Por Luiz Oss

Em tempos de polarização e extremismos, assumir uma posição política pode se tornar um tabu. Para algumas pessoas, dizer publicamente que se identificam com um candidato ou uma ideologia pode ocasionar conflitos familiares, constrangimentos no trabalho, questionamentos dentro de determinado grupo ou até mudanças na forma como passam a ser vistas por aqueles que estão ao seu redor.

Por isso, há quem prefira esconder suas convicções, adotar o rótulo de “apolítico” ou até mesmo se apresentar como adepto de uma determinada corrente ideológica.

A reportagem ouviu três moradores de Teixeira de Freitas que vivem essa situação. São duas mulheres e um homem, com histórias e contextos diferentes, mas unidos por uma mesma decisão: não revelar publicamente suas posições políticas. Para preservar suas identidades e evitar possíveis consequências pessoais, profissionais e familiares, os entrevistados receberam codinomes.

As histórias revelam uma espécie de “armário ideológico”: um espaço simbólico em que pessoas escondem suas convicções porque sentem que o ambiente ao redor não permite que elas sejam expressas livremente sem que haja consequências. Não se trata necessariamente de medo de violência ou de uma ameaça direta, mas de uma pressão cotidiana, muitas vezes silenciosa, que faz com que determinadas opiniões sejam guardadas para si.

“Eu digo que sou apolítica”

Ana”, de 24 anos, nasceu em um ambiente cristão e frequenta uma igreja em Teixeira. Embora tenha opiniões políticas próximas da esquerda e já tenha votado em candidatos desse campo, evita assumir essa posição diante de pessoas do seu círculo religioso.

“Se alguém me pergunta se sou de esquerda ou de direita, eu simplesmente digo que não entendo nada de política”, conta.

Segundo ela, o problema não está apenas na divergência ideológica, mas na maneira como determinadas posições são interpretadas. Em seu ambiente religioso, uma pessoa que se declara de esquerda pode rapidamente passar a ser vista de outra maneira.

“Tem assuntos que você sabe que não pode falar. Se você falar, começam a questionar sua fé, sua família, seu caráter. É como se uma pessoa não pudesse ser cristã e pensar diferente politicamente. Uma vez contei para uma amiga que votaria no Lula e ela me perguntou se eu era a favor do aborto, apesar de que nos seus três mandatos, ele jamais apresentou tal proposta ao congresso.”

Ana conta que, por isso, muitas vezes prefere observar em silêncio discussões políticas que acontecem presencialmente ou nas redes sociais. Ela já pensou em comentar publicações com as quais concorda, mas recua ao imaginar a repercussão.

“Às vezes eu vejo alguma coisa e tenho vontade de comentar. Mas penso: para quê? Se eu falar, vai virar uma discussão desnecessária.”

Para ela, dizer simplesmente que é “apolítica” funciona como uma espécie de proteção. “É mais fácil falar que sou apolítica”, resumiu.

“Meu patrão é fanático”

“Carlos”, de 31 anos, vive uma situação diferente. Funcionário de uma empresa em Teixeira, ele trabalha para um patrão que, segundo seu relato, é um apoiador fervoroso da família Bolsonaro. No ambiente profissional, Carlos evita demonstrar suas próprias convicções políticas e afirma que, em determinadas situações, prefere até se apresentar como alguém de direita.

“Você sabe como a pessoa pensa e sabe que não adianta discutir. Então você fica na sua”, afirmou.

Um episódio ocorrido após as eleições presidenciais de 2022 marcou especialmente sua relação com a política. Segundo Carlos, seu patrão apoiava os acampamentos de manifestantes que contestavam o resultado das eleições e defendiam uma intervenção militar.

Em determinado momento, ele teve que acompanhar o patrão depois do expediente até um acampamento para entregar doações de mantimentos à um grupo de patriotas acampados a beira da estrada.

“Ele me prometeu uma carona para casa, mas antes precisava levar algumas coisas para os manifestantes, todos de verde e amarelo com bandeiras do Brasil. Descarregamos o que estava no carro, e o patrão ficou me enrolando para voltarmos. Começou a conversar com o pessoal.

Eu esperei e esperei. Parecia que ele me queria lá para fazer volume, só podia ser. Era quase meia-noite quando fomos embora. Pior que tinha que fingir que concordava com aquilo, mas por dentro estava doido pra ir embora”, destacou.

