Arquivo da tag: Rua do Brega Teixeira de Freitas

CAUSOS DA RUA DO BREGA: PARTE 03

 Por Daniel Rocha

Os dizeres “ter uma mulher por conta” ou “colocar uma mulher por conta” são expressões populares na cidade que significa “tornar-se amante de uma mulher e suprir todas as suas necessidades”. Conta uma  antiga moradora que isso ocorria quando um homem solteiro ou casado, apaixonava-se por uma mulher da “Rua do Brega” ou como é conhecida oficialmente “Rua Mauá”. Endereço que no passado, 1960 a 1990, concentrou diversos bares e casas de prostituição em Teixeira de Freitas.

Segundo uma anedota contada por alguns moradores quando a mulher descobria que o marido estava de costume tomar “aquela direção” ou “com uma mulher por conta” ouvia sempre do cônjuge, repreendido, a seguinte frase: “que mal há nisso!” Por essas e outra a rua ficou conhecida como “Rua Mal há”. 

Havia algum mal em frequentar a tal rua? De acordo Maria Aguiar na década de 1970 não havia mal alguns rapazes solteiros procurar o lugar. Isso porque as noivas de família tinham que se resguardar se para o casamento. “O homem era obrigado esperar a noiva, então entendiam que ele tinha que ir. Era normal”. 

Porém o causo “Entrou com moto e tudo” insinua algo que todo mundo já sabe, mesmo depois de casados alguns homens continuavam a frequentar aquela parte boêmia da cidade, como revela a narrativa de uma senhora de 70 anos, popular por memorizar e compartilhar acontecimentos “engraçados” sobre o passado da cidade. O causo foi registrado de maneira informal pelo site em 2013.

Conta a antiga moradora da cidade que, em um ano da década de 1980, uma esposa desconfiada da visita do marido a tais estabelecimentos da Rua do Brega resolveu investigar se ele tinha no local uma “mulher por conta”. O marido muito esperto percebeu que a mulher estava atenta aos seus passos. Porém mesmo assim não deixou de visitar a amante, “afinal cavaleiro que é bom, quando cai, cai bem”.

Diante disso, a esposa desconfiada por vezes percorria dia e noite toda extensão da rua observando se a moto do marido estava estacionada na entrada de uma das casas noturnas da afamada rua. Depois de um tempo policiando o local constatou com base em suas observações que o marido não estava mentindo quando dizia que não era de visitar o lugar. 

Dias depois do ocorrido, durante uma bebedeira, o motoqueiro contou para os “amigos de copo” que ao visitar a amante no bar ou na casa na Rua do Brega não estacionava à motocicleta na porta, como de costume, e sim dentro de um quarto reservado para o encontro. Finalizando a narrativa, entre risos e gritos dos amigos, com a frase que se tornou um meme oral entre eles. “Eu entro é com a moto e tudo”. 

 Fontes: 

Depoimento de Maria Aguiar extraído do trabalho monográfico:

ROCHA. Daniel; OLIVEIRA.Danilo. Cinema – Contribuição no processo de Formação da Sociedade de Teixeira de Freitas nos anos de 1960, 1970 e 1980.

DEL PRIORE, Mary. História do amor no Brasil. 2ª ed. – São Paulo: Contexto, 2005

Narração do “causo”.

Conversa Informal com a senhora M . L  em 2013

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. 

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

O Conteúdo  deste Site não pode ser copiado, reproduzido, publicado no todo ou em partes por outros sites, jornais e revistas sem a  expressa autorização do autor. Facebook.

Causos da “ Rua do Brega”: Parte 02

 Ativar as notificações de novas postagens. (Click Aqui)


Os Causos da Rua do Brega: Parte 01

Por (Daniel Rocha)

A partir do surgimento do povoado de Teixeira de Freitas, em meados da década de 1950, as margens das estradas abertas pela empresa madeireira de Eleozipio Cunha  e  a abertura da  rodovia federal BR – 101,  dá-se início o processo   de urbanização desta parte do extremo sul da Bahia.

A grande área verde ocupada pela mata atlântica preservada começa a  ser   intensamente desmatada  para  dividir  espaço com a agricultura e  casas de comércios que  dinamizam a economia como um todo. A devastação  favorece a expansão urbana do povoado fundado por  famílias  negras.

