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Teixeira de Freitas 34 anos: frases sobre a cidade I

Em comemoração aos trinta 34 anos de emancipação de Teixeira de Freitas o site tirabanha preparou uma seleção especial com  algumas frases ditas por pessoas, conhecidas ou não, que revelam o cotidiano, as transformações e a admiração de moradores, autoridades e artistas pela cidade. Você confere aqui em primeira mão.

“O humilde povoado formado inicialmente por famílias negras, conhecido às vezes pelo nome de Mandiocal ou Comércio dos Pretos, não apresentava perspectiva de crescer.”


Jeová Franklin de Queiroz, justificando a ausência do povoado de Teixeira de Freitas na lista elaborada pela enciclopédia dos municípios de 1958 editada pelo IBGE, 1985.

“Hoje estou feliz, encontrando uma população de 30.000 habitantes…Aqui, prometo, colocarei a luz de Paulo Afonso!” 


Governador Antônio Carlos Magalhães na segunda visita ao povoado de Teixeira de Freitas. Ano de 1974.

“Vou logo perguntar a quem me contratou quando ele vai me trazer de volta, porque não dá pra ficar muito tempo sem ver vocês.”


 Ivete Sangalo durante show realizado  no parque de exposição de Teixeira de Freitas em 2012.

“Estou visitando aqui, pela primeira vez, e achei a cidade linda. Estamos em reunião de patriotas e falaremos de costumes, desenvolvimento, cultura, esporte. Estamos unidos, não só de sangue, como culturalmente. Nosso intercâmbio é de coração, de amor e fraternidade.”


Toshio Watanabe, Cônsul Geral do Japão, em visita especial à colônia japonesa da cidade no ano de 2009.


“Esse é um projeto inovador que vai beneficiar todo o extremo sul. É um templo de cidadania e dignidade para nossa juventude.”

Governador Jaques Wagner (PT) após assinar o termo de cooperação técnica que possibilitou a implantação na cidade da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB)


“Hoje eu tenho um filho de leite que é rico e não vem mais me visitar, dei leite para ele porque a mãe estava com o peito seco e mandou me buscar. Eu não cobrava porque leite de peito não pode vender, tem que dar, dei durante uma semana, a mãe foi botando no peito até poder dar.”

Vitória lemos, 80 anos, foi ama de leite durante a década de 1970 em Teixeira de Freitas falando sobre o ofício.

“Quero agradecer ao prefeito deste município pela estrutura do hospital, pelos recursos, que apesar de ser uma cidade pequena, dispõe de uma aparelhagem excelente, e há equipe médica que atenderam as vítimas e deram o melhor de si por eles.”

Coronel do Exercito Brasileiro, Heitor Leite, na solenidade de agradecimento ao prefeito municipal Padre Aparecido Rodrigues, em virtude do atendimento aos alunos da Escola de Formação Complementar do Exército Brasileiro (EsFCEx), após o acidente com o ônibus que transportava os alunos da escola, na BR-101 em 2011.

“Quem iria imaginar que Teixeira de Freitas crescesse tanto? Quando chequei aqui era tudo mata em roda. As onças faziam tocaia. Chegamos a matar surucucu no meio da rua, aqui na praça, onde está o jardim.” 

Pedro Guerra, em entrevista a publicação do Banco do Nordeste, 1985.

Veio Manoel de Telvina e botou um boteco entre onde hoje é a padaria Shirley e a Casa Moberck e ficou ali vendendo sua cachacinha. O povo foi fazendo casinha dum lado e de outro”.

Sr. Servídio do Nascimento Correia em entrevista a revista Regional Sul em 1992.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. Latees.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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Ofícios dos trabalhadores e trabalhadoras na história de Teixeira de Freitas I

Por Daniel Rocha e Domingos Cajueiro Correia

Ao longo destes trinta e quatro anos de emancipação, em paralelo aos “fatos históricos” e “tradicionais narrativas” de “fundação e de grandes feitos”, os trabalhadores exercerão suas funções e mantiveram o funcionamento mecânico da sociedade teixeirense, por hora de forma discreta, por hora com grande destaque, fortalecendo a dinâmica e o comércio local que é a base da nossa economia. Hoje, apresentamos alguns desses para vocês.

01 – FAZEDOR DE CORDAS.  Quando Teixeira de Freitas ainda fazia parte do interior dos municípios de Caravelas e Alcobaça, antes do surgimento do primeiro núcleo que deu origem ao povoado, alguns moradores das comunidades rurais próximas trabalhavam como “cordeiros”.

O trabalho do “cordeiro” consistia em retirar e cortar a Guaxima, planta nativa da região, colocar em um cocho de água até pubar para retirar as amarras que eram reunidas em fardos para serem vendidas e exportados para cidades como Salvador e Recife , pela empresa Baiana de Navegação, e para a cidade Mineira de Teófilo Otoni ,pela estrada de ferro Bahia e Minas. Dentre os diversos prestadores deste serviço destacamos o trabalho do Sr. Servídio Nascimento Correia, extrativista, e do comprador e exportador Pedro Muniz.

02 – EXPORTADOR DE COURO. Tal como o “cordeiro” o exportador de couro ,que também era conhecido como exportador de peles, 1940 e 1960, exportava sua produção para os grandes centros comerciais da época através da Estrada de Ferro Bahia e Minas (EFBM). Dentre os que exerciam essa função destacamos o nome de Alírio, cujo sobrenome não foi identificado, que comprava em nossa região, entre 1950 e 1960, couro tratado de Gato-do-mato (Jaguatirica), Onça, Lontra e Veado. Os maiores compradores ficavam na cidade de Nanuque (MG) e Teófilo Otoni (MG) e na baiana Caravelas.