O que era apenas para ser uma entrega rápida de alguns poucos minutos se tornou horas de uma longa espera. A experiência reforçou sua percepção de que era melhor não revelar o que realmente pensa no ambiente de trabalho. Carlos afirmou que não recebeu uma ameaça direta de demissão, mas acredita que uma divergência política aberta poderia prejudicar sua relação profissional.

“Você está trabalhando e depende daquele emprego. Não vale a pena comprar uma briga.”

Por isso, quando alguém pergunta sobre sua posição política, ele prefere desconversar. Quando não consegue escapar da pergunta, admite que às vezes diz ser de direita, mesmo não se identificando verdadeiramente com essa posição. “É mais fácil”, resumiu.

“Para meu pai, até o centro é subversivo”

Marina”, de 16 anos, enfrenta a pressão dentro da própria família. Filha de um pai conservador e estudante de um colégio militar, ela cresceu em um ambiente no qual, segundo seu relato, opiniões políticas de esquerda são recebidas com forte desconfiança.

Ela explica que seu pai possui uma visão política bastante rígida e interpreta determinadas posições como uma ameaça ao país.

“Para ele, uma pessoa de esquerda quer destruir o Brasil. Às vezes nem precisa ser de esquerda. Se for de centro-esquerda, já é vista como alguém subversivo, contra os valores da família.”

Marina afirma que evita discutir política com o pai para não transformar divergências ideológicas em conflitos familiares. Ela diz que não se sente completamente livre para expressar suas opiniões dentro de casa.

“Eu zelo pela paz. Se isso significa me calar diante de um absurdo espalhado por Nikolas Ferreira ou qualquer outro, melhor não dizer nada.”

A jovem afirma que, ao longo dos últimos anos, desenvolveu opiniões próprias a partir das experiências pessoais, da escola, das redes sociais e do contato com outras pessoas. Mas assumir publicamente uma posição de esquerda, principalmente dentro de casa, seria uma decisão com consequências.

“Se eu falasse em casa que sou de esquerda, seria um problema. Não seria só uma discussão política. Meu pai levaria para o lado pessoal.”

No ambiente escolar, Marina também prefere cautela. Ela afirma que aprendeu a observar antes de manifestar determinadas opiniões e a identificar com quem pode conversar sobre política.

“Você acaba aprendendo a observar antes de falar. Você sabe com quem pode conversar e com quem não pode.”

Para ela, a situação produz uma contradição difícil de explicar:

“Eu penso uma coisa, mas muitas vezes preciso parecer que penso outra. É como se eu fosse uma agente secreta infiltrada na minha própria vida.”

Quando o silêncio é questão de sobrevivência social

É nesse cenário que surge o que chamo de “armário ideológico”. Assim como outras formas de identidade que algumas pessoas preferem esconder por medo da reação alheia, a identidade ideológica também pode ser mantida em segredo. A pessoa continua pensando, votando e formando suas convicções, mas escolhe cuidadosamente quando e onde pode revelá-las.

No caso dos três entrevistados, o silêncio é uma questão de sobrevivência: uma maneira de evitar conflitos com familiares e amigos de longa data, preservar relações profissionais ou simplesmente não transformar uma divergência política em uma disputa pessoal.

Ana prefere ser vista como apolítica dentro de sua comunidade religiosa. Carlos, por razões profissionais, já chegou a se apresentar como alguém de direita apesar de não se identificar com essa posição. Marina, dentro de casa e no ambiente escolar, calcula as consequências antes de revelar suas convicções.

No fim, as três histórias levantam uma questão que vai além da disputa entre esquerda e direita: até que ponto uma pessoa se sente livre para dizer aquilo em que acredita?

Em uma democracia, divergências políticas deveriam fazer parte da convivência. Ninguém deveria precisar esconder suas ideias para preservar um emprego, evitar conflitos em casa ou se manter em uma comunidade.

Mas os relatos ouvidos pela reportagem mostram que, na prática, nem sempre é assim. Há pessoas que não precisam mudar aquilo em que acreditam. Precisam apenas esconder.

E talvez essa seja a característica mais curiosa de uma “esquerda que permanece dentro do armário”: ela pode estar muito mais perto do que parece, mas permanecer invisível justamente porque aprendeu que, em determinados lugares, é mais seguro não tomar partido.

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