Por Daniel Rocha
Antes da internet, das redes sociais e dos grupos de WhatsApp, uma das principais janelas para o mundo do futebol eram as bancas de revistas.
Era nelas que alguns moradores encontravam notícias dos seus clubes, acompanhavam campeonatos, conheciam melhor os craques da época e debatiam quem estava jogando bem, jogando mal ou apenas dando dor de cabeça à torcida.

Em Teixeira de Freitas não era diferente. Quando a cidade ainda era um povoado em crescimento e, depois, já emancipada, as bancas de revistas funcionavam como verdadeiros portais para o futebol brasileiro.
Foi através das bancas que alguns torcedores locais, sobretudo os vascainos, resolveram que não bastava apenas ler a revista esportiva Placar. Era preciso participar dela.
E participaram. Foi assim que alguns desses torcedores de Teixeira de Freitas começaram a aparecer nas páginas da mais importante revista esportiva do país.
Em 1976, por exemplo, Carlito Teixeira não gostou das críticas ao Vasco e resolveu entrar em campo. Sem chuteira, sem uniforme e sem juiz. Apenas com uma carta. Sua mensagem foi direta a um outro leitor crítico do time:
“Capu, pare de falar mal do Vasco, o time de maiores vitórias do Brasil.”
Já em 1985, Vilmar Benetti mostrou que amor ao clube não significa passar pano. Revoltado com a campanha do Vasco na Libertadores, escreveu um recado que certamente faria sucesso em qualquer grupo de torcedores dos dias atuais:
“O Vasco só deu vexame na Libertadores, não tendo ganhado nenhuma partida. Custamos tanto a participar desta competição e, quando conseguimos, é esse fracasso. Gostaria de fazer um apelo ao presidente Antônio Calçada: com este time o Vasco nunca irá conseguir nada. É preciso fazer uma limpeza completa no elenco e começar tudo de novo.”

Logo em 1990, outro torcedor, José Wilson, apareceu representando o setor otimista da torcida. Satisfeito com as conquistas cruzmaltinas, fez um pedido simples à revista:
“Para fazer inveja aos torcedores de todos os outros times, publiquem a foto do Vascão campeão carioca de 1987.”
E a Placar atendeu. Afinal, provocar os rivais também faz parte do patrimônio cultural do futebol brasileiro.
Anos após a públicação de José Wilson, em 1997, Leonardo Otonni de Araújo resolveu colaborar com a ciência internacional fazendo uma piadinha com o time adversário:
“O Santos está mandando o Ronaldão para os Estados Unidos. Motivo: os cientistas americanos irão transformá-lo em dois Ronaldinhos.”
Assim, vista de hoje, cada uma dessas cartas era mais do que uma simples mensagem. Elas mostram que os leitores de Teixeira de Freitas não eram apenas consumidores de notícias esportivas
Eles participavam ativamente das discussões nacionais, defendiam seus clubes, cobravam resultados, comemoravam títulos e faziam piadas com os adversários.
Dessa forma, é possível pensar que mais do que vender revistas, as bancas locais conectavam Teixeira de Freitas ao universo do futebol brasileiro e outros debates nacionais. Como recorda Vicente, que trabalhou na Banca Central entre 1990 e 2001, o local era ponto de encontro dos torcedores e leitores, palco de debates e troca de opiniões.
Por fim, em uma época sem internet e com a informação chegando mais devagar, as bancas faziam a paixão local ecoar nacionalmente, levando a voz dos torcedores teixeirenses para as páginas das maiores revistas esportivas do país.
Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
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Fontes:
Placar Magazine, 26 nov. 1976, seção Cartas.
Placar Magazine, 27 set. 1985, seção Cartas.
Placar Magazine, 2 fev. 1990, seção Cartas.
Placar Magazine, maio de 1997, seção Piadinha.
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