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Avenida São Paulo, o cordão umbilical da cidade

Por Daniel Rocha

A Avenida São Paulo, um dos endereços mais conhecidos de Teixeira de Freitas, Bahia, foi aberta na década de 1950 e pode ser chamada de cordão umbilical da cidade. A narrativa de sua abertura traz detalhes sobre a dinâmica de ocupação do território teixeirense que você vai conhecer agora.

A história desta famosa avenida remonta ao início da década de 1950, quando, conforme contou o senhor Emanuel Siquara, homens e carros contratados pela empresa instalada em 1948 no município de Nova Viçosa partiram de Juerana em direção a antiga delimitação dos  municípios de Alcobaça e Caravelas onde surgiu a cidade.

Outrora chamada de estrada de rodagem da “Eleosippo Cunha” o logradouro surgiu quando no início da década de 1950 a referida empresa abriu o trajeto para extração de madeiras nobres e chegou onde hoje é a avenida e o centro comercial da cidade, afrontando um percurso complicado e rico em lagos e córregos que inúmeras vezes levou a empresa mudar o traçado planejado.

Tanto que ao chegar à direção ao espaço do lago, hoje ocupado pelo centro comercial PátioMix, os madeireiros tiveram que fazer uma curva para evitar a lagoa que existia no lugar e dessa forma avançar, com trabalhadores e máquinas, descerrando a vegetação.

De acordo com Servídio Nascimento Correia, em memória, em entrevista cedida em 1992 a Revista Regional Sul, as máquinas utilizadas na abertura eram provenientes da empresa que administrava a linha férrea Bahia- Minas, “um patrol e dois tratores” que e quinze dias depois dos trabalhas iniciados alcançaram o lugar onde hoje se localiza o território teixeirense.  

O movimento fez aumentar o trânsito de pessoas e carros na referida estrada, fazendo surgir à pequena aglomeração de comerciantes negros às margens do caminho, cuja parte do antigo traçado hoje é denominados Avenidas Lomanto Júnior e Avenida Marechal Castelo Branco, dando origem ao chamado “Comércio dos Pretos”, também apelidado de Tira- banha.

Foto: Teixeira 1960.

“O povoado começou com um barraco de palha construído por Manoel de Etelvina e de Chico D’Água, assim conhecido devido sua habilidade de mergulhar para retirar madeira do fundo do rio, lembrou Isael de Freitas Correia em uma entrevista em 1985.

Com o passar dos anos a estrada aberta pela empresa foi interligada a estradas de rodagem de Alcobaça e Medeiros Neto, atualmente BA – 2090, construída entre os anos de 1950 e 1953, se estendendo desta forma em direção a Princesa Isabel até a Rua Mauá.

Como um dos principais eixos da cidade, não foi utilizado apenas para o transporte de madeira nas décadas de 1950 e 1960. Na década seguinte a abertura, 1960, mesmo com um estado ruim, lamas e buracos, muitas vezes pedregoso, a estrada promoveu importantes ligações sociais através da circulação de pessoas residentes nas proximidades, caminhoneiros e ônibus de passageiros.

Tais pessoas tinham como  ponto de encontro rodoviário, a partir de 1964, a pensão da Dona Maria Tupi, em frente a Praça dos leões, e o comércio de Maria Mil Réis que foi tão importante que  hoje nomeia o trecho inicial da avenida.

Dessa forma, sua abertura representou o início do processo de urbanização e exploração da madeira, a decadência das antigas rotas comerciais e o fim de um estilo de vida rural de subsistência, vendas dos excedentes e o início da formação de uma sociedade de consumo que fez crescer  um próspero comércio e bairros populosos.

Por ter favorecido como uma estrutura que ligou núcleos urbanos e rurais, trazendo novas demandas, perspectivas e estilo de vida e que ainda hoje, de certa forma, liga os interesses  e movimento comerciais ao centro que a Avenida São Paulo pode ser chamada de “o cordão umbilical da cidade.”


Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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Fontes:

Revista Regional Sul. Teixeira de Freitas – Bahia. Março de 1992.

BANCO DO NORDESTE, As origens. Teixeira de Freitas, Fortaleza – Ceará. P.05-07, Janeiro 1986

FERREIRA,Susana. A vida privada de negros pioneiros no povoamento de Teixeira de Freitas na década de 1960. Uneb campus-x.

