Por Luiz Oss
Na véspera do aguardado dia da eleição, a Praça 7 de Setembro se tornou palco da Virada Cultural TX. Da poesia à música ao vivo, a noite de sábado (24) foi uma oportunidade catártica de extravasar sentimentos e emoções em um ambiente permeado por diversas formas de arte, que elevaram o espírito e, sobretudo, estimularam o senso crítico. O evento foi organizado pelo DCE da UFSB e DALE (Diretório Acadêmico da Liberdade Estudantil) do Campus Paulo Freire.


A Virada Cultural também contou com a atividade unificada de fandons e, também, com uma oficina de blusas realizada por Samuel, Kohlrausch e Alice Kiefer com técnicas de stencil. Além de uma exposição dos cartazes produzidos durante a concentração dos artistas e designers livres do Comunica Lula TX.
Destaque para os artistas do slam, modalidade de batalha de poesia falada que transforma versos em voz, identidade e resistência nas periferias. O cenário hip-hop foi muito bem representado pela presença dos slammers Iza Germano, Brook MC, Viih Silva e Ollyver MC.


Sobre o evento, o slammer Ollyver MC declarou que foi: “surreal, não tem outra palavra que descreva. Dividir o palco com poetas de tamanha expressão da nossa cidade é uma oportunidade imensa, ainda mais em um ato tão significativo para nós poetas e população”.

Mais adiante, acrescentou: “ver a emoção nos rostos de quem está ouvindo não tem preço, e é belíssimo ver que a cultura em Teixeira se faz presente e que há pessoas que apreciam tal movimento, gratidão apenas”, concluiu.

Por sua vez, a poesia marcou a noite na voz de Rose Poeta, autora de “Poema protesto”, que retrata com precisão uma realidade que muitos, infelizmente, tendem a ignorar:

Poema protesto

Este texto é mais que um poema
este texto é um protesto
pois eu atesto que ela morreu
muitas outras vezes ao longo
desse processo
o futebol aliena
mas não é o único problema
antes de ser jogador
Bruno é um homem
um machista opressor
que foi muito longe
assassinou

FEMINICÍDIO
mas não sou eu quem decide
do presídio, a máxima lei o libertou
a pena não vale minha pena
mas preciso escrever
que ele cometeu um crime
com requintes de crueldade
e agora responde em liberdade
e Elisa, que não é monalisa
agora é um quadro na parede
do filho, cujo pai
não queria pagar pensão
mundo cão
a justiça é uma mulher

com a vista tampada
Elisa nem se quer
pôde ser enterrada
quem não sente
a sociedade está doente
desse mal eu não morro
foto com máscara de cachorro
imprensa coletiva, entrevista
convite para voltar a jogar
quem sou eu para julgar?
sou uma mulher
que está perdendo a fé
na humanidade
diante de tanta banalidade
violência televisionada

sem disfarces, ao alcance
do controle da mão
que faz injustiça social
que muda o canal de televisão
para assistir o jogo
e ver seu time campeão
onde não importa
quem é o goleiro
mas ver a outra
torcida em desespero
não tem preço
nem caixão!
Rose Poeta transformou a poesia em denúncia, expondo a banalização do feminicídio e as contradições de uma sociedade que, muitas vezes, privilegia o espetáculo em detrimento da vida. Seus versos tocam em uma ferida que jamais cicatrizará. Ao provocar o público, a poetisa faz da palavra um instrumento de resistência. A ironia está no fato de que, enquanto isso, a extrema-direita silencia diante dessa violência e elege representantes que também a ignoram — como uma certa deputada cuja atuação pública é marcada pela negação desse tipo de crime.

Um dos momentos que emocionaram os presentes ocorreu quando uma menina, vestindo um vestidinho vermelho repleto de adesivos com a estrela do PT, se aproximou do microfone e pediu para falar. Apesar de breve, sua declaração provocou grande euforia entre o público:
“As minhas palavras são poucas, mas para uns elas podem significar muita coisa. Se Deus quiser, amanhã a nossa estrela vai brilhar igual a uma estrela cadente do céu”.
Uma ameaça à espreita

O clima de festa e descontração persistiu durante toda a Virada Cultural TX, sem que o evento perdesse a seriedade da ocasião, especialmente diante da preocupante conjuntura nacional e de um cenário político marcado pela polarização.

A esse respeito, uma estudante universitária da UFSB, que preferiu permanecer anônima, descreveu alguns incidentes pontuais ocorridos durante a noite e relatou um clima de tensão no ar:
“Nas proximidades do local do evento, havia uma intimidadora movimentação de veículos da oposição, nos filmando com seus celulares, buzinando de forma histérica. Em um dado momento um trator, com uma bandeira do Brasil tremulando ao vento, passou em alta velocidade pela via pública.

Os mesmos carros davam voltas, como tubarões movimentando ao redor da presa. Embora estivessemos animados pela atmosfera de arte e camaradagem, o receio e o medo nos circundava a todo momento. Não foi uma sensação isolada, muitos sentiram o mesmo.”

Também foram relatados episódios de intimidação atribuídos a apoiadores da direita, entre eles o caso de um motociclista que vestia a camisa da Seleção Brasileira e teria ameaçado uma das artistas participantes do evento. Felizmente, a intervenção de outros participantes da Virada Cultural TX fez com que o agressor se afastasse, dando partida na motocicleta e saindo em disparada.

A presença de manifestantes da oposição nas imediações da praça contribuiu, aos poucos, para a criação de um ambiente claustrofóbico. A movimentação chegou até as proximidades do comitê do PT. Após a dispersão dos manifestantes, foi constatado que a fechadura do imóvel estava danificada, levantando a suspeita de uma possível tentativa de invasão para vandalizar o local. Além disso, adesivos com o número 22 foram colados na vidraça, acompanhados de um cartaz com os dizeres: “Fora Lula”.

Apesar dos momentos de tensão — nada de novo no front da polarização política —, a Virada Cultural TX foi um sucesso, tanto pela presença do público quanto pela qualidade das manifestações artísticas apresentadas. Mais do que uma atividade recreativa e contemplativa, a noite proporcionou uma reflexão profunda sobre a realidade atual por meio das mais variadas formas de expressão artística.

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