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CONSEQUÊNCIAS DO COVID-19

Por Erivan Santana*

Com a pandemia do covid-19, muitas situações vieram à tona, entre elas, a assustadora realidade revelada, quando do anúncio do auxílio emergencial, ao ser constatado que ¼ da população brasileira, pouco mais de cinquenta milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza. Os dados são preocupantes, principalmente, quando se sabe que o atual governo federal pretende instaurar no país um projeto de estado mínimo.

No mundo desenvolvido, a exemplo dos países europeus, ainda que alinhados ao capitalismo liberal, existe uma ampla rede de proteção social instalada, principalmente em áreas vitais, como saúde e educação. No Brasil, mesmo com as deficiências causadas pela falta de investimento e estrutura, o SUS está sendo a salvação de muitos brasileiros e de muitas famílias, levando-nos a uma conclusão clara, a de que é preciso cuidar e valorizar o SUS cada vez mais.

Na área da educação, outras realidades vão sendo mostradas diariamente, a toda a população, qual seja, a falta da inclusão digital em nosso país, num momento em que se necessita do apoio pedagógico aos alunos através da internet. Embora todos saibam que a aula presencial, mediada pelo professor, seja imprescindível, até mesmo atendendo a um princípio elementar em educação delimitada por Vygotsky, qual seja – “o educando aprende e desenvolve suas habilidades e competências no convívio social”, o apoio ao aluno via digital neste momento seria bem vindo. Entretanto, a questão da desigualdade social pesou mais uma vez; são poucos no país os que tem acesso à internet de qualidade, além de possuir bons equipamentos, condições necessárias para que aulas on line possam ser desenvolvidas com sucesso, ainda que de forma assistencial e complementar, como já mencionado.

Em meio a tudo isso, uma outra questão se coloca, qual seja a realização do ENEM. Afinal, seria justo a sua realização neste momento, uma vez que os alunos das classses populares, que têm sua base de apoio na escola pública, estarem neste momento sem acesso a ela? Além disso, é bom lembrar, exsite também o risco da aglomeração de pessoas, que um evento dessa natureza proporciona, neste momento perigoso e delicado da pandemia do covid-19, o que tudo somado nos leva à conclusão de que o mais prudente seria adiar o ENEM, o que felizmente, foi feito, diante das reivindicações da sociedade organizada.

Enquanto tudo isso aocntece, vamos vivendo um dia de cada vez, onde sentimentos de medo, saudade, fé, dúvidas, alegria e tristeza, se misturam, com um horizonte totalmente incerto à nossa frente, onde a única certeza que temos é que o mundo pós covid-19 nunca mais será o mesmo.

ERIVAN SANTANA

Artigo originalmente pulbicado no blog “Um café para Sócrates”

Histórias ocultas nas fotos antigas de Teixeira de Freitas – Parte 01

Por Daniel Rocha

Para além do foco, algumas fotografias antigas da cidade guarda surpresas ocultas que trazem informações do tempo registrado que às vezes passam despercebidos por quem olha como o conjunto de escolhas, o lócus social definidos e a visão política e do tempo histórico de quem registrou.

Dessa forma, para o início dessa série que se propõe a analisar algumas fotografias, selecionamos um registro de uma parte do centro da cidade que tem como tempo natural o dia e como  tempo cronológico o mês de outubro de 1982 do século XX.

O autor foi identificado por fontes como sendo “Dr. Fortunato”, um fotógrafo amador, sem vínculo com instituição ou imprensa que prestou grande serviço a história ao fotografar o cotidiano e algumas paisagens da cidade.

Foto sem filtros

Nos termos técnicos a fotografia traz um grande plano geral preenchido em sua maior parte pelo ambiente e paisagem urbana de uma parte do ainda povoado de Teixeira de Freitas. Na parte inferior registra a entrada da rua Prudente de Morais, parte do entroncamento com a  rua Pedro Álvares Cabral.

Na foto é possível perceber uma parte do fundo da lateral do prédio do antigo Sindicato patronal dos produtores Rurais de Teixeira de Freitas, antigo hospital Santa Lucia onde atualmente funciona o Ambulatório Central.

Pichação no muro

Na parede do prédio do sindicato patronal uma pichação com os dizeres “P/ Prefeito Wilson Brito” se destaca. Em tese a pichação faz parte da prática política da época. A fotografia foi registrada um mês antes da realização do pleito de 1982 que teve como eleito o residente Wilson Brito. Período que segundo relatos e pesquisas este tipo de ação era comum.

