Arquivo da categoria: Memórias

Nomes que a cidade de Teixeira de Freitas já teve

Por Daniel Rocha*

No romance Tieta do Agreste (1977), de Jorge Amado, o narrador faz muitas observações acerca da cultura popular, como:  “os nomes dados por autoridades , escritos em placas de metal confeccionadas em oficinas especializadas na cidade, não resistem às placas de madeira confeccionadas por mãos artesanais e anônimas. Mão do povo”.

De acordo o IBGE, em 14 de fevereiro de 1957, o povoado de São José do Rio Itanhém foi batizado com o nome de Teixeira de Freitas em homenagem ao ilustre baiano pai da estatística Brasileira, através do Ofício de nº 91, de 14 de fevereiro de 1957.

O documento oficial e o único até então conhecido que prova que existiu outra denominação antes do oficial no povoado que mais tarde, ao emancipar, manteve a homenagem ao ilustre baiano Teixeira de Freitas. Destacou José Esteves Ribeiro Neto:

“Em 1957, o então chefe da agência de estatística de Alcobaça, oficialmente solicitou a prefeitura e a câmara daquele município uma homenagem póstuma ao imortal baiano Teixeira de Freitas, dando-lhe o seu nome ao povoado de São José de Itanhém, o que foi bem aceito pelo, então, prefeito municipal”.

O batismo oficial não impediu que a cidade recebesse  alcunhas e apelidos dados pelos populares, falo isso com base nas falas de antigos moradores descritas em documentos e publicações  que serão citados a seguir.

Miguel Geraldo Farias Pires  em um compilação  histórica feita  por ele no ano  1986,  publicada na edição especial do jornal Alerta  de  maio de 2013 diz que:

“Devido a bifurcação das estradas de rodagem de Alcobaça e Água Fria, atualmente Medeiros Neto, e do povoado de São José de Itanhém até o porto de Santa Luzia, no município de Nova Viçosa – sendo esta última de propriedade da firma de madeira “Eleozibio Cunha” , o povoado de São José do Itanhém era conhecido como Perna Aberta”.

Em entrevista a revista  Origens, Teixeira de Freitas, em 1985, o senhor Servídio do Nascimento ( em  memória) recordou que além de tantos outros o município também foi  por muito tempo chamado  de   “Arripiado” ,  assim chamado por haver muita discussão e bate boca no pequeno comércio.

Recorda também o senhor Nascimento que  o primeiro comerciante do povoado, Chico D´água, ao construir  no lugar uma barraca para vender aos motoristas que passavam pela estrada da “Eliosippio Cunha”, plantou uma grande roça de  mandioca onde hoje está o centro da cidade, por isso o lugar foi apelidado  pelos madeireiros e passantes de Mandiocal.

No trabalho monográfico, A vida privada dos Negros pioneiros no povoamento de Teixeira de Freitas, na década de 1960,  Susana Ferreira evidencia que o povoado foi por um período conhecido como o Comércio dos Pretos:

“Tão logo foi aberto o caminho de terra pela empresa mineira “Elecunha”, de “Eleosippo Cunha”, mudaram se para o lugar, chamado na época de Mandiocal, os negros Francisco Silva e Manoel de Etelvina – este abriria um boteco, tornando o comerciante pioneiro. Assim iniciava o “comércio” mais tarde denominado de “Comércio dos Pretos”.

Recordou Isael de Freitas Correa (em memória) em entrevista no ano de 2009, que  “o povoado mudou de “Ripiado”, Arrepiado, para Tira-Banha, porque deram uma facada em Manoel de Etelvina, comerciante pioneiro, gordo e barrigudo”. Reza a lenda que a facada tirou a banha do pioneiro.

Como Teixeira cresceu na divisa dos municípios de Alcobaça e Caravelas, não se pode deixar de falar da parte Caravelense do povoado  a Vila Vargas, que surge com a exploração da madeira ao sul das primeiras estradas de rodagem, hoje conhecida como AV. Marachal Castelo Branco.

Benedito Ralile revela que  “a formação do povoado se deu na era Vargas, (ditadura por isso esta homenagem em detrimento ao presidente Getúlio Vargas, década de 1950)”.

E importante ressaltar que os nomes oficiais não são escolhidos pelos moradores, a denominação popular sim, tem um sentido, informa e caracteriza o lugar de acordo a sua identidade e cultura,

a  oficial não tem outra função a não ser homenagear uma figura importante da história do país e do estado.

Ao batizar o povoado com o nome de Teixeira de Freitas, as autoridades tiraram da cidade um nome coerente com sua história e cultura, como expressava o significado  dos apelidos , Comércio dos Pretos, Mandiocal, São José do Rio Itanhém.

Ainda hoje se escuta por aí alguns toponímicos como Teixeira das Tretas, Texas City,  Praças dos Leões, que oficialmente e a Castro Alves, o Bairro Wilson Brito, popularmente Buraquinho. Nomes ditos e escritos pela mão do povo.

Referencias.

RALILLE, Benedito Pereira; SOUZA, Carlos Benedito de.; SOUZA, Scheila Franca de.

Relatos históricos de Caravelas: (desde o século XVI). Caravelas, BA: Fundação Professor  Benedito Ralille, 2006.

JORNAL ALERTA. Teixeira de Freitas: (Gráfica Jornal Alerta, Ano XII N° 779ª,

maio, 2007). Edição especial de aniversário de 22 anos de Teixeira de Freitas.

