-morbus levou pânico e medo na população da cidade de Salvador que desconhecia completamente a doença. Nesse cenário os médicos não estavam bem orientados sobre a prevenção e o tratamento. 

No seu início a doença causou a morte de 08 a 10 pessoas por dia e a população desesperada passou a associar a doença a um castigo divino. “As preces e as procissões de penitência sucediam-se na flagelada cidade do Salvador.” 

O adoecimento de trabalhadores ligados à produção e transporte agravou ainda mais a situação provocando uma crise de abastecimento e a carestia de produtos básicos. A doença se espalhou e chegou a outras cidades portuárias da província, estado, como Caravelas. 

Na portuária Caravelas a doença chegou pouco tempo depois de ter se manifestado em Salvador atingindo uma população já traumatizada pelo surto de disenteria de sangue que atacou a população dois anos antes, 1853. Segundo Ralile, um surto de “Cólera Morbus”  que já tinha dizimado parte da população. 

O drama diante da situação fez com que algumas medidas fossem tomadas para evitar o contágio. Moradores desolados passaram a marcar paredes e portas das residências dos contaminados com uma cruz vermelha e a seguinte frase: “Passa de largo, o cólera-morbus visitou esta família.” 

O governo da província, fez chegar à cidade remédios, auxílio e os médicos José Cândido da Costa e Ernesto Muniz Cordeiro Gitahy, caravelense formado pela Faculdade de Medicina da Bahia que com o amigo José, lutou arduamente contra o cólera.  

Sobre a passagem da doença por outras localidades próximas observou Said (2011) “Não há notícias em Alcobaça de vítimas de epidemia da cólera que abalou Caravelas na década de 1850, mas é bem provável que tenha havido vítimas, sim. De qualquer forma, o medo de epidemia e doenças vindas de vilas vizinhas era constante. A câmara municipal vivia pedindo ao governo provincial o envio de medicamentos para que a população pudesse se precaver de contágios vindo de Prado, por exemplo”. 

A epidemia manteve se ativa até finais de abril de 1856, quando depois de matar cerca de 36,000 começou a declinar.  Segundo Luís Henrique Dias Tavares, sem esgotos, a cidade do Salvador manteve-se aberta às moléstias infectocontagiosas que vez ou outra atacavam sua população, não é difícil supor era também a realidade de Caravelas 

 
Citações e Referência. 

SAID, Fabio M. O clã Muniz de Caravelas e Alcobaça. São Paulo: edição do autor, 2010. p. 39. 

SAID, Fabio Medeiros. História de Alcobaça Bahia(17721958). São Paulo.p. 92 

David. Onildo Reis. UFBA. O inimigo invisível: epidemia do cólera na Bahia em 1855-56.  1993. p 07,08,09,10. 

Japoneses na conquista do Nordeste: 40 anos da colonização Japonesa no Sul da Bahia.  

Caravelas, BA: Fundação Professor Benedito Ralille, 2006.  

 
Daniel Rocha da Silva* 

Historiador graduado e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. 

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Foto :Fundação Professor Benedito Ralille, 2006 

Surtos e epidemias na história de Teixeira de Freitas – Parte 01

Por Daniel Rocha

A Pandemia do Coronavírus está longe de ser a primeira doença na história que preocupou o país e os teixeirenses. Surtos e epidemias como o da paralisia infantil (1968) e do cólera (1992), marcaram a história de Teixeira de Freitas.

Em 1968 o país enfrentou um terrível surto de Poliomielite (paralisia infantil) que afetou diversas crianças e em Teixeira de Freitas. Na época o hospital mais próximo ficava em Caravelas e o acesso era difícil. No povoado Teixeirense havia apenas um consultório médico que atendia mediante pagamento e  que não disponibilizava a vacina. 

Propaganda de um consultório médico de Nanuque de 1968

A vacina de Sabin, que combate a doença, estava disponível para quem podia pagar em cidades próximas como Nanuque (MG) e Linhares (ES). ” Muitas crianças morreram por falta de dinheiro para pagar por consulta”, afirmou a moradora Antônia Silva em 2011.

Entre 1964 e 1974 cidades do interior e algumas capitais do país, apresentaram expressivo aumento na taxa de mortalidade infantil, evidenciando que naquele período as mortes estavam relacionadas a falta de um sistema público de saúde e não a quantidade de hospitais e médicos. Faltava um sistema público de saúde organizado para a execução de estratégias preventivas.