A escolha da paisagem pelo fotógrafo não foi qualquer, a fotografia traz uma paisagem modificada pela ação contínua do movimento das classes trabalhadoras e dominantes sobre o meio natural, já não existente no então povoado de Teixeira de Freitas, dividido entre os municípios de Alcobaça e Caravelas. 

Casa e cor da década de 1980

Na paisagem ainda é possível observar uma maior ocupação de espaços por casas, havendo poucos terrenos baldios, o que indica que do ponto de vista imobiliário aquela região já era mais valorizada, logo habitada por pessoas de melhor condições financeiras, fato evidente na arquitetura e formato das casas.

O lado fotografado pertencia ao município de Alcobaça que dispensava uma atenção maior ao povoado, ou seja, o registro traz uma visão da parte onde se localizava as melhores habitações e às desmazelas urbanas não eram tão gritantes, haja visto que o povoado ainda não havia recebido investimentos suficientes em obras de infraestrutura básica, apesar  fluxo de carros e pessoas vistos nas ruas.

O horizonte como destino

No enquadramento geral, se vê, através dos exemplos, um olhar influenciado pela visão desenvolvimentista que norteava a política nacional e local da época, expressa no espaçoso horizonte a ser alcançado pelo “próspero povoado” captado como a imagem e realidade a ser lembrada no futuro… Uma informação explícita e ao mesmo tempo oculta na foto vista por muitos como “um registro de como era Teixeira  de Freitas no passado”.

Fonte:

MAUAD. Ana Maria. Através da imagem: Fotografia e história interfaces. Tempo, Rio de Janeiro, vol.01,.02. p 73 – 98.

 GUERRA, Jailson C. Pereira; SILVA. Leonardo Santos. O processo de emancipação política de Teixeira de Freitas (1972-1985). UNEB 2010.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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Quantos anos têm Teixeira de Freitas? Não 35? Não 72? Será 70?

Por Daniel Rocha

Quando foi elevada à categoria de município em 09 de maio de 1985, o povoado de Teixeira de Freitas (BA) já acumulava algumas décadas de uma história que começou a se desenrolar quando o comerciante negro Manoel de Etelvina, o Tira-Banha, abriu um boteco às margens da estrada aberta pela empresa madeireira  Elecunha S/A (Eliozípio Cunha e Cia) em 1950.

Contudo, outras versões sugerem que o surgimento do embrião que deu origem ao povoado e a cidade aconteceu em outra época, diante disso fica a pergunta: quantos anos de história têm a cidade?

De acordo com Benedito Ralille a primeira aglomeração surgiu em 1948 no Bairro Vila Vargas antes da abertura da estrada da firma “Eleuzíbio Cunha” quando alguns trabalhadores da madeira, lenhadores, construíram um acampamento coberto de palhas, dando início a extração da madeira no local.


Comercio a beira da estrada, local onde hoje fica a rotatória da “Pão Gostoso”. Década de 1960.

Nessa época o lugar tinha como moradores, dentre outros, os srs, Hermenegildo Félix de Almeida e Júlio José de Oliveira e .tempos depois, os srs Joel Antunes, Manoel de Etelvina, Amélio José de Oliveira, Duca Ferreira e a família dos Guerra, que construíram casas distantes entre si onde hoje é o centro urbano da cidade.

Versão que harmoniza com uma a apresentada por Frei Elias (2012) que diz que povoado surgiu em 1948 quando Manuel Ferreira de Duque de Caxias (“Arriba-Saia”) construiu duas casas no lugar ocupado depois pelo Sr. “Osvaldo”, no meio da mata virgem seguido posteriormente por Joel Antunes, que fez seis casas “no lugar de João de Coco”. Considerando essas versões, Teixeira já contaria hoje com 72 anos de história.

Mas essa possibilidade não é a única, em 1994, após solicitação de Ralille que objetivava esclarecer a origem do nome da cidade, a Câmara Municipal de Alcobaça declarou em ofício que após detalhada busca nos arquivos da casa não foi encontrado nenhum documento oficial criando, nos idos de 1950, o povoado de “São José de Itanhém” ou “Tira-Banha” e nem quando o dito povoado passou a se denominar Teixeira de Freitas.

Venda na faz. Nova América. Década de 1960. Foto: Osair Nascimento

Porém, um documento do IBGE datado em 14 de fevereiro de 1957  informa que o insurgente povoado de “São José do Rio Itanhém” foi batizado com o nome de Teixeira de Freitas em homenagem ao ilustre baiano pai da estatística Brasileira, através do Ofício de nº 91, de 14 de fevereiro de 1957, que daria hoje a cidade 63 anos de história.