BANCO DO NORDESTE, As origens. Teixeira de Freitas, Fortaleza – Ceará. P.05-07, Janeiro 1986.

FERREIRA, Susana. A vida privada de negros pioneiros no povoamento de Teixeira de Freitas na década de 1960. Uneb campus- x. Teixeira de Freitas BA, 2010.

http://www.ibge.gov.br/cidadesat/historicos_cidades/historico_conteudo.php?codmun=293135 > Acesso em: 05 de agosto 2013.

Foto: Lateral da prefeitura municipal 1985.Jornal Alerta 2013.

Daniel Rocha*

Historiador, Bacharel em Serviço Social, Pós-Graduado em Educação à Distância (EAD), Cinéfilo e blogueiro criador do blog Tirabanha em 2010.

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Teixeira de Freitas Secreta : A igreja subterrânea

Por Daniel Rocha

Quem poderia adivinhar que no centro de Teixeira de Freitas, próximo à Avenida Presidente Getúlio Vargas, uma das mais movimentadas do extremo sul baiano, existe uma antiga igreja subterrânea que por muitos anos teve por perto a primeira cruz erguida oficialmente pela igreja católica na cidade?  

Construída no ano de 1973, a igreja subterrânea, popularmente conhecida entre católicos por “Igrejinha subterrânea”, fica localizada na Rua do Rotary Club ao lado do antigo fórum, de frente da unidade municipal Materno Infantil (HUMI) e da residência paroquial da São Francisco. 

Presente em uma das áreas de maior movimento a igrejinha, que raramente é percebida por quem passa, tem uma estrutura simples acessada via porta frontal e uma escadaria de 17 degraus que leva a um pequeno salão abaixo de aproximadamente 225 metros quadrados e um antigo altar construído no estilo anos 1970, hoje sem adornos religiosos.  

Não há no lugar nenhum luxo arquitetônico, somente um vitral muito pequeno e circular no teto faz lembrar que o visitante está a alguns metros abaixo do nível do solo e  que revela sutilmente uma certa influência europeia na arquitetura.  

Uma pequenina placa de mármore na entrada de uma das salas que compõem o espaço indica que foi ali que nasceu o movimento carismático, fé conservadora, na cidade. Já o piso, a julgar pelo desgaste que apresenta, leva a concluir que nunca foi trocado desde a construção.  

De acordo com  holandês Frei Elias (em memória) em um vídeo publicado no site da diocese, aquela seria a fundação do projeto original de uma igreja franciscana não concluída completamente em 1973. Do meu ponto de vista o alto crescimento populacional obrigou a igreja planejar algo maior para um povoado que crescia com status de cidade, embora com graves problemas sociais. 

Nos anos de 1970, devido a alta exclusão social verificada nos dois últimos presidentes militares, os franciscanos e a igreja atuava fortemente para dar assistências aos pobres, fé social, tanto que a maioria das igrejas católicas aberta na cidade eram também escolas e centro comunitário, exigindo espaços maiores. 

 

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Na época o que restou do antigo projeto da Igreja foi transformado na Igreja Subterrânea de São Francisco que tinha próxima a sua área uma cruz de Jacarandá, a mesma colocada na primeira capela construída no centro da cidade, Praça dos Leões, dedicada a Santo Antônio. 

A cruz que ficava na esquina do terreno, voltada para a avenida Getúlio Vargas tinha registrado no muro de sustentação o seguinte texto: “Sob este signo vencerás”. Esse cruzeiro marca a história de Teixeira de Freitas ela foi colocada em frente à capelinha antiga em 1954 e na igreja São Pedro em 1979 e fixada em 1984 neste templo cristão”.   

De 1981 à 1983 a “Igrejinha subterrânea” foi local de missas e o ponto de encontro da primeira formação do movimento da renovação Carismática Católica ( RCC) do extremo sul da Bahia.  

O grupo de RCC denominado Emanuel cresceu rapidamente e ganhou força exigindo mais espaço e ,por essa razão, os organizadores percebendo a necessidade transferiu os encontros para a Igreja São Pedro, como já dito, em 1984.   

 

 

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Estima – se que, a “Igrejinha Subterrânea” ficou em atividade até os anos de 1988 e 1989, funcionando ocasionalmente até meados dos anos de 1990. Nos anos 2000 ficou praticamente abandonada e em alguns momentos restrita até o ano de 2011, quando foi restaurada e aberta em 2014 para receber a visita da imagem pelegrina de Nossa Senhora Aparecida. 

Atualmente no endereço funciona o grupo “23 de maio” dos Alcoólicos Anônimos (AA) cujas reuniões às quartas-feiras e aos sábados das 19 às 21 horas, são abertas ao público. O lugar está sob responsabilidade do grupo que a mais de 20 anos vem resgatando do vício milhares de pessoas da cidade.  

A igrejinha é um lugar de memória, pois nela está registrada a marca da presença franciscana na região. Sobretudo das freiras e  padres holandeses que dedicaram suas vidas a evangelização e a educação da sociedade.  

Importa ainda dizer que em uma cidade como Teixeira de Freitas onde construções do passado são modificadas e destruídas com regularidade é interessante recordar a igreja, conhecer e preservar o lugar que não conta, mas permite estabelecer conexões com a história e a memória religiosa local.  

