Trancoso e as contradições no paralelo 17°

Por Daniel Rocha

O município de Porto Seguro, Extremo sul da Bahia, é cortado pelo paralelo 17° s, uma localização geográfica que segundo uma visão mística faz aumentar o clima de sedução e desejo dos turistas que chegam para visitar suas praias e distritos como Trancoso, uma vila “paz e amor” rodeada por contradições urbanas.

Trancoso fica no exato lugar por onde passa a linha que  corta lugares  como Goa e Bali na Indonésia e países como Vanuatu e Polinésia Francesa, que em tese tem o poder místico de despertar a sexualidade e o instinto de liberdade em quem chega para visitar, como os jovens hippies da década de 1970 que ocupou a então pequena vila de Trancoso transformando seu espaço e economia potencializando contradições.


Igreja de São João Batista

Hippies oriundos de todas as partes do Brasil e do mundo, Alemanha, Suíça, Canadá, que sem querer querendo, foram transformando o lugar em um conhecido destino turístico mundial intervindo fortemente na conservação das casas coloniais e de monumentos como a igreja de São João Batista, de 1656, restaurada na década de 70 pelos jovens imbuídos de autoeficácia e liberdade.

Nesse espaço de tempo outros migrantes, vindos de todos os lados do Brasil, também foram ocupando o espaço do distrito e adquirindo terrenos localizados à beira-mar e  também as residências do entorno da Praça do Quadrado, lugar onde até 1975 residia famílias nativas que sobrevivia de pequenos cultivos, pesca e exploração da madeira.

De modo que, com o passar das décadas, a ocupação foi empurrando aos poucos a população nativa para áreas mais distantes das praias como a dos atuais bairros Trancosinho, Maria Viúva e Vila Xando, comunidades que no presente sofrem, como todo lugar que nasce em meio a contradições urbanas, com problemas estruturais e tráfico de drogas.

Dessa forma, o distrito de Trancoso combina no presente o seu passado de aldeia colonial historicamente constituída e mesclada pela cultura nativa, católica e africana com o clima e discurso místico dos ideais hippie do “Paz e amor” em meio às contradições das divisões urbanas e suposta energia do paralelo 17°s que segundo a lenda faz aflorar uma aura mística nos milhares de turistas de todo o mundo que visita o lugar todos os anos em meio às contradições e contrastes ocultos nas propagandas turísticas.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

ATENÇÃO: O conteúdo  deste Site não pode ser copiado, reproduzido, publicado no todo ou em partes por outros sites, jornais e revistas sem a  expressa autorização do autor. Facebook.


Teixeira 35 anos: Algumas curiosidades do cotidiano do ano da emancipação

Por Daniel Rocha

Em uma cidade que se tornou predominantemente urbana no modo de viver a população não escapou e nem escapa de ter a memória marcada pelas mídias de difusão em massa que influenciaram e influenciam experiências sensoriais e coletivas. Dito isso, o site selecionou algumas curiosidades que mostram a dinâmicas  cotidianas e culturais do ano da emancipação.

01 – Quando Teixeira de Freitas foi emancipada no dia 09 de maio de 1985 a cidade já contava com uma razoável estrutura de equipamentos comunitários com dois clubes (Jacarandá e Floresta) dois cinemas (Cine Brasil e Cine Horizonte) e duas estações de rádio (Difusora e Alvorada AM). Uma estação repetidora de sinal de TV para 02 canais, um estádio de futebol e três praças no centro da cidade.

02 – A cidade era servida por uma linha de ônibus urbanos atendida por dez coletivos que ligava a Escola Média de Agropecuária da CEPLAC-EMARC à Vila Vargas, passando pelo bairro do Trevo, Avenida Presidente Vargas e centro da cidade. O horário usado pelos os alunos da EMARC eram evitados por alguns devido a “zoação” da rapaziada no ônibus.

03 – Na época o Centro educacional professor Rômulo Galvão além da educação básica ofertava cursos técnicos em nível de segundo grau. Naquele ano o ensino noturno estava em alta e tinha como alunos trabalhadores do comércio, moças e rapazes. Alguns que,  depois da aula, ficavam na Avenida Getúlio Vargas a espera de seus pares.

04 – Os artistas da cidade formavam um coletivo chamado “Consciência” que reunia variados artistas como artesãos, escultores, cantores e poetas que promoviam no último domingo de cada mês uma feira artística livre na Praça da Prefeitura e shows com talentos musicais no palco do Cine Brasil, que também era uma espécie de casa de espetáculos da cidade.