Diagnóstico socioeconômico da região cacaueira de 1976. Comissão executiva do plano da lavoura cacaueira – CEPLAC 1976.

Conversa informa com o senhor
Emanuel Siquara. Setembro de 2017.

Foto: AV. São Paulo década de 1980. Dr Fortunato.

Teixeira de Freitas antes do SUS : caridade, farmacêuticos e folhas

Por Daniel Rocha

O SUS foi criado em 1988 pela Constituição Federal Brasileira que  também estabeleceu o acesso a saúde como um direito de todos. Antes dos primeiros hospitais e atendimentos médicos como se tratava os moradores do povoado de Teixeira de Freitas? Quais alternativas e saídas diante das dificuldades de acesso a medicina pública?

Sobre isso contou o senhor Isidro Alves em uma entrevista ao site em 2013 que chegou em Teixeira de Freitas na década de 1960 para morar em uma casa localizada no bairro Recanto do Lago, que não passava de um matagal sem acesso a luz elétrica e água encanada, e que não tinha acesso a nenhum tipo de atendimento no povoado.

Distante do centro do povoado ele e a família vivia como se estivesse em uma fazenda e que antes da construção do hospital, no início dos anos de 1960, não se via médico em Teixeira de Freitas “nem pago , nem de graça” e  quando passou a ter só quem tinha acesso era os conveniados ao Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) , logo não havia atendimento público universal neste período.

Por essa razão os moradores, trabalhadores comuns, enfrentavam os males diários com remédios de base natural que eram vendidos em farmácias como o xarope   “Saúde das Crianças” que “resolvia tudo”. De modo que em certos momentos era preciso apelar para sorte e ervas naturais, a primeira opção em caso de mal-estar e crises.

Teixeira 1970. Ao fundo da multidão uma farmácia

“Dores, o sumo de Maria preta com leite, quando quebrava o braço usava bambus cortado amarrado, dores no estômago chá de cidreira, também usado para dor de cabeça, outro excelente remédio era a água de sapucaia, destacou Isidrio”.

Dentre os farmacêuticos que atuaram no povoado de Teixeira de Freitas nas décadas de 1960 e 1970 destaca se o trabalho do índio Urias. Segundo a moradora Isabel Carmo, em uma conversa informal em 2013, Urias era de fato um nativo, “farmacêutico e raizeiro que vendia de tudo em sua farmácia  que ficava nas imediações da Rodoviária Velha”.

Também neste período, para além dos farmacêuticos e folhas, prestavam assistência a população às irmãs da caridade católica Viane e Georgette, supervisionadas pelo médico Jacob Medeiros realizando pré-natal e triagem médica dos menos favorecidos, revelou  Frei Elias no livro “Os “Desbravadores do Extremo Sul Da Bahia.”

Os primeiros atendimentos feitos pelas irmãs de caridade ocorreram na casa do senhor Alcenor Barbosa, um posto médico improvisado que foi Inaugurado em 1972, na AV. Marechal Castelo Branco no local conhecido como Casa Barbosa, já pequeno para o tamanho da necessidade local.

Os fatos, aliás, como visto, demonstram que antes da chegada da assistência pública  e a criação do Sistema Único de Saúde, os moradores se valiam da solidariedade, dos conhecimentos farmacêuticos e populares para cuidar para curar o seus males que, provavelmente, nem sempre recuava diante dos tratamentos precários.

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Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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Foto : Construção do hospital SOBRASA


Gugu Liberato foi popular entre os teixeirenses

Por Daniel Rocha*

Na década de 1990 o programa do SBT “Domingo Legal”, apresentado pelo carismático Gugu Liberato, era popular e líder de audiência nos domingos. A visita do apresentador à cidade e a participação de uma teixeirense em um famoso quadro do programa deu mostras da popularidade que tinha o  programa entre os teixeirenses.

O “Domingo Legal,” que era  transmitido das 16h00 às 20h00, tinha entre os seus destaques um dos quadros mais emblemáticos da TV brasileira, a “Banheira do Gugu”, onde os convidados disputava pegar o maior número de sabonetes. A Teixeirense Isolda Vasconcelos, Miss Bahia 1991, participou da icônica banheira em 1996. A participação repercutiu na época entre os moradores fãs do programa.