Entretanto Susana Ferreira no trabalho monográfico – A vida privada de negros pioneiros no povoamento de Teixeira de Freitas na década de 1960 afirma que de fato o povoado que deu origem a cidade surgiu no ano de 1950 com o movimento gerado pela abertura da estrada de rodagem e a fixação no lugar do comerciante negro Manoel de Etelvina e outros moradores de comunidade rurais próximas, como a Nova América e Volta Miúda, dando origem ao chamado “Comercinho dos Pretos”, dentre outros nomes populares.

Desta forma,respondendo à questão: quantos anos de história têm Teixeira de Freitas? É possível afirmar que para além dos 35 anos de emancipação contamos com 70 anos de história.

Fontes:

HOOIJ, Frei Elias. Os desbravadores do Extremo sul da Bahia, Belo Horizonte, 2011.

FERREIRA,Susana. A vida privada de negros pioneiros no povoamento de Teixeira de Freitas na década de 1960. Uneb campus-x. Teixeira de Freitas BA, 2010.

RALILLE, Benedito Pereira; SOUZA, Carlos Benedito de.; SOUZA, Sheila Franca de. Relatos históricos de Caravelas: (desde o século XVI). Caravelas, BA: Fundação Professor  Benedito Ralille, 2006.

http://www.ibge.gov.br/cidadesat/historicos_cidades/historico_conteudo.php?codmun=293135 > Acesso em: 05 de agosto 2013.

Daniel Rocha da Silva* 

Historiador graduado e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. 

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Teixeira de Freitas 1985: política, confrontos e agressões

Por Daniel Rocha

Confrontos e agressões violentas marcaram a eleição para escolha do primeiro prefeito da cidade de Teixeira de Freitas em 1985. Durante o processo, movidos por sentimentos de ódio e amor partidários e amantes políticos agrediram eleitores e a juíza eleitoral da época, Neuza Oliveira, na Praça da Independência, hoje conhecida como Praça da Bíblia.

Segundo informou o Jornal do Brasil de 15 de novembro de 1985 , nas primeiras horas da manhã daquele dia um grupo de adeptos da coligação PTB-PDS-PDT chegaram  nas primeiras horas da manhã à estação rodoviária  da cidade, hoje conhecida como Rodoviária Velha, ocupando o lugar de desembarque dos ônibus de passageiros  para interrogar os eleitores  que chegavam ao local qual era o candidato que votaria no dia da eleição.

Nesse ambiente de pressão os passageiros que se declaravam eleitores do candidato Timóteo Brito, então do PTB,  eram recebidos com ovação e palmas, já os que se mostravam intencionados em votar no candidato do PMDB, Francistônio Pinto, eram levados e  agredidos na dita praça. De acordo com o jornal, a polícia “assistia tudo sem fazer nada”.


Notícias de uma “guerra particular

Mais tarde, os elementos da mesma coligação, movido pelo seu partidarismo, amor e ódio, liderados pelo PTB, na época alinhados a figura de Antônio Carlos Magalhães, o ACM, passaram a derrubar outdoors do candidato do PMDB- PFL, que diante da situação procurou a juíza eleitoral, Neuza Oliveira, para solicitar ajuda e providências.

Ciente da situação a juíza foi até o terminal rodoviário para tomar providências e acabou sendo “agredida a pontapés e empurrões” pelos furiosos partidários das duas coligações que já se encontravam em um caloroso confronto, comuns em períodos eleitorais na cidade que na eleição de 1982 já havia registrado algo da mesma natureza no mesmo lugar e espaço.

De acordo com os historiadores Jailson Guerra e Leonardo Santos Silva em um trabalho monográfico em 2011, os confrontos e demonstrações de apoio exacerbados dos partidários durante o processo eleitoral de 1982 e 1985 podem ser associados ao contexto político da época, Ditadura Militar,  e ao jogo de interesses que permeiam o meio e a fascinação exercida por certos candidatos.


Timóteo Brito e
Francistônio Pinto

Visto que, enquanto as reações dos partidários, correligionários, apoiadores e financiadores liga-se à distribuição de cargos públicos, parcerias, fiscais e licitações as reações do “amante” foge à essa regra. “É uma coisa pessoal, é um sentimento de paixão. O amante sempre enxerga no candidato as suas qualidades e no adversário os seus próprios defeitos. Um sorriso, um abraço, um aperto de mão é o suficiente para deixá-lo feliz”.

