O morador que esteve na festa que terminou com dois feridos em 1967

Por Daniel Rocha*

Tudo começou no salão de uma pensão onde moradores do então povoado de Teixeira de Freitas dançavam em um baile beneficente em prol da construção da igreja “São Pedro” quando um “desconhecido” provocou uma confusão que terminou com dois policiais esfaqueados. 

Quem era o desconhecido? O motivo do desentendimento? Ninguém sabia responder até o antigo morador Jair de Freitas Correia, da dupla “Primo e Sobrinho”, que esteve presente no baile, falar sobre os detalhes que não foram revelados pela notícia publicada no jornal de 1967.

Segundo Jair naquela época o povoado estava tomado por pensões e animado pelos geradores de energia que movimentavam o cinema e os bailes. A festa onde ocorreu a confusão foi organizada em um salão localizado na Praça dos Leões, onde hoje fica uma farmácia. Como foi relatado pelo jornal, o baile tinha como fins arrecadar dinheiro para construção da igreja “São Pedro”, então capela de “São Sebastião.” 

O baile reuniu moças e rapazes e casais do lugar que tinham a intenção de se divertir e namorar “com decência e respeito.” Contudo, a presença de “Sivaldo” um trabalhador do DERBAdepartamento de Infra Estrutura de Transportes da Bahia ,que não seguiu esse roteiro alterou as expectativas e a rotina do baile.

Conforme rememora Jair, alguns desses jovens trabalhadores, oriundos de Salvador, chegaram no povoado em 1964 para trabalhar na estatal baiana e trouxeram hábitos e comportamentos estranhos aos olhos e o modo local, nem todos eram queridos e bem-vindos em todos os espaços. 

“Alguns, não todos, assediavam as mulheres e gostavam de ter fama de pegadores…. Gostavam de dar uma de “macho” e andavam armados provocando brigas por onde passava como se fossem os donos do povoado” destacou Jair. 

Igreja São Pedro

No povoado já existia um certo estresse provocado pela interferência de migrantes em relação ao nome da igreja que passou de “São Sebastião” para “São Pedro.”De acordo com ele o nome foi trocado a pedido dos migrantes entrosados com o padre e envolvidos na campanha para “construção da igreja”.

A “nova igreja” de São Pedro foi inaugurada em 09 de fevereiro de 1969, durante a festa de São Sebastião. A festa popular era tradicional e realizada pelos moradores desde o surgimento do povoado no espaço da praça dos Leões. Sobre isso cita frei Elias que a capela ganhou “democraticamente, mas com alguma pressão do vigário, São Pedro como padroeiro.”

Sobre a alcunha “Arrepiado” contou Jair que o povoado nunca foi chamado pelos moradores por esse apelido: “Na verdade era “Rupiaria” e não tinha nada ver com o jeito de ser dos moradores como costumam contar. “Arrepiado” foi arranjado pelos de fora, como foi também o nome Teixeira de Freitas”.

Conforme lembra, foi nesse contexto de incômodo que a presença indesejável e o mau comportamento do Sivaldo, um capoeira soteropolitano, provocou o dono da pensão que reagiu gerando a confusão que terminou com dois policiais “furados”, Arlindo e José, e o próprio Sivaldo que foi baleado na perna por um disparo do policial. “Foi sangue para tudo que é lado.”

Assim é possível supor que a chegada de grande leva de migrantes ao pequeno povoado e o chamado “desenvolvimento ” nada tinha a ver com a visão de mundo, cotidiano e querer dos moradores motivando assim casos de violência. No presente o crescimento econômico do município que historicamente privilegia alguns e não todos, também pode ser considerado um fator gerador de confrontos. 

Fontes:

Homem quis matar soldados a facadas em Teixeira de Freitas. FN. Fevereiro de 1967.

HOOIJ, Frei Elias. Os desbravadores do Extremo sul da Bahia, Belo Horizonte, 2011.