Para que no futuro não ocorra o mesmo que aconteceu com a pioneira Cruz de Jacarandá que terminou esquecida e deteriorada pelo tempo, em uma das avenidas mais movimentadas do extremo sul baiano. 

 

Fontes Referências 

HOOIJ, Frei Elias. Os desbravadores do Extremo sul da Bahia. História da presença franciscana nesta região – Raízes e frutos, Belo Horizonte, 2011. 

Entrevista com os Frei Elias Hooij, Marcos Monteiro e Lourenço  Tollenaar. Revista dos Franciscanos. Província Santa Cruz, Edição – nº 02 de Abril/junho de 2011. 

Shcerer, Karine Pagliosa. A renovação Carismática Católica na condição Pós-Moderna e na Hipermodernidade. As características do seus sujeitos ante as novas tendências dos tempos atuais. Consultado em 02/02/18. Disponível em: https://sapientia.pucsp.br/bitstream/handle/1912/1/Karine%20Pagliosa%20Scherer.pdf  

Igreja subterrânea recebe a imagem peregrina de nossa senhora aparecida. Consultado em 12/12/15. http://saofranciscotx.com/home/igreja-subterranea-recebe-a-imagem-peregrina-de-nossa-senhora-aparecida 
Segundo dia  do tríduo de 24 anos da paróquia São Francisco. Consultado em 2016  

http://saofranciscotx.com/home/segundo-dia-do-triduo-de-24-anos-da-paroquia/ 
RCC História. Consultado em 03/ 08 /17/ 2017. Dísponivel em:  http://rccteixeira.com.br/historia/ 

Entrevista Frei Elias Hooij: Entrevista concedida a Câmara Municipal de Teixeira de Freitas-BA – 26 de Janeiro de 2016. Acessado em 2017. Dísponivel em: https://www.youtube.com/watch?v=gPChWhyu8Fo&t=76s 

Colaboraram: 

Roselane Neves, relatos orais. 

Marielson Ribas, transporte e cálculos. 

Julian Rigo ( coordenadora da Pastoral da Comunicação Diocesana) via email. 

Imagens: 

Foto da igreja:  

Google 

Foto da Cruz de Jacarandá: 

Extraída da Revista .As origens. Teixeira de Freitas, Fortaleza – Ceará. P.05-07, Janeiro 1986. 

 Grupo de RCC década de 1980

Extraida do site rccteixeira.com.br
 

Se você chegou até aqui parabéns! Tens o hábito da leitura.

 

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Em 1981 crítica à ditadura animou o Carnaval em Caravelas

Por Daniel Rocha

No início de 1980 o regime militar cambaleava, os partidos e a sociedade civil organizada alinhavam-se nas capitais e no interior para exigir a volta da democracia e o fim da supressão dos direitos constitucionais.  

Em 1982 novos desdobramentos dos protestos de rua contra a ditadura ganhavam força às vésperas da realização das eleições diretas para governador, a primeira depois do golpe de 1964.  

Uma informação publicada em um jornal da época, chama a atenção e sugere que os foliões da cidade de Caravelas usaram a liberdade proporcionada pelo carnaval para ocupar as ruas e endossar as críticas ao general João Figueiredo, então presidente do país.  

Segundo o jornal uma marchinha de carnaval composta pelo morador  Clodomir Siquara,  no ano anterior , 1981, fez sucesso entre os citadinos e turistas de várias partes que participaram da festa carnavalesca da cidade, “a mais popular e tradicional da região”.  

Entoada em protesto contra o ditador João Figueiredo, a marchinha em questão, que conquistou o gosto dos foliões, denunciava, dentre outras coisas, a situação do precário abastecimento nacional e a escassez de Petróleo causada pela inoperância do governo e por uma crise internacional. Confira os versos.

“Ai seu João, Deixa eu Brincar. Com meu carro de mão. Meu carro não tem farol, não tem Buzina. Não gasta Gasolina. Ai seu João. Ele gasta só um pouquinho de feijão. O meu carro é de brinquedo, seu Figueiredo.”  

Considerando a “popularidade” da música carnavalesca suponho que os foliões já demonstravam disposição para os protestos, tal como os brasileiros moradores das principais capitais, que timidamente tomaram as ruas em 1982 e, definitivamente, em 1983 e 1984 pelas “Diretas Já”. Movimento que veio a culminar com a eleição indireta de Tancredo Neves à presidência em 1985. 

No presente com o atual presidente, Michel Temer, ostentando o posto de líder mais impopular da história do país, não se assuste se novas músicas e marchinhas de protestos invadir o carnaval da região e do país.

 

Filmes que marcaram época em Teixeira de Freitas : Batman – O Retorno

Por Daniel Rocha

 

Lançado no Brasil em 1992 o filme Batman – O Retorno (EUA), conquistou a atenção do público juvenil  através de uma intensa ação promocional dos estúdios Warner Bros em parceria com o refrigerante Pepsi – Cola.  Em Teixeira de Freitas  na Bahia, algumas crianças se divertiram caçando tampinhas para trocar por brindes na distribuidora local de bebidas.

Naquele ano a grave crise econômica e política resultou na renúncia do presidente Fernando Collor de Mello e o abalo econômico provocado pela política nacional, dentre outros fatores, contribuiu para o fechamento da maior sala de cinema da cidade que já registrava  um elevado número de trabalhadores desempregados.

