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Nova Viçosa 1884: A fuga dos escravos e a morte do fazendeiro

Por Daniel Rocha

A abolição da escravatura no Brasil não foi fruto apenas da assinatura da Lei Áurea em 1888, mas também da luta e resistência dos negros escravizados em todo país. Revoltas, atos violentos, rebeliões, fugas e insurgência foram formas mais recorrentes de resistência da população negra.

Elemento dessa forma de resistência podem ser conhecidos através dos registros policiais da época, como por exemplo, do assassinato de José Antônio Venerote “o fazendeiro mais próspero e poderoso da Colônia Leopoldina” ,Helvécia, em uma roça na Fazenda Mutum, interior de Nova Viçosa/Caravelas, ocorrido às margens de uma estrada da propriedade.

De acordo com o trabalho de Tadeu Caires, tudo começa no dia 13 de abril de 1884, antes do início da colheita do café, principal produto de exportação da fazenda Mutum, quando 15 escravos fugiram da propriedade e dias depois, 25 de abril, uma emboscada levou a morte Antônio Venerote.

As suspeitas recaíram sobre os escravos fugitivos e ficaram ainda mais fortes depois do depoimento de seis mulheres escravas que havia fugido com o restante do grupo retornaram a fazenda dois dias depois do crime dizendo que havia separada do conjunto que tomou destino ignorado.

Ouvidas pelo investigador, delegado Euzébio da Mota Veiga, além dos detalhes da fuga disseram que fugiram para não servir mais ao seu senhor, “pois não passariam bem na fazenda” e que o ato de rebeldia tinha como finalidade forçar sua venda para outra fazenda.

A mesma alegação foi usada pelos os escravos fugitivos Anselmo, Leonardo, José, Rodolfo, Cristiano, Valério e Semião,solteiros com idade entre 25 e 46 anos,  que quando capturados, quarenta dias após o crime, negaram qualquer participação no ocorrido reforçando o argumento que fugiam dos maus tratos do senhor.

Diante disso, algumas suspeitas passaram a ser lançadas em relação aos fazendeiros vizinhos desafetos de Venorote. Um depoente ,por exemplo, destacou que durante o enterro do fazendeiro disse ter reparado e ouvido no cemitério uma escrava de nome Thereza falar em voz alta falar as seguintes palavras: “de todos os brancos que aqui estão, a maior parte está gostando da morte do meu senhor”.


Casa de Câmara e Cadeia de Nova Viçosa

Contudo, semanas depois de serem levados para a Casa de Câmara e Cadeia de Nova Viçosa, os escravos confessaram o crime apontando o jovem fazendeiro Francisco Ferreira da Câmara como o Mandante. O fazendeiro rival convenceu o grupo que encontrou em sua propriedade os negros fugindo dos “maus tratos” e tramou o crime para vingar o pai falecido e a irmã insultada por Venerote.

O caso finalmente veio a júri nos dias 10 e 11 de abril de 1886. Assim que foi pronunciado e notificado como réu, Francisco Ferreira da Câmara fugiu. Os escravos acusados foram a júri popular na data marcada. 

Na falta de um advogado os negros tiveram o padre Geraldo Xavier de Sant’Anna como defensor, um abolicionista de grande destaque na região. Julgado seis anos depois do ocorrido Francisco Ferreira da Câmara foi inocentado sob protesto da viúva da vítima. Dessa forma, somente os sete escravos condenados pagaram pelo crime que supostamente cometeram.

Apesar do fim trágico para ambos, escravos e o fazendeiro, é interessante observar que a fuga no momento de maior necessidade, colheita, mostra a percepção dos escravizados sobre a importância de sua força de trabalho para economia e produção. A fuga tornava o uso da força escrava um negócio pouco lucrativo.

Fontes:

SILVA. Tadeu Caires. A rebeldia escrava e a derrocada da escravidão na Colônia Leopoldina (1880-1888).

ALANE. Fraga do Carmo. Colonização e escravidão na Bahia:

A Colônia Leopoldina (1850-1888).

MIKI.Yuko. Frontiers of Citizenship: A Black and Indigenous History of Postcolonial Brazil. 

O CAUSO DO VINHO EM HELVÉCIA

Na década de 1940, no distrito de Helvécia, município de Nova Viçosa, extremo sul da Bahia, antiga Colônia Leopoldina, estabelecida em 1818 por colonos alemães e suíços, atualmente um remanescente de quilombo, a “Dança da Garrafa de Vinho” era muito popular em festas e salões do lugar.

A brincadeira popular girava em torno de uma garrafa de vinho cheia deixada no meio de qualquer salão de dança do povoado para ser entregue como prêmio ao casal que dançasse a noite toda sem tocar ou derrubar a prenda.