Já em Janeiro de 1992 o Jornal do Brasil noticiou que Várias equipes de sanitaristas da vigilância epidemiológica do estado, órgão do SUS, estavam espalhadas em pontos estratégicos da Bahia: “Uma delas está atuando na cidade de Teixeira de Freitas, passagem dos ônibus que vêm de São Paulo, Rio e Espírito Santos e outros entroncamentos rodoviários no estado para conter a entrada da cólera.”

Rito fúnebre. Enterro. Av Castelo Branco 1975

Já em 1993, quando a doença avançava na cidade de Salvador e em todo o estado baiano o jornal Tribuna da Bahia de 21/03/1993, destacou: “Cólera ameaça 88% da população”. Segundo o periódico a epidemia teve início em 1992 e avançou por falta de medidas para contê-la”, já que era redutível por saneamento.

Em Teixeira, alguns pais moradores de áreas mais segregadas e sem saneamento, preocupados com a notícias e confiantes na crença de que o alho afastava a doença, confeccionaram pequenos cordões contendo uma bolsinha costurada com alho para uso dos filhos na escola, o que não impediu que crianças com alguns sintomas suspeitos fossem internadas e tratadas nos hospitais conveniados aos SUS, Santa Rita, Sobrasa, além do estadual Hospital Regional que com toda dificuldade impediu um mal maior.Até 1997, o Centro de Saúde Mãe Maria era a única unidade de saúde que ofertava vacinas para imunização no município. 

A partir de julho de 1998, com a municipalização da saúde foram abertos novos postos de saúde que hoje cobrem mais de 90% do município democratizando os serviço de vacinação e assistência médica em todos os bairros da cidade que no presente se encontra assustada com o coronavírus que alastra pelo mundo.

Fontes e Referências

MAZZOLENIS, Sheila. Almanaque Abril de 1981, são Paulo: Abril, 1981.MARTINELLI, Maria Lúcia. Serviço Social: identidade e alienação: 2° ed. São Paulo: Cortez, 1991.

Dos Santos.Jonival Alves, Dos Santos. Eliomar Pires.O tratamento médico e as práticas populares em Teixeira de Freitas nas décadas de 1960 e 1970. Uneb 2011.

Motorista é o primeiro caso de cólera na Bahia. Jornal do Brasil.  28/01/92

Tribuna da Bahia 18 de junho de 1992. Anais da Câmara dos deputados – Volume 18,Edição 27 – Página 17907

Daniel Rocha da Silva*

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Foto da capa: Av. Castelo Branco. Autor e ano desconhecido.

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Movimento separatista de 1988: O posicionamento de Teixeira de Freitas e Itamaraju

Por Daniel Rocha

Em 1988 foi à vez da cidade de Itamaraju se tornar por alguns dias, simbolicamente, a capital do Estado da Bahia. Tal como fez o antecessor Antônio Carlos Magalhães (PFL) na década de 1970 elevando Teixeira de Freitas a essa posição, o governador Waldir Pires (PMDB), acompanhado de todos os seus secretários, elegeu a cidade capital simbólica e despachou durante dois dias no município.

Do mesmo modo que nas primeiras transferências para região em 1970, outro movimento separatista pedia uma nova divisão do Brasil e  emancipação do Sul e Sudoeste Baiano e parte de Minas Gerais para a criação do Estado independente de Santa Cruz. O movimento foi incentivado pelos produtores de cacau da região sob a liderança do prefeito de Itabuna Fernando Gomes, na época deputado Federal pelo PSDB.

Mapa mostra movimentos que pediam a criação de novos estados no país

O estado seria formado pelo desmembramento de áreas dos Estados da Bahia e Minas Gerais, englobando 153 municípios do primeiro e 12 do segundo, transferindo para Minas Gerais parte do mar da Bahia, através de municípios como Alcobaça, Caravelas e juntando cidades como Ibirapuã, Lajedão, Medeiros Neto e Nova Viçosa a outras mineiras.

Em 18 de Agosto de 1987 o assunto fez parte da pauta de uma reunião orquestrada por lideranças políticas do extremo sul, Deputado Maurício Cotrim. O evento foi realizado na Câmara Municipal de Itamaraju que na época nutria grande insatisfação com a política estadual para com o município. “Atualmente no extremo sul do estado, existe um grande número de pessoas que esperam a pronta divisão do estado, inclusive vereadores locais,”destacou  o jornal A tarde.