03 – ARMEIRO. Profissional que reparava, modificava, projetava e fabricava armas artesanais. Nas décadas de 1950 e 1960, no povoado de Teixeira de Freitas, o negro Duca Ferreira exercia o ofício. Por isso era muito procurado nas redondezas do povoado de Teixeira de Freitas para reparos em espingardas, faca, ferro de gado. Outro que também era conhecido pelos serviços era o ferreiro senhor Vespasiano do qual não obtivemos maiores informações.

04 – CARPINTEIRO.  Nas décadas de 1930,1940 e 1950 um dos carpinteiros mais solicitado da região pelas fazendas próximas, como Cascata e Nova América, se chamava Manoel de Adelaide da fazenda “Bomtequando.”  O carpinteiro além de atender chamados e encomendas também formava meninos entregues a seu cuidado para trabalhar e aprender o ofício. Seus discípulos, Baduca, Pedro Ratinho, Pedro Lopes, José Thomaz, também são lembrados pelos bons serviços prestados e destaque na profissão. O carpinteiro Manuel de Adelaide era considerado o “Aleijadinho” da região, algumas de suas obras podem ser vistas no sítio histórico da fazenda Cascata.

05 – PARTEIRAS. Antes da atuação dos primeiros médicos e a abertura dos primeiros hospitais em Teixeira de Freitas na década de 1970, havia outras formas de parir e nascer, nessa realidade as mulheres gestantes recorriam às parteiras existentes em toda parte da cidade e do município, das quais registramos o fazer de Dona Benedita e Dona Francisca que atuou nas comunidades rurais da década de 1940, Dona Antônia Carlota e Dona Adalgisa na década de 1950. Maria de Lourdes cajueiro e Ana de Torquato nas décadas de 1960 e 1970, dentre outras tantas que exerciam o ofício sem cobrar um centavo.

Continua nas próximas postagens.

Daniel Rocha da Silva*

Daniel Rocha da Silva* Historiador graduado e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

Domingos Cajueiro Correira é memorialista e colaborador do site.

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Crédito das Fotos: Foto Fazenda Cascata 1996. Acervo Pessoal.

O extremo sul da Bahia e o Dia internacional dos Trabalhadores de 1988

Por Daniel Rocha

No Brasil, o 1º de maio é o “Dia internacional dos Trabalhadores e trabalhadoras”. Dia de celebrar vitórias e conquistas favoráveis aos trabalhadores do campo e da cidade. Em 1988 trabalhadores do extremo – sul da Bahia, por exemplo, aproveitou a data para manifestar e exigir uma sociedade mais justa, igualitária e cidadã.

No dia 1º de maio de 1988, nos municípios de Teixeira de Freitas, Itanhém, Itamaraju  , Eunápolis e Guaratinga manifestações populares tomaram as ruas e praças dessas cidades dando voz aos trabalhadores indignados e oprimidos pela miséria, remuneração ruim e política econômica desfavorável a geração de empregos, seguridade social e aos mais pobres.

As manifestações, nos diversos municípios, concretizaram-se de várias formas, ora através de passeatas, atos públicos, encenações teatrais, música, palavras de ordem e discursos proferidos por lideranças de várias entidades sindicais presentes nos atos.

Durante as manifestações os trabalhadores lançaram mão de toda a sua criatividade e organização para mostrar o repúdio dos trabalhadores a incompetência do então presidente José Sarney (PSDB) com os trabalhadores e trabalhadoras da região e do país.

“Nas ruas e praças públicas, todo o seu repúdio à incompetência e desinteresse do governo da ” Nova República” para com a classe trabalhadora. Mostraram, também, todo o anseio desta mesma classe em poder governar melhor este país e tirá-lo da miséria em que ele se encontra”, destacou o Jornal do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

As manifestações reuniu no mesmo lugar trabalhadores do movimento Sem Terra, Bancários, professores, estudantes, comerciários, eletricitários, Movimento de Mulheres, representantes do centro de Defesa dos Direitos Humanos, Comissão de Justiça e Paz, Central Única dos trabalhadores ,CUT, e  partidos de esquerda, PT e PSB, pessoas do campo e a cidade.

Com reivindicações diversas o trabalhador ao sair às ruas não estava apenas manifestando contra a política do governo, mas também se organizando para lutar por uma constituição de fato cidadã, que estava sendo elaborada pela Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988, instalada no Congresso Nacional, em Brasília, com a finalidade de elaborar uma Constituição democrática para o Brasil.

Tal qual que os temas relacionados aos direitos, melhoria dos salários das trabalhadoras, aposentadoria e saúde, moradia e o protagonismo das mulheres nos sindicatos, dentre outros, foram debatidos no 1º encontro de Trabalhadores Rurais do município de Teixeira de Freitas, realizado 14 dias depois das manifestações, 15 de maio, com a presença de 53 mulheres de todas as delegacias sindicais rurais do município.

A nova constituição da República Federativa do Brasil, foi aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte em 22 de setembro de 1988 e promulgada em 5 de outubro de 1988 e ficou conhecida como “Constituição Cidadã” e não apenas restaurou a democracia interrompida pelo golpe Militar de 1964, como também garantiu que alguns direitos sociais relegados a poucos fossem socializados.

Com a nova Constituição segmentos da sociedade historicamente ignorados como; os negros, indígenas, pessoas com deficiências, idosos, mulheres, adolescentes, crianças e trabalhadores comuns, passaram a ser alcançados por programas sociais e leis específicas de proteção, alguns já perdidos com a “reforma” trabalhista de 2017, outros seguem ameaçados pela proposta de reforma da previdência de 2019.

Fontes:

Baianos vão às ruas. Jornal dos Sem Terra, nº 73. Maio de 1988.

Organizar para luta. Jornal dos Sem Terra, nº 73. Maio de 1988.