Conversa informal com Jair de Freitas Correia em  02 dezembro de 2019.

Foto: Festa de São Sebastião. Ano desconhecido. Fonte: Documentário Histórico da TV Sul Bahia, 1996. Print.

 Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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Em 1967 “baile em prol da igreja” terminou com briga e feridos

Por Daniel Rocha*

Na década de 1960, o então povoado denominado oficialmente em 1957 de Teixeira de Freitas (BA) ainda recebia apelidos curiosos como “Arripiado,” assim chamado por haver muita discussão e bate boca no pequeno comércio. “, alcunha segundo alguns moradores relacionado às agressões existente no lugar causado sobretudo por  questões banais.

Segundo noticiou um jornal da época, Folha Nanuque,  no dia 03 fevereiro de 1967, por exemplo, dois soldados do destacamento policial de Caravelas a serviço em Teixeira de Freitas foram esfaqueados por um desconhecido à porta de uma pensão onde se realizava uma festa beneficente em prol da construção da igreja “São Pedro”, então uma simples capela necessitando de reformas urgentes.

O fato foi relatado por uma das vítimas no Hospital Santa Cruz em Nanuque  onde os dois  foram levados depois de feridos já que não existia na época hospital na cidade. Segundo a versão contada por Arlindo dos Santos Souza, tudo começou quando ele e o amigo  foram escolhidos para “implantar a ordem durante uma festa organizada numa pensão”, quando chegou um rapaz que queria entrar sem ingresso e sem licença do organizador.

Advertido por ele de que não podia entrar sem pagar, pois a festa era em benefício da Igreja Católica de Teixeira de Freitas, o rapaz disse que não ia dançar e sim olhar o movimento entrando contra a vontade do dono e prometendo que não ia participar do baile.

Entretanto quando um conjunto de Medeiros Neto começou a tocar o cara foi logo chamando uma dama para dançar. O dono da festa não gostou e pediu para  que  o policial chamasse a atenção do moço que parou a dança e disse que já estava indo embora.

O dono da festa “azouou” e queria dar no sujeito que continuava dançando sem pagar um centavo. Diante da situação Arlindo achou por bem emprestar ao elemento um dinheiro  para que ele pagasse o ingresso. “Achei por bem emprestar o dinheiro do ingresso ao elemento que aceitou e voltou de novo a dançar. Às 02 horas da manhã o cara saía para ir embora e dirigiu certos gracejos ao dono da festa que ficou dançando e lhe deu um empurrão,” narrou Arlindo.

Ainda de acordo com o soldado Arlindo, ele e seu colega José que chegara há pouco para ajudar a policiar a festa intervieram para proteger o rapaz da fúria do dono da pensão. Mas o rapaz terminou foi derrubando o seu colega, furando-o com uma faca que arranjaram e durante a sua tentativa de segurar também foi golpeado e ferido. “Depois de feridos tanto eu como José Geroastro atiramos no desconhecido, mas achamos que não o atingimos e ele conseguiu fugir”. 

Mas qual era o motivo da violência? Quem era o agitador? Qual o contexto?Em que ponto a agressividade do passado se compara à violência do presente? Dirigimos essas perguntas para um antigo morador que estava na festa e testemunhou o ocorrido. Ele revela o nome do “desconhecido” e detalhes que ajudam entender as razões e o contexto da violência na história da cidade de Teixeira de Freitas. (Continua na próxima postagem)

Daniel Rocha da Silva*

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Foto: Capela da praça dos Leões 1968.

O CAUSO DO VINHO EM HELVÉCIA

Na década de 1940, no distrito de Helvécia, município de Nova Viçosa, extremo sul da Bahia, antiga Colônia Leopoldina, estabelecida em 1818 por colonos alemães e suíços, atualmente um remanescente de quilombo, a “Dança da Garrafa de Vinho” era muito popular em festas e salões do lugar.