Em termos econômicos a  situação de Teixeira de Freitas se assemelhava a de outras cidades do país e da região, mas “suas carências eram múltiplas” lembrou a revista Regional Sul ao tratar da importância da construção do ginásio de esportes da cidade emancipada a sete anos.

“São múltiplas as carências que afligem a cidade de Teixeira de Freitas e dentre estas uma destacante. Trata-se de um ginásio de esportes. Uma estrutura com instalações proporcionais ao tamanho do município que suprisse não somente às finalidades esportivas, mas a outros eventos culturais e inúmeras outras atividades que precise de espaço.”

Em razão, em partes, da perda gradual de público o  Cine Brasil, que também funcionava como teatro e casa de show, como a maioria das salas de cinema do interior, ameaçava encerrar as atividades a qualquer momento e complicar ainda mais o panorama cultural da cidade, fato que deixava preocupado os frequentadores.

Frequentadores que, suponho, estavam se ausentando cada dia mais das salas ao descobrindo o prazer de assistir filmes no videocassete ou porque sem dinheiro para ir ao cinema, no caso dos filhos dos trabalhadores da classe mais humilde, não o frequentava com a mesma intensidade de antes.  

Por isso produções com grande apelo comercial como Batman – O retorno, eram bem – vindas e aguardadas com ansiedade   pelos proprietários da sala.  A expectativa dos fãs, sobretudo dos leitores de Gibi, também era enorme principalmente em relação aos produtos lançados com a marca  da franquia iniciada por Tim Burton  em 1989 com o filme Batman.

Naquele tempo filmes de heróis não eram uma unanimidade e não existiam,como hoje, as franquias da Marvel /DC nem o marketing digital via internet. Filmes do gênero eram uma produção ou outras sempre intituladas de “filmes de quadrinhos”.

Por essa razão antes da estreia da película nos cinemas a ordem era repetir o marketing massivo que deu certo no lançamento do primeiro filme em 1989, por isso alguns meses antes foi lançada a campanha promocional tendo como principal canal de divulgação os refrigerantes Pepsi – Cola.

O refrigerante estampava desenhos do filme nas tampilhas que reunidas em quantidade eram trocadas por brindes na distribuidora local. A distribuidora local do refrigerante na cidade ficava na AV. Presidente Getúlio Vargas no número 4690 , o endereço era bem conhecido.

Na recepção do comércio ,mediante a apresentação da quantidade correta de tampinhas, era feita a troca por copos e pôsteres com desenhos dos personagens do filme. Sem dinheiro para consumir refrigerantes na intensidade exigida pela promoção, algumas crianças formavam grupos de busca de tampinhas descartadas nos bares e trailers que circulavam a Praça da Prefeitura.

“Assim que juntava um determinada quantidade eu é um grupo formado por mais quatro colegas partiam em direção a antiga distribuidora Líder, mais conhecida como “Brahma”, para encarar uma fila gigantesca e trocar as tampinhas por pôsteres do filme”.

Revela José Cláudio, 35 anos, capixaba natural de Linhares , filho de madeireiro que migrou para baiana Teixeira de Freitas na década de 1980, que passou a infância no bairro Recanto do Lago até retornar para o estado natal em 2002.

Ele, como outras crianças do bairro, buscou e juntou tampinhas para trocar por brindes e teve a oportunidade de ir ao cinema conferir o lançamento do filme. Recorda dentre outras coisas que no dia da estreia no cine Brasil a fita atraiu uma multidão de fãs.

“Eu assisti  na matinê,  primeira sessão, só que o filme não agradou … Era muito artístico  para época, logo o movimento foi caindo….Naquele tempo apesar da popularidade dos quadrinhos filmes de heróis era coisa só para fãs do gênero ou leitores de revistinhas… Eu era fã por isso fui ao cinema com os meus amigos vizinhos leitores como eu .”

O filme estreou dia 3 de julho de 1992 com 145 cópias em 50 cidades no Brasil, mas é provável que não exatamente nessa data em Teixeira de Freitas. Na região as fitas chegavam tempos depois do lançamento nas capitais, informa o gerente do cinema Jovelino da Costa, mais conhecido como Figão.

Apesar de não haver dados e nem informações sobre o sucesso ou fracasso do filme na cidade é possível supor que, apesar da badalação no lançamento, a exibição não foi suficiente para impedir o fechamento do Cine Brasil no ano seguinte.

 

Fontes: 

ROCHA. Daniel; OLIVEIRA. Danilo. Cinema – Contribuições no Processo de Formação da Sociedade de Teixeira de Freitas nos anos de 1960, 1970 e 1980. UNEB – Campus X, 2010, Teixeira de Freitas-BA.

KOOPMANS. Padre José. Além do Eucalipto: O papel do Extremo Sul. 2005

Reforço na área de lazer. Revista Regional Sul. Ano I- Nº 02 . Abril de 1992. Teixeira de Freitas – BA

O maior vilão de Batman é Tim Burton. O estado de São Paulo. Caderno 2. 03 de julho de 1992.

Fonte Oral: Conversa informal com José Claudio Nossa. Junho de 2016.

Imagem: Superherois-br.com

Daniel Rocha

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Por Daniel Rocha

A rua Mauá, mais conhecida como “Rua do Brega” na região central de Teixeira de Freitas ainda é conhecida como um local de meretrício. Porém nos últimos anos o tráfico de drogas tem crescido e chamado a atenção da sociedade.