. 12 Pontos em que o trabalhador foi prejudicado pela reforma trabalhista.Jefferson Ricardo de Brito. – Veja mais em: https://direito24hs.jusbrasil.com.br/artigos/490163939/12-pontos-em-que-o-trabalhador-foi-prejudicado-pela-reforma-trabalhista

Nova Previdência dificulta acesso e pode aumentar pobreza, diz economista… – Veja mais em https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2019/02/21/especialistas-avaliam-reforma-previdencia.htm?cmpid=copiaecola

Reforma da Previdência de Bolsonaro prejudica mais as mulheres, diz Dieese… – Veja mais em https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2019/03/08/dieese-reforma-da-previdencia-mulheres.htm?cmpid=copiaecola

BATISTUTE, Jossan. Direito e Legislação Social. PARANÁ. Londrina: editora Unopar, 2009.

Foto. Manifestação de lavradores em Itamaraju.  Abril de 1988. Jornal dos Sem Terra, nº 83. Maio de 1989.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. Latees.

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Teixeira de Freitas 34 anos: fatos incomuns

Por Daniel Rocha

Já pensou: em um hospital funcionando em um mercado municipal? Aulas ministradas em um cinema? Pegar o CEP do povoado vizinho emprestado? Essas foram uma das soluções encontrada pelos teixeirenses da década de 1970 para superar algumas dificuldades estruturais de um passado nada comum.

Por exemplo, no  início da década de 1970 quando a prefeitura de Alcobaça transferiu os feirantes e a feira que era realizada aos domingos na Praça dos Leões para um pequeno Mercado Municipal construído na Praça da Bíblia pela administração alcobacense.

No lugar os feirantes incomodados com a localização e as taxas  cobradas optaram por ocupar a área onde hoje fica o Mercado municipal, mais conhecido como “Mercadão” e no mercado abandonado na praça da Bíblia ,de forma atípica, foi improvisado um hospital que atendeu durante sete meses até que as obras do SOBRASA, não público, fossem concluídas.

Outro fato excepcional foi o início das atividades de uma das primeiras escolas da cidade, o CEPROG. Fundada pela sociedade teixeirense e pelo Bispo D. Filipe “a Escola Cruzeiro do Sul,” batizada politicamente de Escola Estadual Professor Rômulo Galvão, foi inaugurada oficialmente em 01/03/1973.

Ocorre que enquanto a escola era erguida as primeiras aulas do ano letivo foram realizadas no “Cine Elizabeth” de Militão Guerra. O local que serviu de escola por um período  além de exibição de filmes era também o salão de festas do então povoado, na época dividido entre dois municípios, Caravelas e Alcobaça.

Essa divisão oficial trazia alguns desafios e transtornos  para os moradores, como o fato de haver coleta de lixo em um lado e no outro não é a existência de apenas um código postal para ambos.

Contudo essa divisão oficial não funcionava na prática, informação do Guia postal brasileiro de CEP de 1979, dos Correios, permite deduzir que o povoado de Teixeira de Freitas embora dividido compartilhava o mesmo CEP (45990) que era também o da cidade de Alcobaça, ou seja, em Teixeira no território caravelenses usavam o do vizinho. Isso mostra que os habitantes interagiam como um só povo.

Os fatos incomuns apresentados revelam algumas ausências e ações do estado na década de 1970 e o modo como a sociedade e as instituições se organizou para atender suas necessidades e burlar  a falta do poder público local. Convém dizer que essas “ausências” e “providências” também fizeram emergir “lideranças políticas” que extraíram das situações, possibilidades, posições políticas e poder… Fato nada incomum nos dias atuais.

Fontes:

GUERRA, Jaison C. Pereira; SILVA. Leonardo Santos. O processo de emancipação política de Teixeira de Freitas (1972-1985). UNEB 2010.

HOOIJ, Frei EliasOs desbravadores do Extremo sul da Bahia. História da presença franciscana nessa região – raízes e frutos

Guia postal brasileiro de CEP de 1979, Correios Brasileiro.

Foto: Praça dos Leões década 1980. Whatzaap

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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O Bispo líder contra a Ditadura Militar em Teixeira de Freitas

Por Daniel Rocha*

Obviamente destacar apenas acertos de uma pessoa nos aproxima do idealismo, mas quando esses acertos estão relacionados com um combate social falamos não apenas de um homem, mas também da luta de uma classe.

Dom Filipe Tiago Broers, Bispo de Caravelas, entre os anos de 1962 a 1983, e sua militância em favor dos mais fracos é um exemplo disso que estamos falando. Sua atitude e postura diante dos confrontos e disputas de terra no Extremo Sul da Bahia entre as décadas de 1970 e 1980 é uma mostra de um justo posicionamento.

No período final da Ditadura Militar no Brasil, 1979 – 1985, que em sua totalidade abarcou os anos de 1964 – 1985, a Igreja Católica no Extremo Sul da Bahia se posicionou em favor dos pequenos proprietários de terras e posseiros ante a truculência dos grileiros e agentes do Estado denunciando aos jornais e através do Informativo/Boletim diocesano a repressão ocorrida em Teixeira de Freitas e região.

Como a denúncia da prisão de 37 lavradores na cadeia do povoado de Itabatã em decorrência da disputa pela terra no Córrego das Ostras em Mucuri e a invasão da residência dos padres em Teixeira de Freitas em 1980.

Os fatos relacionados acima foram pesquisados pelos historiadores, Liliane Maria Fernandes Cordeiro Gomes, Leonardo do Amaral Alves e Leonardo Dantas D’icarahy e mostram que o posicionamento da igreja e do bispo está relacionado às intenções do governo militar e baiano em promover a expansão agrícola da região de forma predatória e violenta.

Na dissertação Experiências forjadas a ferro e fogo: religiosidade, organicidade e luta pela terra no Extremo Sul da Bahia no contexto da Ditadura Civil-Militar (1978-1985),o historiador Leonardo Amaral observa que essa expansão buscava atender a ampliação das fronteiras agrícolas, viabilizar os empreendimentos agroindustriais e empresas que combinavam capital público e privado através da prática da grilagem, de uso excessivo da força contra os posseiros e pequenos proprietários.