Campanha do governo do Estado de 1988 contra o movimento de divisão da Bahia

De acordo com um Informativo Publicitário de 1988, o então prefeito da cidade de Teixeira de Freitas, Temóteo Brito, em seu primeiro mandato,  também estava insatisfeito com a política estadual de repasse de recursos do estado governado pelo adversário de seu grupo político e apostava na divisão  da Bahia para obter recursos necessários às demandas da cidade.

” O Extremo sul deveria ser desmembrado e vinculado posteriormente ao Estado de Minas Gerais, debatendo a máxima de que ‘dividir a Bahia é dividir Caetano Veloso’. Na sua opinião, Minas sempre almejou este casamento que propiciaria ao estado uma abertura para o mar e em consequência, um futuro corredor de exportação”,  algo que beneficiaria o município que tinha como principal atividade econômica a agricultura e a pecuária ligada a fronteira mineira.

Tais reações podem ter motivado a transferência simbólica  da capital para a cidade de Itamaraju onde o governador Waldir Pires lançou um programa para o desenvolvimento econômico e social da região, que, por falta de infraestrutura, vinha sendo fortemente influenciado pelos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo e enfrentava uma estiagem sem precedentes.

O governador foi  recebido com grande entusiasmo pela população e membros do MST local que perseguidos por pistoleiros esperavam a concessão de áreas para assentar famílias acampadas, muitas expulsas de suas terras pela grilagem.  O projeto conservador para a criação do Estado de Santa Cruz foi derrotado na Câmara Federal por não ser considerado viável financeiramente, tal como outras propostas existentes na época. 

Fontes:

Bahia de todos os fatos: cenas da vida republicana, 1889-1991. Front Cover. 1997 – Bahia

Memórias das Trevas – uma Devassa na Vida de Antônio Carlos Magalhães. João Carlos Teixeira Gomes; Ano: 2001; Editora: geração editorial. 

Informe Publicitário. 1988. Arquivo site tirabanha

Deputados fazem debate em Itamaraju. A tarde. 18/08/1987.

Daniel Rocha da Silva*

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Veja também:

TEIXEIRA DE FREITAS FOI CAPITAL DA BAHIA POR ALGUNS DIAS

Teixeira de Freitas foi capital da Bahia por alguns dias

Por Daniel Rocha*

Você sabia que Teixeira de Freitas já foi a capital da Bahia? Em algumas ocasiões o então povoado se tornou por alguns dias a capital simbólica e administrativa dos baianos. Mas por que isso ocorreu?

Em 1971 o então povoado de Teixeira de Freitas recebeu a visita do governador do estado da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, ACM, que simbolicamente a transformou em capital administrativa do estado por alguns dias.

Na ocasião o governo travava uma intensa guerra fiscal com Minas Gerais e Espírito Santo devido à retirada sem controle de madeiras extraídas no seu território da região. No momento o governador assinou um decreto proibindo a saída exigindo o beneficiamento na Bahia. Segundo fontes o decreto obrigou a instalação na cidade de diversas empresas madeireiras.

Vista do trevo da cidade. Av. Getúlio Vargas em direção ao centro.

Outras fontes sugerem que em um segundo momento o governador voltou a usar da mesma estratégia antes de terminar o mandato em 1974. Segundo o livro: Bahia de todos os fatos. Cena da Bahia Republicana 1889 – 1991, o governador despachou por dois dias com o seu secretariado, tornando o povoado como capital provisória do estado durante o tempo que esteve na região.

No período o governador ACM fazia uma política de interiorização do governo estadual para o fortalecimento do seu nome, já que ele vinha perdendo apoio no seu principal reduto, a capital Salvador.

Segundos os historiadores Jailson Guerra e Leonardo Alves a visita do governador fez parte da política de expansão do território iniciado pelo governo naquele ano.

Na mesma época, um tímido movimento separatista conservador discutia a emancipação do extremo sul da Bahia e parte do Vale do Mucuri ,Minas Gerais, que pretendia formar um Estado independente para fugir do “atraso e abandono” que se encontrava a região fronteiriça com a Bahia, historicamente ligadas pela estrada de ferro Bahia – Minas, extinta em 1966.

