CONVERSANDO COM GILBERTO GIL

Quando a noite cai juntamente 

Com as recordações a serem esquecidas

O som ao redor nos chama para

Requentar e repartir o pão

Observando as estrelas, enternecidos

Com as percas, pessoas que eram

O que poderiam ter sido

Nos vemos uns aos outros

Como reflexos no espelho

Dizendo não chores mais!

ERIVAN SANTANA

Veja também:

VIDAS CRUZADAS

A CARTA

Fim de tarde

O ensaio de Maitê

O saxofonista no telhado

Em busca do tempo perdido

Procurando Marília

Em Teixeira de Freitas monumento lembra o filme O Rei Leão

Por Daniel Rocha 

Pouca gente sabe ou já observou que na Praça dos Leões, localizado no centro da cidade de Teixeira de Freitas, extremo sul da Bahia, há um monumento que faz referência ao filme de animação tradicional “O Rei Leão” (1994) que, como a versão lançada esse ano de 2019, reinou absoluto entre as crianças.  

Construída no final da década de 1960 e reformada no final de 1970, durante a administração do prefeito alcobacense Gerson de Oliveira Costa, o “Caboclinho,” a Praça Castro Alves é popularmente conhecida como a “Praça dos Leões” devido às diversas esculturas decorativas colocadas em seu entorno. 

Já escultura  em questão, que tem semelhança a “A pedra do Rei”,  foi montada no início da década passada, 2000, durante a reforma feita pelo então prefeito Wagner Mendonça que revitalizou a abandonada praça pública que nos primórdios da cidade foi ponto de encontro de caçadores e lugar da realização da primeira feira do então povoado. 

Mas qual o sentido da colocação dessa escultura que faz referência ao filme na Praça dos Leões?  Não foi possível apurar de quem partiu a ideia ou quem montou, mas é possível supor que a intenção foi fazer um paralelo entre as esculturas dos leões da praça com o filme americano. 

Visando, por assim dizer, na melhor das hipóteses,criar uma atração turística ligada ao entretenimento, consumo e diversão. Uma perigosa padronização cultural que não possibilita, sem provocações, reflexão.

Vale ressaltar que na praça, junto ao monumento, apenas uma placa, com menos destaque, lembra a importância do local como um lugar de memória, história e marco zero da cidade.  

Fonte:

História de Teixeira de Freitas – Praça dos leões: Parte final

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. 

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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A exploração da madeira em Teixeira de Freitas – Parte 03

Por Daniel Rocha

A instalação de diversas serrarias oriundas do estado do Espírito Santo  na cidade de Teixeira de Freitas, extremo sul da Bahia,na década de 1970,  favoreceu a migração de trabalhadores do ramo. O que lembram sobre esse período os migrantes da indústria da madeira?

Sobre isso, conversei informalmente em 2012 com o senhor Geraldo Silva, um agricultor morador do distrito teixeirense de Santo Antônio, que naquela ocasião vivia de pequenos serviços como ajudante de pedreiro na cidade, Juscelino José, também pedreiro, e Natalino Almeida, carpinteiro aposentado.

Durante uma conversa com o senhor Geraldo, em seu local de trabalho, ele recordou os motivos que fez a família migrar para o então povoado de Teixeira de Freitas no início da década de 1970. “Cheguei aqui em Teixeira com a idade de seis anos, minha família é de Minas Gerais… Meus pais saíram de lá porque aqui era mais promissor.” 

O antigo funcionário da Serraria Divilan, que se localizava no centro da cidade, nas proximidades da escola Vila Vargas, revelou que as serrarias eram grandes galpões armados movido a força humana e de máquinas onde os migrantes especializados para o ramo facilmente encontrava ocupação remunerada. 

Contudo, conversando com o senhor Geraldo, foi possível notar, por assim dizer, que ele não percebia o lugar como uma fábrica ou uma unidade industrial, apenas como “uma serraria que beneficiava madeiras para vender”. 

Revelou ainda com base em suas lembranças de operário que tudo ali produzido era vendido para fora em forma de casas pré – moldadas, tendo como clientes fazendeiros e construtores da localidade e de outros estados que adquiriam janelas, portas, caibro e ripas, usadas na construção de casas e prédios. 