Como já dito, pelos motivos citados o bispo, através da Diocese de Caravelas, fez uso de sua posição institucional para denunciar através de cartas enviadas a alguns dos principais jornais da Bahia e do Brasil como o Jornal do Brasil, Jornal da Bahia, A tarde e do Informativo / Boletim Diocesano o que vinha ocorrendo na região.

Segundo Leonardo Dantas, na dissertação O Sonho da Terra: Trabalhadores Rurais e o Surgimento do MST na Bahia (1975-1989) o Boletim Diocesano era distribuído de porta em porta no então povoado de Teixeira de Freitas. Provavelmente por pessoas da comunidade. O fato incomodou um dos grileiros, um mineiro recém-chegado à cidade e que reivindicava a posse da terra do Córrego das Ostras e tentava retirar os posseiros de muitos anos estabelecidos no lugar alegando ser o dono.

Como já dito, outro meio escrito de denúncia utilizado pelo Bispo eram as cartas enviadas a diferentes autoridades dentro e fora do país, além de jornais. Em uma carta publicada no Jornal do Brasil de 27/10/1980, por exemplo, ele destacou a violência da polícia e dos grileiros contra 37 trabalhadores, gente humilde, cujas terras se encontravam em litígio, através de “Prisões ilegais e maus tratos” e uma funesta caçada humana.

“Nessas condições desumanas ao extremo, alguns dos lavradores adoeceram e foram retirados da cela e jogados no corredor. Um deles estava com muitas queimaduras, pois a polícia, oficial de justiça e os grileiros o cercaram de fogo para prendê-lo, dizendo que assim caçavam o coelho. Assim queimando e com muita febre, ficou preso sem nenhuma assistência das autoridades e dos policiais (…). Que tomem medidas para a solução desses graves problemas. Que a situação dessas terras seja definida e ,sendo devolutas, se destinem aos posseiros e as famílias mais necessitadas. Que toda pessoa receba um tratamento justo mesmo na cadeia.”

Como traz  a historiadora Liliane Maria Fernandes Cordeiro Gomes no artigo, Diferentes Frentes de atuação no campo social da diocese Teixeira de Freitas/Caravelas no Extremo Sul da Bahia  – 1952/1985 ,ao citar e analisar a carta, o Bispo  não repudiou apenas o modo que os detidos eram tratados,  mas também a invasão da residência dos padres em Teixeira de Freitas ocorrida no dia 07 de outubro de 1980.

Segundo cita Gomes, a invasão da residência, que fica ao lado da “Igrejinha Subterrânea,”  foi feita por grileiros e policiais “armados com ostentação” que entraram sem pedir licença e sem nenhuma consideração e respeito pelos moradores e donos da casa, obrigando um animador da comunidade e da igreja assinar declarações e acusações numa folha em branco. “Um  acontecimento que vinham ocorrendo de forma corriqueira em toda região do Extremo Sul da Bahia, segundo Dom Felipe”.

A atuação do bispo incomodou não apenas os poderosos da cidade e da região, mas também os militares que ocupavam o poder. Segundo Leonardo Amaral a partir da análise dos documentos da espionagem do Serviço Nacional de Informações (SNI) o bispo foi acompanhado e monitorado por agentes do regime atentos ao trabalho desenvolvido na diocese junto aos movimentos sociais e trabalhadores.

“D. FELIPE é radicalmente contra o governo brasileiro, aproveitando os sermões para fazer críticas contundentes, inclusive incitando a população a subverter a ordem […] O Sindicato dos Trabalhadores Rurais, cuja criação será oficializada em 19 Abr 79, praticamente já tem seu primeiro presidente indicado por D. FELIPE. Haverá tão somente uma eleição para homologação do candidato único […]”. Diz parte do documento confidencial de 1979 citado por Leonardo  do Amaral.

Convém lembrar que como um defensor da democracia, igualitário, o Bispo Filipe Broers era contra a  Ditadura Militar e não contra o país e que diante da situação imposta: defender os direitos humanos, o Bispo, se portou como um bem-aventurado que não se intimidou ,mesmo sob ameaça de homens armados, para defender aqueles que só tinham como fonte de renda seus pequenos cultivos.

Fontes e créditos

ALVES. Leonardo Amaral.  Experiências forjadas a ferro e fogo: religiosidade, organicidade e luta pela terra no Extremo Sul da Bahia no contexto da Ditadura Civil-Militar (1978-1985). Dissertação ( Mestrado em História) –  Universidade Estadual de Feira de Santana. Feira de Santana. Bahia. 2017.

D’ICARAHY. Leonardo Dantas.  O Sonho da Terra: Trabalhadores Rurais e o Surgimento do MST na Bahia (1975-1989). Dissertação ( Mestrado em História) – Universidade Federal da Bahia.  Salvador. Bahia. 2018.

GOMES, Liliane Maria Fernandes Cordeiro Gomes.Diferentes Frentes de Atuação no Campo Social da Diocese de Teixeira de Freitas/ Caravelas no Extremo Sul da Bahia – 1962 – 1985. In : AÇÃO COLETIVA E TERRITORIALIDADE: dinâmicas, práticas, significados e abordagens. Agripino Souza Coêlho Neto: Celia Basconzuelo e María Virginia Quironga ( Org). – Salvador: EDUBEB, 2016.

Bispo de Caravelas faz denúncia de violência contra posseiros baianos. Jornal do Brasil. 27/10/1980. Salvador

Daniel Rocha da Silva*

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O “Elefante Branco” de Teixeira de Freitas

Por Daniel Rocha*

Você sempre perguntou, mas nunca obteve uma resposta: o que é mesmo aquele enorme galpão localizado em frente ao cemitério Jardim da saudade em Teixeira de Freitas? Quando foi construído? Para qual finalidade?  

Obviamente que estamos falando do Armazém da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) estatal criada em 1991 a partir da fusão das extintas Companhia Brasileira de Alimentos (COBAL) e Companhia ‘Brasileira de Armazenamento (CIBRAZEM) erguido entre 1986 e 1987 com a finalidade de armazenar os grãos oriundos da agricultura local .