Isolda Vasconcelos na banheira

Antes, em meados dos anos 1990, Gugu esteve na cidade com a caravana do Show circenses “Pintinho Amarelinho”, disco lançado em 1994, como uma das atrações da Expo Agropecuária de Teixeira de Freitas onde cantou o “Melô do Pintinho” fazendo a bizarra coreografia. A repercussão foi muito positiva e segundo o morador Carlos Pereira agradou em cheio toda gente que lotou o parque.

Povo que diante da notícia da morte do apresentador, anunciada oficialmente no dia 22 de novembro, lembra não só das distrações televisivas, mas também da boa companhia do Gugu  na década de 1990, período em que a TV se firmou como uma das principais alternativas de lazer e de socialização das famílias baiana e teixeirenses, popularizando padrões de beleza, comportamento e consumo.

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Fontes

Angela Franco, ‎Marcelo Santana. Panorama social da Bahia nos anos 1990 – Página 157

Almanaque do SBT – 35 Anos – Página 198

Trecho do programa ‘Domingo Legal’ com a participação da modelo e atriz Isolda Vasconcelos, a Miss Bahia 1991. Augusto ‘Gugu’ Liberato, Luiza Ambiel, Zezé Motta, Bia Seidl. (VHS CAP)(PT DUB). Disponível em: https://www.aflamget.com/video/DyrT2XxQVeE?fbclid=IwAR2utjHC9ndW0hS7HxJ8dnW5RPjAlnLuNBmi8IPMgc5RAziYMRtgcjLXftM

Recordações:

Carlos Pereira.

Daniel Rocha da Silva*

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Relações fronteiriças no Extremo Sul da Bahia – Parte 01

Por Daniel Rocha

O extremo sul da Bahia é um território de fronteiras aberto às interações com a realidade política, agrícola, econômica e social dos estados vizinhos, Espírito Santo e Minas Gerais, território amplo e perigoso, por exemplo, para os trabalhadores itinerantes do café.

Tanto que em 22 de junho 1999, uma operação conjunta do extinto Ministério do Trabalho, Ministério Público, Procuradoria da República e polícias Civil e Federal, no Espírito Santo, identificou 38 pessoas em situação análoga à escravidão em uma fazenda na cidade de Santa Teresa (339 km de Teixeira), entre os quais trabalhadores teixeirenses.

Segundo o jornal Folha de São Paulo, de 24 junho de 1999, os trabalhadores rurais foram “aliciados para fazer colheita de café” e estavam no local havia dois meses, sem registro em carteira de trabalho, sem salários e sem poder sair da fazenda devido à falta de dinheiro e de veículos.

Conforme denúncia , os trabalhadores que foram aliciados nas regiões de Teixeira de Freitas (BA) e Teófilo Otoni (MG) com a proposta de ganhar R$ 4 por cada saca de café, em uma lavoura onde se colhia muito pouco, eram mantidos em alojamentos precários com alimentação ruim e sem pagamento. Por essa razão o patrão, o fazendeiro Schmidt, foi preso em flagrante por trabalho análogo à escravidão. Os trabalhadores foram levados a suas respectivas cidades.

Recentemente, em maio de 2019, o site capixaba tconline.com, informou que um homem acionou a Polícia para relatar que ele e outros seis trabalhadores contratados por um aliciador para a colheita de café em Jaguaré ,ES, estavam sendo impedidos pelo contratante de retornar para Teixeira de Freitas, cidade de residência.

Ainda de acordo com o site todos estavam sendo mantidos e sobrevivendo em condições sub-humanas e foram aliciados na cidade natal com promessas de bons ganhos. Encontrados passavam por necessidades no lugar de repouso. O acusado pela situação não foi preso.

Os acontecimentos citados evidenciam o fato de que, nas relações estabelecidas, a proteção jurídica é muito importante para o trabalhador fronteiriço, cuja área de atuação é bem mais ampla, perigosa e complexa do que se pode imaginar dentro das delimitações oficiais da região.

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Daniel Rocha da Silva*

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Os teixeirenses “farofeiros”

Por Daniel Rocha

Até a década de 1990 o costume de organizar passeios coletivos, preparar e comer farofas na praia, rendeu aos teixeirenses o apelido de “farofeiros”. As excursões eram organizadas por homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras, que ao fazer isso permitia aos mais pobres acessar a praia.

Para saber mais sobre esse tipo de turismo conversei em  informalmente com duas moradoras da cidade,  Folha Lima e Aurenice Nunes que tem boas lembranças deste período.