Quem afirma isso são três ex – frequentadores ao rememorar  no presente experiências vividas no lugar e as recentes manchetes dos portais de notícias da cidade.

Nas últimas décadas, 1970, 1980, 1990, apesar de estar localizada na parte central da cidade, às imediações da Rua Mauá era considerada um lugar periférico que concentrava um número elevado de boates, bares e casas de prostituição.

Os frequentadores eram trabalhadores da indústria da madeira, funcionários públicos recém-chegados ao povoado no período de grande migração. Homens solteiros, bem ou mal remunerados em busca de bebidas, droga, músicas e sexo livre.

Segundo o senhor Beto José do Carmo, 65 anos, natural da zona rural de Alcobaça, que migrou para o então povoado de Teixeira de Freitas em busca de emprego na década de 1970, a rua nunca foi um lugar seguro para os clientes.

O ponto de vista dele é o de quem teve um irmão assassinado por volta de 1975 em consequência de brigas iniciada em um estabelecimento do gênero, por isso atribui o acontecimento ao consumo de bebidas e ciúmes de uma trabalhadora do sexo.

“Deram uma facada no meu irmão pelas costas, ele era conhecido como fecha Brega. Depois de passar a noite no lugar ele havia parado em um Bar para tomar o café quando foi atacado e apunhalado por trás por um dos seus inimigos.”

Apesar da tragédia que abalou a família, Beto José  prefere recordar dos momentos de divertimento e prazer que viveu frequentando os bares da Mauá. Meio sério meio caçoando relata:

“No brega agente ia e dançava a noite toda, comprava 10 centavos de fichas e colocava no tocador e se acabava de calor… Ainda tinha as mulheres pra animar agente. “

Na perspectiva de Juares Pontual, 75 anos, mineiro de Juiz de Fora que chegou no dito povoado para trabalhar na construção do hospital SOBRASA na década de 1970, o lugar era de fato sinônimo de festas, brigas e mortes.

“Antigamente a Rua do Brega era como um clube o com muita gente tocando, havia um sanfoneiro vestido de lampião que tocava até amanhecer o dia. Brigas eram o que mais se via. Havia uma mulher conhecida como Maria Capixaba que tinha fama de ter matado três dos  seus clientes.”

Lendo essas narrativas para o senhor Pedro Lagos, 70 anos, natural de Salvador, que mudou-se para o povoado de Teixeira de Freitas no início de 1970, a fim de integrar a equipe de um órgão estadual, ouvi e registrei a seguinte construção.

“Era tudo isso e mais um pouco”, reforçou ele, “aquilo era um inferno com anjos, tinha muita briga por conta de mulher porque você só é dono enquanto estava lá, quando saia a mulher era de outro. O consumo e tráfico de drogas já existiam mais não do tamanho que existe hoje. Assassinato nem se fala.”

A conversa informal foi realizada na residência do senhor Pedro, mora a três quarteirões da rua, por isso ao ouvir o nome de Roberto Carlos quase de imediato ligou o aparelho de som com uma seleção de músicas conhecidas como saraivas e colocou a tocar.

“ Naquela época era o que se ouvia por lá…Roberto Carlos não era muito popular. Lembro que um policial que frequentava uma casa de prostitutas matou um homem por conta dessas desavenças, mas não lembro dos detalhes.”

A realidade descrita resiste, e hoje assim como nas décadas passadas, a rua e as adjacências permanece como local destinado a prostituição e a cada dia mais ao tráfico de drogas.

Ilegalidade que vem sendo apontado como a causas dos recentes casos de assassinatos e prisões registrados pela polícia e pela imprensa local. Pesquisando sobre as últimas notícias relacionadas a região selecionei dois casos de grande repercussão nos portais teixeirenses que evidencia a rotina da polícia na rua.

A primeira reportagem escolhida a título de ilustração ocorreu no dia 23 de outubro de 2012 em um prolongamento da rua Mauá quando, segundo portal Sul Bahia News, dois moradores das proximidades foram executados em um posto de gasolina do local.

Informações preliminares ligaram o crime a prostituição e ao intenso tráfico de drogas existente no lugar que “concentrava de oito a 12 estabelecimentos funcionando como pontos de prostituição e tráfico”. Segundo estimativas da polícia.

O segundo caso, diz respeito à prisão de duas “garotas de programa” A. P. M. S.  Eunapolitana de 27 anos e I. M. ilheense de 24 anos. Ambas se declararam lésbicas, companheiras e viciadas. A abordagem policial que gerou a ocorrência foi registrada no dia cinco de julho de 2016 na região da sinistra rua que hoje parece tomada pelo comércio ilegal e clandestino de drogas.

Informou o site de notícia Liberdade News que as duas foram autuadas traficando no fundo de um Bar na  Mauá. As manchetes trazem à tona que a violência e a prostituição ainda são práticas que vigoram na rua Mauá. Ainda hoje visto como  um lugar periférico em pleno centro da cidade.

Fontes

Beto José do Carmo* . Conversa informal realizada em 2009.

Juares Pontual* . Conversa informal realizada em 2014

Pedro Lagos.* Conversa informal realizada em 2016

*Nomes trocados a pedido dos entrevistados

Autores de duplo homicídio na Mauá escapam durante perseguição. Sulbahianews/Uinderlei Guimarães. 24/10/2012 . Disponível em: sulbahia/noticias.