Construído durante o governo de José Sarney (PMDB) o armazém que fica localizado na Avenida Euclides da Cunha nº 270 – no bairro Nova Teixeira é chamado popularmente por alguns de “Elefante Branco” (obra públicas sem utilidade).

Segundo noticiou o jornal o Estado de São Paulo de outubro de 1987, pairam suspeitas sobre o processo de licitação e construção do galpão, em um só dia a empresa recebeu a oferta, analisou, aprovou comprou e pagou dois armazéns no valor de 100 Milhões de cruzeiros para os municípios baianos de Teixeira de Freitas e Ribeira do Pombal. Destacou:

“Preocupada com a aproximação da safra, a empresa dispensou a concorrência pública, conforme lhe faculta a lei quando se trata de uma aquisição de urgência. (…) As duas unidade  com área suficiente para armazenar 2 mil toneladas de grãos. Especialistas em construção civil sustentam que os dois armazéns poderiam ter ficado pela metade do preço se fossem construídas em alvenaria”.  Sublinhou o jornal

No título da notícia, CIBRAZEM: elogio à “eficiência”, é plausível a ironia do periódico que por alguma razão não cita os nomes dos políticos ou ruralistas envolvidos no processo de reivindicação ou liberação. Carregado de silêncios o assunto é tratado apenas como um acontecimento relevante para o conhecimento do público.

O galpão foi construído no mesmo período em que a “Máfia dos Grãos” formada por ruralistas e políticos foi formada “através da liberação de subsídios dados a correligionários políticos de ministros e do presidente da república para a construção dos Armazéns” sob o argumento que era preciso diante das expectativas das super safras agrícolas de 1986 a 1988 ”. Denunciou reportagem do Diário do Congresso Nacional de 18 de junho de 1994.  

Na época em Teixeira de Freitas à política e o agronegócio “andavam juntos”, contudo foi encontrado documentos que associa a construção do armazém em Teixeira de Freitas às denúncias do CTU sobre a chamada Máfia dos Grãos, nesse sentido qualquer aproximação deve ser compreendida como mera suposição.  

O que é factível e que em 1987 a região enfrentou uma estiagem sem precedentes e que no período de 1986 a 1990 a expansão agrícola diminuiu sob o avanço do negócio do Eucalipto na região, ou seja, um cenário não favorável as grandes safras agrícolas e consequentemente um retorno possível do investimento feito na construção do Armazém, considerado “antigo” por um político local, cinco anos depois da construção.  

Em 1992 foi cogitado converter o lugar em um ginásio de esportes ,reivindicação dos jovens da cidade, e também transformar o lugar em um centro de distribuição da estatal estadual Cesta do Povo, nenhuma das alternativas foram concretizadas.  

No presente, abandonada em plena área urbana, o armazém que pertence ao governo federal não serve nem para ponto de referência ,já que o cemitério cumpre bem essa função, foi transformado em um lugar público sem utilidade, ou seja, em um grande “Elefante Branco”.  

Fontes :

Informações sobre o processo de licitação

Cibrazem: elogio à “eficiência” O estado de São Paulo. 15 de outubro de 1987. Agência estado. DF

Informações sobre a Máfia dos grãos

COSTA. Raimundo. Alimentos desviados do governo seriam suficientes para alimentar 40 milhões de pessoas por um ano. Diário do Congresso Nacional. Seção I, Ano XLII,  18 DE JUNHO DE 1994. DF.

Informação sobre a queda da expansão agrícola 1985-1990.

KOOPMANS. Padre José. Além do Eucalipto: O papel do Extremo Sul. 2005.

Informação sobre a consideração de fazer uso do espaço como depósito da Cesta do Povo e ginásio de esportes.

Revista Regional Sul. Teixeira de Freitas – Bahia. Março de 1992.

Estiagem que prejudicou a safra agrícola.

LIMA, Evandro. Estiagem preocupa agricultores. Jornal A tarde. 28/10/1987.

Daniel Rocha da Silva*

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Teixeira de Freitas e o calor de 1987

Por Daniel Rocha

Não é do seu conhecimento, mas em 1987 a falta de chuva e uma onda de calor com altas temperaturas, varreu a região do extremo sul  da Bahia e colapsou a agropecuária  regional e o sistema de abastecimento e distribuição de água da cidade de Teixeira de Freitas.  Ocasionado pelo  fenômeno atmosférico oceânico El Niño a estiagem atingiu a população trabalhadora mais pobre e os posicionamentos políticos da época.

Em conformidade com a  perspectiva publicada na reportagem do  jornal A tarde de  09/11/1987,  a grande onda de calor e estiagem que atingiu a região  prejudicou as lavouras e os pastos, causou grandes preocupações  aos agricultores e pecuaristas.

Isso porque, de acordo com as estimativas do prefeito da cidade de Medeiros Neto e também secretário da Associação dos prefeitos do Extremo Sul da Bahia, Adelgundes Serapião, a produção do leite e da carne   foi reduzida a 60% e dos produtos agrícola como mamão, melancia, abóbora, cacau e café a 80 %, em relação ao ano anterior.

“Os produtores estão tendo dificuldades com os bancos, que vêm praticando uma política de juros insuportáveis e injustos (…). Como solução, as autoridades competentes deveriam prorrogar os débitos e suspender os juros e correção monetária e dar uma injeção de novos recursos para o extremo sul. Isso seria uma decisão justa e honesta dos que prometeram mudar a Bahia.”

Frisou o secretário carlista em defesa dos interesses dos agropecuaristas se referindo no fim da fala ao governador Waldir Pires (PMDB) eleito na primeira eleições diretas após o regime militar em 1986, que rompeu com a hegemonia política de Antônio Carlos Magalhães, super ministro das comunicações do governo Sarney, que boicotou o eleito de todas as formas no âmbito federal.