A Moradora do Bairro Jardim Europa, Folha lima de 48 anos, por exemplo, recordou com alegria que organizou esse tipo de passeio no bairro do Ulisses Guimarães na década de 1990.  Durante o bate- papo  ela detalhou que a organização do passeio começava com o levantamento dos custos e a definição do destino, Alcobaça ou Prado. Em seguida saia pelas ruas do bairro procurando interessados.

Com a lista de excursionistas fechada, os moradores pagavam o valor definido para o aluguel do carro, ônibus ou caminhão, comprar bebidas e  o frango para fazer a farofa, detalhou .

Ainda de acordo com a moradora, a farofa era no geral feita com frango, porém na falta da carne nada impedia que outro tipo fosse utilizado, recordou, por exemplo, que em uma oportunidade fez uma farofa com “Bofe bovino”.

Antes do dia do embarque, todos os passageiros eram comunicados do local e horário, no bairro o ponto de partida era enfrente a igreja Católica onde todos os moradores deveriam estar as 5h00 da manhã.

No destino os “farofeiros” armavam barracas e em algumas ocasiões faziam churrascos animados por pagodeiros da turma, como bem lembra ter acontecido no verão de 1994 em Alcobaça.

Folha revelou que nunca ouviu ou sentiu se ofendida com conversas ou observações depreciativa e preconceituosa por parte dos moradores e tão pouco dos turistas. “Se juntavam ao grupo para brincar e comer farofa chamando uns aos outros de farofeiros. Era um tempo bom de namoro e boas amizades, todo mundo era unido”, disse ela.

No bairro São Lourenço também  era muito comum à realização deste tipo de passeio para Alcobaça. Afirmou  Aurenice Nunes que no final da década de 1980 e início da década de 1990 participou de algumas  organizadas pelos vizinhos que costumavam fretar ônibus para o passeio. “Ficava mais barato”.

Tal como no Ulisses Guimarães, o grupo de passageiros era formado  por rapazes e moças, trabalhadores do comércio, autônomos, estudantes e domésticas, famílias e moradores de outras parte da cidade que iam subindo ao longo do percurso. “Saíamos cedo para voltar no finalzinho da tarde”.

De acordo com os relatos das moradoras durante o passeio acontecia de tudo e mais um pouco. Namoros na praia que se estendia ao mar, pais preocupados com crianças, brigas  por conta de interesses amorosos ou motivada por bebidas, brincadeiras e sátiras envolvendo a divisão da farofa e os trajes de banho de alguns, tudo sem interferências internas e sem rancor no final.

Conforme enfatizam os relato a farofa ainda faz parte da rotina de veraneio de alguns moradores principalmente na virada do ano quando o discurso consumista ligado ao turismo e o forte calor atiçam nas pessoas o desejo de ir à praia.

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Daniel Rocha da Silva*

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O texto foi originalmente publicado em 2016 no site tirabanha. Versão adaptada.

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Veja também:

Filmes que marcaram época na cidade: O exorcista

A “Represa do Jacarandá” em Teixeira de Freitas

A represa do Charqueada, também conhecida como “represa do Jacarandá” ficava localizada no bairro Recanto do Lago e foi construída no início da década de 1970 e destruída em 1991. Relatos sugerem que ela foi o lugar de inúmeros afogamentos, desova de corpos, tragédias com vítimas e também um lugar de interações sociais.

Segundo o antigo proprietário da terra onde foi construída a barragem para represar a água, Walfrido de Freitas Corrêa, em relato feito ao colaborador Domingos Cajueiro, a construção remonta a década de 1970 e ocorreu logo depois de ter vendido aquela parte de sua propriedade. A represa foi construída nas proximidades de onde hoje se localiza o Clube Jacarandá e com o tempo teve o nome associado.

Naquele contexto crescia a população e não havia sistema de abastecimento que atendesse os moradores do então povoado. Informação de um estudo da CEPLAC de 1974 diz que neste período o Córrego Charqueada foi considerado como uma das alternativas viáveis para o abastecimento de Teixeira de Freitas. Algo que, em tese, pode ter motivado a construção do reservatório.