No presente é possível perceber esse mesmo sentimento nas redes sociais onde  alguns  teixeirenses opinam a partir das suas próprias convicções sobre a política nacional, sem  se atentar que ao tomar partido deixam de observar e dar atenção a aspectos importantes como a garantia dos direitos conquistados e a manutenção da liberdade democrática.

  Daniel Rocha da Silva*

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Fontes:

GUERRA, Jaison C. Pereira; SILVA. Leonardo Santos. O processo de emancipação política de Teixeira de Freitas (1972-1985). UNEB 2010.

Juíza leva pontapés e empurrões. Jornal do Brasil. 15/11/1985. Acervo site tirabanha.

Foto: Praça da Bíblia. Ano desconhecido. Fonte: Memorial da Câmara.

Por que os índios visitam a Praça da Bíblia?

Em 2014 uma notícia relacionada a presença dos nativos Maxakali no centro da cidade de Teixeira de Freitas, BA, ganhou destaque em alguns sites nacionais como o G1. Na época o fato trouxe à tona uma pergunta a muito feita: por que esse povo nativo visita a Praça da Bíblia?

Os repórteres locais acionaram a polícia e as autoridades competentes para socorrer um garoto Maxakali encontrado “amarrado pelo pé em uma barraca na praça” que fica no centro da cidade. Ainda segundo a reportagem, os pais do garoto fazia parte de um grupo de cerca de 50 indígenas pertencentes à localidade de Machacalis, próximo à divisa com Minas Gerais, que vagavam pela região pedindo esmolas.

Foto: photojornalismo

Procurada pelo G1, a Fundação Nacional do Índio (Funai) informou que os indígenas da região têm o costume de fazer esse tipo de percurso. “Antigamente as famílias faziam para colher frutos e sementes no caminho e que, com o crescimento da cidade, passaram a mendigar”. Sobre a criança, a Funai informou que eles têm o entendimento de que, amarrando, ela não ia se perder.

Contudo, para melhor entender a ligação dos nativos com esse percurso é preciso lembrar o passado pouco divulgado do território teixeirense que até 1985 pertencia ao município de Alcobaça. Antes da invasão portuguesa a partir de 1500, o povo Maxakali, que eram habilidosos coletores e incipientes agricultores, tinham como território a região entre o Rio Prado , Extremo Sul Baiano, e o Rio Doce, Minas Gerais e parte do Espírito Santos.

Os nativos Maxakali, que ocupavam a região com um conjunto de vários grupos, habitavam uma aldeia que ficava na embocadura da margem esquerda do Rio Itanhém que deu origem ao Arraial do Itanhém que por sua vez originou a Vila de Alcobaça, criada em 1772 pelo ouvidor José Xavier de Machado sob o argumento de defesa da costa e a necessidade de intimidar os “índios bravios” do sertão.

Nesse período a coroa portuguesa, diante da crise desencadeada na segunda metade do século 18, pelo declínio do ouro nas minas gerais, adotou medidas para potencializar a exploração econômica da região através da ocupação de novos espaços e perante isso, o governo da província da Bahia autorizou a invasão de terras indígenas para fins de ocupação e enfrentamento.

Tal fato, dentre outros, empurrou os Maxakali para outras partes do território onde se encontrava outros da tribo, evidentemente para se proteger do assédio e ataques da política de aldeamento promovido pelo império.

Diante disso, é possível então supor que os descendentes destes nativos, que  no presente ocupam terras reduzidas e com recursos naturais escassos, visitam a praça movido pela memória ancestral e sentimento de pertencimentos que aflora em alguns dos antigos habitantes dessas terras, apesar do assédio dos olhares locais herdados dos colonizadores que só enxergam na visita desajustes sociais.


Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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Fontes:

J. C. R. Milliet de Saint-Adolphe. Diccionario geographico, historico e descriptivo do imperio do Brasil.  Volume 1. 1845. Página 27. 

Criança indígena é encontrada amarrada em praça na Bahia: http://g1.globo.com/bahia/noticia/2014/06/crianca-indigena-e-encontrada-amarrada-em-praca-na-bahia.html

Índios do Nordeste: Resistência, memória, etnografia. Org. LUIZ SAVIO DE ALMEIDA, AMARO HÉLIO LEITE DA SILVA, CHRISTIANO BARROS MARINHO DA SILVA, JORGE LUIZ GONZAGA VIEIRA, MARIA ESTER FERREIRA DA SILVA . Páginas 60 – 68.
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Como era a “Malhação de Judas” em Teixeira de Freitas?