Basicamente foi isso  que aconteceu para infelicidade de uma jovem garota do lugar que sem maldade vinha se envolvendo com um homem comprometido que se passou por solteiro, narra um causo contado por uma moradora da época.

Segundo a narrativa, ao saber do envolvimento do marido com a jovem a esposa traída e os familiares do pula cerca, preocupados com as consequências do envolvimento, batizou uma garrafa de vinho em um Terreiro local e colocaram no centro do baile organizado por eles e endereçado a jovem enganada.

Para esse baile diversas pessoas foram convidadas, dentre estas a inocente garota que chegando ao lugar ficou sozinha sem um par. O conquistador não apareceu, pois sabendo que se tratava de uma festa organizada na casa de um familiar corria o risco de ter o caso exposto.

Durante a festa um cavalheiro habilidoso e mal intencionado convidou a solitária apaixonada para dançar e assim o fez durante a festa. O dançarino com muita destreza dançou do início ao fim sem derrubar a garrafa deixada no centro do salão festivo.

Como manda a brincadeira no final do baile o casal vencedor ganhava a garrafa com vinho para servir ou beber juntos com os amigos, porém orientado o dançarino dispensou sua parte deixando exclusivamente para sua acompanhante de dança.

A garota satisfeita com a prenda convidou alguns amigos e foi para casa beber, sorrir e conversar. Como era por direito tomou uma dose do vinho antes de servir aos outros que aguardavam ansiosamente pela prenda, algo que não aconteceu, pois logo um mal súbito a atacou de forma fulminante.

Diante da situação, os companheiros concluíram que o vinho não havia feito bem a amiga que passou a sentir infinitas dores na cabeça e fungar lagartas pelo nariz. Assustados com tudo que vinha ocorrendo os amigos e familiares a embarcou no primeiro trem da companhia Bahia – Minas, linha férrea que ligava o povoado a cidade fronteiriça mais próxima, a mineira Nanuque.
Na cidade a turma buscou a orientação de uma “Mãe de Santo Mesa Branca” chamada Dona Sofia, que era conhecida por desfazer trabalhos feitos e “coisas mandadas”. A experiente Mãe, orientada pelos seus guias, teve a visão do mal que estava agindo dentro da apaixonada provocando dores e tormentos terríveis.

Com muita fé e trabalho a Mãe de Santo conseguiu livrar do sofrimento e das dores constantes a garota que tinha cometido apenas o pecado de acreditar demais no seu amado. Dona Sofia só não conseguiu acabar com o fungar das lagartas que a atormentou pelo resto da vida.

Fonte:

Maria Ronaldo – Teixeirense  de coração, nascida e criada em Helvécia.

Foto: Estação da estrada de Ferro Bahia -Minas de Helvécia. 1950. https://www.estacoesferroviarias.com.br

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

Relatos sobre a tragédia na “Biquinha” do Teixeirinha

Por Daniel Rocha

Esse registro é sobre  um acidente ocorrido no início da década de 90 na “Biquinha do Teixeirinha” uma nascente de água pura e cristalina que fica entre os bairros Teixeirinha e Colina Verde largamente usada pelos  trabalhadores comuns, moradores do bairro, para realização de atividades domésticas, abastecedoiro de água e lazer.

Até o início da década de 90, embora a cidade já contasse com um sistema de abastecimento, a busca por água em locais impróprios e mal conservados era muito comum na cidade. Isso ocorria em partes devido o abastecimento irregular e a má qualidade dos serviços prestados pelo empresa de abastecimento do Estado.

Foto: Autor desconhecido

Esse cotidiano de dificuldades e perigo se encontra hoje memorizado e presente nos relatos dos moradores Elenildes Pinheiro, Valfrido de Freitas Correia, Ricardina Maria e Marcos Silva, que recordam um triste acidente que aconteceu naquele lugar quando o teto da fonte, que se assemelhava a uma caverna, desabou vitimando quatro pessoas presentes no local.

Sem saber qual foi o ano exato do ocorrido, conta a moradora Elenildes Pinheiro que a tragédia vitimou uma mulher e três filhos que estavam no local no momento do sinistro  causado pelo período chuvoso que encharcou a terra e favoreceu o desabamento.

Por sua parte, Ricardina Maria, criada no bairro, traz outra versão sobre a causa, conta que havia no local a retirada predatória do barro branco, ideal para a construção de fogões de lenha, que enfraqueceu a base da fonte levando ao desabamento. Relato que vai de encontro às lembranças do senhor Valfrido de Freitas Correia que também associou  a tragédia a retirada predatória do barro.  

Fonte construída logo a frente do local onde ocorreu o desabamento. Ano 2014

Já Marcos Silva, criado frequentando a Biquinha, filho de lavadeira,  conta que o acidente foi causado pelo excesso de chuva e extração do barro branco no local. Extração, como lembrado, que enfraqueceu as paredes que cederam com excesso de chuva que encharcou o solo.

