Por Daniel Rocha e Domingos Cajueiro Correia

Teixeira de Freitas, Bahia, década de 1930, o espaço onde hoje se encontram casas e prédios comerciais era ocupado com plantações e fazendas existentes que, embora separadas pela distância, eram unidas pela cultura e rituais de fé, casamento, nascimento e de morte. 

Tal como no nascimento, a morte de um morador da localidade era carregada de rituais e cuidados. Segundo conta Valfrido de Freitas Correia (97 anos), que nasceu e foi criado na Fazenda Nova América, quando chegava a notícia de que alguém das fazendas próximas tinha morrido os moradores vizinhos se deslocavam para o local para poder prestar as primeiras assistências a família, fazer o caixão e cuidar dos detalhes do velório. 

Ainda conforme relatou Valfrido de Freitas Correia, ao memorialista e colaborador do site Domingos Cajueiro Correia, dentre todos os moradores que tem lembrança dois em especial tinham habilidades para essas coisas de morte, “o negro Bernardo filho de Mônica”, e a irmã dele, “Luíza de Mônica”, moradores da Fazenda Alagoinha, que ficava onde hoje é o Supermercado Rondelli do bairro Monte Castelo”. 

De acordo com ele, os irmãos eram de morte, especialistas na arte de preparar o defunto e executar os rituais utilizados na época.  Bernardo guiava os outros trabalhadores e fazia o caixão e Luiza ficava à frente dos preparos das comidas, bebidas e da costura da mortalha. 

“Quando dava a noite, saiam com um facho de Biriba ou de palha de coqueiro iluminando a trilha para ir para o velório. Quando chegava lá, desmanchava a porta, metia o facão fazia o caixão e ia comprar pano preto lá na venda da Fazenda Cascata para forrar o caixão, o pano branco forrava por dentro e o preto por fora, metia o bambu para carregar o caixão na hora do enterro”, detalhou o antigo morador.

Depois de tomadas essas primeiras providências, os irmãos também organizavam e entoavam as canções tradicionais, benditos e excelências, que faziam alusão a passagem da vida para morte, como a canção Imagina Pecador, que recomendava aos mortos e vivos: “Magina pecador“. Imagina quanto tempo. Quando a morte vem… Mata deeerepente.”

Segundo o historiador João José Reis, no livro “A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX,” no século XIX o velório era o principal momento da cerimônia fúnebre, porque enquanto o corpo era velado, a alma do defunto era encomendada aos céus através de orações cantadas ou recitadas, mais conhecidas por “sentinelas”.

Ritos que, de acordo com as lembranças do antigo morador, nesta parte do extremo sul da Bahia, perduraram, tal como descrito, até meados da década de 1950 do século XX, com algumas variações e diferenças, como a recitação dos “benditos” que eram entoados antes e depois dos sepultamentos.

Em forma de causo contou também o senhor  Valfrido de Freitas Correia que, apesar de ter aberto o caminho do outro mundo através de orações e benditos musicais, um fato triste marcou a trajetória do “Bernardo de Mônica”, o nobre das sentinelas.  Ele foi  um defunto sem choro, enterrado sem exéquias.

“Só quatro pessoas compareceram no velório dele que foi realizado na Fazenda Sergipina, pertencente a dona Cecília Simão, próximo ao Rio Itanhém, pra lá da fazenda Japira, de Vovô Guilherme e da Fazenda Aurora. Na Sergipina Bernardo foi sepultado e esquecido junto aqueles que homenageou em morte,” frisou. 

Fontes:

 A Morte e uma FestaRitos Fúnebres e Revolta Popular no Brasil do Século XIX – João Jose Reis.

Conversa informal com Valfrido de Freitas Correia

Conversa informal com Jair de Freitas Correia

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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