Por Daniel Rocha

O sábado entre a semana santa e o domingo de páscoa é chamado de Sábado de Aleluia. Dia de lembrar a ressurreição de Jesus e a traição cometida pelo seu discípulo Judas Iscariotes. Dia também, segundo a tradição católica, de queimar o boneco do Judas traidor. Em Teixeira de Freitas das décadas de 1960,1970 e 1980 a brincadeira tradicional foi realizada em diversos bairros da cidade.

Em 2015 durante uma conversa informal, Maria de Fátima Leite, natural de Águas Formosas, MG, que mudou para Teixeira no ano de 1969, relatou que um antigo morador conhecido como “Paulo” realizava a queima do Judas na madrugada do sábado de aleluia no bairro Wilson Brito.

A “malhação do boneco,” feito com palha e madeira, começava às três horas da manhã aos gritos e vaias de uma multidão formada por inúmeras crianças e adultos que, antes da queima, apedrejava o boneco “sem dó e nem piedade” na escuridão de um povoado sem acesso a iluminação elétrica.


Imagem Meramente Ilustrativa

Já no bairro Teixeirinha, década de 1960, os moradores participavam através de cânticos e palavras de ordem relacionada ao feito, lembra a moradora Ricardina Maria sobre a queima no bairro. Antes de ser queimado o boneco era arrastado pelas ruas puxado por um Jegue e deixado na porta de um morador ao som de rimas e cantigas que faziam referência ao dono da casa. “Esse judas não come farinha. Vai pra casa de seu Farias!”

Já o capixaba Elcilande Ferreira, natural da cidade de Pinheiros (ES) lembrou que a queima também era realizada no Vila Vargas, bairro onde passou toda infância e adolescência. Naqueles tempos, década de 1980, a queima era realizada na Rua Aurelino J. de Oliveira e o ritual começava dois dias antes com a busca entre os vizinhos de doações de roupas velhas para confeccionar o boneco.

No dia de malhar o judas, o boneco, preenchido com roupas e jornais, era colocado em uma carroça, puxado e lixado pelas ruas do bairro enquanto a sentença era anunciada como o um último grande ato da semana santa.

Foto: Suposto Bairro Teixeirinha. Ano desconhecido.

No bairro São Lourenço da década de 1980 a tradição também era encenada, Flaviana Melquiades recordou que antes de ser queimado no sábado pela manhã um boneco era confeccionado pelos residentes com roupa e sapatos “de gente” doados por moradores da referida rua. O boneco era colocado em um poste de madeira no meio da rua da feirinha de domingo, para ser zombado pelos passantes que buscavam saber o horário do castigo.

No dia seguinte pela manhã, o ritual começava com o apedrejamento e agressões. Homens e meninos cutucavam e espancava o boneco do Judas antes da condenação final. A encenação era muito violenta e segundo Flaviana; “aterrorizava muito as crianças menores porque o boneco tinha uma fisionomia muito próxima da humana.”

Diante dos relatos é possível perceber que a manifestação cumpria bem seu objetivo de recordar a ressurreição de Jesus e a traição cometida pelo seu discípulo Judas, mensagem facilmente assimilada pela comunidade que não encontrava dificuldade em modificar o rito de acordo as necessidades práticas e  próximas.

Daniel Rocha da Silva*

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Fontes Orais

Conversa informal com

Flaviana Santos               Dezembro de 2015

Elcilandi Ferreira .          Dezembro de 2015

Maria de Fátima Leite   Maio de 2016

Ricardina Maria.             Maio de 2016

Teixeira de Freitas 1971: A primeira agência bancária da cidade

No dia 20 de novembro de 1971 foi instalado no povoado de Teixeira de Freitas o Banco do Estado da Bahia (BANEB), a primeira agência do então povoado. A chegada da agência foi alardeada como o início de uma “ nova fase de progresso” para o lugar.

Antes, para realizar algumas atividades bancárias os moradores tinham que se deslocar até alguma cidade próxima, como Nanuque, para acessar serviços bancários e realizar transações financeiras. Com a agência o comércio do povoado que já sonhava com a emancipação cresceu ainda mais servindo como muleta para o desenvolvimento econômico da cidade.

