Por Daniel Rocha
Quem passa hoje por uma unidade de saúde em Teixeira de Freitas talvez nem imagine como tudo começou. Mas houve um tempo — não tão distante assim — em que buscar atendimento era quase um exercício de paciência, resistência e, muitas vezes, sorte.
Antes da consolidação do Sistema Único de Saúde no município, a saúde por aqui era marcada pela escassez. O que hoje é direito, naquele tempo parecia mais um serviço raro, concentrado e insuficiente para a maioria da população. Era o tipo de realidade que se sentia na pele, na fila e na espera.
Até 1998, a cidade inteira se apoiava em apenas três pontos: o Posto de Saúde do Teixeirinha, o Posto de Saúde São Lourenço e o Centro de Saúde Mãe Maria, no Monte Castelo. Três lugares para atender cerca de 80 mil pessoas. Três portas para uma multidão que batia todos os dias, cada um com sua urgência.
E quando se fala em estrutura, é preciso imaginar o essencial — e às vezes nem isso. Em 1997, eram apenas 40 profissionais para dar conta de tudo: oito médicos, um psicólogo, um auxiliar de enfermagem, doze atendentes e dezoito trabalhadores de serviços gerais. Era gente se desdobrando, tentando fazer caber o impossível dentro de um sistema ainda muito frágil.

Os “postinhos de saúde”, como eram chamados, tinham uma rotina simples: consulta médica, um atendimento aqui, outro ali, quase sempre resolvendo o imediato. Prevenção, acompanhamento contínuo, cuidado integral — tudo isso ainda engatinhava. A saúde era mais reação do que planejamento.
No meio desse cenário, o Centro de Saúde Mãe Maria funcionava como um ponto de referência. Era para lá que iam as campanhas de vacinação, os atendimentos voltados à saúde da mulher, o acompanhamento de doenças como tuberculose e hanseníase.
Já o posto do Teixeirinha, tal como os outros, tinha um papel curioso: mesmo sendo de bairro, atendia a cidade inteira. Gente do Wilson Brito, do Novo Horizonte, do Centro… todo mundo acabava passando por lá em algum momento.
Os serviços eram poucos e concentrados. Vacinas apareciam mais em época de campanha. Exames preventivos só em locais específicos, como o próprio Mãe Maria ou a unidade da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia, no Bela Vista. Remédio? Quase não tinha. Farmácia estruturada nas unidades ainda era coisa distante.

E os agentes comunitários, que hoje batem de porta em porta com um olhar atento e contínuo, naquela época ainda davam seus primeiros passos. Sem áreas bem definidas, atuavam mais no combate à desnutrição e às doenças endêmicas. O cuidado ainda não alcançava tudo o que alcança hoje.
A mudança começou a ganhar forma em julho de 1998,durante a gestão de Wagner Mendonça, quando o município assumiu a gestão plena da saúde seguindo as orientações do ministério nacional. Aos poucos, o sistema começou a se reorganizar: mais serviços, melhorias no hospital, novas especialidades surgindo. Um processo lento, mas necessário.
Olhando para trás, fica claro que aqueles primeiros postos — especialmente os do Teixeirinha e São Lourenço — não eram apenas unidades de atendimento. Eram pontos de resistência, onde a saúde pública começava a se desenhar no cotidiano da cidade. E o fato de ainda hoje serem referência reforça isso: não só prestam serviço, mas carregam a história viva da construção da saúde pública municipal.
Fontes:
DE PAULA, Margarete Inês Portela. Gestão de saúde: aspectos conceituais e históricos. Revista Mosaicum, n. 9, p. 15–20, 2009.
Secretaria Municipal de Saúde de Teixeira de Freitas é referência no Extremo Sul. Jornal Extremo Sul, 05 nov. 2011. Entrevista.
Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
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