Garotas de programa são presas pela PM com drogas na Rua Mauá em Teixeira. Petrina Nunes. 06 /07/2016. Disponível em: LiberdadeNews

Foto: Imagem meramente ilustrativa. Fonte : Google Imagens.

Daniel Rocha

Historiador, Bacharel em Serviço Social, Pós-Graduado em Educação à Distância (EAD), Cinéfilo e blogueiro criador do blog Tirabanha em 2010.

E-mail: tirabanha@tirabanha.com.br

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Memória Estudantil

 

Relatos sobre os anos 80 em Teixeira de Freitas: A Malhação do Judas

Por Daniel Rocha*

No Brasil, há o sábado entre a semana santa e o domingo de páscoa que na tradição católica é chamado de sábado de aleluia. Dia de lembrar a ressurreição de Jesus e a traição cometida pelo seu discípulo, Judas Iscariotes. Momento, segundo a tradição, para queimar o traidor dos ensinamentos de Cristo representado por um boneco confeccionado por moradores de uma comunidade ou de uma rua específica.

Em Teixeira de Freitas no presente alguns moradores relataram a realização desta brincadeira tradicional em alguns locais da cidade  durante as décadas de 1960, 1970 e 1980. No decorrer desses anos a encenação foi editada de diferentes maneiras em alguns bairros da cidade como; Wilson Brito, Teixeirinha e Vila Vargas.

Por exemplo recorda Maria de Fátima Leite, 55 anos, natural de Águas Formosas, MG, que chegou para morar no povoado no ano de 1969 quando o pai ,funcionário do DERBA, foi transferido de Salvador para o povoado de Teixeira de Freitas com a família, que no bairro Wilson Brito, nas proximidades da Avenida Castelo Branco, um antigo morador conhecido como Paulo realizava na madrugada do sábado de aleluia a queima do traidor representado por um boneco.

Ainda de acordo com a moradora o boneco do ritual realizado pelo morador nada mais era que uma estrutura de madeira ,tipo cruz, vestido com uma mortalha preenchida com pólvora e palha que tinha uma aparência de um espantalho. Destaca que tudo partia da iniciativa do morador que não contava com ajuda de ninguém da comunidade que comparecia em peso na apresentação durante a noite.

Ainda de acordo o recordo da ilustre moradora a “malhação do boneco” começava às três horas da manhã, com a queima da imagem aos gritos e vaias de uma multidão formada por crianças e adultos que o apedrejava “sem dó e nem piedade.”

Cabe lembrar que a construção narrativa da moradora Maria de Fátima, está inserido na década de 1960, período onde não havia energia elétrica no povoado de Teixeira de Freitas, o que me leva a supor que a escuridão acrescentava ao evento da queima um efeito desejado para o ritual. Ainda de acordo a percepção da moradora, a encenação era realizada em parte por moradores recém saído do campo conservadores de costumes e hábitos rurais.

“Eu não participava porque eu era muito novinha, meu pai não deixava ir para o meio da meninada na rua. Antes de ser queimado o boneco era arrastado pelo bairro puxado por um jegue e por vezes era deixado na porta de um morador ao som de rimas e cantigas que faziam referência ao dono da casa …. Diziam assim …Esse judas não come farinha vai pra casa de seu Farias.”

Diz Ricardina Maria,54 anos, natural da zona rural de Nova Viçosa, que chegou para morar no povoado com sete anos de idade com o pai Ricardino José dos Santos, que orava nas proximidades do antigo campo de futebol do bairro Teixeirinha, onde hoje fica o ginásio de esportes, contando como era feita a malhação.

Detalha que o boneco era confeccionado nos moldes do bairro Wilson Brito e a queima era muito festejada por moradores nativos e migrantes chegados de toda parte para trabalhar ou morar no povoado.

Já o  capixaba, Elcilande Ferreira, natural da cidade de Pinheiros ES, que chegou com a família em 1978 em busca de trabalho, conta ter participado da organização da queima dos judas no final da década de 1980 no bairro Vila Vargas.

Recorda que no bairro a queima era realizada na Rua Aurelino J. de Oliveira e o ritual começava dois dias antes com a busca entre os vizinhos de doações de roupas velhas para confeccionar o boneco. No dia da malhação o judas, preenchido com roupas e jornais, era colocado em uma carroça onde era puxado e lixado pelas ruas do bairro enquanto a sentença era anunciada como o  um último ato da semana santa.

No entanto a encenação ,apesar de fazer parte dos ritos da semana Santa não era, naquele bairro, compreendido como um ritual religioso e sim como um costume, uma brincadeira. A afirmação foi feita em resposta ao questionamento; Na sua opinião era ou não um ritual ritual orientado pela igreja?.

Além disso informa que a queima era realizada no período da tarde pouco antes do anoitecer, com presença de grande público. Ainda de acordo Elcilandi Ferreira, não havia outra queima na Vila Vargas, sabe por ouvir dizer de um no bairro vizinho, o São Lourenço.

Talvez a queima que “ouviu dizer” se refere a malhação realizada com entusiasmo na rua da feira, no bairro São Lourenço, testemunhada em algumas ocasiões por Flaviana Santos na segunda metade da década de 1980.