Já em 1988 a cidade de Itamaraju se tornou por alguns dias, simbolicamente, a capital do estado. Não perca os detalhes na próxima postagem.

Daniel Rocha da Silva*

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O novo e o velho: A dualidade teixeirense

Por Daniel Rocha

Você já disse frases como: vou a  Rodoviária Velha, Rodoviária Nova, ao Shopping Velho, ao  Shopping novo, ao invés de se referir a esses endereços pelos nomes corretos? Você já parou para pensar o porquê nós, os teixeirenses, usamos o termo “novo” e “velho” para denominar esses  e outros espaços? 

Rodoviária Velha 1985. O velho cotidiano

Esse jeito de se referir aos antigos espaços reclassificados com novos noves deixa transparecer a influência exercida pela Ideologia desenvolvimentista que nasceu no país nas décadas de 1930 e 1950, e foi incorporada à perspectiva patriótica das décadas de 1960 e 1970 e chegou a região invocada pela abertura de estradas, como a BR-101, exploração da madeira e o próprio surgimento do povoado teixeirense.

O discurso alimentou a crença de que somente os maciços Investimentos em urbanização e a industrialização levariam o país ao patamar de desenvolvimento desejado. Percepção que no passado chegou ao fim com a crise econômica do início da década de 1980, que mudou a perspectiva dos brasileiros em relação ao futuro e levou a sociedade a requerer direitos de acesso à saúde, educação e assistência social.

Novo Terminal: novas iterações

Entretanto, em Teixeira de Freitas, durante o processo de eleição para escolha do primeiro prefeito da cidade emancipada, em 1985, o discurso foi repaginado e mesclado à esperança de que com autonomia a cidade iria definitivamente se desenvolver com a chegada de empresas e asfaltamento de ruas.

Embora tenha favorecido, com o tempo  também ficou claro que esse chamado desenvolvimento tendia em partes a justificar discursos políticos e investimentos que pouco ajudaram resolver as necessidades básicas da população sujeita ao discurso divulgado em sites e jornais propagandistas  das aplicações do poder administrativo.

Antigas interações no fundo da “Rodoviária Velha.” Senhora Diomar ( camisa Branca) e Angelina ( camisa vermelha) de chapéu o Luiz do Jogo do Bicho. Foto: Ernani Silva.

Contudo, ao reclassificar com novas nomenclaturas os populares reagem criando propriedades dialógicas mostrando que é necessário diante de qualquer avanço estabelecer relação entre o presente e o  passado, nem sempre valorizado pelos desenvolvimentistas.

Assim, em tese, ao classificar com os termos “novo” e “velho” os populares fazem lembrar que  os lugares abandonados de sua função originais como a Rodoviária Velha, são lugares de memória e de interações sociais vividas pela comunidade, para que nossas lembranças e  identidade não seja apagada pelo eterno desejo de progresso contínuo.R

Daniel Rocha da Silva*

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Fotos:  Rodoviária . Revista Banco do Nordeste 1985

Vendedores ambulantes. Foto de
Ernani Silva.

Fontes:

MELLO, João Manuel Cardoso; NOVAIS, Fernando A. Capitalismo tardio e sociabilidade moderna: Companhia das Letras.SAID, Fabio Medeiros. História de Alcobaça – Bahia (1772-1958). São Paulo.

TEIXEIRA DE FREITAS – DITOS E NÃO DITOS: Uma cidade em disputa de memórias. LILIANE MARIA FERNANDES CORDEIRO GOMES.

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Teixeira de Freitas Ano 2000: Um “indigente” conhecido

Por Daniel Rocha

A morte é denunciante de contextos, dramas e conflitos e diz muito sobre o lugar onde ocorre.Como no caso registrado pelo extinto programa jornalístico “TV Verdade” exibido pela emissora local TV Sul Bahia no ano 2000 que registrou a tentativa e o sepultamento de um homem classificado como “indigente.”

No final do mês de outubro de 2000, semana antes do Dia de Finados, o jornalista Getúlio Ubiratan, repórter e apresentador, se dirigiu ao Cemitério Jardim da Saudade para averiguar denúncias de que estava “abandonado e com mal cheiro” e acabou flagrando a tentativa do sepultamento de “um indigente” por três moradoras do bairro Bela Vista que denunciou às dificuldades para enterrar um conhecido sem identificação oficial.