Ainda de acordo com a narrativa do jornal que também fez oposição ao governo eleito nas eleições para governador de 1986, a forte onda de calor e estiagem não atingiu apenas os produtores e os moradores da zona rural, mas também a população urbana e a massa trabalhadora.

Aliás,  queda na produção  fez subir o índice de desemprego na região do extremo sul, 70%, e o número de pessoas fora da força de trabalho em todos os níveis.  Além disso, os moradores de cidades como Medeiros Neto e Teixeira de Freitas também tiveram que suportar o desabastecimento em série de água devido ao péssimo serviço prestado pela Empresa Baiana de Água e Saneamento S.A. (EMBASA).

Desabastecimento causado em parte pelo defasado sistema de abastecimento instalado em 1974 que  atendia apenas 01 a cada 05 pessoas residente na zona urbana, ou seja, 25 mil dos 125 mil habitantes da cidade que mesmo diante da situação recebiam da empresa contas com valores exorbitantes.

Isso fez com que os moradores mais pobres e sem acesso a serviço de abastecimento recorrerem  a córregos, rios, lagos e poços para executar trabalhos domésticos ficando dessa forma vulneráveis a contaminações e acidentes como o  desabamento que vitimou uma mulher e os filhos na Biquinha do bairro Teixeirinha nesse período.

Dito isso, é possível supor com base na construção narrativa do jornal que a população trabalhadora comum foi a mais prejudicada com a concentração de calor, a falta de empregos na região e com a incapacidade da estatal de abastecer a população da época. Que os oposicionistas aproveitaram a circunstâncias para atacar o governo recém-empossado, dramatizando ainda mais as situações dantes ignoradas.

Fontes e créditos

Notícia e reportagem sobre a estiagem:

LIMA, Evandro. Estiagem preocupa agricultores. Jornal A tarde. 28/10/1987.

LIMA, Evandro. Estiagem no extremo sul caracteriza uma seca sem precedentes. Jornal A tarde. 06/11/1987.

 Informações sobre o fenômeno El Niño:

CAVALCANTI, Iracema Fonseca de Albuquerque; FERREIRA, Nelson Jesus; DIAS, Maria Assunção Faus da Silva; SILVA, Maria Gertrudes Alvarez Justi da. Tempo e clima no Brasil. [S.l: s.n.], 2009.

AZEREDO, Thiago. El El niño e la niña. Disponível em http://educacao.globo.com/artigo/el-nino-e-la-nina.html. Acessado em janeiro de 2018.

Informações sobre a eleição de Waldir Pires em 1986

SOUZA. Belarmino de Jesus. A conquista da Bahia – O sudoeste baiano na eleição de Waldir Pires (1986) e as disputas pela municipalidade em vitória da conquista. Disponivel em: http://www.snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1364678744_ARQUIVO_Textocompleto-BelarminoSouza.pdf

Wikipédia, a enciclopédia livre. Waldir Pires. Disponível   em https://pt.wikipedia.org/wiki/Waldir_Pires

Sobre o posicionamento político do jornal A tarde  durante a campanha:

A tarde. Consuelo Novais Sampaio colaboração especial. Disponível   em: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/tarde-a

Sobre a insuficiência do sistema de abastecimento na década de 1970 e a busca por outras fontes pelos moradores.

O saneamento básico na história de Teixeira de Freitas. Parte 01

O saneamento básico na história de Teixeira de Freitas. Parte 02

Consulta e Colaboração:

Marielson Ribas.  Matemático. Lattes.

Foto: Mulher carregando lata de água na cabeça. Bairro Teixeirinha década de 1980.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X. Latees.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com

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A itinerância das mulheres prostitutas em Teixeira de Freitas: Parte 02

Por Daniel Rocha

Um mês antes de passar pelo estabelecimento do bairro São Lourenço, visitei uma casa do ramo situado na Avenida Getúlio Vargas em maio de 2018, a fim de saber mais sobre a itinerância das profissionais que atuam em Teixeira de Freitas. Ainda são oriundas de outras cidades como as das décadas de 1970?

No  local, que também é gerenciado por uma mulher, conversei informalmente com duas capixabas, 30 e 35 anos, oriundas da capital daquele estado, nomes preservados, que responderam de forma informal alguns questionamentos sobre origem e atividade.

Depois de familiarizadas com nossa presença, quis saber das atendentes se Teixeira de Freitas ,BA, faz parte da rota de trabalho das profissionais do sexo que transitam pela região  como sugere os relatos das décadas de 1970 e 1980.

De acordo com elas não existe uma rota ou essa noção de itinerância entre as profissionais que  passam temporada na cidade .  “Geralmente há trocas de informações sobre o melhor lugar do momento para ganhar dinheiro. Se existe essa rota ela é natural.” Afirmou uma delas.

Tal como as primeiras profissionais ouvidas no primeiro texto,  as  mulheres que atuam na segunda casa visitada não ficaram à vontade para informar detalhes sobre a vida privada, mas se declararam “mães com contas para pagar e filhos para criar”, sem contudo demonstrarem sentimentos de alegria, culpa ou melancolia por exercer o ofício .

Diante da afirmação quis saber mais sobre os motivos que levaram a optar pelo estilo de vida e profissão, ao qual disseram que optaram levadas pela necessidade de ganhar dinheiro , cuidar, manter e educar os filhos.

Ainda de acordo com elas essa é uma informação que não gostam de compartilhar porque a maioria dos clientes “gostam de fantasiam as mulheres da profissão como sendo mulheres sem escrúpulos ou limites definidos”.

Por essa razão, sendo procuradas para atender fantasias e necessidades e que também  não fazem questão de ser simpáticas com quem não está disposto a pagar e não se sentem culpadas ou melancólicas por serem mulheres profissionais do sexo.

Tal informação permitiu relacionar as situações vividas por elas com as afirmações feitas por  Diniz (2006) que declara que as mulheres foram e, ainda são ensinadas a sacrificar e a negligenciar seus próprios desejos para suprir as necessidades dos outros e potencializar a dos maridos e dos filhos.