Icônico LP. O som local da emancipação.

05- Para além dos destaques da paradas musicais nacional e internacional , as emissoras de rádio teixeirenses  também era lugar  aberto para a  música e músicos locais como o popular Carlitos Gomes que naquele ano (1985) lançou o icônico LP “Quero Ter seu amor,”  com músicas populares e genuinamente teixeirense que  invadiu os bares, boates e outros espaços da cidade recém- emancipada.

06 – No Cine Brasil, estima-se que o filme “Os Trapalhões no Reino da Fantasia” atraiu, como toda fita do grupo de Renato Aragão, uma multidão para sala mais procurada da cidade alguns meses antes da realização da primeira eleição municipal de Teixeira de Freitas. 

07 –  Na cidade emancipada o domingo era dia de jogar futebol nos diversos campos espalhados pelos bairros do município . No estádio municipal as equipes profissionais de grande destaque como o CEFBOL (Clube Estudantil de Futebol) ,criado com o apoio dos estudantes do CEPROG (Centro Educacional Professor Rômulo Galvão), conquistava com destaque os torcedores. Com a emancipação as equipes locais puderam enfim organizar oficialmente a chamada L.F.T.F. (Liga de Futebol de Teixeira de Freitas), concretizada em 1987.

08 – No dia da emancipação a TV Globo, uma das duas emissoras sintonizadas na cidade, reprisava a novela “Elas Por Elas” no “Vale a pena ver de novo” e a Sessão da Tarde exibiu o filme “Por Um corpo de Mulher.” Durante a noite exibiu também a inédita “Corpo a Corpo” novela das oito que em Teixeira era acompanhada por uma população que dividia a sala e as janelas com os vizinhos que não tinham TV.

09 – Enquanto a cidade emancipada sonhava com uma Biblioteca pública, o livro  “A Insustentável Leveza do Ser”, Milan Kundera, dominava o topo da lista dos mais vendidos do país. Lançado em 1982 a obra estaria disponível na cidade se houve um melhor acesso a leitura.

10 –  Até 1985, quando foi promulgada a Emenda Constitucional nº 25 à Constituição de 1967, os analfabetos não tinham o direito de votar, viviam à margem da democracia no país. Por isso muitos não puderam participar do plebiscito sobre a emancipação da cidade realizada em no final de 1984. Curiosamente o Congresso Nacional aprovou o direito ao voto na noite do dia 08 de maio de 1985, um dia antes do governador do estado oficializar a emancipação da cidade. A aprovação permitiu a participação dos não alfabetizados na eleição que elegeu o primeiro prefeito em 15 novembro de 1985.

Fontes:

BANCO DO NORDESTE, As origens. Teixeira de Freitas, Fortaleza – Ceará. Janeiro 1985.

ROCHA. Daniel; OLIVEIRA.Danilo. Cinema – Contribuições no Processo de Formação da Sociedade de Teixeira de Freitas nos anos de 1960, 1970 e 1980. UNEB, Campus X – 2010

DETHLING, William Moacir. Teixeira de Freitas entra em campo: A história do futebol da cidade de Teixeira de Freitas entre os anos de 1970 e 2000. UNEB – X. 2011.

JB. Programação da TV. 09 de maio de 1985. 

Carlitos Gomes: http://dicionariompb.com.br/carlito-gomes/discografia

O causo da Marrom Glacê e a copa de 1986: 

<

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

ATENÇÃO: O conteúdo  deste Site não pode ser copiado, reproduzido, publicado no todo ou em partes por outros sites, jornais e revistas sem a  expressa autorização do autor. Facebook.

Por que os índios visitam a Praça da Bíblia?

Em 2014 uma notícia relacionada a presença dos nativos Maxakali no centro da cidade de Teixeira de Freitas, BA, ganhou destaque em alguns sites nacionais como o G1. Na época o fato trouxe à tona uma pergunta a muito feita: por que esse povo nativo visita a Praça da Bíblia?

Os repórteres locais acionaram a polícia e as autoridades competentes para socorrer um garoto Maxakali encontrado “amarrado pelo pé em uma barraca na praça” que fica no centro da cidade. Ainda segundo a reportagem, os pais do garoto fazia parte de um grupo de cerca de 50 indígenas pertencentes à localidade de Machacalis, próximo à divisa com Minas Gerais, que vagavam pela região pedindo esmolas.