Clipe animado com foto da antiga Serraria Divilan

Já de acordo com a perspectiva compartilhada do senhor Juscelino José, também pedreiro, as serrarias eram verdadeiras fábricas que funcionavam dia e noite, todos os dias do ano, para atender encomendas diversas , das capitais e da própria região, em uma jornada com poucos intervalos.

“Eu trabalhei como ajudante no turno extra que começava às 18h da tarde e iam até 02h da manhã (…). A Serraria era organizada como qualquer grande indústria e empregava uma grande quantidade de trabalhadores”.

Ainda de acordo, foi devido a necessidade de funcionar em turnos extras que levou algumas serrarias a construir casas de madeira nas proximidades do local, principalmente para os trabalhadores vindos do Espírito Santo.  Ainda de acordo com os entrevistados, Juscelino e Geraldo, todos trabalhavam registrados legalmente.

No entanto, Natalino Almeida, carpinteiro aposentado, que na época trabalhou exercendo a profissão em diversas serrarias, afirmou que na época era muito comum um trabalhador ser contratado para uma função e registrado na carteira como praticante de outra, fato que evidencia que havia arranjos do tipo.

Curioso notar que, embora haja registros e relatos de acidentes envolvendo trabalhadores da madeira esses acontecimentos se fizeram ausentes nas recordações espontâneas destes trabalhadores.  Assunto dos próximos textos da série. 

Durante o bate – papo como senhor Geraldo ele fez lembrar que o seu irmão mais velho também trabalhou na serraria Divilan durante a década de 1970, mas que depois preferiu migrar para o estado de São Paulo em busca de “atividades mais rentáveis”, fato que indica que muitos que chegaram também partiram com o fim da atividade. 

Fontes:

Conversa informal com os senhores: Natalino Almeida, Geraldo José e Natalino Almeida, realizada de forma espontânea em  2012. O texto foi publicado originalmente na primeira versão do tirabanha.blogspot.com (2012 – 2013). Na nova revisão alguns termos, informações e a ordem das falas foram alteradas e acrescentadas.

Foto: A foto em destaque e de uma serraria no extremo sul da Bahia. Local não informado. Ano 1971.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. 

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Veja também:

Exploração da madeira – Parte 02

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Em 1983 Teixeira de Freitas teve todos os telefones bloqueados

Por Daniel Rocha*

O privilégio de poder comunicar através do próprio telefone é uma conquista recente para maioria  da população, uma vez que até o final da década de 1980, os telefones fixos eram restritos a poucos e a telefonia móvel, celular, não existia.

Ter um telefone fixo em casa era um luxo caro e difícil. Os interessados em ter uma linha fixa no domicílio, por exemplo, precisavam se cadastrar junto à estatal e esperar entre dois e três anos para obter a linha e pagar uma taxa mensal de aproximadamente mil reais. 


Por essas e outras, na década de 1970 havia no então povoado de Teixeira de Freitas somente alguns telefones a bateria restrito a alguns comerciantes e um Posto Telefônico ,localizado nas imediações do Bairro Novo Horizonte,  para atender a população.

Em meados da década de 1980, esse cenário mudou a partir da expansão dos serviços e a instalação de telefones públicos, orelhões, de discagem direta à distância (DDD) que permitia qualquer pessoa, munida de uma “fichinha”, fazer uma ligação de três minutos.


EPropaganda da TeleBahia década de 1980

Na época uma propaganda da estatal foi lançada na TV com o intuito de convencer os usuários que era possível ,em tal tempo, falar à vontade com quem desejasse, como é possível ver no vídeo abaixo. 

Como a demanda  pelo serviço telefônico era maior do que a oferta e alguns nem sempre funcionavam satisfatoriamente, eram comuns longas filas e esperas que, suponho, alterava a calma de alguns dos usuários levando a prática do vandalismo. Para se ter uma ideia, em 1991, na cidade de Salvador, dos 1.135 dos 4.608 telefones públicos da capital eram danificados a cada mês.

Para driblar essas e outras dificuldades, alguns moradores também costumavam indicar o número do telefone de um vizinho como referência para contatos, recados e informações urgentes. 

