Por Daniel Rocha
(Continuação do texto anterior) Em 1847, a criação da Companhia de Comércio e Navegação do Mucuri marcou o início de uma nova tentativa do Império brasileiro de estimular o desenvolvimento econômico na região do Vale do Mucuri, no extremo sul da Bahia, divisa com Minas Gerais.
Sob a liderança do político liberal Teófilo Benedito Ottoni, a principal proposta da companhia era facilitar o transporte pelo Rio Mucuri, ligando os mercados do norte de Minas Gerais aos portos de Caravelas, na Bahia.
A ideia era ocupar as terras indígenas, explorar seus recursos naturais e escoar a produção das colônias da região, com destaque para a Colônia Leopoldina, que já despontava na produção de café.
No entanto, desde os primeiros anos, o projeto enfrentou desafios significativos. A vila de São José de Porto Alegre (atual Mucuri) permaneceu modesta, conforme apontado por observadores como MacGregor. A resistência indígena também teve papel central na configuração dos primeiros anos da companhia, dificultando a implementação do projeto.
Com a concessão dada pelo governo imperial aos irmãos Teófilo e Honório Benedito Ottoni, a expectativa era que a companhia estimulasse o comércio, gerasse receita com impostos e promovesse a colonização com imigrantes estrangeiros.
Além disso, pretendia-se garantir o controle sobre os povos indígenas que habitavam a região. Contudo, os obstáculos foram muitos, tanto no plano geográfico quanto humano.
Logo se constatou que o Rio Mucuri não era navegável em toda sua extensão, sendo possível o transporte fluvial apenas até a Cachoeira de Santa Clara, em Nanuque-MG.

Dali em diante, foi necessário construir uma estrada até Filadélfia (hoje Teófilo Otoni-MG), que se tornou um dos poucos núcleos urbanos beneficiados pela infraestrutura da companhia.
A resistência dos povos indígenas também se mostrou um grande empecilho aos invasores. Comunidade como os macuni, malai, machacli, naknenuk, araunau, entre outras , frequentemente chamados de “botocudos”, se opuseram à invasão de suas terras e à tentativa de dominação religiosa, catequização.
Esses grupos não aceitavam a lógica mercantilista dos colonizadores e lutavam para preservar seu modo de vida e cosmovisão, homem-natureza. Apesar dos esforços da companhia, a economia da vila de São José de Porto Alegre não sofreu grandes mudanças nos primeiros anos.
A vila, que servia como ponto de entrada e saída da produção mineira, manteve-se dependente de atividades tradicionais, como a pesca. Um relatório de janeiro de 1848, assinado pelo capitão de engenheiros João Rodrigues Silva e publicado no Jornal do Comércio, destacava as dificuldades da região, reforçando uma visão depreciativa dos povos indígenas e das atividades econômicas locais.
O documento descrevia São José de Porto Alegre como uma vila em decadência, cercada por terrenos incultos e habitados exclusivamente por índios, numa visão que ignorava a resistência organizada das populações nativas.
Muito antes, em 1845, uma carta anônima enviada ao governo da Bahia já destacava a “necessidade” de civilizar os indígenas como condição para o progresso da região, ecoando as políticas de aldeamento do Império, cujo objetivo era liberar as terras indígenas para ocupação e assimilar os povos nativos.
Apesar das grandes expectativas e dos recursos investidos, a Companhia de Comércio e Navegação do Mucuri enfrentou desafios significativos. A geografia inóspita e a firme resistência dos povos indígenas não apenas atrasaram os planos de colonização, mas também desencadearam um período marcado por violência e ataques contra as populações originárias da região. (Conitua..)
Daniel Rocha da Silva*
Historiador graduado e Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com
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magem: Barco a vapor da companhia do Mucuri. livro – Teófilo Otoni: Ministro do Povo, de Paulo Pinheiro Chagas.
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