Ainda sobre, recordou que na época o comentário era de que sete pessoas , entre lavadeiras, “aguaeiras” e crianças,  morreram no local, mas que apenas três corpos foram retirados. Por fim, de acordo com a perspectiva de Marcos os fatos narrados aconteceram entre os anos de 1991 e 1992 na “Biquinha do Teixeirinha,” uma nascente de água pura e cristalina que fica entre os bairros Teixeirinha e Colina Verde que era largamente usada pelos moradores do bairro.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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 Fontes:

Ricardina Maria. Conversa informal em 12/2014

Enildes Pinheiros. Conversa informal em 12/2014

Domingos Cajueiro Correia. Conversa informal com Valfrido de Freitas Correia. 11/2014

Marcos Silva. Conversa informal em setembro 2019.

O novo e o velho: A dualidade teixeirense

Por Daniel Rocha

Você já disse frases como: vou a  Rodoviária Velha, Rodoviária Nova, ao Shopping Velho, ao  Shopping novo, ao invés de se referir a esses endereços pelos nomes corretos? Você já parou para pensar o porquê nós, os teixeirenses, usamos o termo “novo” e “velho” para denominar esses  e outros espaços? 

Rodoviária Velha 1985. O velho cotidiano

Esse jeito de se referir aos antigos espaços reclassificados com novos noves deixa transparecer a influência exercida pela Ideologia desenvolvimentista que nasceu no país nas décadas de 1930 e 1950, e foi incorporada à perspectiva patriótica das décadas de 1960 e 1970 e chegou a região invocada pela abertura de estradas, como a BR-101, exploração da madeira e o próprio surgimento do povoado teixeirense.

O discurso alimentou a crença de que somente os maciços Investimentos em urbanização e a industrialização levariam o país ao patamar de desenvolvimento desejado. Percepção que no passado chegou ao fim com a crise econômica do início da década de 1980, que mudou a perspectiva dos brasileiros em relação ao futuro e levou a sociedade a requerer direitos de acesso à saúde, educação e assistência social.

Novo Terminal: novas iterações

Entretanto, em Teixeira de Freitas, durante o processo de eleição para escolha do primeiro prefeito da cidade emancipada, em 1985, o discurso foi repaginado e mesclado à esperança de que com autonomia a cidade iria definitivamente se desenvolver com a chegada de empresas e asfaltamento de ruas.

Embora tenha favorecido, com o tempo  também ficou claro que esse chamado desenvolvimento tendia em partes a justificar discursos políticos e investimentos que pouco ajudaram resolver as necessidades básicas da população sujeita ao discurso divulgado em sites e jornais propagandistas  das aplicações do poder administrativo.

Antigas interações no fundo da “Rodoviária Velha.” Senhora Diomar ( camisa Branca) e Angelina ( camisa vermelha) de chapéu o Luiz do Jogo do Bicho. Foto: Ernani Silva.

Contudo, ao reclassificar com novas nomenclaturas os populares reagem criando propriedades dialógicas mostrando que é necessário diante de qualquer avanço estabelecer relação entre o presente e o  passado, nem sempre valorizado pelos desenvolvimentistas.

Assim, em tese, ao classificar com os termos “novo” e “velho” os populares fazem lembrar que  os lugares abandonados de sua função originais como a Rodoviária Velha, são lugares de memória e de interações sociais vividas pela comunidade, para que nossas lembranças e  identidade não seja apagada pelo eterno desejo de progresso contínuo.R

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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Fotos:  Rodoviária . Revista Banco do Nordeste 1985

Vendedores ambulantes. Foto de
Ernani Silva.

Fontes:

MELLO, João Manuel Cardoso; NOVAIS, Fernando A. Capitalismo tardio e sociabilidade moderna: Companhia das Letras.SAID, Fabio Medeiros. História de Alcobaça – Bahia (1772-1958). São Paulo.

TEIXEIRA DE FREITAS – DITOS E NÃO DITOS: Uma cidade em disputa de memórias. LILIANE MARIA FERNANDES CORDEIRO GOMES.

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Teixeira de Freitas 1988: Uma história do “Mercadão”

Na feira a interação social é a protagonista das mais espantosa realidade e histórias. A  da feira do Centro de Abastecimento de Teixeira de Freitas, mais conhecido como “Mercadão”, data de muito antes da sua inauguração  em 1989 e revela um acontecimento que o povo não esquece.

Segundo um dos relatos sobre,  tudo começa na década de 1970 quando a igreja e os comerciantes do centro do povoado de Teixeira de Freitas, extremo sul da Bahia, fizeram um abaixo-assinado contra a realização da feira de domingo na então praça São Pedro, hoje conhecida como Praça dos Leões,  porque a mesma escravizava lojistas e feirantes no dia sagrado.