Apesar disso, a solidariedade também tinha seu preço, segredos se tornavam públicos e no fim do mês o custo  era repassado ao emissor ou receptor da ligação. Mágoas e desentendimentos também nasciam dessa relação.

Tal quais as empresas privadas são hoje, a estatal também era bastante criticada pelos serviços ofertados, mas isso não mudava em nada a postura da empresa na hora de cobrar ou negociar dívidas dos usuários e dos municípios. 

Prova disso é que em 1983 o então povoado de Teixeira de Freitas sofreu um apagão telefônico total devido à falta de pagamento de dividas contraídas pelos município de Alcobaça. A TeleBahia bloqueou linhas e ligações telefônicas do povoado e de outras 38 cidades do estado como Itanhém e Ibirapuã.

Na época, a direção da empresa estadual informou que a decisão de emudecer os telefones das cidades devedoras somente foi adotada como medida extrema depois de várias tentativas de resolver a situação através do diálogo. 

Segundo informações da fonte, Jornal do Brasil, a empresa só liberou as ligações depois que todos os débitos foram pagos. “Uma vez que a TeleBahia não pode prestar serviços gratuitamente, pois necessita de recursos para ampliação e manutenção dos mesmos”, expressou a empresa em nota. 

No entanto, para além do fato, esse relato nos ajuda entender que a precariedade de acesso aos serviços públicos básicos, como o de comunicação, evidencia que na década de 1980, à população trabalhadora vivenciava uma realidade de exclusão social ocasionada por um processo de desenvolvimento ruim e uma situação econômica precária, em um período em que ter um telefone em casa era um luxo caro e difícil. 

Fontes:

BANCO DO NORDESTE, As origens. Teixeira de Freitas, Fortaleza – Ceará. Janeiro 1986.

Anais do Senado Federal – Volume 15,Edição 9 – Página 3820

Bahia corta telefone de cidades. Jornal do Brasil. Fevereiro de 1983. Acervo Tirabanha.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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Foto: Google Imagens.

Veja também: RELATOS SOBRE OS ANOS 80 EM TEIXEIRA DE FREITAS: O REISADO DE DONA BOLÓ

Rio de Janeiro 1930: Em Madureira mulher enfrentou difamador

Por Daniel Rocha

O que sabemos sobre a década de 1930 no Brasil? Como viviam os homens e as mulheres? Como eram resolvidos os desentendimentos e as tensões cotidianas em uma sociedade sexista? Naturalmente que não como imaginamos. 

Vejamos o caso de uma senhora que acabou presa por supostamente “agredir” um açougueiro no Rio de Janeiro, de acordo a narrativa publicada pelo jornal carioca O Paiz, de janeiro de 1934. 

Segundo noticiou o periódico, a senhora Carmem Dias, casada com o dono de um açougue que ficava localizada em Madureira, na rua D. Clara, ficou a saber que o empregado do estabelecimento, Annibal Ribeiro, de 23 anos de idade, vivia, pelas cercanias a difamando. 

Conta o jornal que certo dia estava o Aníbal à porta de um botequim, próximo ao açougue, quando a senhora o chamou e o interpelou cobrando satisfações sobre o que vinha dizendo aos quatro cantos. 

Repreendido o rapaz quis agredi-la a socos, mas D. Carmem, apanhando um saco de vidros o atacou primeiro fazendo um ferimento no rosto do açougueiro. Por essa razão, logo após o ato, um popular a conduziu à delegacia do 23º distrito, onde foi autuada por agressão”.

O ferido que teve os cuidados médicos no Posto de Assistência do Meyer, recolheu-se depois à sua residência, na casa localizada na rua da estação. Para além dos fatos, o que nos revela a narrativa?

Nas entrelinhas é possível perceber os valores presentes nas correlações cotidianas e as tensões nas relações entre os sexos em uma época onde a mulher começava se destacar e conquistar alguns direitos historicamente negados e questionar tabus.

Por exemplo, o direito ao voto em 1932 e uma participação maior  na vida cívica garantido pela nova constituição eleitoral. Na época  as mulheres do movimento modernista como Patrícia Galvão, Pagu, também começavam a provocar discussões sobre o papel da mulher na sociedade. 

