Por Daniel Rocha
Em 2019, o site Tirabanha publicou um levantamento sobre acontecimentos ocorridos durante a abertura da BR-101 no extremo sul da Bahia, destacando que a construção do trecho que alcançou o então povoado de Teixeira de Freitas, no início da década de 1970, esteve associada a um dos mais graves episódios sanitários da história da região.

Embora a abertura da rodovia tenha sido frequentemente apresentada como símbolo da integração territorial e do desenvolvimento econômico do extremo sul baiano, seus impactos sobre a saúde da população revelam uma dimensão pouco explorada pelas narrativas oficiais regionais.

Entre esses efeitos destacam-se os surtos de malária e de febre tifóide, que atingiram comunidades situadas às margens da estrada e alcançaram municípios vizinhos.

Segundo o relato de Frei Elias, registrado na obra Os Desbravadores do Extremo Sul da Bahia, a própria dinâmica da construção da rodovia contribuiu para a disseminação das doenças.
A retirada de terra para a elevação do leito da estrada deixou extensas escavações que, durante o período chuvoso, transformaram-se em grandes reservatórios de água parada.

Abertura da BR-101

Em uma região desprovida de infraestrutura de saneamento básico e abastecimento de água, essas poças passaram a ser utilizadas pelos moradores para lavar roupas, tomar banho e realizar outras atividades domésticas, favorecendo a proliferação de enfermidades.

A precariedade das condições sanitárias, associada à quase inexistência de assistência médica, agravou a situação. O surto de febre tifoide vitimou moradores do povoado de Teixeira de Freitas, de sua zona rural e de localidades próximas, evidenciando as limitações do poder público em responder aos desafios impostos pela rápida ocupação da região.

Os registros memorialísticos de Benedito Ralile reforçam esse cenário ao relatarem que o povoado de Rancho Alegre, então pertencente ao município de Caravelas, também sofreu os efeitos da epidemia.
De acordo com o autor, as numerosas poças d’água formadas ao longo da estrada aberta pela empresa EMPERPAV favoreceram a disseminação da doença, provocando a morte de diversos moradores.

Entre os episódios preservados pela memória local destaca-se a história de um homem não identificado, descrito como vivendo em extrema pobreza e sem vínculos familiares. Conforme o relato, após receber apenas os recursos terapêuticos disponíveis na localidade — como chás, benzimentos e medicamentos rudimentares —, ele não resistiu à doença.

Considerado indigente, foi sepultado em um caixão simples, confeccionado às pressas e sem forro. A partir desse acontecimento, o local passou a ser conhecido popularmente como “Caixão Sem Forro”, denominação que permaneceu por muitos anos na memória dos moradores e dos viajantes que percorriam a região.

Jornal da época destaca avanço da BR.

Dessa forma, o levantamento realizado pelo site, demonstra que a crise sanitária extrapolava os limites de Teixeira de Freitas. Informações publicadas pelo Jornal do Brasil, em 1972, registram que os surtos também atingiram municípios do norte do Espírito Santo e do Nordeste de Minas Gerais.
O periódico relacionava a propagação das doenças tanto à elevada incidência de malária quanto ao intenso fluxo migratório de trabalhadores nordestinos atraídos pelas obras rodoviárias, estimando que mais de noventa pessoas morreram no extremo sul baiano em consequência da epidemia.

Diante da gravidade da situação, a Secretaria de Saúde da Bahia enviou equipes à região para ampliar a vacinação e realizar investigações sanitárias. Em Mucuri, foram confirmados casos de febre tifoide e registradas pelo menos vinte mortes.

Apesar da dimensão da tragédia, esses acontecimentos receberam pouca atenção nas narrativas tradicionais sobre a ocupação e o desenvolvimento econômico do extremo sul da Bahia.
Assim, dessa forma, os relatos sobre a epidemia evidenciam que a construção da BR-101 produziu efeitos contraditórios. Se, por um lado, representou a consolidação da integração regional e estimulou a expansão econômica, por outro, expôs populações inteiras às consequências da ausência de planejamento sanitário, da precariedade da infraestrutura pública e das desigualdades sociais.

Por fim, recuperar esses episódios significa ampliar a compreensão sobre o processo de formação de Teixeira de Freitas, incorporando à história do desenvolvimento regional as experiências de sofrimento, vulnerabilidade e resistência frequentemente relegadas ao silêncio pelas narrativas celebratórias da modernização.

Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
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Referências
FERREIRA, Susana. A vida privada de negros pioneiros no povoamento de Teixeira de Freitas na década de 1960. Teixeira de Freitas: Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus X, 2010.

HOOIJ, Frei Elias. Os desbravadores do Extremo Sul da Bahia. Belo Horizonte: [s.n.], 2011.

RALILE, Benedito Pereira; SOUZA, Carlos Benedito de; SOUZA, Scheila Franca de. Aspectos da política;

história dos povoados, bairros e distritos de Caravelas. In: RALILE, Benedito Pereira; SOUZA, Carlos

Benedito de; SOUZA, Scheila Franca de. Relatos históricos de Caravelas: desde o século XVI. Caravelas: Fundação Professor Benedito Ralile, 2006.

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