Ambulância chega com o corpo

Sem revelar o nome dos envolvidos, o repórter apurou que uma das presentes era companheira e convivia com o falecido há sete anos e que a mesma não sabia muito sobre ele, pois havia o conhecido as margens de uma estrada quando ele ainda era “um andarilho.”

Ainda de acordo com a companheira o “desconhecido” havia falecido em casa após receber alta no Hospital Regional. Apenas a mulher e duas vizinhas acompanhava o corpo não sepultado por falta de identificação e autorização judicial. A causa da morte também era desconhecida. Os funcionários, temendo repreensão da polícia se recusaram realizar o sepultamento.

Mulheres pela dignidade do cidadão

Contudo, o motorista da ambulância declarou que foi chamado por um representante da prefeitura que havia ligado para ele solicitando que o corpo fosse levado para o sepultamento até que fosse providenciado a documentação, horas depois apresentada pelo funcionário da prefeitura que atestou que o cidadão era um “indigente” e que assim deveria ser enterrado.

“Como vão dizer que ele é indigente se ele morreu ontem,” indagou o repórter. O representante da administração municipal informou que a liberação da prefeitura autorizava o enterro e que havia também uma outras das autoridades competentes, juiz e promotor, que antes de autorizar o sepulto apuraram informações sobre a companheira e o indivíduo.

Representantes do município

Mas o que diz o registro sobre a sociedade teixeirense da época? Da minha perspectiva o Estado, através de seus representantes, municipal e federal, promoveu o silenciamento da existência de um cidadão, que se encontrava fora da dinâmica formal do mundo do trabalho, que teve direitos negados durante a vida através de uma ordem discursiva oficial. O mesmo faz o programa da TV ao negar o nome dos envolvidos, mulheres, que lutaram até o fim pelo direito de um sepultamento digno para o seu indigente conhecido.

Daniel Rocha da Silva*

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Foto : Vídeo da reportagem

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Caravelas 1888: um Elixir foi usado no combate a sífilis

Por Daniel Rocha

Do final do século XIX ao início do século XX remédios à base de infusões de ervas e folhas, produzidos e comercializado por boticários e pequenos farmacêuticos, era popular entre os brasileiros. Na cidade de Caravelas o Elixir Tibornina foi empregado, dentre outras coisas, no tratamento da sífilis.

Por isso a maioria, sobre tudo os mais pobres, recorriam com frequência aos medicamentosos elixires cujo à propaganda era feita em jornais impressos através da divulgação de relatos dos usuários e médicos “satisfeitos com o uso.”

Em 1909, por exemplo, estava em alta o Elixir Tibornina, “específico eficaz da Flora Brasileira” que prometia trazer a “cura radical das moléstias e das impurezas do sangue por mais crônicas e rebeldes que sejam.” Como destacou a propaganda do produto em um jornal soteropolitano de 1908 que publicava relatos dos usuários e de médicos para conferir credibilidade ao produto.

Como o do tal Dr. José Carlos Gomes da Silva, de Caravelas, datado de 1º de dezembro de 1888 que relatou: “Atesto que tenho empregado na minha clínica o Elixir de Tibornina do farmacêutico Floriano Serpa obtendo sempre ótimos resultado na sífilis em suas diversas manifestações, razão que obriga-me a preferira-o a outro qualquer medicamento aconselhado nas preferidas moléstias”.

Sífilis em Caravelas? Como isso? Em 1888 a cidade de Caravelas era dona de um dos portos mais movimentados da região, a Companhia Baiana e a Companhia Espírito Santos e Caravelas de Navegação de passageiros realizava paradas regulares no lugar que desde 1882 era ponto final da estrada de ferro Bahia-Minas, que no primeiro momento ligava Caravelas a cidade de Serra dos Aimorés, então limite entre os Estados da Bahia e Minas Gerais, no período a sífilis  era uma doença já comum entre os brasileiros desde sempre.

Propaganda da Companhia de Navegação

No livro Casa grande e Senzala, Freyre traz citações e afirma a partir destas que desde o século XVIII o Brasil era assinalado em livros estrangeiros como “a terra da sífilis por excelência” e que na zona mais colonizada, litoral, sempre foi larga a extensão da doença associada ao grande vigor sexual dos colonizadores e dos negros escravizados. Tanto que a publicidade de remédios, elixires e garrafadas para tratamento de males venéreos “faz-se de forma escandalosa.”