A brincadeira popular girava em torno de uma garrafa de vinho cheia deixada no meio de qualquer salão de dança do povoado para ser entregue como prêmio ao casal que dançasse a noite toda sem tocar ou derrubar a prenda.

Basicamente foi isso  que aconteceu para infelicidade de uma jovem garota do lugar que sem maldade vinha se envolvendo com um homem comprometido que se passou por solteiro, narra um causo contado por uma moradora da época.

Segundo a narrativa, ao saber do envolvimento do marido com a jovem a esposa traída e os familiares do pula cerca, preocupados com as consequências do envolvimento, batizou uma garrafa de vinho em um Terreiro local e colocaram no centro do baile organizado por eles e endereçado a jovem enganada.

Para esse baile diversas pessoas foram convidadas, dentre estas a inocente garota que chegando ao lugar ficou sozinha sem um par. O conquistador não apareceu, pois sabendo que se tratava de uma festa organizada na casa de um familiar corria o risco de ter o caso exposto.

Durante a festa um cavalheiro habilidoso e mal intencionado convidou a solitária apaixonada para dançar e assim o fez durante a festa. O dançarino com muita destreza dançou do início ao fim sem derrubar a garrafa deixada no centro do salão festivo.

Como manda a brincadeira no final do baile o casal vencedor ganhava a garrafa com vinho para servir ou beber juntos com os amigos, porém orientado o dançarino dispensou sua parte deixando exclusivamente para sua acompanhante de dança.

A garota satisfeita com a prenda convidou alguns amigos e foi para casa beber, sorrir e conversar. Como era por direito tomou uma dose do vinho antes de servir aos outros que aguardavam ansiosamente pela prenda, algo que não aconteceu, pois logo um mal súbito a atacou de forma fulminante.

Diante da situação, os companheiros concluíram que o vinho não havia feito bem a amiga que passou a sentir infinitas dores na cabeça e fungar lagartas pelo nariz. Assustados com tudo que vinha ocorrendo os amigos e familiares a embarcou no primeiro trem da companhia Bahia – Minas, linha férrea que ligava o povoado a cidade fronteiriça mais próxima, a mineira Nanuque.
Na cidade a turma buscou a orientação de uma “Mãe de Santo Mesa Branca” chamada Dona Sofia, que era conhecida por desfazer trabalhos feitos e “coisas mandadas”. A experiente Mãe, orientada pelos seus guias, teve a visão do mal que estava agindo dentro da apaixonada provocando dores e tormentos terríveis.

Com muita fé e trabalho a Mãe de Santo conseguiu livrar do sofrimento e das dores constantes a garota que tinha cometido apenas o pecado de acreditar demais no seu amado. Dona Sofia só não conseguiu acabar com o fungar das lagartas que a atormentou pelo resto da vida.

Fonte:

Maria Ronaldo – Teixeirense  de coração, nascida e criada em Helvécia.

Foto: Estação da estrada de Ferro Bahia -Minas de Helvécia. 1950. https://www.estacoesferroviarias.com.br

Daniel Rocha da Silva*

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As faces da cultura popular no extremo sul : Primo e Sobrinho

Em Teixeira de Freitas a dupla de violeiros “Primo e Sobrinho”, formado pelos irmãos Vantuil de Freitas Correia (80 anos) e Jair de Freitas Correia (78 anos) , filhos da fazenda Nova América, uma das comunidades pioneiras da cidade, é um bom exemplo de como a moda de viola é comprometida com as coisas da terra e cultura regional.

A dupla que tem apenas um CD gravado já é bem conhecida graças a presença constante em programas de rádio e festas populares de Teixeira de Freitas, onde através da sua música exalta a paisagem, o sentimento e a cultura popular do extremo sul da Bahia, como é possível notar na letra da música “Cantinho do meu Brasil” que fala da região que Vantuil deixou para trás na década de 1950 quando migrou para o estado de Minas Gerais.
Naquela tempo existia a proposta de fazer de Teixeira uma cidade planejada, o projeto não vigou e o terreno loteado foi transformado no bairro Monte Castelo.

