Por Daniel Rocha

No início dos anos 1990, o Brasil já havia deixado para trás a Ditadura Militar e caminhava para consolidar sua democracia. Mas, no interior da Bahia, algumas práticas do passado ainda pareciam não ter recebido a notícia da mudança dos tempos.

Em Duque de Caxias, povoado que naquele momento ainda pertencia a Caravelas e que, meses depois, em julho daquele mesmo ano, seria incorporado ao município de Teixeira de Freitas, aconteceu algo que chamou a atenção e expôs uma situação aparentemente contraditória.

Segundo relatos do Jornal Correio de Notícias, em maio de 1990, um lavrador , Silvano, de 31 anos, foi espancado até a morte dentro de sua própria casa. E tudo teria começado por uma discussão familiar. Silvano havia discutido com a mulher.

A situação irritou sua sogra de Silvano, que procurou policiais para que fossem até a residência do lavrador e lhe dessem “uns conselhos”. O que aconteceu depois transformou uma briga doméstica em tragédia.
Vizinhos apontaram o subdelegado conhecido como Dery e o soldado da Polícia Militar Basílio como responsáveis pelo espancamento. Silvano morreu.

Segundo a reportagem, ele não tinha antecedentes criminais. A expressão “dar uns conselhos”, diante do desfecho, deixa de parecer uma simples frase e passa a revelar algo muito maior.

Revela como a autoridade podia ultrapassar os limites da lei e entrar diretamente na vida privada das pessoas. E revela também uma sociedade em que determinadas relações de poder ainda carregavam marcas do coronelismo e do autoritarismo.

IMAGEM IA

O mais surpreendente, porém, aconteceu depois. A população não ficou apenas comentando o caso nas ruas do povoado. Moradores se organizaram e formaram uma comissão para cobrar providências. Mas não procuraram somente as autoridades locais.
Foram até Salvador.

Na capital, buscaram o Departamento de Polícia do Interior, o Depim, da Secretaria de Segurança Pública da Bahia. A comissão procurou o delegado Edivando Lima para denunciar o que havia acontecido.

A viagem demonstra que aquela comunidade não estava disposta a aceitar o silêncio como resposta. O episódio aconteceu justamente em um período em que o país tentava transformar suas instituições e superar práticas autoritárias.

A democracia havia chegado aos textos legais, mas ainda precisava chegar plenamente ao cotidiano. E é justamente aí que a história de Silvano ganha importância.

Ela mostra que a violência política e institucional não desaparece simplesmente porque um regime termina. Velhas práticas podem permanecer escondidas nas relações de poder, esperando uma oportunidade para reaparecer.

Mas mostra também o outro lado dessa história: uma comunidade que decidiu reagir.
Assim, em Duque de Caxias, a democracia apareceu não apenas nas instituições, mas na decisão de moradores comuns de denunciar, viajar e exigir justiça.

Por fim, talvez essa seja a parte mais importante desse relato: Silvano morreu dentro de casa, mas seu caso não ficou preso dentro dela.

Fontes

lavrador espancado até a morte. Correio de Notícias. 16 de maio de 1990. Acervo: site Tirabanha.

Daniel Rocha da Silva

Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.

Contato: WhatsApp (73) 99811-8769 | E-mail: samuithi@hotmail.com. Acesse nossa Comunidade no Facebook

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