Foto: photojornalismo

Procurada pelo G1, a Fundação Nacional do Índio (Funai) informou que os indígenas da região têm o costume de fazer esse tipo de percurso. “Antigamente as famílias faziam para colher frutos e sementes no caminho e que, com o crescimento da cidade, passaram a mendigar”. Sobre a criança, a Funai informou que eles têm o entendimento de que, amarrando, ela não ia se perder.

Contudo, para melhor entender a ligação dos nativos com esse percurso é preciso lembrar o passado pouco divulgado do território teixeirense que até 1985 pertencia ao município de Alcobaça. Antes da invasão portuguesa a partir de 1500, o povo Maxakali, que eram habilidosos coletores e incipientes agricultores, tinham como território a região entre o Rio Prado , Extremo Sul Baiano, e o Rio Doce, Minas Gerais e parte do Espírito Santos.

Os nativos Maxakali, que ocupavam a região com um conjunto de vários grupos, habitavam uma aldeia que ficava na embocadura da margem esquerda do Rio Itanhém que deu origem ao Arraial do Itanhém que por sua vez originou a Vila de Alcobaça, criada em 1772 pelo ouvidor José Xavier de Machado sob o argumento de defesa da costa e a necessidade de intimidar os “índios bravios” do sertão.

Nesse período a coroa portuguesa, diante da crise desencadeada na segunda metade do século 18, pelo declínio do ouro nas minas gerais, adotou medidas para potencializar a exploração econômica da região através da ocupação de novos espaços e perante isso, o governo da província da Bahia autorizou a invasão de terras indígenas para fins de ocupação e enfrentamento.

Tal fato, dentre outros, empurrou os Maxakali para outras partes do território onde se encontrava outros da tribo, evidentemente para se proteger do assédio e ataques da política de aldeamento promovido pelo império.

Diante disso, é possível então supor que os descendentes destes nativos, que  no presente ocupam terras reduzidas e com recursos naturais escassos, visitam a praça movido pela memória ancestral e sentimento de pertencimentos que aflora em alguns dos antigos habitantes dessas terras, apesar do assédio dos olhares locais herdados dos colonizadores que só enxergam na visita desajustes sociais.


Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

O Conteúdo  deste Site não pode ser copiado, reproduzido, publicado no todo ou em partes por outros sites, jornais e revistas sem a  expressa autorização do autor. Facebook

Fontes:

J. C. R. Milliet de Saint-Adolphe. Diccionario geographico, historico e descriptivo do imperio do Brasil.  Volume 1. 1845. Página 27. 

Criança indígena é encontrada amarrada em praça na Bahia: http://g1.globo.com/bahia/noticia/2014/06/crianca-indigena-e-encontrada-amarrada-em-praca-na-bahia.html

Índios do Nordeste: Resistência, memória, etnografia. Org. LUIZ SAVIO DE ALMEIDA, AMARO HÉLIO LEITE DA SILVA, CHRISTIANO BARROS MARINHO DA SILVA, JORGE LUIZ GONZAGA VIEIRA, MARIA ESTER FERREIRA DA SILVA . Páginas 60 – 68.
F

A origem da pandemia da Covid-19

POR ERIVAN SANTANA*

Com a pandemia do novo coronavírus, os meios de comunicação têm colocado em pauta apenas este assunto, e em alguns casos com uma certa dose de sensacionalismo, deixando de responder a uma pergunta essencial: Qual é a origem do novo coronavírus? 

Nessas situações, proliferam relatos conspiracionistas na internet, dizendo que isso se deve a “certos hábitos alimentares dos chineses”, aumentando assim, o preconceito a este povo. 

Pois bem, retornando à pergunta, a jornalista e cientista Sonia Shah,em brilhante artigo publicado na revista Le Monde Diplomatique Brasil, de março de 2020, nos faz um importante alerta do ponto de vista ecológico. Segundo ela, “Muitos micróbios convivem naturalmente com os animais, sem lhes causar mal algum.

O problema está em outra parte: com o desmatamento, a urbanização, e a industrialização desenfreados, nós oferecemos a esses micróbios meios de chegar e se adaptar ao corpo humano”. 

Com a destruição dos habitats naturais, perdemos o equilíbrio da interdependência ambiental, restando aos animais sobreviventes buscar refúgio nos habitats que sobram, o que os aproximam dos humanos, permitindo assim, passar estes micróbios para os seus corpos. 