“A agência pioneira terá requisitos de agência de alto estilo e à altura das congêneres das capitais pois somente o fato de possuir ar condicionado para o público demonstra o gabarito de sua classe. Começa, assim, uma nova fase de progresso para Teixeira de Freitas”, observou um jornal da época.

Com a instalação da agência o governador, Antônio Carlos Magalhães (1971 – 1975), cumpriu com uma das providências prometidas aos empresários e agropecuaristas durante o período que o povoado foi transformada na capital simbólica do estado por alguns dias como parte de uma política iniciada pelo Governador Lomanto Júnior ( 1963-1967) para inserir a região na dinâmica econômica do estado e diminuir a influência de Minas Gerais e do Espírito Santo nesta parte do território baiano.

No campo econômico, em tese, a agência dinamizou a circulação de dinheiro e facilitou a vida dos moradores  e dos empresários do povoado e possibilitou ao Estado o recolhimento dos tributos nos prazos legais. 

Para além disso, como ganho político, ACM fortaleceu sua narrativa propagandista de que o progresso do Extremo Sul ocorria em consequência da sua motivação investindo pouco no social. 

Agência BANEB 1999

Convém lembrar que no ano de 1979, por exemplo, com seus 33.031 mil habitantes Teixeira ainda não tinha rede de esgoto e o sistema de abastecimento de água instalado em 1974 já se mostrava deficitário  desde dia da inauguração e não tinha sequer uma biblioteca pública ou um mercado organizado para os feirantes. Realidade que perdurou até o final da década de 1980.

Sob essa perspectiva, é possível observar que o anunciado progresso não ocorreu por completo, pois no primeiro momento não trouxe investimentos para cidade que ainda no presente sofre com sérios problemas estruturais, sociais e urbano.

Fontes:

Governo vai inaugurar Agência Bancária. F N.  Novembro de 1971.

As origens.Banco do Nordeste. 1985. Pg 28.

HOOIJ, Frei Elias. Os desbravadores do Extremo sul da Bahia, Belo Horizonte.2012. Pg 65

Daniel Rocha da Silva*

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Foto Principal: AV. Marachal Castelo Branco. Ivonildes Hoffman. Ano Desconhecido.

Caravelas 1885: Epidemia matou milhares na cidade

Por Daniel Rocha 

Dos males que assustam a humanidade, as grandes epidemias infecciosas são as mais assustadoras. Como em outros lugares do país e do estado a população de algumas cidades do extremo sul da Bahia também encarou epidemias mortais ao longo da história, como a cólera que levou sofrimento e desolação a Caravelas em 1885. 

Segundo Onildo Reis David, entre 1855 -1856 uma devastadora epidemia de cólera-morbus levou pânico e medo na população da cidade de Salvador que desconhecia completamente a doença. Nesse cenário os médicos não estavam bem orientados sobre a prevenção e o tratamento. 

No seu início a doença causou a morte de 08 a 10 pessoas por dia e a população desesperada passou a associar a doença a um castigo divino. “As preces e as procissões de penitência sucediam-se na flagelada cidade do Salvador.” 

O adoecimento de trabalhadores ligados à produção e transporte agravou ainda mais a situação provocando uma crise de abastecimento e a carestia de produtos básicos. A doença se espalhou e chegou a outras cidades portuárias da província, estado, como Caravelas. 

Na portuária Caravelas a doença chegou pouco tempo depois de ter se manifestado em Salvador atingindo uma população já traumatizada pelo surto de disenteria de sangue que atacou a população dois anos antes, 1853. Segundo Ralile, um surto de “Cólera Morbus”  que já tinha dizimado parte da população. 

O drama diante da situação fez com que algumas medidas fossem tomadas para evitar o contágio. Moradores desolados passaram a marcar paredes e portas das residências dos contaminados com uma cruz vermelha e a seguinte frase: “Passa de largo, o cólera-morbus visitou esta família.” 

O governo da província, fez chegar à cidade remédios, auxílio e os médicos José Cândido da Costa e Ernesto Muniz Cordeiro Gitahy, caravelense formado pela Faculdade de Medicina da Bahia que com o amigo José, lutou arduamente contra o cólera.  

Sobre a passagem da doença por outras localidades próximas observou Said (2011) “Não há notícias em Alcobaça de vítimas de epidemia da cólera que abalou Caravelas na década de 1850, mas é bem provável que tenha havido vítimas, sim. De qualquer forma, o medo de epidemia e doenças vindas de vilas vizinhas era constante. A câmara municipal vivia pedindo ao governo provincial o envio de medicamentos para que a população pudesse se precaver de contágios vindo de Prado, por exemplo”. 