Ainda de acordo com a dupla de violeiros que também canta sobre outras paisagens a valorização da cultura e memória da terra é uma característica da moda de viola que fazem questão de preservar apesar da falta de atenção e incentivo das instituições voltadas para promoção da cultura no estado e na cidade.


Cantinho do meu Brasil: exaltação da  região

Para além disso, sem recursos, a dupla tem um sonho, gravar um novo CD com algumas músicas de um imenso catálogo musical inédito, dentre estas as canções “Mamãe África”, sobre a origem dos pioneiros e a escravidão no extremo sul baiano e a música “Saudades da Bahia”, relativo a bucólica zona rural teixeirense da época do povoado quando a moda de viola era o estilo mais conhecido e tocado por todos da micro – região.

“Sempre e em todos os povoados, como também nas roças, se encontravam pessoas que tocavam vários instrumentos musicais. Violão, pandeiros e acordeão faziam parte da vida do povoado onde sempre existiam vários tocadores destes instrumentos. Assim cada fim de semana havia “um baile nos botecos,” escreveu Padre José Koopmans no livro Além do eucalipto. O papel do extremo sul.

Para o músico Marcos Marcelo, do blogue Teixeira Musical, o trabalho e o sonho dos violeiros teixeirenses evidência como a cultura popular é resistente diante da dificuldade e falta de apoio e financiamento público. “Mais artistas dedicariam a exaltar e divulgar a cultura da terra se houvesse incentivos públicos (federação, estado e municípios) para realização desse tipo de trabalho.”

Daniel Rocha da Silva*

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VIDAS NEGRAS IMPORTAM

Por Erivan Santana*

Os historiadores costumam dizer que o tempo dá voltas, e a História, enquanto ciência humana e social, move-se entre o passado e o presente, com consequências para o futuro. Pois é exatamente isso o que está acontecendo no momento, particularmente nos EUA e também na Europa. 

Sendo um dos berços dos movimentos de contracultura dos anos 60, grande parte da sociedade americana se insurge contra o preconceito racial e a violência policial, revivendo todo o clima, o cenário dos movimentos sessentistas, já citados. É importante lembrar que estes movimentos nos EUA, dialogavam à época com o famoso Maio de 68, na França, mais precisamente em Paris. Não por acaso, a França, assim como outros países europeus, se insurgiram contra tais injustiças, cujo exemplo mais recente foi o assassinato de George Floyd.

Entretanto, aqui no Brasil, fez-se um silêncio incômodo, no triste episódio que vitimou João Pedro, e mais recentemente, Miguel. Parece que a sociedade brasileira se acostumou com as perdas humanas, num claro exemplo do que nos diz Hannah Arendt em “a banalidade do mal”.

Georg Simmel, importante sociólogo alemão, também nos fala sobre este fenômeno, que para ele, ocorre quando determinadas sociedades se acostumam com a intensidade de notícias e deslocamentos próprios da globalização, gerando um mecanismo de “autodefesa”, em que o indivíduo passa a se proteger, sem se preocupar com o próximo.

No caso dos EUA e da Europa, é preciso compreender que estas sociedades hoje, são muito plurais, tanto do ponto de vista étnico, como cultural. A globalização oportunizou não somente a comunicação intensa entre os povos, mas também a sua fácil locomoção, e cidades como Nova York, Paris e Londres, provavelmente sejam claros exemplos desta pluralidade em escala global. Visto por este ângulo, passamos a compreender melhor porque estes movimentos acontecem com tanta intensidade nestes países, refletindo os seus anseios por igualdade e justiça social.