Diante disso, a prefeitura de Alcobaça transferiu a para um espaço na praça da Bíblia, um pequeno Mercado Municipal erguido na administração do prefeito Amazias Barreto de Morais em 1968. Contudo a feira ficou na contramão do povoado e por essa razão os feirantes e camelôs deram  início à realização de uma nova feira livre onde hoje é o Mercadão. 

Feira da “Pausoeira”: Foto Junior Guimarães de Pádua

“Disseram que onde eles estavam na praça da Bíblia era muito longe. E era verdade, ninguém queria vir comprar. Eu falei para os feirantes pegar as coisas de madrugada e voltar para antiga praça. O prefeito de Alcobaça era contra, mas eu disse a ele que “a feira da Vila Vargas” está suplantando a daqui. O senhor quer que isso aconteça? Tempos depois mudaram de vez a feira para onde é hoje o Mercadão”, Narrou o senhor Godoaldo da Silva Amaral.

Devido a quantidade enorme de barracas de madeira  que se fixaram no espaço a nova feira foi apelidada pelos moradores de “Pausoeira”. Na versão contada por Godoaldo da Silva Amaral ao jornal Alerta em 2013, a cidade estava  se desenvolvendo, por isso a feira foi transferida para o local onde hoje fica a praça da Bíblia para dar lugar a abertura da Praça São Pedro/ Praça dos leões. 

Em tese, como na Praça São Pedro, na  “Pausoeira” o comércio corria livre ,ou seja, qualquer um podia colocar uma barraca para vender sem ter que prestar esclarecimento ou pagar impostos, como vinha ocorrendo no Mercado da praça da Bíblia. Porém na década de 1980 um triste acontecimento pôs fim a essa liberdade.

Feira da Pauzoeira

De acordo com a ex – feirante da “Pausoeira”, Ricardina Maria e moradores ouvidos pelo site em 2016,   um incêndio criminoso ocorrido em uma noite de 1986 destruiu toda o aglomerado de barracas que formavam a  feira reduzido a cinzas o ganha pão de muitos trabalhadores, um fato traumático no presente muito lembrado com lágrimas e silêncio.

“Ao perguntarmos sobre a causo do incêndio o feirante, meio desconfiado, diz ter sido alguém que mandou fazer o serviço, quem sabe por questões políticas.” Registrou Alzinete Ferreira e Talita Maia no trabalho monográfico “A feira livre, um olhar para a cidade de Teixeira de Freitas – 1960 a 2009.”

Segundo um Informe Publicitário de 1988, Teixeira de Freitas era  “um dos principais eixo de comercialização dos produtos hortifrutigranjeiros” da região, e para por essa razão foi  construído a Central de Abastecimento, o “Mercadão”, para incentivar a comercialização dos produtos agrícolas produzidos pela Agroindústria local. 

Centro de Abastecimento 1988

A construção do centro de Abastecimento foi autorizado pela Pela Prefeitura de Teixeira de Freitas em 1987 no valor correspondente, em cruzados, a 155.000,00. Para além da história oficial a construção, três anos depois da emancipação  política da cidade, revela um pouco de como se deu a apropriação do espaço pela administração  municipal que fez valer seu poder ordenando o território urbano para atender os interesses dos comerciantes e agricultores.

Fontes:

HOOIJ, Frei Elias. Os desbravadores do Extremo sul da Bahia, Belo Horizonte, 2011.

SANTOS, Alzinete Ferreira; MAIA,Talita Alves. A FEIRA LIVRE, UM OLHAR PARA A CIDADE DE TEIXEIRA DE FREITAS-1960 a 2009. UNEB-X 2010.

Brazil. Congresso Nacional, ‎Brazil. Congresso Nacional. Câmara dos Deputados – 1988.

Joranal Alerta. XVIII Nº 1392.

Referência.

Fotos: 

Feira da Pausoeira. Ano desconhecido. Fonte: Júnior Guimarães de Pádua. Disponível no Museu Virtual de Teixeira de Freitas.

Construção do Centro de Abastecimento. 1988. MR

Daniel Rocha da Silva*

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Caravelas 1888: um Elixir foi usado no combate a sífilis

Por Daniel Rocha

Do final do século XIX ao início do século XX remédios à base de infusões de ervas e folhas, produzidos e comercializado por boticários e pequenos farmacêuticos, era popular entre os brasileiros. Na cidade de Caravelas o Elixir Tibornina foi empregado, dentre outras coisas, no tratamento da sífilis.

Por isso a maioria, sobre tudo os mais pobres, recorriam com frequência aos medicamentosos elixires cujo à propaganda era feita em jornais impressos através da divulgação de relatos dos usuários e médicos “satisfeitos com o uso.”

