Por Daniel Rocha
Muito além de um espaço urbano, a antiga Praça da Prefeitura de Teixeira de Freitas — oficialmente denominada Praça Bernardino Figueiredo — constitui-se como um verdadeiro território de memórias coletivas. Ao atravessar suas alamedas, o teixeirense não percorre apenas um espaço físico, mas revisita experiências que marcaram gerações.
Construída por volta de 1974, durante a gestão do prefeito alcobacense Wilson Alves de Brito, a praça já exercia, antes mesmo de sua formalização, a função de ponto de encontro. Namorados, frequentadores de bares e moradores da cidade encontravam ali um espaço de convivência que, ao longo do tempo, se consolidou como um dos principais marcos da vida urbana local.

Os elementos materiais da praça — as escadarias da antiga prefeitura, o jardim cuidadosamente mantido, as árvores que testemunharam encontros e despedidas — funcionam como suportes de memória. Da mesma forma, os mosaicos portugueses em ondas pretas e brancas, que convidavam crianças e jovens a brincar, tornam-se símbolos afetivos de uma experiência compartilhada.
No entorno da praça, estabelecimentos como a sorveteria O Pilão, o trailer Pilequinho e o Gauchão Lanches ajudaram a compor o cenário social da cidade. Mais do que pontos comerciais, esses espaços foram palco de sociabilidades juvenis, marcando momentos de lazer, descobertas e ritos de passagem, como os primeiros porres de muitos moradores.
A praça também abrigava seus espaços de intimidade, como o conhecido “escurinho” próximo à seringueira, revelando dimensões menos visíveis, porém igualmente significativas, da vivência urbana.
Durante a década de 1980, o local ganhou ainda mais relevância ao se consolidar como polo cultural. O grupo Consciência, formado por artistas locais, promovia mensalmente uma feira artística que reunia criadores de diferentes linguagens.

Além disso, o grupo editava o jornal Opção e realizava apresentações musicais e teatrais, contribuindo para a efervescência cultural da cidade. Como recordou o pintor Zuca, em depoimento ao documentário Retrospectiva Histórica de Teixeira de Freitas (1996), tratava-se de um movimento movido essencialmente pela paixão pela arte.
Ao longo das décadas seguintes, a praça também se afirmou como espaço político e cívico. Até 2008, era ali que a população se reunia para acompanhar a apuração das eleições municipais, transformando o local em um verdadeiro termômetro da democracia local. Em momentos de celebração nacional, como nas Copas do Mundo de 1998 e 2002, multidões ocuparam o espaço para comemorar vitórias da seleção brasileira.
Não por acaso, o local também foi palco de manifestações populares, que reforçam o papel da praça como espaço de expressão coletiva e participação política.

Na contemporaneidade, ainda que tenha perdido parte de sua centralidade nos fins de semana, a Praça da Prefeitura segue desempenhando funções importantes na vida social de Teixeira de Freitas. Eventos cívicos, como as comemorações de 7 de Setembro, feiras e atividades culturais continuam a mobilizar a população, reafirmando seu papel como lugar de encontro.
Dessa forma, a praça não deve ser compreendida apenas como um espaço físico, mas como um patrimônio simbólico da cidade. Por fim, sua trajetória revela a dinâmica entre urbanização, cultura e sociabilidade, evidenciando como os espaços públicos podem concentrar, ao longo do tempo, as experiências e identidades de uma comunidade.
Fontes
BANCO DO NORDESTE DO BRASIL. As origens: Teixeira de Freitas. Fortaleza: Banco do Nordeste, 1986. p. 5–7.
RETROSPECTIVA HISTÓRICA DE TEIXEIRA DE FREITAS. Direção geral: Alberto de Freitas; Zé da Baiana. [S.l.]: [s.n.], 1996. 1 DVD (45 min).
Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
Contato: WhatsApp (73) 99811-8769 | E-mail: samuithi@hotmail.com. Acesse nossa Comunidade no Facebook
O conteúdo deste site não pode ser copiado, reproduzido, publicado no todo ou em partes, ou convertido em áudio ou vídeo sem autorização expressa do autor.
Deixe um comentário