A epidemia manteve se ativa até finais de abril de 1856, quando depois de matar cerca de 36,000 começou a declinar.  Segundo Luís Henrique Dias Tavares, sem esgotos, a cidade do Salvador manteve-se aberta às moléstias infectocontagiosas que vez ou outra atacavam sua população, não é difícil supor era também a realidade de Caravelas 

 
Citações e Referência. 

SAID, Fabio M. O clã Muniz de Caravelas e Alcobaça. São Paulo: edição do autor, 2010. p. 39. 

SAID, Fabio Medeiros. História de Alcobaça Bahia(17721958). São Paulo.p. 92 

David. Onildo Reis. UFBA. O inimigo invisível: epidemia do cólera na Bahia em 1855-56.  1993. p 07,08,09,10. 

Japoneses na conquista do Nordeste: 40 anos da colonização Japonesa no Sul da Bahia.  

Caravelas, BA: Fundação Professor Benedito Ralille, 2006.  

 
Daniel Rocha da Silva* 

Historiador graduado e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. 

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Foto :Fundação Professor Benedito Ralille, 2006 

Surtos e epidemias na história de Teixeira de Freitas – Parte 01

Por Daniel Rocha

A Pandemia do Coronavírus está longe de ser a primeira doença na história que preocupou o país e os teixeirenses. Surtos e epidemias como o da paralisia infantil (1968) e do cólera (1992), marcaram a história de Teixeira de Freitas.

Em 1968 o país enfrentou um terrível surto de Poliomielite (paralisia infantil) que afetou diversas crianças e em Teixeira de Freitas. Na época o hospital mais próximo ficava em Caravelas e o acesso era difícil. No povoado Teixeirense havia apenas um consultório médico que atendia mediante pagamento e  que não disponibilizava a vacina. 

Propaganda de um consultório médico de Nanuque de 1968

A vacina de Sabin, que combate a doença, estava disponível para quem podia pagar em cidades próximas como Nanuque (MG) e Linhares (ES). ” Muitas crianças morreram por falta de dinheiro para pagar por consulta”, afirmou a moradora Antônia Silva em 2011.

Entre 1964 e 1974 cidades do interior e algumas capitais do país, apresentaram expressivo aumento na taxa de mortalidade infantil, evidenciando que naquele período as mortes estavam relacionadas a falta de um sistema público de saúde e não a quantidade de hospitais e médicos. Faltava um sistema público de saúde organizado para a execução de estratégias preventivas.

Já em Janeiro de 1992 o Jornal do Brasil noticiou que Várias equipes de sanitaristas da vigilância epidemiológica do estado, órgão do SUS, estavam espalhadas em pontos estratégicos da Bahia: “Uma delas está atuando na cidade de Teixeira de Freitas, passagem dos ônibus que vêm de São Paulo, Rio e Espírito Santos e outros entroncamentos rodoviários no estado para conter a entrada da cólera.”

Rito fúnebre. Enterro. Av Castelo Branco 1975

Já em 1993, quando a doença avançava na cidade de Salvador e em todo o estado baiano o jornal Tribuna da Bahia de 21/03/1993, destacou: “Cólera ameaça 88% da população”. Segundo o periódico a epidemia teve início em 1992 e avançou por falta de medidas para contê-la”, já que era redutível por saneamento.

Em Teixeira, alguns pais moradores de áreas mais segregadas e sem saneamento, preocupados com a notícias e confiantes na crença de que o alho afastava a doença, confeccionaram pequenos cordões contendo uma bolsinha costurada com alho para uso dos filhos na escola, o que não impediu que crianças com alguns sintomas suspeitos fossem internadas e tratadas nos hospitais conveniados aos SUS, Santa Rita, Sobrasa, além do estadual Hospital Regional que com toda dificuldade impediu um mal maior.Até 1997, o Centro de Saúde Mãe Maria era a única unidade de saúde que ofertava vacinas para imunização no município. 

A partir de julho de 1998, com a municipalização da saúde foram abertos novos postos de saúde que hoje cobrem mais de 90% do município democratizando os serviço de vacinação e assistência médica em todos os bairros da cidade que no presente se encontra assustada com o coronavírus que alastra pelo mundo.

Fontes e Referências

MAZZOLENIS, Sheila. Almanaque Abril de 1981, são Paulo: Abril, 1981.MARTINELLI, Maria Lúcia. Serviço Social: identidade e alienação: 2° ed. São Paulo: Cortez, 1991.