Em seu artigo, a jornalista faz uma interessante retrospectiva histórica, dizendo que “O fenômeno de mutação dos micróbios animais em agentes patológicos não é novo, tendo surgido com a revolução neolítica, quando o ser humano começou a destruir os habitats selvagens para ampliar as terras cultivadas e a domesticar os animais, transformando-os em bestas de carga”. 

A natureza opera em um sistema de “lei natural, de ação e reação”, desta forma, com os animais vistos apenas como fonte de lucro e alimento em larga escala, passaram a transmitir doenças ao homem, como as vacas que nos trouxeram a tuberculose, os porcos a coqueluche e os patos, a gripe. 

As pandemias causadas pela intrusão do homem em ambientes naturais continuam atuais, como o lentivírus do macaco que se tornou o HIV, a bactéria aquática dos Sundarbans, conhecida como cólera que já provocou sete pandemias até hoje, a mais recente no Haiti. Outro exemplo recente também foi a gripe aviária, ocorrida na Ásia, provocada pelo amontoamento de centenas de aves, um cenário ideal para a transmissão de micróbios.

O fato é que diante desta perigosa e preocupante pandemia que hora enfrentamos, a globalização industrial e financeira está em cheque, assim como a urbanização e as grandes metrópoles, incluindo o próprio capitalismo, e não sabemos ainda que mundo virá pela frente, mas uma coisa é certa, a questão ambiental deverá e necessitará ganhar cada vez mais relevância, para o bem da humanidade e para as futuras gerações.

*ERIVAN SANTANA. Crônica publicada no jornal A Tarde, Salvador, 13/04/2020

Como era a “Malhação de Judas” em Teixeira de Freitas?

Por Daniel Rocha

O sábado entre a semana santa e o domingo de páscoa é chamado de Sábado de Aleluia. Dia de lembrar a ressurreição de Jesus e a traição cometida pelo seu discípulo Judas Iscariotes. Dia também, segundo a tradição católica, de queimar o boneco do Judas traidor. Em Teixeira de Freitas das décadas de 1960,1970 e 1980 a brincadeira tradicional foi realizada em diversos bairros da cidade.

Em 2015 durante uma conversa informal, Maria de Fátima Leite, natural de Águas Formosas, MG, que mudou para Teixeira no ano de 1969, relatou que um antigo morador conhecido como “Paulo” realizava a queima do Judas na madrugada do sábado de aleluia no bairro Wilson Brito.

A “malhação do boneco,” feito com palha e madeira, começava às três horas da manhã aos gritos e vaias de uma multidão formada por inúmeras crianças e adultos que, antes da queima, apedrejava o boneco “sem dó e nem piedade” na escuridão de um povoado sem acesso a iluminação elétrica.


Imagem Meramente Ilustrativa

Já no bairro Teixeirinha, década de 1960, os moradores participavam através de cânticos e palavras de ordem relacionada ao feito, lembra a moradora Ricardina Maria sobre a queima no bairro. Antes de ser queimado o boneco era arrastado pelas ruas puxado por um Jegue e deixado na porta de um morador ao som de rimas e cantigas que faziam referência ao dono da casa. “Esse judas não come farinha. Vai pra casa de seu Farias!”

Já o capixaba Elcilande Ferreira, natural da cidade de Pinheiros (ES) lembrou que a queima também era realizada no Vila Vargas, bairro onde passou toda infância e adolescência. Naqueles tempos, década de 1980, a queima era realizada na Rua Aurelino J. de Oliveira e o ritual começava dois dias antes com a busca entre os vizinhos de doações de roupas velhas para confeccionar o boneco.

No dia de malhar o judas, o boneco, preenchido com roupas e jornais, era colocado em uma carroça, puxado e lixado pelas ruas do bairro enquanto a sentença era anunciada como o um último grande ato da semana santa.

Foto: Suposto Bairro Teixeirinha. Ano desconhecido.

No bairro São Lourenço da década de 1980 a tradição também era encenada, Flaviana Melquiades recordou que antes de ser queimado no sábado pela manhã um boneco era confeccionado pelos residentes com roupa e sapatos “de gente” doados por moradores da referida rua. O boneco era colocado em um poste de madeira no meio da rua da feirinha de domingo, para ser zombado pelos passantes que buscavam saber o horário do castigo.

No dia seguinte pela manhã, o ritual começava com o apedrejamento e agressões. Homens e meninos cutucavam e espancava o boneco do Judas antes da condenação final. A encenação era muito violenta e segundo Flaviana; “aterrorizava muito as crianças menores porque o boneco tinha uma fisionomia muito próxima da humana.”