Contudo, segundo a historiadora  Mary Del Priore, escrevendo sobre a mulher operária desse período, as mulheres ainda eram tidas como perigosas e indesejáveis para os patrões, perdidas e “degeneradas” para os médicos e juristas e frágeis e infelizes para os jornalistas, embora, como evidencia a narrativa, fora  das fábricas eram também ativas e resistentes a toda tentativa de violência e abusos. 

Fontes:

O açougueiro foi agredido por uma senhora. O Paiz 24 de janeiro de 1934

DEL PRIORE, Mary (Org.). História das mulheres no Brasil. Coordenação de textos de Carla Bassanesi.

Costumes, ídolos e desafios da mulher de 1930. Por Verônica Mambrini, iG São Paulo | 13/09/2010 Fonte: Último Segundo – iG. https://ultimosegundo.ig.com.br/revolucao1930/costumes-idolos-e-desafios-da-mulher-de-1930/n1237772885629.html

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. Latees.

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Foto: Bairro de Madureira década de 1950

Fonte: mariosergiohistoria.blogspot.com

Na década de 1980 a juventude de Itamaraju reivindicou espaços

Por Daniel Rocha

Na década de 1980 tudo era diferente, havia outros modos de viver, vestir, dançar e especialmente pensar! Ser jovem era antes de tudo ter que vivenciar e enfrentar as dificuldades sociais de uma época em que não havia políticas públicas destinadas à juventude.  

Com o fim da Ditadura Militar e com a redemocratização em 1985, a sociedade civil ganhou mais liberdade e passou a organizar ações, de todo tipo, para reivindicar um conjunto de sucessivas iniciativas visando a solução de problemas ligados a falta de leis voltadas para os mais excluídos da sociedade.

No extremo sul da Bahia, por exemplo, mostra notícias publicadas no jornal A Tarde, que a juventude da cidade de Itamaraju, então carente de espaços de lazer, esportivos e culturais, se organizaram para reivindicar a construção de um ginásio de esportes e um centro de cultura.

“A verdade é que os jovens fazem um apelo ao governo do estado e a todas as autoridades, que estão voltadas para o papel do jovem dentro da sociedade, para que sejam atendidos por um local, onde possam desenvolver os seus esportes com segurança e tranquilidade. (…) Os que existem na cidade são privilégios para poucos, pois pertence a clubes fechados, quando tem acesso, é coisa rara”, observou o jornal A Tarde de setembro de 1985.

Em outra edição do jornal de 29 de novembro de 1986, que não cita o contexto nacional, ficou registrado que as autoridades não haviam respondido o clamor da juventude que já tomava para si o espaço da Praça Castelo Branco, cidade alta, para a prática de todo tipo de esportes, futebol, vôlei e ciclismo. Provocando dessa forma a comunidade, também, a solicitar soluções.

“Os jovens se queixam que procuram aquele lugar, pela falta de uma quadra para a prática das diversas modalidades esportivas e, por ser ali um local onde todos se encontram aos domingos (…). Comunidade pede providências às autoridades para uma solução dos problemas que estão sendo causados por ali”.  

Antes, em abril de 1986, outra iniciativa da juventude já tinha sido noticiada com destaque, a criação da “Associação Cultural da Juventude de Itamaraju” que dentre outras coisas tinha por finalidade organizar o museu de arte da cidade, promover palestras e seminários, concurso e banda de fanfarras.  

Diante dos fatos apresentados é possível considerar que os jovens itamarajuenses conseguiram chamar a atenção dos governantes e da sociedade, como todo, para o problema da falta de espaços de cultura e lazer na cidade e a necessidade da construção de políticas públicas e leis direcionados aos adolescentes das classes menos favorecidas.

Jovens que só tornaram possuidores de direitos específicos com a promulgação do ECA – Estatuto da criança e do adolescente no início da década de 1990 e o estatuto da juventude em 2013, quando outros modos de viver e pensar começaram ser proporcionados por ações públicas.  

Fontes:

O jovem sob três perspectivas: acadêmica, política e cultural. Silvia Helena Simões Borelli, Rita de Cássia Alves Oliveira, Ana Carolina Viestel, Laguna, Ariane Aboboreira e Maria Carolina Silva Fernandes dos Santos. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. 2008

Jovens querem áreas de lazer. Evandro Lima. A Tarde, 18/09/1985. Acervo do site tirabanha.