Sobre o boneco Flaviana recorda que antes de ser queimado pela manhã ele era confeccionado pelos residentes com roupa e sapatos “de gente” doados por moradores da referida rua. Que depois de pronto era a figura era posto em um pau , estilo poste de madeira, no meio da rua para ser admirado e zombado pelos passantes que buscavam saber o horário do castigo.

No dia seguinte, pela manhã, o ritual começava com o apedrejamento, agressões. O boneco era chutado por homens e meninos antes da condenação final, o fogo o consumia em poucos minutos. A encenação era muito violenta e segundo Flaviana; “Aterrorizava muito as crianças menores porque o boneco tinha uma fisionomia muito próxima à humana”.

Ainda de acordo a testemunha, é provável que a queima deixou de ser realizada na década de 1990, período pós emancipação da cidade, quando o boneco passou, como em outras cidades, ser associado a  políticos.

Apesar de não me aprofundar no contexto em minha concepção preliminar pressuponho que a manifestação cumpria bem seu objetivo de recordar a ressurreição de Jesus e a traição cometida pelo seu discípulo Judas Iscariotes, além de reforçar  mensagens sobre os valores e costumes do local. Mensagem facilmente assimilada pela comunidade que não encontrava dificuldade em modificar o rito ,sem abandonar os elementos simbólicos, de acordo a necessidade prática.

Referência Bibliográfica

HOBSBAWM, Eric. “Introdução” In: HOBSBAWM, Eric. RANGER, Terence. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984, p. 9-23.

Fontes Orais

Conversa informal com

Flaviana Santos               Dezembro de 2015

Elcilandi Ferreira .          Dezembro  de 2015

Maria de Fátima Leite   Maio de 2016

Ricardina Maria.             Maio de 2016

Veja também:

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O comércio de Teixeira de Freitas

História da Expo Agropecuária de Teixeira de Freitas

O causo do Boitatá

História do Cine Brasil

O causo do nó da mortalha

Emancipação: História e memória

 

Daniel Rocha

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Relatos sobre os anos 80 em Teixeira de Freitas: O reisado de Dona Boló

Por (Daniel Rocha)

 

O Reisado ou Folia dos Reis é uma tradição católica que consiste em um grupo de cantores e instrumentistas fantasiados que prestam homenagem aos três Reis Magos e ao menino Jesus. No Brasil apresenta-se sob diversos aspectos.

Em Teixeira de Freitas a tradição e anterior a formação do povoado  na década de 1950. No presente a não realização está associada às mudanças de comportamento  ocorridas nas últimas décadas na cidade e no país.

No bairro Bela Vista, ao que tudo indica, a tradição foi mantida por algum tempo,1978-1983, pela moradora Maria da Ressurreição Manuel natural da comunidade rural  Serrinha onde nasceu no ano de 1940.

A serrinha é uma comunidade rural formada inicialmente por famílias negras localizada às margens da BA-290, próxima à entrada do aeroporto 9 maio. Até a década de 1980 a comunidade pertencia ao município de Alcobaça, no presente faz parte do município de Teixeira de Freitas.

Filha de Maria José da Conceição e “pai aventureiro” Maria da Conceição,(foto 02) que é mais conhecida pelos moradores do bairro Bela Vista como Dona Boló  narrou , durante uma conversa informal no ano de 2014, o seu envolvimento no reisado.

Conta que se interessou pela tradição porque cresceu encantada pelas apresentações de reisados realizados naquela comunidade por uma mulher conhecida como Tia Joana.

Quando já estava “crescida” passou a fazer parte da turma e assumiu o cargo de pastora. Tempos depois assumiu o cargo de mestre cujo a função era organizar e puxar o grupo entoando cânticos.

Após alguns anos sem participar, período de casamentos e filhos, mudou-se para o povoado de Teixeira de Freitas no ano de 1978, onde enfim, com a ajuda dos amigos das antigas Turbidez (foto 03) , Caboclo e Bituca, formou um grupo de reisado aos moldes da Serrinha.

O grupo era formado por doze pessoas, homens e mulheres, divididas em dois cordões, filas, com três pastoras e dois marujos cuidadosamente fantasiados além de um guia.

Segundo Isidro Nascimento que recebeu o grupo em sua casa em algumas ocasiões,  no grupo também havia o Boi iaiá (foto 01) que também acompanhava o grupo . “Tinha como função assustar  crianças desobedientes.”

O Reis começava em 06 de janeiro e terminava em três de fevereiro sempre animados com instrumentos como o pandeiro. O grupo saía por volta das 19h cantando pelas ruas do bairro em duas filas separadas, seis marujos de cada lado e cinco pastoras guiados pelo capitão responsável pelo estandarte.

No início a atuação do grupo ficou restrita ao bairro Bela Vista mas diante de diversos pedidos o grupo passou a visitar outros moradores de bairros próximos.

“A gente ia onde era convidado, por isso fizemos várias ruas do bairro, chegamos ir ao Jerusalém e Recanto do Lago na casa de Isidro, a gente passava nas casas brincando até meia-noite… Tinha xote, manjuba, apito e a coreografia dos marujos.”

Sobre a origem do costume na Serrinha Boló recorda que a tradição chegou trazida pelos negros Dona Júlia e Turbides da fazenda Jerusalém, hoje onde o bairro de mesmo nome.

“Foi trazida pelos antigos… naquela época faziam por promessa mas eu sempre fiz por divertimento”.