Ao se declararem provedoras dos filhos e família essas mulheres reforçam a ideia de que também são frutos de uma construção sócio histórica, sobre o papel feminino tradicional, que ensina que a mulher precisa se sacrificar em detrimento dos outros, filhos, marido e família.

Discurso  que também é reforçado pelas instituições sociais como a escola que  segundo Daniela Finco (2003)   não está neutra, pois participa sutilmente da construção da identidade de gênero e de forma desigual desde as primeiras relações da criança no ambiente coletivo da educação infantil.

Diante do exposto, registrado neste e no texto anterior, foi possível observar que de fato existe uma itinerância, uma rota natural, não organizada e abrangente, onde circulam essas mulheres em busca de renda em locais de grandes aglomerações e também de privacidade em locais não fixos. Que essas mulheres, trabalhadoras da economia marginal, não estão isentas de cobranças relacionadas  ao papel feminino construído socialmente.

Fontes e créditos

DEL PRIORE, M. (2001). Apresentação . Em Mary Del Priore (Org.), História das Mulheres no Brasil, p. 7-10. São Paulo: Editora Contexto/Editora UNESP.

FINCO, Daniela. Relações de gênero nas brincadeiras de meninos e meninas na educação infantil: o desafio da co-educação.Pro-Posições. v. 14, n. 3 (42) – set./dez. 2003.

DINIZ, Gláucia R. S. Gênero, casamento e família: interações entre novos modelos e papéis. In: 2006, Florianópolis. Anais do Seminário Internacional Fazendo Gênero 7. Florianópolis: Editora Mulheres, 2006. p. 1-7. Disponível em: < http://www.fazendogenero.ufsc.br/7/artigos/G/Glaucia_Diniz_05_B.pdf>. Acesso em: 21 nov. 2018.

DE JESUS, J.; ALVES, H. Feminismo transgênero e movimentos de mulheres transexuais. Revista Cronos, v. 11, n. 2, 28 nov. 2012.

Daniel Rocha da Silva*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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A ITINERÂNCIA DAS MULHERES PROSTITUTAS EM TEIXEIRA DE FREITAS: Parte 01

Lembranças de uma das vítimas da barragem improvisada no bairro Santa Rita

Por Daniel Rocha

Hlton Silva de Souza de 18 anos, foi uma das vítimas do colapso de uma barragem improvisada sobre um córrego no bairro Santa Rita em 1982. As irmãs Edna Souza e Josete Souza entraram em contato com o site, via Whatsapp, para compartilhar lembranças e perspectivas em memória do irmão e dos  padecidos ignorados pelos relatos e registros oficiais.

Filho de migrantes mineiros, Angelina Alves da Silva e José Paulo, em memória, Hilton morava com os pais e a família numerosa, 15 pessoas, em uma casa de madeira no bairro Santa Rita, na rua próximo ao Posto Pioneiro que dá acesso ao bairro.

Segundo contou Josete, que atualmente reside na cidade de São Mateus,ES, antes de chegar em Teixeira a família morou em uma pequena propriedade do avô na zona rural de Itanhém, e chegou no então povoado de Teixeira de Freitas em 1976 em busca de trabalho e  escola para os filhos.

 Brincalhão e carioso, Hlton sonhava em se tornar policial Militar e já se encontrava inscrito no concurso. Trabalhador, ajudava o pai que atuava como carroceiro e nas horas vagas vendia leite e fazia extras, bicos, pelo então  povoado.

Naquela época,  década de 1980, alguns jovens viviam como pardais circulando pelo povoado e se submetendo a exploração laboral sem qualquer tipo de contrato formal  ,estabilidade e expostos a todo tipo de sorte e acidentes. “Uma juventude sem prazer e perspectiva.” Afirmou Frei Elias ao comentar as consequências do êxodo rural para a cidade em seu livro lançado em 2012.

Por essa razão, revelam as irmãs, Hlton que também era conhecido como Cula, foi chamada por um amigo, “Chicão” com quem costumava fazer extras, “bicos”, para trabalhar por algumas horas no desentupimento de um bueiro que dava vazão a água represada na barragem, improvisada, que ficava  uns 400 metros da própria casa.

As irmãs lembram-se ,de ouvir dizer, que no momento em que o irmão trabalhava junto com outros rapazes a contenção desabou e liberou uma grande quantidade de água que o arrastou juntamente com outras pessoas que se encontravam no lugar. Minutos depois a família foi avisada por um dos jovens trabalhador sobre o ocorrido e o desaparecimento do adolescente.

Conforme a perspectiva de Edna Souza, na época com 06 anos, e Josete Souza, 11 anos, o pai e os irmãos saíram em busca do jovem e três quilômetros depois do local do rompimento, o corpo do irmão foi encontrado  às margens do Córrego Charqueada.

Auxiliado pelos filhos o senhor José Paulo retirou o corpo do Hlton da lama e o conduziu nos próprios braços até a carroça que o transportou à residência da família e só durante o banho de retirada de toda lama que cobria o filho,  concluiu que ele já não tinha mais chances de vida. Recordou Edna.

Segundo Josete Souza nenhuma assistência foi prestada a família, embora um “funcionário da prefeitura” procurou o seu pai e recolheu todos os documentos do irmão prometendo arcar com as despesas, algo que não aconteceu. Importa dizer,  que o corpo de Hlton não passou por exames de necropsia e foi enterrado sem o devido registro de óbito.

Sobre outras vítimas afirmou Josete que foram três mortos e não oito como afirma o jornal “O Estado de São Paulo”, sendo o irmão Hlton e outros dois garotos, um de 15 anos que não recorda o nome e a origem e outro de 17 anos filho de uma moradora da rua Mauá, também conhecida como “Rua do brega.”