Fatos que permite supor que o trânsito intenso de trabalhadores e passageiros elevaram os casos da doença transmitida por via sexual, uma das mais combatidas pela saúde pública nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, na cidade portuária onde os moradores eram tratados com o Elixir Tibornina em clínicas como a do tal Dr. José Carlos, como sugere o texto da propaganda.

Fontes e referências:

Diário de Notícias 02 de maio de 1900. Acervo site tirabanha.

SAGGIORO. Elder Sidney. SINTOMAS DO MOMENTO: MEDICAMENTOS E PROPAGANDA NO “COMÉRCIO DO JAHÚ” : https://www.unisagrado.edu.br/custom/2008/uploads/anais/historia_2016/Sintomas_do_momento_Elder_Saggioro.pdf


FREYRE. Gilberto. Casa Grande e Senzala .

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.Fontes e Referências

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Foto : Caravelas.

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O que rolava no Orkut de Teixeira de Freitas?

Por Daniel Rocha


Você se lembra o que rolava no Orkut da cidade? A interação virtual, com as características que conhecemos hoje, se popularizou entre a maioria dos internautas brasileiros quando foi lançado o Orkut em meados da década de 2000, período em que a internet começou a revolucionar os meios e as formas de comunicar de milhões de pessoas no país.

Em Teixeira de Freitas não foi diferente, com a difusão da rede surgiu as primeiras comunidades virtuais relacionada à cidade, como a pioneira “Teixeira de Freitas-BA, criada em 2004, onde todo internauta, seja em casa ou nas Lan houses, que democratizam o uso da Internet, se encontrava para interagir,  comentar festas e acontecimentos, publicar novidades responder perguntas e enquetes.


Lan houses democratizam o uso .

Por exemplo, na Enquete postada no dia 22/08/07 o perfil “Fábio Nogueira Soares” buscava saber qual era o gosto musical dos teixeirenses lançando a pergunta: “Qual o ritmo de música que o teixeirense mais gosta?”

Ao final o placar indicou que para 31%, o Axé era o ritmo musical preferido dos teixeirenses. O Pagode e o Rock dividiu o segundo lugar com 24% da preferência, a frente do Forró que foi escolhido por 22% dos participantes. A enquete destacou a diversidade de preferências existentes na cidade, mas também que houve exclusões na lista de opções, tanto que o perfil “Dhea” protestou: “Arrocha! os teixeirenses em geral! eu ainda tenho cultura!”

Resultado da Enquete

Já na Enquete de 2008 o perfil “Betinho Chagas” perguntou como os membros da comunidade avaliava a administração do prefeito Padre Apparecido, o resultado revelou que estava ótima para 11%, Boa para 17%, Regular para 19%,Ruim para 11% e Péssima para 42% dos que se manifestaram. Apparecido Staut foi reeleito naquele mesmo ano para um segundo mandato.

No fórum da comunidade o um perfil não identificado,   questionou no dia 29 de agosto de 2010: “Gostaria de saber porque  a BR 101 na região de Teixeira, isso é, da divisa BA-ES até a cidade de Itamaraju, estar e sempre foi abandonada. Quem viaja pela BR pode ver na região de Eunápolis e Itabuna, várias frentes de trabalho limpando a rodovia, pintando o meio fio, recuperando trecho ruins, etc. E na região de Teixeira nada é feito (…) porque os deputados radialistas nada fazem?”

Capa da comunidade

Através da comunidade os internautas locais dinamizaram discussões antes restritas a pequenos grupos e pessoas que ao interagir expressavam suas angústias e necessidade de falar da “realidade” sem os filtros e os tratamentos dos tradicionais meios de comunicação, rádio e televisão.

Com os olhos do presente, as enquetes revelam a pluralidade de opiniões dos moradores da cidade da primeira década do século XXI . Criada em 2004 a comunidade foi desativado dez anos depois quando o Orkut encerrou suas atividades no dia 30 de setembro de 2014.

Fonte: Acervo Site Tirabanha

Avenida São Paulo, o cordão umbilical da cidade

Por Daniel Rocha

A Avenida São Paulo, um dos endereços mais conhecidos de Teixeira de Freitas, Bahia, foi aberta na década de 1950 e pode ser chamada de cordão umbilical da cidade. A narrativa de sua abertura traz detalhes sobre a dinâmica de ocupação do território teixeirense que você vai conhecer agora.