Apesar da alegria ao recordar o passado uma frustração machuca o coração de Dona Boló, com a saída de Turbidez por problemas de saúde ela não conseguiu terminar o que havia começado.

Isso porque a tradição pede que quem começar um reisado o realize por seis vezes para então passar a outro grupo.

“Faltou apenas uma…Tenho vontade de juntar um grupo para terminar o Reisado que comecei, mas tenho medo da criminalidade e dos malandros. A violência de hoje me assusta, não dar para fazer em lugar fechado tem que ser na rua e elas estão bem movimentadas”.

As recordações da senhora Boló revelam em pequena escala que a população rural ao migrar para zona urbana do povoado ,ainda  que por um tempo, manteve como referências as tradições coletivas da vida no campo. Referências que aos poucos foi sendo reprimida sobre a pressão do espaço delimitado das cidades  e um estilo de vida pautada no individualismo.

Fontes:

Conversa informal com Maria da Ressurreição Manuel 2014.

conversa informal com Isidro Nascimento 2014.

Colaborou com a pesquisa: Domingos Cajueiro Correia

 

Veja também:

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Filmes que marcaram época em Teixeira de Freitas: Titanic

Por (Daniel Rocha)
Depois de cinco anos sem uma sala de cinema na cidade, os moradores de Teixeira de Freitas voltaram a desfrutar da magia da sétima arte com a inauguração do Cine Teixeira no Shopping Teixeira Mall em dezembro de 1996

Porém mesmo com o sucesso das primeiras exibições o cinema não se popularizou nos primeiros anos de funcionamento. Acredita-se que pelo fato de estar localizado em um Shopping, na época um espaço elitizado, a grande massa acostumadas aos cinemas de ruas evitava o espaço.

Estranhamento que ao que parece chegou ao fim com a estreia do filme Titanic no segundo semestre de 1998. Produzido e dirigido pelo canadense James Cameron o filme bateu recordes de arrecadação no país e na cidade, sendo, ainda hoje, um dos mais assistidos da história do Cine Teixeira.

O filme conta a história de um romance entre dois jovens (Leonardo DiCaprio e Kate Winslet) em meio a fatídica viagem do transatlântico em 1912.  Vencedor de 12 Oscars, o filme estreou em janeiro de 1998 no Brasil, e conseguiu o feito de ficar quase um ano em cartaz nas principais salas de cinema das capitais.

Por conta desse sucesso estrondoso o filme demorou a chegar nos cinemas do interior, como o de Teixeira de Freitas, cujo a população aguardava ansiosamente para ver a produção que já era muito comentada pela mídia escrita e televisiva e também nas pregações religiosas.

Na cidade além da venda de todo tipo de produto ligado ao filme algumas religiões protestantes, com base na frase dita pelo capitão do navio ” Nem Deus afunda o Titanic”, distribuíram pequenas filipetas com foto impressa do navio com os dizeres:

“NÃO SE ZOMBA DE DEUS! Na Bíblia está escrito: “Não vos enganeis, de Deus não se zomba, pois tudo o que o homem semear, isto também ceifará”. (Gálatas 6:7)

Quando o filme estreou no cine Teixeira filas quilométricas eram vistas defronte ao cinema até a entrada no shopping. Durante a exibição era possível ouvir os suspiros e chiados das meninas apaixonadas pelo Jack, vivido por Leonardo Dicaprio, o astro daquele momento.

Segundo José Raimundo Santana Fontes o “Raimundinho”,  ex – gerente do cinema, devido à procura o Cine Teixeira teve que disponibilizar diversos horários para exibição, principalmente pela manhã, coisa que raramente acontecia. O filme ficou 04 meses em cartaz, um recorde que ainda não foi quebrado, e atraiu mais de 16 mil pessoas sendo  no presente o filme a ser batido.

Ainda de acordo com Raimundinho, apesar  da grande procura pela produção,  o filme não gerou o esperado lucro , porque na época o ingresso vendido no cinema  era muito barato, tanto que anos  depois, em 2002, foi considerado pelo jornal A tarde, o mais barato do Brasil.

Mas porque esse filme fez tanto sucesso no país e na cidade? Difícil entender?  Na ocasião da exibição do filme  na TV em 2014 o crítico de cinema Ignácio Araujo escreveu:

“É fantástico o que ocorre com o filme de James Cameron. Foi feito em 1997. Trata, de certo modo, da arrogância do homem, da crença de que pode criar “o indestrutível “. O mundo , em 1997, vivia em euforia. Mais ou menos como na época do naufrágio. Porque, então, multidões acorreram para ver essa história? talvez porque pudéssemos adivinhar que depois da bonança vem a tempestade. Ela viria, na forma de crise gigantesca, em 2008”.

Fontes:
ARAUJO. Ignácio. Historia de amor de “Titanic” é  uma desgraça, como o naufrágio. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/04/1440484-critica-historia-de-amor-de-titanic-e-uma-desgraca-como-o-naufragio.shtml . Acessado em Agosto  de 2015.
Conversa informal com José Raimundo Santana Fontes o ” Raimundinho”. Agosto de 2015.
Vejam também:

Vejo vocês em breve

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Em 2016 o Tirabanha vai continuar a crescer tanto quanto possível esperamos. Vamos dar uma pequena pausa e voltamos em forma no dia 01 de janeiro de 2016.

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