Para a antiga moradora a lavadeira citada por testemunhas pode ter sucumbido a lama enquanto lavava roupa em alguma parte do Córrego Charqueada, onde se encontrava água limpa, e não no local onde foi vitimado três. No dia da tragédia registrou o jornal do Brasil que “Foram três vítimas, “Hélcio” Silva Souza, Ademir Ferreira dos Santos e Joselito Pereira da Silva, todos adultos.”

Cinco anos depois do acontecimento, 1987, atormentados pelas lembranças, a família mudou para o bairro São Lourenço da cidade já emancipada. No presente, apesar de já ter se passado mais de 30 anos, a mãe e os irmãos sentem saudade e lembra constantemente do parente brincalhão  que comemorava aniversário todo dia 09 de maio. Mesma data que a cidade comemora a emancipação.

Fontes e créditos

Informações sobre a família e acidente com o Hilton Souza:

O texto foi construído a partir da perspectiva de Josete Souza e Edna Souza passadas através de  conversas informais realizadas entre os dias 03/02 a 08/02/19 , via aplicativos eletrônicos Whatsapp.

Informação sobre a rotina laboral dos jovens teixeirenses na década de 1980.

HOOIJ. Frei Elias. Os desbravadores do Extremo sul da Bahia. História da presença franciscana nessa região – raízes e frutos, Belo Horizonte, 2011. Pg 70.

KOOPMANS. Padre José. Além do Eucalipto: O papel do Extremo Sul. 2005. Pg 75 – 80

Conversa informal Josete Souza e Edna Souza

Jornais consultados:

Morrem 8 em barragem que ruiu na Bahia. O estado de São Paulo, 1982 . Acervo site tirabanha

Barragem desaba e mata três. Jornal do Brasil. 1982. Acervo site tirabanha.

Daniel Rocha*

Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

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A barragem que ruiu em Teixeira de Freitas em 1982

 

Por Daniel Rocha

A ruptura  de uma barragem improvisada em Teixeira de Freitas, Extremo sul da Bahia, em 1982,   vitimou crianças, homens e uma mulher lavadeiras no bairro Santa Rita.  O sinistro aconteceu no dia 28 de abril de 1982, as causas e consequências do acidente ainda hoje são desconhecidas e nunca foram  explicadas oficialmente.  Os registros divergem os relatos orais de antigos moradores também.

A barragem que ficava nas imediações do boqueirão da rua Ipiranga, onde hoje se encontra a “ladeira do Santa Rita” ,segundo registros dos jornais da época, foi construída de forma irregular sobre um córrego para permitir o acesso de veículos e ruiu devido a pressão exercida pela água represada de um córrego.

Segundo noticiou o jornal paulista, O estado de São Paulo, o rompimento da “Barragem improvisada” construída sobre o córrego em uma área de grande depressão no terreno, foi causado por equívocos e falhas e teve início quando o dono do loteamento, um pedreiro, resolveu abrir uma espécie de vala para dar vazão às águas que já estavam quase cobrindo a barragem.

Apesar das advertências dos trabalhadores sobre o perigo que corriam, várias pessoas assistiam a operação e no  instante em que a primeira parte da vala foi aberta, a força da água abriu uma grande fenda que minou a base da represa.

No momento, as pessoas que estavam nas extremidades, crianças e lavadeiras, correram e conseguiu salvar-se, as que estavam no centro da barragem ficaram ilhadas e  foram arrastadas pelas águas. Moradores informaram o jornal por telefone que nenhuma providência oficial havia sido tomada para remover os corpos e escombros.

De acordo a versão  publicado no Jornal do Brasil, foram três vítimas  e não oito como divulgou o Estadão e houve buscas organizadas que consideraram até o fim a possibilidade de não haver mais pessoas soterradas . Ainda conforme registrou o periódico o ocorrido provocou a revolta dos moradores de Teixeira de Freitas, que já há algum tempo reclamavam do entupimento dos bueiros que davam vazão à barragem e da inundação das águas do córrego.

Segundo relatou informalmente um parente de uma das vítimas, algumas foram desenterradas por moradores que fizeram uso das próprias mãos para isso. “Não houve responsabilizados ou indenização pelo o ocorrido”.

Ainda de acordo versão contada por moradores a barragem cedeu por força da pressão da água do afluente do Charqueada e que o lançamento de “entulhos e pó de madeira de serrarias” podem ter obstruído o local por onde passava a água represada causando o rompimento.

Quanto a isso o que se sabe é que os córregos teixeirenses foram de fato poluídos no processo de instalação das serrarias e ocupação demográfica da década de 1960, 1970 e transformados em destino final para o esgoto domésticos na década de 1980 e 1990, como hoje ainda são, graças em partes da falta de fiscalização, não só nas nascentes, mas  também na bacia como um todo . Tragédias também silenciados pela história e memória oficial do “progresso e desenvolvimento” da cidade.

Fontes 

Jornais consultados:

Morrem 8 em barragem que ruiu na Bahia. O estado de São Paulo, 1982 . Acervo site tirabanha

Barragem desaba e mata três. Jornal do Brasil. 1982. Acervo site tirabanha.

Perspectiva de  alguns moradores:

O saneamento básico na história de Teixeira de Freitas 04. Texto publicado no site tirabanha em 14/11/15.

Informação sobre a poluição dos córregos :

Pesquisa de coliformes nas nascentes do Córrego Charqueada em Teixeira de Freitas,  Bahia.  PUGLIESI. Ícarro Oliceira Arariba, SOUZA, Ithamar Cruz de , FORTUNA. Jorge Luiz . Revista Ciências do Ambiente On-Line Agosto, 2008 Volume 4, Número 2

Plano municipal de Saneamento básico. Teixeira de Freitas. Dezembro de 2013.

*Os moradores ouvidos contribuíram informalmente e expressaram temor der ter o nome associado a questão. Registro feito.

Daniel Rocha*
Historiador graduado  e Pós-graduando em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769

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Foto: Ladeira do Santa Rita. Final da década de 1990.