Neste contexto, as ciências humanas vêm ganhando cada vez mais importância e influência nos currículos escolares, em que a História, a Filosofia e a Sociologia são chamadas a explicar um mundo cada vez mais dinâmico e em construção, numa perspectiva humana, crítica e cidadã, tendo a liberdade de imprensa um papel também imprescindível neste processo, principalmente se for livre, ética e independente, levando-se em consideração, a influência e a força da comunicação nos dias atuais, onde ela se faz por múltiplas plataformas, e quando se diz “o mundo está na palma da sua mão”, é literalmente, uma realidade. Que todas essas tecnologias possam estar a serviço da ética, da justiça social e das vidas humanas, é o que desejamos.

*ERIVAN SANTANA. Crônica originalmente publicada no jornal A Tarde, Salvador, 10/06/2020.

Foto: Google Imagens

Nos tempos da escravidão I: Um quilombo em Caravelas

Por Daniel Rocha

Todo mundo que tenha passado pela escola ou assistido qualquer produção televisiva de época já ouviu falar da escravidão no país e sua influência e impacto na formação da sociedade brasileira e cultura nacional, contudo são poucos que já ouviram falar da presença dos negros escravizados no extremo sul da Bahia e da luta e resistência do “Quilombo Império” ocorrido no século XIX nos arredores de Caravelas.

A narrativa sobre esse acontecimento foi pesquisada no livro “Frontiers of Citizenship: A Black and Indigenous History of Postcolonial Brazil, da pesquisadora/ historiadora Yuko Miki. Segundo a narrativa do livro, depois da proclamada a independência do Brasil os negros escravizados desta parte do litoral organizou quilombos e levantes em resistência ao regime escravista, principalmente em Caravelas (BA).

Nos cinco anos seguintes à revolta, quilombos e agitações de escravos continuaram a proliferar em Caravelas ( BA) e São Mateus (ES) alimentando os temores de uma guerra racial semelhante ao Haiti, primeira nação independente do Caribe, república negra do mundo a abolir a escravidão. A independência do Haiti foi proclamada em 1.º de janeiro de 1804.

Em 1828 o “Quilombo Império,” fixados na mata próxima a cidade, que reuniu grande quantidade de negros fugitivos lutou fazendo uso de armas de fogo, arcos e flechas, armadilhas e armas ocultas quando uma expedição anti-quilombo invadiu o lugar.

A expedição anti-quilombo matou três quilombolas e capturou homens e mulheres, mas permitiu que o líder ferido escapasse. No entanto, mesmo com a destruição deste quilombo em particular diversos quilombolas, mais da metade, permaneceram circulando pelas matas em torno de Caravelas.

Tal fato levou o capitão solitário do lugar, encarregado das principais expedições, declarar sua desistência a justiça de paz de Caravelas: “Sempre haverá escravos fugitivos nessas florestas, porque estão todos dispersos, há muitos campos e numerosos escravos, com mais de cinquenta, oitenta ou cem cativos, com apenas um capitão de mato neste distrito.”

Na luta pela independência do Brasil que culminou com a expulsão dos portugueses do país, especialmente na Bahia, onde os lusitanos tentaram resistir, os negros participaram do enfrentamento ao lado das autoridades baianas.

Em tese, após esse evento os  afro-descendentes não aceitaram mais os moldes de opressão do antigo sistema colonial que esperavam ver modificados antes e depois da luta pela independência. Criando seu lugar de história e resistência, como o “Quilombo Império”.

Fonte: 

MIKI.Yuko. Frontiers of Citizenship: A Black and Indigenous History of Postcolonial Brazil. 2018. Pg. 66,67,68.

Daniel Rocha da Silva*

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Teixeira de Freitas 2006: Cemitério fez um puxadinho para os pobres

Por Daniel Rocha

Na morte somos todos iguais, certo? Nem sempre. O lugar do descanso eterno depende de quanto à família dispõe para pagar pela cova. Em 2006 em Teixeira de Freitas, BA, os administradores do cemitério Jardim da Saudade providenciaram um ‘puxadinho’ em uma área pública próxima para enterrar os mortos mais pobres.