Dos Santos.Jonival Alves, Dos Santos. Eliomar Pires.O tratamento médico e as práticas populares em Teixeira de Freitas nas décadas de 1960 e 1970. Uneb 2011.

Motorista é o primeiro caso de cólera na Bahia. Jornal do Brasil.  28/01/92

Tribuna da Bahia 18 de junho de 1992. Anais da Câmara dos deputados – Volume 18,Edição 27 – Página 17907

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

Foto da capa: Av. Castelo Branco. Autor e ano desconhecido.

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Movimento separatista de 1988: O posicionamento de Teixeira de Freitas e Itamaraju

Por Daniel Rocha

Em 1988 foi à vez da cidade de Itamaraju se tornar por alguns dias, simbolicamente, a capital do Estado da Bahia. Tal como fez o antecessor Antônio Carlos Magalhães (PFL) na década de 1970 elevando Teixeira de Freitas a essa posição, o governador Waldir Pires (PMDB), acompanhado de todos os seus secretários, elegeu a cidade capital simbólica e despachou durante dois dias no município.

Do mesmo modo que nas primeiras transferências para região em 1970, outro movimento separatista pedia uma nova divisão do Brasil e  emancipação do Sul e Sudoeste Baiano e parte de Minas Gerais para a criação do Estado independente de Santa Cruz. O movimento foi incentivado pelos produtores de cacau da região sob a liderança do prefeito de Itabuna Fernando Gomes, na época deputado Federal pelo PSDB.

Mapa mostra movimentos que pediam a criação de novos estados no país

O estado seria formado pelo desmembramento de áreas dos Estados da Bahia e Minas Gerais, englobando 153 municípios do primeiro e 12 do segundo, transferindo para Minas Gerais parte do mar da Bahia, através de municípios como Alcobaça, Caravelas e juntando cidades como Ibirapuã, Lajedão, Medeiros Neto e Nova Viçosa a outras mineiras.

Em 18 de Agosto de 1987 o assunto fez parte da pauta de uma reunião orquestrada por lideranças políticas do extremo sul, Deputado Maurício Cotrim. O evento foi realizado na Câmara Municipal de Itamaraju que na época nutria grande insatisfação com a política estadual para com o município. “Atualmente no extremo sul do estado, existe um grande número de pessoas que esperam a pronta divisão do estado, inclusive vereadores locais,”destacou  o jornal A tarde.

Campanha do governo do Estado de 1988 contra o movimento de divisão da Bahia

De acordo com um Informativo Publicitário de 1988, o então prefeito da cidade de Teixeira de Freitas, Temóteo Brito, em seu primeiro mandato,  também estava insatisfeito com a política estadual de repasse de recursos do estado governado pelo adversário de seu grupo político e apostava na divisão  da Bahia para obter recursos necessários às demandas da cidade.

” O Extremo sul deveria ser desmembrado e vinculado posteriormente ao Estado de Minas Gerais, debatendo a máxima de que ‘dividir a Bahia é dividir Caetano Veloso’. Na sua opinião, Minas sempre almejou este casamento que propiciaria ao estado uma abertura para o mar e em consequência, um futuro corredor de exportação”,  algo que beneficiaria o município que tinha como principal atividade econômica a agricultura e a pecuária ligada a fronteira mineira.

Tais reações podem ter motivado a transferência simbólica  da capital para a cidade de Itamaraju onde o governador Waldir Pires lançou um programa para o desenvolvimento econômico e social da região, que, por falta de infraestrutura, vinha sendo fortemente influenciado pelos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo e enfrentava uma estiagem sem precedentes.

O governador foi  recebido com grande entusiasmo pela população e membros do MST local que perseguidos por pistoleiros esperavam a concessão de áreas para assentar famílias acampadas, muitas expulsas de suas terras pela grilagem.  O projeto conservador para a criação do Estado de Santa Cruz foi derrotado na Câmara Federal por não ser considerado viável financeiramente, tal como outras propostas existentes na época. 

Fontes:

Bahia de todos os fatos: cenas da vida republicana, 1889-1991. Front Cover. 1997 – Bahia

Memórias das Trevas – uma Devassa na Vida de Antônio Carlos Magalhães. João Carlos Teixeira Gomes; Ano: 2001; Editora: geração editorial. 

Informe Publicitário. 1988. Arquivo site tirabanha

Deputados fazem debate em Itamaraju. A tarde. 18/08/1987.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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