A história desta famosa avenida remonta ao início da década de 1950, quando, conforme contou o senhor Emanuel Siquara, homens e carros contratados pela empresa instalada em 1948 no município de Nova Viçosa partiram de Juerana em direção a antiga delimitação dos  municípios de Alcobaça e Caravelas onde surgiu a cidade.

Outrora chamada de estrada de rodagem da “Eleosippo Cunha” o logradouro surgiu quando no início da década de 1950 a referida empresa abriu o trajeto para extração de madeiras nobres e chegou onde hoje é a avenida e o centro comercial da cidade, afrontando um percurso complicado e rico em lagos e córregos que inúmeras vezes levou a empresa mudar o traçado planejado.

Tanto que ao chegar à direção ao espaço do lago, hoje ocupado pelo centro comercial PátioMix, os madeireiros tiveram que fazer uma curva para evitar a lagoa que existia no lugar e dessa forma avançar, com trabalhadores e máquinas, descerrando a vegetação.

De acordo com Servídio Nascimento Correia, em memória, em entrevista cedida em 1992 a Revista Regional Sul, as máquinas utilizadas na abertura eram provenientes da empresa que administrava a linha férrea Bahia- Minas, “um patrol e dois tratores” que e quinze dias depois dos trabalhas iniciados alcançaram o lugar onde hoje se localiza o território teixeirense.  

O movimento fez aumentar o trânsito de pessoas e carros na referida estrada, fazendo surgir à pequena aglomeração de comerciantes negros às margens do caminho, cuja parte do antigo traçado hoje é denominados Avenidas Lomanto Júnior e Avenida Marechal Castelo Branco, dando origem ao chamado “Comércio dos Pretos”, também apelidado de Tira- banha.

Foto: Teixeira 1960.

“O povoado começou com um barraco de palha construído por Manoel de Etelvina e de Chico D’Água, assim conhecido devido sua habilidade de mergulhar para retirar madeira do fundo do rio, lembrou Isael de Freitas Correia em uma entrevista em 1985.

Com o passar dos anos a estrada aberta pela empresa foi interligada a estradas de rodagem de Alcobaça e Medeiros Neto, atualmente BA – 2090, construída entre os anos de 1950 e 1953, se estendendo desta forma em direção a Princesa Isabel até a Rua Mauá.

Como um dos principais eixos da cidade, não foi utilizado apenas para o transporte de madeira nas décadas de 1950 e 1960. Na década seguinte a abertura, 1960, mesmo com um estado ruim, lamas e buracos, muitas vezes pedregoso, a estrada promoveu importantes ligações sociais através da circulação de pessoas residentes nas proximidades, caminhoneiros e ônibus de passageiros.

Tais pessoas tinham como  ponto de encontro rodoviário, a partir de 1964, a pensão da Dona Maria Tupi, em frente a Praça dos leões, e o comércio de Maria Mil Réis que foi tão importante que  hoje nomeia o trecho inicial da avenida.

Dessa forma, sua abertura representou o início do processo de urbanização e exploração da madeira, a decadência das antigas rotas comerciais e o fim de um estilo de vida rural de subsistência, vendas dos excedentes e o início da formação de uma sociedade de consumo que fez crescer  um próspero comércio e bairros populosos.

Por ter favorecido como uma estrutura que ligou núcleos urbanos e rurais, trazendo novas demandas, perspectivas e estilo de vida e que ainda hoje, de certa forma, liga os interesses  e movimento comerciais ao centro que a Avenida São Paulo pode ser chamada de “o cordão umbilical da cidade.”


Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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Foto : imagem meramente ilustrativa


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Fontes:

Revista Regional Sul. Teixeira de Freitas – Bahia. Março de 1992.

BANCO DO NORDESTE, As origens. Teixeira de Freitas, Fortaleza – Ceará. P.05-07, Janeiro 1986

FERREIRA,Susana. A vida privada de negros pioneiros no povoamento de Teixeira de Freitas na década de 1960. Uneb campus-x.

Diagnóstico socioeconômico da região cacaueira de 1976. Comissão executiva do plano da lavoura cacaueira – CEPLAC 1976.

Conversa informa com o senhor
Emanuel Siquara. Setembro de 2017.

Foto: AV. São Paulo década de 1980. Dr Fortunato.