Em 1909, por exemplo, estava em alta o Elixir Tibornina, “específico eficaz da Flora Brasileira” que prometia trazer a “cura radical das moléstias e das impurezas do sangue por mais crônicas e rebeldes que sejam.” Como destacou a propaganda do produto em um jornal soteropolitano de 1908 que publicava relatos dos usuários e de médicos para conferir credibilidade ao produto.

Como o do tal Dr. José Carlos Gomes da Silva, de Caravelas, datado de 1º de dezembro de 1888 que relatou: “Atesto que tenho empregado na minha clínica o Elixir de Tibornina do farmacêutico Floriano Serpa obtendo sempre ótimos resultado na sífilis em suas diversas manifestações, razão que obriga-me a preferira-o a outro qualquer medicamento aconselhado nas preferidas moléstias”.

Sífilis em Caravelas? Como isso? Em 1888 a cidade de Caravelas era dona de um dos portos mais movimentados da região, a Companhia Baiana e a Companhia Espírito Santos e Caravelas de Navegação de passageiros realizava paradas regulares no lugar que desde 1882 era ponto final da estrada de ferro Bahia-Minas, que no primeiro momento ligava Caravelas a cidade de Serra dos Aimorés, então limite entre os Estados da Bahia e Minas Gerais, no período a sífilis  era uma doença já comum entre os brasileiros desde sempre.

Propaganda da Companhia de Navegação

No livro Casa grande e Senzala, Freyre traz citações e afirma a partir destas que desde o século XVIII o Brasil era assinalado em livros estrangeiros como “a terra da sífilis por excelência” e que na zona mais colonizada, litoral, sempre foi larga a extensão da doença associada ao grande vigor sexual dos colonizadores e dos negros escravizados. Tanto que a publicidade de remédios, elixires e garrafadas para tratamento de males venéreos “faz-se de forma escandalosa.”

Fatos que permite supor que o trânsito intenso de trabalhadores e passageiros elevaram os casos da doença transmitida por via sexual, uma das mais combatidas pela saúde pública nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, na cidade portuária onde os moradores eram tratados com o Elixir Tibornina em clínicas como a do tal Dr. José Carlos, como sugere o texto da propaganda.

Fontes e referências:

Diário de Notícias 02 de maio de 1900. Acervo site tirabanha.

SAGGIORO. Elder Sidney. SINTOMAS DO MOMENTO: MEDICAMENTOS E PROPAGANDA NO “COMÉRCIO DO JAHÚ” : https://www.unisagrado.edu.br/custom/2008/uploads/anais/historia_2016/Sintomas_do_momento_Elder_Saggioro.pdf


FREYRE. Gilberto. Casa Grande e Senzala .

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.Fontes e Referências

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Foto : Caravelas.

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Avenida São Paulo, o cordão umbilical da cidade

Por Daniel Rocha

A Avenida São Paulo, um dos endereços mais conhecidos de Teixeira de Freitas, Bahia, foi aberta na década de 1950 e pode ser chamada de cordão umbilical da cidade. A narrativa de sua abertura traz detalhes sobre a dinâmica de ocupação do território teixeirense que você vai conhecer agora.

A história desta famosa avenida remonta ao início da década de 1950, quando, conforme contou o senhor Emanuel Siquara, homens e carros contratados pela empresa instalada em 1948 no município de Nova Viçosa partiram de Juerana em direção a antiga delimitação dos  municípios de Alcobaça e Caravelas onde surgiu a cidade.

Outrora chamada de estrada de rodagem da “Eleosippo Cunha” o logradouro surgiu quando no início da década de 1950 a referida empresa abriu o trajeto para extração de madeiras nobres e chegou onde hoje é a avenida e o centro comercial da cidade, afrontando um percurso complicado e rico em lagos e córregos que inúmeras vezes levou a empresa mudar o traçado planejado.

Tanto que ao chegar à direção ao espaço do lago, hoje ocupado pelo centro comercial PátioMix, os madeireiros tiveram que fazer uma curva para evitar a lagoa que existia no lugar e dessa forma avançar, com trabalhadores e máquinas, descerrando a vegetação.

De acordo com Servídio Nascimento Correia, em memória, em entrevista cedida em 1992 a Revista Regional Sul, as máquinas utilizadas na abertura eram provenientes da empresa que administrava a linha férrea Bahia- Minas, “um patrol e dois tratores” que e quinze dias depois dos trabalhas iniciados alcançaram o lugar onde hoje se localiza o território teixeirense.  

O movimento fez aumentar o trânsito de pessoas e carros na referida estrada, fazendo surgir à pequena aglomeração de comerciantes negros às margens do caminho, cuja parte do antigo traçado hoje é denominados Avenidas Lomanto Júnior e Avenida Marechal Castelo Branco, dando origem ao chamado “Comércio dos Pretos”, também apelidado de Tira- banha.