Diante dos relatos é possível perceber que a manifestação cumpria bem seu objetivo de recordar a ressurreição de Jesus e a traição cometida pelo seu discípulo Judas, mensagem facilmente assimilada pela comunidade que não encontrava dificuldade em modificar o rito de acordo as necessidades práticas e  próximas.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

O Conteúdo  deste Site não pode ser copiado, reproduzido, publicado no todo ou em partes por outros sites, jornais e revistas sem a  expressa autorização do autor. Facebook

Fontes Orais

Conversa informal com

Flaviana Santos               Dezembro de 2015

Elcilandi Ferreira .          Dezembro de 2015

Maria de Fátima Leite   Maio de 2016

Ricardina Maria.             Maio de 2016

Teixeira de Freitas antes do SUS: rezadores, macumbeiros e garrafadas

Por Daniel Rocha*

Anterior a democratização de acesso aos médicos e hospitais proporcionado pela criação do SUS em 1988, os curandeiros, rezadores, “macumbeiros” atendiam prontamente alguns moradores de Teixeira de Freitas, cidade do extremo sul da Bahia, fazendo uso de rituais, remédios e práticas das religiões Afro-brasileiras.

Diante disso, os “Centros de macumba”  atuavam no tratamento dos interessados e necessitados e alguns moradores procuravam os “terreiros ” e suas garrafadas, medicamentos caseiro feito com raízes e folhas, misturados ao álcool, para cura de diversos males.

Segundo Lima Santos, na década de 1960, por exemplo,  existia um terreiro que ficava no bairro Nova América que era conhecido por tratar pessoas com “o Juízo perturbado” que quando necessário internava para a realização de acompanhamento e tratamento espiritual.  

“O Pai de santo do lugar trabalhava mais de graça do que por dinheiro. Ajudava muita gente…. Não tinha jeito, não tinha outro lugar na doença.”

Contudo, um levantamento informal do memorialista Domingos Cajueiro Correia, importante colaborador deste site, aponta que o trabalho dos curandeiros e as garrafadas não deixaram de ser procurados depois da inauguração do Hospital Sobrasa em 1971, convém lembrar que o mesmo só atendia conveniados.

Conforme tomou nota a busca por esse tipo de tratamento não estava a associado apenas a falta de acesso a medicamentos farmacêuticos ou médicos, pois, lembra, que na década de 1970  doenças venéreas eram tratados com Benzetacil injetável no hospital e depois com garrafadas das rezadeiras. “O uso de um não excluía o outro.”

Bairro Mirante do Rio. Mediações do Batalhão. Década de 1970.

Já o sexagenário Pedro de Ferreira lembra dos “macumbeiros Gui e Pó de Pemba”que atendiam nas mediações do trevo da cidade, bairro Mirante do Rio, na década de 1970. De acordo com ele o mais procurado era o “Seu Gui” que realizava atendimento em domicílio, “fechando corpos e fazendo rezas”, conforme a solicitação do cliente.

Ainda de acordo com o senhor Ferreira, na década de 1980 “Dona Mocinha”, uma parteira e rezadeira do Caxangá, povoado de Alcobaça, costumava orientar e “receitar” garrafadas para mulheres com idade vencida para gravidez”, a mesma tinha casa onde hoje fica o bairro Recanto do Lago.

Assim, diante destas narrativas é possível afirmar que no passado, em Teixeira de Freitas, os rezadores e rezadeiras e os macumbeiros foram também “os médicos do lugar” atendendo a população que os procuravam devido a falta de acesso a médicos e hospitais como também  por fé, necessidade, crença e costume.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

O Conteúdo  deste Site não pode ser copiado, reproduzido, publicado no todo ou em partes por outros sites, jornais e revistas sem a  expressa autorização do autor. Facebook

Fontes:

Dos Santos.Jonival Alves, Dos Santos. Eliomar Pires.O tratamento médico e as práticas populares em Teixeira de Freitas nas décadas de 1960 e 1970. Uneb 2011.

Anotações do memorialista Domingos Cajueiro Correia

Conversa informal com Pedro de Ferreira

Foto: AV Getúlio Vargas 1985. Revista Teixeira de Freitas Origens. Banco do Nordeste.

Teixeira de Freitas 1971: A primeira agência bancária da cidade

No dia 20 de novembro de 1971 foi instalado no povoado de Teixeira de Freitas o Banco do Estado da Bahia (BANEB), a primeira agência do então povoado. A chegada da agência foi alardeada como o início de uma “ nova fase de progresso” para o lugar.