Em menos de trinta anos o centro do pequeno povoado, subordinado sucessivamente a Alcobaça e Caravelas, expande atraindo  trabalhadores  de variadas categorias,  oriundos de  diversas parte da região  e dos estados  vizinhos de Minas Gerais e Espírito Santo.

A chegada  do primeiro órgão público estadual do povoado o DERBA – Departamento de Infraestrutura de Transportes da Bahia, em  1964,  aumenta  ainda mais o movimento dos bares e  pensões ali existentes,  muito frequentado por   madeireiros e agricultores locais.

Neste contexto é que surgem as mulheres prostitutas que vendiam os serviços desejados pelos seus clientes nos bares, boates e casas de diversões  na rua Mauá, hoje mais conhecida como a rua do “Brega” ou “Zona do Baixo Meretrício”, no extremo norte do povoado de Teixeira de Freitas e que atendia toda  adjacências.

À rua que  no presente fica no centro da cidade  ofertava e ainda oferta os serviços próprios do ofício ao público masculino interessado, homens trabalhadores solteiros ou casados, cumpridores de suas obrigações.

Por isso para tentar conhecer um pouco mais da rotina do lugar  recorri aos relatos e causos contados pelos  antigos frequentadores que pediram para não ser identificados porque, como se pode imaginar, não gostam de tornar pública as visitas realizadas no lugar. Por essa razão  os nomes que serão citados são fictícios.

Todos os causos narrados pelos ex-frequentadores procurados são carregados de silêncios,nostalgias e anedotas que favorecem ainda mais as especulações sobre o funcionamento do lugar, por isso destaco que os textos  estão  de acordo com as perspectivas e as definições das fontes e pessoas consultadas, assim as versões postas não sendo mentira, são verdades até que se prove o contrário.

Como a versão e lembranças  do senhor “João de Luiz ” que diz que tudo começou com um pequeno bar improvisado  na descida da rua Mauá  “ em um Boqueirão”  em um lugar que além de  uma casa era também uma bar  que era conhecido pela alcunha Café das Flores. O recinto ofertava bebidas e  ás dependências para o usufruto dos clientes.

Através dos  causos contado por este morador é possível conhecer um pouco mais das  tipicidades dos sujeitos do povoado que buscavam  o pioneiro estabelecimento que dizem “abriu precedentes para outros comerciantes do ramo”.

O Causo do Café das Flores

Tudo começou na década de 1950 com a inauguração do Café das Flores, um bar improvisado em uma casa simples no valão depois de onde foi o cemitério antigo próximo a atual rua Afonso Pena.

O povoado de Teixeira de Freitas, que provavelmente nesta época era conhecido por outros nomes, se entendia do trevo da Casa Alves até a praça dos leões, ou seja o Café das Flores ficava em um lugar desabitado do povoado.

Nessa casa bar uma mulher conhecida por Teresa e outras duas mulheres atendiam seus clientes em pequenos quartos anexados. Segundo contam eram poucas mulheres para muitos homens que vinham de diferentes partes do povoado para vender suas produções na feirinha do comercinho.

No Café das Flores “às mulheres eram como mato carrapicho , cortava mas não matava”, por isso eram as preferidas de todos os homens da zona urbana e da zona agrária, clientes que este que usavam cavalos e carroças como transporte para chegar até o recinto.

Se hoje é comum ver diversos carros estacionados em frente as casas de massagens, naquela época eram os animais que se destacavam parados nas proximidades do lugar. O sucesso da casa foi meteórico e por isso não apenas no dia de feira livre, mas também em outros da semana a casa passou a ser procuradas por homens que sempre que chegavam no povoado para vender ou dar alguma coisa para a dona Tereza do comércio.

Segundo a narrativa do causo, por essa razão, não demorou as mulheres, donas de casa e mãe de muitos filhos, perceberem que os maridos tinham outros interesses além de vender produtos na feira.

Tanto que uma delas “mulher de pavio curto” tomada pela fúria da desconfiança, e lembrada por ter perguntado ao marido onde estava indo em um horário estranho. Ele sem titubear contou que estava indo levar uma banana da terra para uma cliente que tinha um ponto perto da feira, ela então com todas as forças, partiu para cima dele o acusando de está ofertando outro tipo de banana no brega.

Atualizado em 08/12/17

Vejam também:

O Saneamento Básico na História de Teixeira de Freitas parte 1

O causo do Batizado

O causo do vinho em Helvécia

Futebol em Teixeira de Freitas: Parte 01.

Memória Estudantil