Por aproximadamente 21 anos a represa serviu a população das redondezas como espaço de lazer e  realização de algumas atividades domésticas. Com o tempo se tornou perigosa devido aos constantes afogamentos de estudantes de escolas próximas e trabalhadores, braçais, ambulantes, pessoas abaixo da linha da pobreza, que a buscava com mais intensidade nos fins de semana.

Sobre isso, o senhor Gilberto Bandeirante fez lembrar que na época a represa era um conhecido ponto de “desova” de corpos, vítimas de criminosos e pistoleiros que atuavam na região. Segundo conta foi o afogamento de um rapaz muito conhecido, mais os comentários sobre a prática criminosa, que motivou a demolição da barragem em 1991 e que diversas ossadas humanas foram encontradas no fundo da represa após o esvaziamento.

Conclusões que são semelhantes às do relato de Sebastião Justiniano que cita o afogamento do jovem “Cavaco”, trabalhador braçal muito popular, cujo o corpo foi encontrado após uma busca de cinco dias e que prevendo que tragédias assim ocorreriam outra vez , um grupo de frequentadores decidiram furar a represa criando uma pequena abertura na lateral da mesma com picaretas.

Em relação às ossadas humanas, Sebastião discordou da versão de que diversas foram encontradas no lugar e que “a única coisa suspeita vista foi um fio de energia amarrada a uma pedra ligando a algo muito soterrado pela lama” e que andou por toda extensão após o esvaziamento e não encontrou nada além de restos de animais e madeira.

No contexto, a cidade estava chocada com o desaparecimento do radialista Ivan Rocha e uma intensa procura pelo corpo, não encontrado, ocorria em todos os lugares suspeitos da cidade. Ivan Rocha, 34 anos, havia denunciado pelas ondas da Rádio Alvorada que tinha em mãos um dossiê sobre as atividades de um “sindicato do crime” na região e desapareceu depois disso. É possível supor que o desaparecimento tenha motivado o fim da represa e influenciado às conclusões populares sobre os motivos.

Walfrido Corrêa fez outra declaração sobre o rompimento da represa, em forma de “causo” narrou que o esvaziamento fez uma vítima.Uma jovem que lavava roupas nas margens do córrego, nas proximidades do bairro São José, foi levada pela força da água liberada sem aviso prévio. 

O corpo da trabalhadora rural ficou por três dias desaparecido. Para encontrá-la foi preciso a família recorrer a uma simpatia antiga colocando no córrego uma cuia com uma vela acesa que, seguindo o curso, parou no local exato onde estava o inerte corpo.

Por fim, embora os relatos e perpectivas que embasa o texto referente à represa careçam de mais detalhes, as informações permitem concluir corretamente que enquanto esteve em atividade a represa estabeleceu uma relação aglutinadora com a realidade social, política e cultural de uma parte da população no período relatado.

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Fontes 

ROCHA FILHO. Carlos Armando. Comissão executiva do plano da lavoura cacaueira . Recursos Hídricos. Rio de Janeiro. CEPLAC, 1976. 

Relatório final da CPI da “Pistolagem”.Câmara dos Deputados. Centro de Documentação e Informação, Coordenação de Publicações, 1994 – 156 páginas.

Crimes por encomenda: violência e pistolagem no cenário brasileiro. César Barreira

Relume Dumará, 1 de jan de 1998 – 178 páginas

Fontes orais: 

Relatos de Walfrido Corrêa captado pelo memorialista e colaborador do site Domingos Cajueiro Correia. Setembro de 2019.

Conversa informal com Gilberto Bandeirante. Julho de 2019.

Conversa informal com Sebastião Justiniano. Junho de 2019

Foto: Acervo

Daniel Rocha da Silva*

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Veja também:

Filmes que marcaram época na cidade: O exorcista

FILMES QUE MARCARAM ÉPOCA EM TEIXEIRA DE FREITAS: O EXORCISTA

Por Daniel Rocha

Dirigido pelo diretor William Friedkin o filme “O Exorcista” é uma reconhecida produção de terror  de 1973 que causa estranheza em quem assiste, tanto que por onde passou provocou reações estranhas e curiosas. Em Teixeira de Freitas, cidade do extremo sul da Bahia, não foi diferente.

De acordo com o antigo gerente do Cine Brasil, que funcionou até início dos anos de 1990, Jovelino da Costa Rodrigues, mais conhecido como “Figão”, O Exorcista provocou reações e medo na platéia teixeirense que tal como vinha ocorrendo em outras cidades do Brasil não escondeu o medo e graça que sentida.