Jovens criam museu de Itamaraju. Evandro Lima. A Tarde, 18/04/1986. Acervo do site tirabanha.

Associação de Jovens de itamaraju. Evandro Lima. Jornal A Tarde, 29/02/1986. Acervo do site tirabanha.

Foto: Praça de Itamaraju. Ano e autor desconhecido. Fonte: Site IBGE.

Daniel Rocha da Silva*

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Veja também: ANOS 1990 EM TEIXEIRA DE FREITAS: A GAROTA MAIS BONITA DA CIDADE

Teixeira de Freitas: Greve Geral 2019

Por Daniel Rocha

Contra a reforma da previdência e os cortes na educação foi realizada na sexta-feira 14 de junho, uma greve geral que parou as principais cidades do país.

Em Teixeira de Freitas, BA, houve manifestações na BR-101 e centro da cidade, organizada pelas centrais sindicais, movimento estudantil e sociais, que fizeram lembrar a causa da greve geral por meio da mobilização das ruas. Professores da Uneb também protestaram contra medidas do governo Rui Costa (PT).

As mobilizações foram mais expressivas na parte da tarde e início da noite em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, entre outras . A repercussão maior na impressa foi o impacto da greve no setor de transportes.

Dessa forma, estima-se que as manifestações e a greve desempenharam um papel importante e deve influenciar os rumos e fortalecer a oposição a proposta  de austeridade do governo Bolsonaro (PSL).

A crônica de Drummond de Andrade em defesa do povo Pataxó

Por Daniel Rocha

Na década de 1980 a violenta expulsão do povo Pataxó hã- hã -hãe da reserva nativa Caramuru-Paraguaçu, localizada no município de Itaju do Colônia, Camacan e Pau Brasil, chamou a atenção do escritor Carlos Drummond de Andrade que escreveu uma crônica pedindo paz para os  nativos ameaçados e escorraçados da reserva localizada no sul da Bahia.

Segundo o jornal o Estado de São Paulo ,de junho de 1982, representantes da FUNAI e da Associação Nacional de apoio ao índio- ANAI – seguiram na data para o sul da Bahia depois de serem notificados que fazendeiros tentavam tomar a força de parte do que restou das terras da reserva Caramuru-Paraguaçu, há pouco tempo demarcadas pelo governo Federal.

As notícias também davam conta que na ocasião a Polícia Federal havia abandonado a aldeia dos índios Pataxó, onde faziam a segurança da tribo, descumprindo com termos do Estatuto do índio, em vigor na época, que obrigava o Estado realizar a segurança dos nativos em casos de ameaça deste tipo.

Conforme denúncia da Associação Nacional de Apoio ao índio da Bahia, ANAI-BA, publicada no jornal paulista, os nativos que há 52 anos possuíam 50 mil hectares de terras na região naquele momento ocupavam apenas 12 mil hectares e a diminuição estava relacionada à distribuição ilegal de títulos de propriedade aos fazendeiros pelo governo do estado na década de 1970.

Nativos expulsos da reserva em 1982. Jornal Estado de Minas

Ainda de acordo com a nota divulgada à imprensa pela associação o Estado, através de políticos ligados ao governador Antônio Carlos Magalhães, agia em comum acordo e além de pressionar em favor dos fazendeiros e “grileiros” também tentavam caracterizar o povo Pataxó como invasores e não proprietários das terras da reserva.

Diante das notícias sobre as tensões entre os nativos e os grileiros no sul da Bahia, o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu na “Coluna Itinerante” no Jornal do Brasil, uma crônica intitulada “Pataxós” onde critica ,a partir de uma visão social comum, a expulsão dos nativos da reserva e a reação dos mesmos. Um retrato comentado do tempo e da época captado por ele. Assim escreveu o poeta:

Por favor, deixem os pataxós em paz, no chão que é deles, e que estão querendo tomar. Dizem que em benefício de um partido político interessado em agradar fazendeiros. Não faz sentido mudar quem mora no que é seu e está garantido legalmente pelo estatuto do Índio.