Antes, para realizar algumas atividades bancárias os moradores tinham que se deslocar até alguma cidade próxima, como Nanuque, para acessar serviços bancários e realizar transações financeiras. Com a agência o comércio do povoado que já sonhava com a emancipação cresceu ainda mais servindo como muleta para o desenvolvimento econômico da cidade.

“A agência pioneira terá requisitos de agência de alto estilo e à altura das congêneres das capitais pois somente o fato de possuir ar condicionado para o público demonstra o gabarito de sua classe. Começa, assim, uma nova fase de progresso para Teixeira de Freitas”, observou um jornal da época.

Com a instalação da agência o governador, Antônio Carlos Magalhães (1971 – 1975), cumpriu com uma das providências prometidas aos empresários e agropecuaristas durante o período que o povoado foi transformada na capital simbólica do estado por alguns dias como parte de uma política iniciada pelo Governador Lomanto Júnior ( 1963-1967) para inserir a região na dinâmica econômica do estado e diminuir a influência de Minas Gerais e do Espírito Santo nesta parte do território baiano.

No campo econômico, em tese, a agência dinamizou a circulação de dinheiro e facilitou a vida dos moradores  e dos empresários do povoado e possibilitou ao Estado o recolhimento dos tributos nos prazos legais. 

Para além disso, como ganho político, ACM fortaleceu sua narrativa propagandista de que o progresso do Extremo Sul ocorria em consequência da sua motivação investindo pouco no social. 

Agência BANEB 1999

Convém lembrar que no ano de 1979, por exemplo, com seus 33.031 mil habitantes Teixeira ainda não tinha rede de esgoto e o sistema de abastecimento de água instalado em 1974 já se mostrava deficitário  desde dia da inauguração e não tinha sequer uma biblioteca pública ou um mercado organizado para os feirantes. Realidade que perdurou até o final da década de 1980.

Sob essa perspectiva, é possível observar que o anunciado progresso não ocorreu por completo, pois no primeiro momento não trouxe investimentos para cidade que ainda no presente sofre com sérios problemas estruturais, sociais e urbano.

Fontes:

Governo vai inaugurar Agência Bancária. F N.  Novembro de 1971.

As origens.Banco do Nordeste. 1985. Pg 28.

HOOIJ, Frei Elias. Os desbravadores do Extremo sul da Bahia, Belo Horizonte.2012. Pg 65

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

O Conteúdo  deste Site não pode ser copiado, reproduzido, publicado no todo ou em partes por outros sites, jornais e revistas sem a  expressa autorização do autor. Facebook.

Foto Principal: AV. Marachal Castelo Branco. Ivonildes Hoffman. Ano Desconhecido.

O DIA EM QUE A TERRA PAROU

Esta é uma das canções mais conhecidas de Raul Seixas, o “maluco beleza”, que se dizia capaz de se comunicar com extraterrestres, além de ter sido profundamente conectado com os movimentos de contracultura de sua época. Será que Raul realmente teve um sonho do que realmente está acontecendo nos dias atuais?

Considerado o pai do rock ‘n’ roll no Brasil, e grande cinéfilo, Raul compôs esta canção após ter assistido ao filme “O dia em que a Terra parou”, de 1951, dirigido por Robert Wise. No filme, o personagem Klaatu (Michael Rennie) , acompanhado do robô Gort, são enviados por uma federação de planetas para ordenar que o povo da Terra pare seus testes nucleares.

De lá para cá, o mundo não somente ampliou os armamentos de guerra, como também aumentou a devastação do planeta, com os altos índices de consumo, característica primordial do capitalismo global.


Em um dos seus versos, a canção diz “que o professor não tem mais nada a ensinar” e “o médico não tem mais nada pra curar”, evidenciando uma certa ironia, característica muito presente na maioria de suas composições, visto que o conhecimento é infinito e está sempre em questionamento, e é claro, os médicos hoje têm muito para curar.


De qualquer forma, a letra da música prevê o colapso do sistema, que para o sociólogo Émile Durkheim, deve ser harmonioso entre todas as suas partes, o que evidentemente, não acontece nos dias que correm, haja visto a crescente desigualdade social, a vilolência, a degradação constante do planeta, exaurindo-se aos poucos, para dar conta da sede de consumo da sociedade moderna.