Foto: Teixeira 1960.

“O povoado começou com um barraco de palha construído por Manoel de Etelvina e de Chico D’Água, assim conhecido devido sua habilidade de mergulhar para retirar madeira do fundo do rio, lembrou Isael de Freitas Correia em uma entrevista em 1985.

Com o passar dos anos a estrada aberta pela empresa foi interligada a estradas de rodagem de Alcobaça e Medeiros Neto, atualmente BA – 2090, construída entre os anos de 1950 e 1953, se estendendo desta forma em direção a Princesa Isabel até a Rua Mauá.

Como um dos principais eixos da cidade, não foi utilizado apenas para o transporte de madeira nas décadas de 1950 e 1960. Na década seguinte a abertura, 1960, mesmo com um estado ruim, lamas e buracos, muitas vezes pedregoso, a estrada promoveu importantes ligações sociais através da circulação de pessoas residentes nas proximidades, caminhoneiros e ônibus de passageiros.

Tais pessoas tinham como  ponto de encontro rodoviário, a partir de 1964, a pensão da Dona Maria Tupi, em frente a Praça dos leões, e o comércio de Maria Mil Réis que foi tão importante que  hoje nomeia o trecho inicial da avenida.

Dessa forma, sua abertura representou o início do processo de urbanização e exploração da madeira, a decadência das antigas rotas comerciais e o fim de um estilo de vida rural de subsistência, vendas dos excedentes e o início da formação de uma sociedade de consumo que fez crescer  um próspero comércio e bairros populosos.

Por ter favorecido como uma estrutura que ligou núcleos urbanos e rurais, trazendo novas demandas, perspectivas e estilo de vida e que ainda hoje, de certa forma, liga os interesses  e movimento comerciais ao centro que a Avenida São Paulo pode ser chamada de “o cordão umbilical da cidade.”


Daniel Rocha da Silva*

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Foto : imagem meramente ilustrativa


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Fontes:

Revista Regional Sul. Teixeira de Freitas – Bahia. Março de 1992.

BANCO DO NORDESTE, As origens. Teixeira de Freitas, Fortaleza – Ceará. P.05-07, Janeiro 1986

FERREIRA,Susana. A vida privada de negros pioneiros no povoamento de Teixeira de Freitas na década de 1960. Uneb campus-x.

Diagnóstico socioeconômico da região cacaueira de 1976. Comissão executiva do plano da lavoura cacaueira – CEPLAC 1976.

Conversa informa com o senhor
Emanuel Siquara. Setembro de 2017.

Foto: AV. São Paulo década de 1980. Dr Fortunato.

Os teixeirenses “farofeiros”

Por Daniel Rocha

Até a década de 1990 o costume de organizar passeios coletivos, preparar e comer farofas na praia, rendeu aos teixeirenses o apelido de “farofeiros”. As excursões eram organizadas por homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras, que ao fazer isso permitia aos mais pobres acessar a praia.

Para saber mais sobre esse tipo de turismo conversei em  informalmente com duas moradoras da cidade,  Folha Lima e Aurenice Nunes que tem boas lembranças deste período.

A Moradora do Bairro Jardim Europa, Folha lima de 48 anos, por exemplo, recordou com alegria que organizou esse tipo de passeio no bairro do Ulisses Guimarães na década de 1990.  Durante o bate- papo  ela detalhou que a organização do passeio começava com o levantamento dos custos e a definição do destino, Alcobaça ou Prado. Em seguida saia pelas ruas do bairro procurando interessados.

Com a lista de excursionistas fechada, os moradores pagavam o valor definido para o aluguel do carro, ônibus ou caminhão, comprar bebidas e  o frango para fazer a farofa, detalhou .

Ainda de acordo com a moradora, a farofa era no geral feita com frango, porém na falta da carne nada impedia que outro tipo fosse utilizado, recordou, por exemplo, que em uma oportunidade fez uma farofa com “Bofe bovino”.

Antes do dia do embarque, todos os passageiros eram comunicados do local e horário, no bairro o ponto de partida era enfrente a igreja Católica onde todos os moradores deveriam estar as 5h00 da manhã.

No destino os “farofeiros” armavam barracas e em algumas ocasiões faziam churrascos animados por pagodeiros da turma, como bem lembra ter acontecido no verão de 1994 em Alcobaça.

Folha revelou que nunca ouviu ou sentiu se ofendida com conversas ou observações depreciativa e preconceituosa por parte dos moradores e tão pouco dos turistas. “Se juntavam ao grupo para brincar e comer farofa chamando uns aos outros de farofeiros. Era um tempo bom de namoro e boas amizades, todo mundo era unido”, disse ela.