“O público reagia com comentários, gritos e assovios perturbadores…. Principalmente nas cenas clássicas da adolescente possuída e do vômito,” lembrou Jovelino.

A história do filme começa quando o diabo toma conta do corpo de uma adolescente (Linda) e diante disso sua mãe (Ellen) convoca a ajuda de um padre jesuíta (Von Sydow) para tentar exorcizá-la e salvar sua vida diante do  demônio e dos fenômenos apavorantes.

Ainda de acordo com Jovelino o filme  foi exibido com sucesso por diversas vezes na cidade durante os anos de 1970 e 1980, sempre prestigiados por um grande público formado por adolescentes e adultos.

No passado alguns filmes eram reprisados de acordo o pedido do público que naturalmente escolhia o que melhor agitava seus mitos, visão de mundo, sonhos, desejos e crenças e isso ocorria na cidade onde a fita sempre encontrava audiência.

Por esse motivo o filme americano pode ser considerado um dos que marcaram época na cidade, tanto que em 2001, quando relançado sem cortes, foi exibido com grande sucesso no Cine Teixeira  atraindo a atenção de uma nova geração.

Na ocasião do relançamento internacional  da fita em 2001, a crítica da Revista Veja, Isabela Boscov,  relembrou que quando foi lançado nos Estados Unidos na última semana de 1973, o filme foi recebido desde o primeiro dia com filas que se estendiam por quarteirões e numerosos relatos de crises nervosas durante a projeção.

E que em várias cidades americanas padres e psiquiatras registraram movimentos acima do normal em suas igrejas e consultórios quando o filme  estava em cartaz.

Afirmou também que  no Brasil o mesmo fenômeno se repetiu, embora a maior parte do público reagisse às cenas mais tensas com “risadas e apupos”, como relatou o  Figão ao falar das primeiras exibições na cidade  do filme que marcou uma época.

Fontes :

ROCHA.Daniel; OLIVEIRA.Danilo. Cinema – Contribuição no processo de Formação da Sociedade de Teixeira de Freitas nos anos de 1960, 1970 e 1980.

* Esse texto   teve como fonte a entrevista cedida por Jovelino da Costa Rodrigues em 2009, para o trabalho de pesquisa, monografia, de Daniel Rocha e Danilo Santos de Oliveira.

Revista Veja: 2001, edição, 1689

Veja também:

FILMES QUE MARCARAM ÉPOCA EM TEIXEIRA DE FREITAS : BATMAN – O RETORNO

Daniel Rocha da Silva*

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Na Exposição de 1979 aplausos destacou o discurso mais crítico

Daniel Rocha

No dia 21 de outubro de 1979, foi encerrada a 4º edição da Exposição Agropecuária  de Teixeira de Freitas que reuniu agropecuaristas,moradores, políticos e empresários de toda região fronteiriça do extremo sul da Bahia com Minas Gerais e Espírito Santo. No evento o povo destacou o discurso mais crítico através da intensidade dos aplausos.

No mesmo período  no Brasil, o militar João Figueiredo, a fim de evitar desgaste ainda maior nas bases de sustentação política  do regime ditatorial, iniciava o processo de extinção do bipartidarismo com a ARENA e MDB, conhecidos popularmente como “o partido do sim” (o MDB) e o “partido do sim, senhor” (a ARENA).

Diante do contexto, a população, nem sempre livres para manifestar opiniões contrárias,  começavam a aproveitar os espaços para evidenciar suas insatisfações com o regime. É o que se conclui ao analisar informações contidas em um  jornal propagandista da época “O Ponto de Vista” que ao falar do público deixa escapar que houve manifestação através da intensidade dos aplausos direcionados ao discurso mais ousado.

A reação ocorreu durante os discursos de encerramento do evento, quando entorno de sete políticos, entre deputados, senadores e representantes do Regime Militar, revezando-se no microfone, defenderam suas bandeiras e promessas a fim de agradar de alguma forma o grande público à frente do palco principal à espera de algo mais sincero.

Assim falou aos presentes, Walter Ernesto, COOPMISTA, que agradeceu os expositores, empresários, autoridades e o povo sempre presente. Dr. Manoel Otaviano Andrade, representante do Ministro da Agricultura, que assegurou levar ao conhecimento do ministro o desenvolvimento das lavouras e o Deputado  Ângelo Magalhães que reafirmou o compromisso de emancipar Teixeira de Freitas.