Os sinais são visíveis, como os recentes incêndios na Austrália, as queimadas e a degradação na Amazônia, o aumento da temperatura do planeta, ano após ano. E eis que de repente, como diz na canção “O dia em que a Terra parou”, somos obrigados a ficarmos confinados em nossas casas, levando-nos a um encontro consigo mesmos e com o próximo, e como sempre acontece nesses casos, o homem é levado a refletir sobre o sentido e o valor da vida, e isso não aconteceria, se dependesse da simples boa vontade de todos.

É triste, é penoso , é sofrido, tudo o que está acontecendo, e ficamos abismados, quando vemos países ricos e desenvolvidos sem ter muito o que fazer, e quando constatamos que a ciência e a tecnologia, em que pese o seu desenvolvimento, não tem nenhum domínio sobre a natureza.


Em meio a tudo isso, percebemos que o Estado ainda tem um papel forte e gerenciador na economia, e que o nosso SUS é uma grande conquista do povo brasileiro, que necessita na verdade, de mais apoio e incentivo. Que após vencermos estas dificuldades e este momento atual, possomos nos tornar pessoas melhores, mais humanas e fraternas.

ERIVAN SANTANA
Crônica publicada no jornal A Tarde, Salvador, 23/03/2020

Caravelas 1885: Epidemia matou milhares na cidade

Por Daniel Rocha 

Dos males que assustam a humanidade, as grandes epidemias infecciosas são as mais assustadoras. Como em outros lugares do país e do estado a população de algumas cidades do extremo sul da Bahia também encarou epidemias mortais ao longo da história, como a cólera que levou sofrimento e desolação a Caravelas em 1885. 

Segundo Onildo Reis David, entre 1855 -1856 uma devastadora epidemia de cólera-morbus levou pânico e medo na população da cidade de Salvador que desconhecia completamente a doença. Nesse cenário os médicos não estavam bem orientados sobre a prevenção e o tratamento. 

No seu início a doença causou a morte de 08 a 10 pessoas por dia e a população desesperada passou a associar a doença a um castigo divino. “As preces e as procissões de penitência sucediam-se na flagelada cidade do Salvador.” 

O adoecimento de trabalhadores ligados à produção e transporte agravou ainda mais a situação provocando uma crise de abastecimento e a carestia de produtos básicos. A doença se espalhou e chegou a outras cidades portuárias da província, estado, como Caravelas. 

Na portuária Caravelas a doença chegou pouco tempo depois de ter se manifestado em Salvador atingindo uma população já traumatizada pelo surto de disenteria de sangue que atacou a população dois anos antes, 1853. Segundo Ralile, um surto de “Cólera Morbus”  que já tinha dizimado parte da população. 

O drama diante da situação fez com que algumas medidas fossem tomadas para evitar o contágio. Moradores desolados passaram a marcar paredes e portas das residências dos contaminados com uma cruz vermelha e a seguinte frase: “Passa de largo, o cólera-morbus visitou esta família.” 

O governo da província, fez chegar à cidade remédios, auxílio e os médicos José Cândido da Costa e Ernesto Muniz Cordeiro Gitahy, caravelense formado pela Faculdade de Medicina da Bahia que com o amigo José, lutou arduamente contra o cólera.  

Sobre a passagem da doença por outras localidades próximas observou Said (2011) “Não há notícias em Alcobaça de vítimas de epidemia da cólera que abalou Caravelas na década de 1850, mas é bem provável que tenha havido vítimas, sim. De qualquer forma, o medo de epidemia e doenças vindas de vilas vizinhas era constante. A câmara municipal vivia pedindo ao governo provincial o envio de medicamentos para que a população pudesse se precaver de contágios vindo de Prado, por exemplo”. 

A epidemia manteve se ativa até finais de abril de 1856, quando depois de matar cerca de 36,000 começou a declinar.  Segundo Luís Henrique Dias Tavares, sem esgotos, a cidade do Salvador manteve-se aberta às moléstias infectocontagiosas que vez ou outra atacavam sua população, não é difícil supor era também a realidade de Caravelas 

 
Citações e Referência. 

SAID, Fabio M. O clã Muniz de Caravelas e Alcobaça. São Paulo: edição do autor, 2010. p. 39. 

SAID, Fabio Medeiros. História de Alcobaça Bahia(17721958). São Paulo.p. 92 

David. Onildo Reis. UFBA. O inimigo invisível: epidemia do cólera na Bahia em 1855-56.  1993. p 07,08,09,10. 

Japoneses na conquista do Nordeste: 40 anos da colonização Japonesa no Sul da Bahia.  