No bairro São Lourenço também  era muito comum à realização deste tipo de passeio para Alcobaça. Afirmou  Aurenice Nunes que no final da década de 1980 e início da década de 1990 participou de algumas  organizadas pelos vizinhos que costumavam fretar ônibus para o passeio. “Ficava mais barato”.

Tal como no Ulisses Guimarães, o grupo de passageiros era formado  por rapazes e moças, trabalhadores do comércio, autônomos, estudantes e domésticas, famílias e moradores de outras parte da cidade que iam subindo ao longo do percurso. “Saíamos cedo para voltar no finalzinho da tarde”.

De acordo com os relatos das moradoras durante o passeio acontecia de tudo e mais um pouco. Namoros na praia que se estendia ao mar, pais preocupados com crianças, brigas  por conta de interesses amorosos ou motivada por bebidas, brincadeiras e sátiras envolvendo a divisão da farofa e os trajes de banho de alguns, tudo sem interferências internas e sem rancor no final.

Conforme enfatizam os relato a farofa ainda faz parte da rotina de veraneio de alguns moradores principalmente na virada do ano quando o discurso consumista ligado ao turismo e o forte calor atiçam nas pessoas o desejo de ir à praia.

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Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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O texto foi originalmente publicado em 2016 no site tirabanha. Versão adaptada.

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Veja também:

Filmes que marcaram época na cidade: O exorcista

A “Represa do Jacarandá” em Teixeira de Freitas

A represa do Charqueada, também conhecida como “represa do Jacarandá” ficava localizada no bairro Recanto do Lago e foi construída no início da década de 1970 e destruída em 1991. Relatos sugerem que ela foi o lugar de inúmeros afogamentos, desova de corpos, tragédias com vítimas e também um lugar de interações sociais.

Segundo o antigo proprietário da terra onde foi construída a barragem para represar a água, Walfrido de Freitas Corrêa, em relato feito ao colaborador Domingos Cajueiro, a construção remonta a década de 1970 e ocorreu logo depois de ter vendido aquela parte de sua propriedade. A represa foi construída nas proximidades de onde hoje se localiza o Clube Jacarandá e com o tempo teve o nome associado.

Naquele contexto crescia a população e não havia sistema de abastecimento que atendesse os moradores do então povoado. Informação de um estudo da CEPLAC de 1974 diz que neste período o Córrego Charqueada foi considerado como uma das alternativas viáveis para o abastecimento de Teixeira de Freitas. Algo que, em tese, pode ter motivado a construção do reservatório.

Por aproximadamente 21 anos a represa serviu a população das redondezas como espaço de lazer e  realização de algumas atividades domésticas. Com o tempo se tornou perigosa devido aos constantes afogamentos de estudantes de escolas próximas e trabalhadores, braçais, ambulantes, pessoas abaixo da linha da pobreza, que a buscava com mais intensidade nos fins de semana.

Sobre isso, o senhor Gilberto Bandeirante fez lembrar que na época a represa era um conhecido ponto de “desova” de corpos, vítimas de criminosos e pistoleiros que atuavam na região. Segundo conta foi o afogamento de um rapaz muito conhecido, mais os comentários sobre a prática criminosa, que motivou a demolição da barragem em 1991 e que diversas ossadas humanas foram encontradas no fundo da represa após o esvaziamento.

Conclusões que são semelhantes às do relato de Sebastião Justiniano que cita o afogamento do jovem “Cavaco”, trabalhador braçal muito popular, cujo o corpo foi encontrado após uma busca de cinco dias e que prevendo que tragédias assim ocorreriam outra vez , um grupo de frequentadores decidiram furar a represa criando uma pequena abertura na lateral da mesma com picaretas.

Em relação às ossadas humanas, Sebastião discordou da versão de que diversas foram encontradas no lugar e que “a única coisa suspeita vista foi um fio de energia amarrada a uma pedra ligando a algo muito soterrado pela lama” e que andou por toda extensão após o esvaziamento e não encontrou nada além de restos de animais e madeira.

No contexto, a cidade estava chocada com o desaparecimento do radialista Ivan Rocha e uma intensa procura pelo corpo, não encontrado, ocorria em todos os lugares suspeitos da cidade. Ivan Rocha, 34 anos, havia denunciado pelas ondas da Rádio Alvorada que tinha em mãos um dossiê sobre as atividades de um “sindicato do crime” na região e desapareceu depois disso. É possível supor que o desaparecimento tenha motivado o fim da represa e influenciado às conclusões populares sobre os motivos.

Walfrido Corrêa fez outra declaração sobre o rompimento da represa, em forma de “causo” narrou que o esvaziamento fez uma vítima.Uma jovem que lavava roupas nas margens do córrego, nas proximidades do bairro São José, foi levada pela força da água liberada sem aviso prévio. 