Segundo a reportagem não houve nenhuma manifestação receptiva a fala dos tribunos citados, algo que apenas se mostrou quando o Senador paraibano Agenor Maria (MDB)  pegou o microfone e discursou “como não se ouvia há muito tempo” e que o povo prestou toda atenção, ao ponto de pedir em alguns momentos a parte.

No discurso o Senador saiu em defesa da elite agrícola e do “homem do campo,” pequeno produtor, e contra as políticas adotadas pelo governo  militar, fazendo dessa forma discurso mais crítico da noite . Importa dizer que no período posseiros humildes do extremo sul baiano eram expulsos de suas terras por grileiros e fazendeiros armados.

O Sanador também cobrou do representante do Ministério da Agricultura medidas, estímulos e o fim da tributação do campo  e arrancou delirantes aplausos quando destacou de modo sincero alguns desacertos da política do Regime Militar em relação ao homem do campo, “o principal responsável pelo desenvolvimento nacional.” 

Após Agenor o Senador Lomanto Júnior ( ARENA) expressou amor pela região e anunciou um investimento. Já o prefeito Gelson de Oliveira Costa (ARENA), agradeceu a todos que contribuíram para o sucesso da Exposição. Não houve durante a fala do prefeito  registro de manifestações do público que, através da intensidade dos aplausos, fez realçar a penas o discurso mais crítico daquela noite.

Fontes:

Bipartidarismo – Wikipédia

Governo Figueiredo ( 1979-1985) Transição, Diretas Já.

Verbete biográfico Antonio Lomanto Junior

O bispo líder contra a Ditadura Militar em Teixeira de Freitas

Jornal Ponto de Vista. 118. Dezembro de 1979. Acervo Tirabanha.J

Daniel Rocha da Silva*

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Foto da Capa: Multidão presente na abertura da Expô 1979

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Veja também

História de Teixeira de Freitas – Praça dos leões: Parte final

CAUSOS DA RUA DO BREGA: PARTE 03

 Por Daniel Rocha

Os dizeres “ter uma mulher por conta” ou “colocar uma mulher por conta” são expressões populares na cidade que significa “tornar-se amante de uma mulher e suprir todas as suas necessidades”. Conta uma  antiga moradora que isso ocorria quando um homem solteiro ou casado, apaixonava-se por uma mulher da “Rua do Brega” ou como é conhecida oficialmente “Rua Mauá”. Endereço que no passado, 1960 a 1990, concentrou diversos bares e casas de prostituição em Teixeira de Freitas.

Segundo uma anedota contada por alguns moradores quando a mulher descobria que o marido estava de costume tomar “aquela direção” ou “com uma mulher por conta” ouvia sempre do cônjuge, repreendido, a seguinte frase: “que mal há nisso!” Por essas e outra a rua ficou conhecida como “Rua Mal há”. 

Havia algum mal em frequentar a tal rua? De acordo Maria Aguiar na década de 1970 não havia mal alguns rapazes solteiros procurar o lugar. Isso porque as noivas de família tinham que se resguardar se para o casamento. “O homem era obrigado esperar a noiva, então entendiam que ele tinha que ir. Era normal”. 

Porém o causo “Entrou com moto e tudo” insinua algo que todo mundo já sabe, mesmo depois de casados alguns homens continuavam a frequentar aquela parte boêmia da cidade, como revela a narrativa de uma senhora de 70 anos, popular por memorizar e compartilhar acontecimentos “engraçados” sobre o passado da cidade. O causo foi registrado de maneira informal pelo site em 2013.

Conta a antiga moradora da cidade que, em um ano da década de 1980, uma esposa desconfiada da visita do marido a tais estabelecimentos da Rua do Brega resolveu investigar se ele tinha no local uma “mulher por conta”. O marido muito esperto percebeu que a mulher estava atenta aos seus passos. Porém mesmo assim não deixou de visitar a amante, “afinal cavaleiro que é bom, quando cai, cai bem”.

Diante disso, a esposa desconfiada por vezes percorria dia e noite toda extensão da rua observando se a moto do marido estava estacionada na entrada de uma das casas noturnas da afamada rua. Depois de um tempo policiando o local constatou com base em suas observações que o marido não estava mentindo quando dizia que não era de visitar o lugar. 