Caravelas, BA: Fundação Professor Benedito Ralille, 2006.  

 
Daniel Rocha da Silva* 

Historiador graduado e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. 

Contato WhatsApp: (73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com 

O Conteúdo deste Site não pode ser copiado, reproduzido, publicado no todo ou em partes por outros sites, jornais e revistas sem a expressa autorização do autor. Facebook

Foto :Fundação Professor Benedito Ralille, 2006 

Surtos e epidemias na história de Teixeira de Freitas – Parte 01

Por Daniel Rocha

A Pandemia do Coronavírus está longe de ser a primeira doença na história que preocupou o país e os teixeirenses. Surtos e epidemias como o da paralisia infantil (1968) e do cólera (1992), marcaram a história de Teixeira de Freitas.

Em 1968 o país enfrentou um terrível surto de Poliomielite (paralisia infantil) que afetou diversas crianças e em Teixeira de Freitas. Na época o hospital mais próximo ficava em Caravelas e o acesso era difícil. No povoado Teixeirense havia apenas um consultório médico que atendia mediante pagamento e  que não disponibilizava a vacina. 

Propaganda de um consultório médico de Nanuque de 1968

A vacina de Sabin, que combate a doença, estava disponível para quem podia pagar em cidades próximas como Nanuque (MG) e Linhares (ES). ” Muitas crianças morreram por falta de dinheiro para pagar por consulta”, afirmou a moradora Antônia Silva em 2011.

Entre 1964 e 1974 cidades do interior e algumas capitais do país, apresentaram expressivo aumento na taxa de mortalidade infantil, evidenciando que naquele período as mortes estavam relacionadas a falta de um sistema público de saúde e não a quantidade de hospitais e médicos. Faltava um sistema público de saúde organizado para a execução de estratégias preventivas.

Já em Janeiro de 1992 o Jornal do Brasil noticiou que Várias equipes de sanitaristas da vigilância epidemiológica do estado, órgão do SUS, estavam espalhadas em pontos estratégicos da Bahia: “Uma delas está atuando na cidade de Teixeira de Freitas, passagem dos ônibus que vêm de São Paulo, Rio e Espírito Santos e outros entroncamentos rodoviários no estado para conter a entrada da cólera.”

Rito fúnebre. Enterro. Av Castelo Branco 1975

Já em 1993, quando a doença avançava na cidade de Salvador e em todo o estado baiano o jornal Tribuna da Bahia de 21/03/1993, destacou: “Cólera ameaça 88% da população”. Segundo o periódico a epidemia teve início em 1992 e avançou por falta de medidas para contê-la”, já que era redutível por saneamento.

Em Teixeira, alguns pais moradores de áreas mais segregadas e sem saneamento, preocupados com a notícias e confiantes na crença de que o alho afastava a doença, confeccionaram pequenos cordões contendo uma bolsinha costurada com alho para uso dos filhos na escola, o que não impediu que crianças com alguns sintomas suspeitos fossem internadas e tratadas nos hospitais conveniados aos SUS, Santa Rita, Sobrasa, além do estadual Hospital Regional que com toda dificuldade impediu um mal maior.Até 1997, o Centro de Saúde Mãe Maria era a única unidade de saúde que ofertava vacinas para imunização no município. 

A partir de julho de 1998, com a municipalização da saúde foram abertos novos postos de saúde que hoje cobrem mais de 90% do município democratizando os serviço de vacinação e assistência médica em todos os bairros da cidade que no presente se encontra assustada com o coronavírus que alastra pelo mundo.

Fontes e Referências

MAZZOLENIS, Sheila. Almanaque Abril de 1981, são Paulo: Abril, 1981.MARTINELLI, Maria Lúcia. Serviço Social: identidade e alienação: 2° ed. São Paulo: Cortez, 1991.

Dos Santos.Jonival Alves, Dos Santos. Eliomar Pires.O tratamento médico e as práticas populares em Teixeira de Freitas nas décadas de 1960 e 1970. Uneb 2011.

Motorista é o primeiro caso de cólera na Bahia. Jornal do Brasil.  28/01/92

Tribuna da Bahia 18 de junho de 1992. Anais da Câmara dos deputados – Volume 18,Edição 27 – Página 17907

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

Foto da capa: Av. Castelo Branco. Autor e ano desconhecido.

O Conteúdo  deste Site não pode ser copiado, reproduzido, publicado no todo ou em partes por outros sites, jornais e revistas sem a  expressa autorização do autor. Facebook.