Por Daniel Rocha
Uma pequena área verde localizada no centro de Teixeira de Freitas, entre os bairros Novo Horizonte e Wilson Brito (região do Buraquinho), resiste ao avanço urbano e preserva parte da história local.
Conhecida pelos moradores como “matinha do Buraquinho”, a área reúne vestígios de mata nativa, nascentes e relatos que ajudam a compreender o cotidiano das primeiras décadas de ocupação da cidade.
Situada às margens da Avenida Marechal Castelo Branco, a área é atualmente pouco frequentada devido às dificuldades de acesso. No entanto, segundo relatos de antigos moradores, já foi um dos pontos mais movimentados do bairro, especialmente nas décadas de 1960 e 1970, período em que não havia abastecimento de água tratada e encanada para a população.

A moradora Jovina Maria Silva, uma das primeiras residentes do bairro Wilson Brito, Buraquinho, recorda que, à época, havia poucas casas e infraestrutura limitada.
Sem acesso à rede de água, os moradores utilizavam o córrego que nasce no centro da pequena mata e as nascentes de água limpa existentes no local para atividades domésticas, como lavar roupas, utensílios e até tomar banho. O espaço era, segundo ela, intensamente frequentado ao longo do dia, sobretudo por donas de casa.
De acordo com o relato de Arnaldo Santos, registrado em conversa informal em 2013, a abundância de água influenciou a antiga denominação da área, conhecida como “Fazenda Água Limpa”. Antes da formação da cidade, o local era caracterizado por vegetação densa, presença de madeiras nobres e até animais como jacarés, sendo pouco habitado na época.

Com o passar dos anos, a relação dos moradores com o espaço foi se transformando. A implantação de equipamentos urbanos e o lançamento de esgoto no córrego, incluindo contribuições provenientes do antigo Hospital Santa Rita, comprometeram a qualidade da água e reduziram o uso da área para atividades cotidianas.
Na década de 1980, ela foi totalmente desmatada para o loteamento do bairro Novo Horizonte, mas estima-se que, por conta de seu terreno íngreme, não foi loteada, e a mata voltou a crescer nas décadas seguintes, sem interferências.

Apesar das mudanças, a “matinha” segue sendo um refúgio para a fauna local. Moradores relatam a presença de animais como saruês, cobras e até raposas consideradas ferozes. Um episódio ocorrido há cerca de três anos envolveu o ataque de uma raposa a um morador, que sofreu uma mordida no braço.
Atualmente, o local abriga um brejo, a nascente de um córrego e vegetação densa, além de animais peçonhentos. Mesmo cercada pela urbanização, a área permanece como um espaço que reúne biodiversidade e memória, muitas vezes despercebido por quem passa pelo centro da cidade.
Com o avanço da ocupação urbana, novas residências foram construídas nas proximidades, aproximando ainda mais a cidade desse espaço. No local residem moradores comuns, trabalhadores e trabalhadoras, nem sempre em condições de moradia adequadas.

Por fim, ao longo do tempo, a “matinha do centro” passou por processos de degradação e regeneração, mantendo-se como um território que, apesar das transformações, continua a renascer e a preservar parte da história ambiental e social de Teixeira de Freitas.
Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
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