Dias depois do ocorrido, durante uma bebedeira, o motoqueiro contou para os “amigos de copo” que ao visitar a amante no bar ou na casa na Rua do Brega não estacionava à motocicleta na porta, como de costume, e sim dentro de um quarto reservado para o encontro. Finalizando a narrativa, entre risos e gritos dos amigos, com a frase que se tornou um meme oral entre eles. “Eu entro é com a moto e tudo”. 

 Fontes: 

Depoimento de Maria Aguiar extraído do trabalho monográfico:

ROCHA. Daniel; OLIVEIRA.Danilo. Cinema – Contribuição no processo de Formação da Sociedade de Teixeira de Freitas nos anos de 1960, 1970 e 1980.

DEL PRIORE, Mary. História do amor no Brasil. 2ª ed. – São Paulo: Contexto, 2005

Narração do “causo”.

Conversa Informal com a senhora M . L  em 2013

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. 

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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Causos da “ Rua do Brega”: Parte 02

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A TV Manchete na história de Teixeira de Freitas Parte – 01

Por Daniel Rocha*

Dizer que algo marcou época na história da cidade parece lugar-comum. Mas a frase tem tudo a ver com a transmissão da TV Manchete em Teixeira de Freitas nas décadas de 1980 e 1990, com o início das transmissões televisivas no município e a cultura dos migrantes -japoneses.

As primeiras transmissões televisivas no município ocorreram na década de 1970 depois da iniciativa de um grupo de moradores tendo à frente o senhor José Fernandes e Sebastião Santiago que através do Clube da TV, criado por eles, financiou a instalação de uma antena de transmissão da TV Tupi. Anos depois, 1985, Teixeira de Freitas já sintonizava quatro sinais de TV, na época um número expressivo para um povoado do interior.

Definitivamente a Tupi foi forçada a finalizar suas atividades em 1981 dando origem a duas outras emissoras, SBT e Manchete, que em 1983 entrou no ar para todo Brasil e em Teixeira de Freitas chamando a atenção com variados programas jornalísticos, de auditório, infantis e novelas.

Seriados exibidos

Programação que se tornou ainda mais popular como a estreia em 1988 dos seriados japonês Jaspion e Changeman ,dentre  outros, e tal como ocorreu em todo país, os seriados contribuíram para divulgação da cultura pop oriental mudando, de alguma forma, a perspectiva sobre os migrantes  residentes na cidade. 

Naquele tempo Teixeira de Freitas era o lugar de umas das maiores colônias japonesas da região com nisseis e sanseis por todos os espaços de vivência da cidade. Nesse sentido os seriados foram importantes para divulgação da cultura do outro, associados apenas à agricultura e outros estereótipos.

A exibição de outros tantos seriados entre as décadas de 1980 e 1990, como Jiraiya, Jiban, Winspector, Kamen Rider e animes como Sailor Moon, Yu Yu Hakusho e Samurai Warriors e Cavaleiros do Zodíaco elevaram , por exemplo, o interesse de alguns jovens pela língua Japonesa, pelos mangás,  quadrinhos japoneses, e esportes orientais como Taekwondo, Karatê e Judô.


Vinheta de abertura da TV Sul Bahia 1996

Na década de 1990, a TV manchete ganhou ainda mais relevância com a inauguração da retransmissora local TV Sul Bahia, “A nova imagem de Teixeira e toda região” no dia 3 de novembro de 1996. Com a inauguração do canal o cotidiano teixeirense local passou a ser noticiado diariamente por um jornal e programas culturais. A TV pertencia um grupo político que naturalmente fez uso de sua audiência para divulgação do discurso mais adequado aos seus interesses… Assunto do próximo texto.

Fontes e Referências

Livro: Japoneses na conquista do Nordeste. 40 anos da colonização Japonesa no sul da Bahia. Teixeira de Freitas 1997.

Revista Veja: Reino do Sol Nascente. Os japoneses da Cooperativa de Cotia mudam o panorama do campo e o perfil das cidades do interior. 1988

Revista : Jacarandá Country Club. 40 anos 1975 -2015. 

Rede Manchete: um estudo de caso. Renan Milanez Vieira. Universidade Estadual Paulista – Unesp

TV Sul Bahia – Wikipédia. 

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. 

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Veja também:

Exploração da madeira – Parte 02

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