Vinte anos depois da abertura, o Jardim da Saudade, ou como era conhecido “Cemitério Novo”, então o único em atividade na cidade, havia esgotado sua capacidade de sepultamento e diante disso uma área alagada de 1.100 metros quadrados, cheia de lixo que servia de pasto para cavalos,” foi transformada pela Prefeitura em um “recinto extra” para as famílias que não tinham R$ 261 para comprar uma vaga e enterrar seus parentes na área oficial.

“Só temos um cemitério na cidade, e quem não paga realmente está sendo enterrado em outro local”, disse o então secretário de Infraestrutura, Marcelo Antônio de Azevedo a reportagem do Jornal Alerta que registrou essa perspectiva sobre o fato.

A notícia também repercutiu nacionalmente através da versão virtual do paulista Folha de São Paulo, de 26 de Abril de 2006. De acordo com o jornal o “cemitério gratuito” foi criado pela prefeitura a menos de 30 metros do Jardim da Saudade, rua de trás. Na época da reportagem o “puxadinho”, hoje conhecido como Jardim da Saudade II, já tinha cerca de 150 corpos enterrados no local.

Lixo no entorno. Foto 2011

“Aqui não existe nenhuma dignidade, há cachorros e muito lixo o tempo todo. Não sei como as pessoas não que moram perto daqui não reclamam porque os urubus não saem do local”, disse o agricultor Fernando Santos Oliveira, 41, ao periódico paulista.

Sobre os responsáveis pela administração do Jardim da Saudade explicou que as famílias que não podiam comprar uma vaga na área oficial do cemitério eram enterradas no “puxadinho”ao custo de R$13 , valor referente a um “aluguel” de três anos. Depois os restos mortais seriam recolhidos a um depósito no cemitério.

“Aqui é uma área de alagamento se a gente cavar um pouco a água começa a minar”, reclamou o aposentado Carlos Albuquerque dos Santos, 70, em uma versão do texto publicado no jornal local Alerta de 23 de abril de 2006.

Ainda de acordo com o impresso local de maio do mesmo ano, a repercussão dos fatos motivou a demissão dos responsáveis pelo prefeito da cidade Apparecido Staut.

Considerando a perspectiva apresentada é possível supor que diante da falta de espaço no cemitério os responsáveis seguiram a lei de ocupação comum na área urbana da cidade para determinar o lugar que cada um deveria ocupar, a lei do mais forte e do mais influente, e a não
consciência igualitária popular existente sobre a morte.

Fontes:

FRANCISCO. Luiz. Prefeitura improvisa cemitério para famílias carentes na BA. Jornal Alerta , edição 672. 23 a 26 de abril. Teixeira de Freitas. 2006.

Matéria do cemitério derruba secretário de Infraestrutura. Jornal Alerta. Maio 2006.

Foto: Imagens 2011

Daniel Rocha da Silva*

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CONSEQUÊNCIAS DO COVID-19

Por Erivan Santana*

Com a pandemia do covid-19, muitas situações vieram à tona, entre elas, a assustadora realidade revelada, quando do anúncio do auxílio emergencial, ao ser constatado que ¼ da população brasileira, pouco mais de cinquenta milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza. Os dados são preocupantes, principalmente, quando se sabe que o atual governo federal pretende instaurar no país um projeto de estado mínimo.

No mundo desenvolvido, a exemplo dos países europeus, ainda que alinhados ao capitalismo liberal, existe uma ampla rede de proteção social instalada, principalmente em áreas vitais, como saúde e educação. No Brasil, mesmo com as deficiências causadas pela falta de investimento e estrutura, o SUS está sendo a salvação de muitos brasileiros e de muitas famílias, levando-nos a uma conclusão clara, a de que é preciso cuidar e valorizar o SUS cada vez mais.