Os pataxós que resistem à remoção absurda não são agitadores políticos. Fazem apenas aquilo que todo sujeito morador na sua casa deve fazer se um intruso tenta invadir – lhe o domicílio. A propriedade existe também para os índios – ou há quem ainda não sabe disto?

Abandonados pelo IBAMA e a FUNAI o povo Pataxó resistiu até o ano seguinte, 1983, quando a questão foi parar na justiça. As tensões entre os fazendeiros ,grileiros, e os nativos persistiram durante toda a década de 1980, 1990 e 2000.

Nesse período inúmeros confrontos foram registrados enquanto a questão sobre a posse ficou por anos aguardando a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STF) que, somente em 2012, decidiu pela manutenção dos nativos pataxós nas terras das fazendas localizadas dentro da reserva natural.

Veja também: A atuação do grileiros no extremo sul da Bahia durante a ditadura.

FONTES:

Pataxó vão às Justiça. O estado de São Paulo, 25 de novembro de 1982.

Pataxó. ANDRADE. Carlos Drummond. Jornal do Brasil, caderno B, edição de 09 de outubro de 1982. página 08. Acervo site tirabanha. com.br

Comissão vai à BA para recuperar terra indígena. O estado de S. Paulo. Pg de 06 junho de 1982.

Índios denuncia violação do estatuto pelo DPF. Jornal de Brasília 10 junho de  1982

A remoção forçada do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe. Disponivel em: https://terrasindigenas.org.br/pt-br/noticia/179974

Terra indígena Caramuru-Paraguaçu. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Terra_ind%C3%ADgena_Caramuru-Paragua%C3%A7u

Daniel Rocha da Silva*

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A carta

A carta se perdeu

nas areias do tempo…

De Bandeira a Drummond,

Rimbaud a Verlaine,

Cecília a Clarice,

registros, letras e

marcas atemporais…

Ontem, a grafia,

a página escrita

com devoção;

hoje, a fria letra impessoal

na tela digital,

a refletir o inadmirável

mundo novo!

Erivan Augusto Santana

Veja também:

Fim de tarde

O ensaio de Maitê

O saxofonista no telhado

Em busca do tempo perdido

Procurando Marília


Professores e alunos protestam em Teixeira de Freitas

Por Daniel Rocha

Milhares de  estudantes, professores e profissionais da Educação  e manifestantes marcharam em todo o país na ultima quinta-feira (30/05), contra os cortes na educação. Em Teixeira de Freitas, diversas pessoas ocuparam por cerca de três horas a praça da prefeitura e uma das principais avenidas da cidade, Avenida Marechal Castelo Branco, de onde partiram em caminhada pacífica até à Praça da Bíblia. O ato foi encerrado por volta das 19h.

Formado principalmente por professores e alunos das universidades públicas, do município e do estado, a grande massa com cartazes, palavras de ordem e discursos inflamados, expressou na praça preocupação “com os rumos tomados pelo atual presidente Jair Bolsonaro” que através da sua política de cortes vem causando preocupação a professores e estudantes.

“Estamos na rua para mostrar o descontentamento da juventude com as declarações recentes do governo, não vamos aceitar retrocesso, a educação deve continuar para todos”, declarou a universitária Adriana.

Não é a primeira vez que os estudantes se posicionam contra medidas de corte de um governo, em outubro de 2016, por exemplo, alunos da UFSB ocuparam a universidade contra a PEC 241, também chamada de “lei do teto”, “PEC da morte”, entre outras nomeações, apresentada pela equipe econômica do então governo Michel Temer.

A PEC ,que foi aprovada no mesmo ano, limitou despesas com saúde, educação e assistência social e previdência pelos próximos 20 anos. Alunos da UNEB-X, e do instituto federal também realizaram ocupação de seus respectivos endereços.

Para além da pauta nacional, também expressaram os manifestantes descontentamento com a postura do governador Rui Costa e o prefeito da cidade Timóteo Brito que ainda devem ser lembrados nos próximos atos.

Alunos e professores de todo Brasil e de Teixeira de Freitas, prometem retornar às ruas no dia 16 de junho próximo, dessa vez para participar da “Greve Geral contra reforma da previdência” que deve unir diversas categorias contra a proposta apresentada.