O corpo da trabalhadora rural ficou por três dias desaparecido. Para encontrá-la foi preciso a família recorrer a uma simpatia antiga colocando no córrego uma cuia com uma vela acesa que, seguindo o curso, parou no local exato onde estava o inerte corpo.

Por fim, embora os relatos e perpectivas que embasa o texto referente à represa careçam de mais detalhes, as informações permitem concluir corretamente que enquanto esteve em atividade a represa estabeleceu uma relação aglutinadora com a realidade social, política e cultural de uma parte da população no período relatado.

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Fontes 

ROCHA FILHO. Carlos Armando. Comissão executiva do plano da lavoura cacaueira . Recursos Hídricos. Rio de Janeiro. CEPLAC, 1976. 

Relatório final da CPI da “Pistolagem”.Câmara dos Deputados. Centro de Documentação e Informação, Coordenação de Publicações, 1994 – 156 páginas.

Crimes por encomenda: violência e pistolagem no cenário brasileiro. César Barreira

Relume Dumará, 1 de jan de 1998 – 178 páginas

Fontes orais: 

Relatos de Walfrido Corrêa captado pelo memorialista e colaborador do site Domingos Cajueiro Correia. Setembro de 2019.

Conversa informal com Gilberto Bandeirante. Julho de 2019.

Conversa informal com Sebastião Justiniano. Junho de 2019

Foto: Acervo

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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Veja também:

Filmes que marcaram época na cidade: O exorcista

FILMES QUE MARCARAM ÉPOCA EM TEIXEIRA DE FREITAS: O EXORCISTA

Por Daniel Rocha

Dirigido pelo diretor William Friedkin o filme “O Exorcista” é uma reconhecida produção de terror  de 1973 que causa estranheza em quem assiste, tanto que por onde passou provocou reações estranhas e curiosas. Em Teixeira de Freitas, cidade do extremo sul da Bahia, não foi diferente.

De acordo com o antigo gerente do Cine Brasil, que funcionou até início dos anos de 1990, Jovelino da Costa Rodrigues, mais conhecido como “Figão”, O Exorcista provocou reações e medo na platéia teixeirense que tal como vinha ocorrendo em outras cidades do Brasil não escondeu o medo e graça que sentida.

“O público reagia com comentários, gritos e assovios perturbadores…. Principalmente nas cenas clássicas da adolescente possuída e do vômito,” lembrou Jovelino.

A história do filme começa quando o diabo toma conta do corpo de uma adolescente (Linda) e diante disso sua mãe (Ellen) convoca a ajuda de um padre jesuíta (Von Sydow) para tentar exorcizá-la e salvar sua vida diante do  demônio e dos fenômenos apavorantes.

Ainda de acordo com Jovelino o filme  foi exibido com sucesso por diversas vezes na cidade durante os anos de 1970 e 1980, sempre prestigiados por um grande público formado por adolescentes e adultos.

No passado alguns filmes eram reprisados de acordo o pedido do público que naturalmente escolhia o que melhor agitava seus mitos, visão de mundo, sonhos, desejos e crenças e isso ocorria na cidade onde a fita sempre encontrava audiência.

Por esse motivo o filme americano pode ser considerado um dos que marcaram época na cidade, tanto que em 2001, quando relançado sem cortes, foi exibido com grande sucesso no Cine Teixeira  atraindo a atenção de uma nova geração.

Na ocasião do relançamento internacional  da fita em 2001, a crítica da Revista Veja, Isabela Boscov,  relembrou que quando foi lançado nos Estados Unidos na última semana de 1973, o filme foi recebido desde o primeiro dia com filas que se estendiam por quarteirões e numerosos relatos de crises nervosas durante a projeção.

E que em várias cidades americanas padres e psiquiatras registraram movimentos acima do normal em suas igrejas e consultórios quando o filme  estava em cartaz.

Afirmou também que  no Brasil o mesmo fenômeno se repetiu, embora a maior parte do público reagisse às cenas mais tensas com “risadas e apupos”, como relatou o  Figão ao falar das primeiras exibições na cidade  do filme que marcou uma época.

Fontes :

ROCHA.Daniel; OLIVEIRA.Danilo. Cinema – Contribuição no processo de Formação da Sociedade de Teixeira de Freitas nos anos de 1960, 1970 e 1980.

* Esse texto   teve como fonte a entrevista cedida por Jovelino da Costa Rodrigues em 2009, para o trabalho de pesquisa, monografia, de Daniel Rocha e Danilo Santos de Oliveira.

Revista Veja: 2001, edição, 1689

Veja também:

FILMES QUE MARCARAM ÉPOCA EM TEIXEIRA DE FREITAS : BATMAN – O RETORNO

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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Foto : imagem meramente ilustrativa

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