Na área da educação, outras realidades vão sendo mostradas diariamente, a toda a população, qual seja, a falta da inclusão digital em nosso país, num momento em que se necessita do apoio pedagógico aos alunos através da internet. Embora todos saibam que a aula presencial, mediada pelo professor, seja imprescindível, até mesmo atendendo a um princípio elementar em educação delimitada por Vygotsky, qual seja – “o educando aprende e desenvolve suas habilidades e competências no convívio social”, o apoio ao aluno via digital neste momento seria bem vindo. Entretanto, a questão da desigualdade social pesou mais uma vez; são poucos no país os que tem acesso à internet de qualidade, além de possuir bons equipamentos, condições necessárias para que aulas on line possam ser desenvolvidas com sucesso, ainda que de forma assistencial e complementar, como já mencionado.

Em meio a tudo isso, uma outra questão se coloca, qual seja a realização do ENEM. Afinal, seria justo a sua realização neste momento, uma vez que os alunos das classses populares, que têm sua base de apoio na escola pública, estarem neste momento sem acesso a ela? Além disso, é bom lembrar, exsite também o risco da aglomeração de pessoas, que um evento dessa natureza proporciona, neste momento perigoso e delicado da pandemia do covid-19, o que tudo somado nos leva à conclusão de que o mais prudente seria adiar o ENEM, o que felizmente, foi feito, diante das reivindicações da sociedade organizada.

Enquanto tudo isso aocntece, vamos vivendo um dia de cada vez, onde sentimentos de medo, saudade, fé, dúvidas, alegria e tristeza, se misturam, com um horizonte totalmente incerto à nossa frente, onde a única certeza que temos é que o mundo pós covid-19 nunca mais será o mesmo.

ERIVAN SANTANA

Artigo originalmente pulbicado no blog “Um café para Sócrates”

Histórias ocultas nas fotos antigas de Teixeira de Freitas – Parte 01

Por Daniel Rocha

Para além do foco, algumas fotografias antigas da cidade guarda surpresas ocultas que trazem informações do tempo registrado que às vezes passam despercebidos por quem olha como o conjunto de escolhas, o lócus social definidos e a visão política e do tempo histórico de quem registrou.

Dessa forma, para o início dessa série que se propõe a analisar algumas fotografias, selecionamos um registro de uma parte do centro da cidade que tem como tempo natural o dia e como  tempo cronológico o mês de outubro de 1982 do século XX.

O autor foi identificado por fontes como sendo “Dr. Fortunato”, um fotógrafo amador, sem vínculo com instituição ou imprensa que prestou grande serviço a história ao fotografar o cotidiano e algumas paisagens da cidade.

Foto sem filtros

Nos termos técnicos a fotografia traz um grande plano geral preenchido em sua maior parte pelo ambiente e paisagem urbana de uma parte do ainda povoado de Teixeira de Freitas. Na parte inferior registra a entrada da rua Prudente de Morais, parte do entroncamento com a  rua Pedro Álvares Cabral.

Na foto é possível perceber uma parte do fundo da lateral do prédio do antigo Sindicato patronal dos produtores Rurais de Teixeira de Freitas, antigo hospital Santa Lucia onde atualmente funciona o Ambulatório Central.

Pichação no muro

Na parede do prédio do sindicato patronal uma pichação com os dizeres “P/ Prefeito Wilson Brito” se destaca. Em tese a pichação faz parte da prática política da época. A fotografia foi registrada um mês antes da realização do pleito de 1982 que teve como eleito o residente Wilson Brito. Período que segundo relatos e pesquisas este tipo de ação era comum.

A escolha da paisagem pelo fotógrafo não foi qualquer, a fotografia traz uma paisagem modificada pela ação contínua do movimento das classes trabalhadoras e dominantes sobre o meio natural, já não existente no então povoado de Teixeira de Freitas, dividido entre os municípios de Alcobaça e Caravelas. 

Casa e cor da década de 1980

Na paisagem ainda é possível observar uma maior ocupação de espaços por casas, havendo poucos terrenos baldios, o que indica que do ponto de vista imobiliário aquela região já era mais valorizada, logo habitada por pessoas de melhor condições financeiras, fato evidente na arquitetura e formato das casas.

O lado fotografado pertencia ao município de Alcobaça que dispensava uma atenção maior ao povoado, ou seja, o registro traz uma visão da parte onde se localizava as melhores habitações e às desmazelas urbanas não eram tão gritantes, haja visto que o povoado ainda não havia recebido investimentos suficientes em obras de infraestrutura básica, apesar  fluxo de carros e pessoas vistos nas ruas.

O horizonte como destino

No enquadramento geral, se vê, através dos exemplos, um olhar influenciado pela visão desenvolvimentista que norteava a política nacional e local da época, expressa no espaçoso horizonte a ser alcançado pelo “próspero povoado” captado como a imagem e realidade a ser lembrada no futuro… Uma informação explícita e ao mesmo tempo oculta na foto vista por muitos como “um registro de como era Teixeira  de Freitas no passado”.

Fonte:

MAUAD. Ana Maria. Através da imagem: Fotografia e história interfaces. Tempo, Rio de Janeiro, vol.01,.02. p 73 – 98.

 GUERRA, Jailson C. Pereira; SILVA. Leonardo Santos. O processo de emancipação política de Teixeira de Freitas (1972-1985). UNEB 2010.

Daniel Rocha da Silva*

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Trancoso e as contradições no paralelo 17°

Por Daniel Rocha

O município de Porto Seguro, Extremo sul da Bahia, é cortado pelo paralelo 17° s, uma localização geográfica que segundo uma visão mística faz aumentar o clima de sedução e desejo dos turistas que chegam para visitar suas praias e distritos como Trancoso, uma vila “paz e amor” rodeada por contradições urbanas.

Trancoso fica no exato lugar por onde passa a linha que  corta lugares  como Goa e Bali na Indonésia e países como Vanuatu e Polinésia Francesa, que em tese tem o poder místico de despertar a sexualidade e o instinto de liberdade em quem chega para visitar, como os jovens hippies da década de 1970 que ocupou a então pequena vila de Trancoso transformando seu espaço e economia potencializando contradições.


Igreja de São João Batista

Hippies oriundos de todas as partes do Brasil e do mundo, Alemanha, Suíça, Canadá, que sem querer querendo, foram transformando o lugar em um conhecido destino turístico mundial intervindo fortemente na conservação das casas coloniais e de monumentos como a igreja de São João Batista, de 1656, restaurada na década de 70 pelos jovens imbuídos de autoeficácia e liberdade.

Nesse espaço de tempo outros migrantes, vindos de todos os lados do Brasil, também foram ocupando o espaço do distrito e adquirindo terrenos localizados à beira-mar e  também as residências do entorno da Praça do Quadrado, lugar onde até 1975 residia famílias nativas que sobrevivia de pequenos cultivos, pesca e exploração da madeira.

De modo que, com o passar das décadas, a ocupação foi empurrando aos poucos a população nativa para áreas mais distantes das praias como a dos atuais bairros Trancosinho, Maria Viúva e Vila Xando, comunidades que no presente sofrem, como todo lugar que nasce em meio a contradições urbanas, com problemas estruturais e tráfico de drogas.

Dessa forma, o distrito de Trancoso combina no presente o seu passado de aldeia colonial historicamente constituída e mesclada pela cultura nativa, católica e africana com o clima e discurso místico dos ideais hippie do “Paz e amor” em meio às contradições das divisões urbanas e suposta energia do paralelo 17°s que segundo a lenda faz aflorar uma aura mística nos milhares de turistas de todo o mundo que visita o lugar todos os anos em meio às contradições e contrastes ocultos nas propagandas turísticas.

Daniel Rocha da Silva*

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