Por Daniel Rocha
Lá pelo final do século XIX e começo do XX, o Brasil estava mudando na área da saúde. As pessoas ainda usavam muito remédios caseiros, feitos de ervas e folhas, principalmente onde a medicina moderna ainda não tinha chegado direito. Um bom exemplo disso é o “Elixir de Tibornina”, que era bem famoso em Caravelas, no sul da Bahia.
Esse elixir foi criado por Floriano Serpa, um farmacêutico, e acabou virando um dos tratamentos mais procurados para sífilis, uma doença sexual que era bem comum, especialmente nas cidades portuárias, como Caravelas. O elixir foi bastante divulgado nos jornais locais, sendo chamado de “remédio eficaz da flora brasileira”, prometendo curar “moléstias e impurezas do sangue”.

Em 1909, as propagandas falavam maravilhas do produto, dizendo que ele era bom para doenças crônicas. Já em 1888, um outro jornal publicou até um depoimento do Dr. José Carlos Gomes da Silva, médico de Caravelas, que apoiava o uso do elixir no tratamento da sífilis.
Para ele, o “Elixir de Tibornina” era melhor que outros remédios da época, por ser mais eficiente em várias fases da doença. A divulgação desse relato médico era importante para dar mais credibilidade ao produto, num momento em que não existia ainda um sistema de saúde público organizado no Brasil e havia muitos recursos para combater as doenças sexualmente transmissíveis, que era também um tabu.
Caravelas era um porto importante no extremo sul da Bahia, Navios das companhias Baiana e Espírito Santo e Caravelas de Navegação passavam por lá, e a cidade era o ponto final da Estrada de Ferro Bahia-Minas, o que aumentava o número de pessoas circulando e, consequentemente, a propagação de doenças como a sífilis.
Gilberto Freyre, em seu livro “Casa Grande & Senzala”, comenta que a sífilis se espalhou muito no Brasil por conta das relações sexuais entre colonizadores e escravizados, chamando o país de “terra da sífilis por excelência”.
Mas, ao focar apenas nas questões sexuais, Freyre acaba ignorando outros fatores importantes, como as péssimas condições de vida nas cidades portuárias e a ausência de políticas públicas de saúde para prevenir e combater doenças. Políticas que só começaram a ser implementadas a partir de 1904, com Oswaldo Cruz e suas campanhas contra a febre amarela e a varíola, antes apenas um Inspetoria de Higiene pública fiscalizava a comercialização de farmacos.

Ainda assim, Freyre também critica como os tratamentos para doenças venéreas se transformaram em um negócio lucrativo na época. Remédios como o Elixir de Tibornina, que prometiam curas milagrosas, muitas vezes ultrapassavam os limites éticos em suas propagandas, o que levanta dúvidas sobre a credibilidade do depoimento do médico caravelense.
Assim, dessa forma, o suposto “sucesso” do Elixir de Tibornina em “Caravelas” não pode ser visto apenas como uma questão local ou como prova de sua eficácia. Ele reflete a problemática da falta de um sistema de saúde público organizado na época e o papel das cidades portuárias na disseminação e tratamento de doenças venéreas no Brasil, além dos interesses comerciais sobre a realidade trágica em um país onde a falta de alternativas na medicina oficial permitiu que tratamentos populares surgissem como uma esperança, mesmo que limitada, para a população.
Daniel Rocha da Silva*
Historiador graduado e Pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
Contato WhatsApp: ( 73) 99811-8769 e-mail: samuithi@hotmail.com
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Fontes e referências:
Diário de Notícias 02 de maio de 1900. Acervo site tirabanha.
SAGGIORO. Elder Sidney. SINTOMAS DO MOMENTO: MEDICAMENTOS E PROPAGANDA NO “COMÉRCIO DO JAHÚ” : https://www.unisagrado.edu.br/custom/2008/uploads/anais/historia_2016/Sintomas_do_momento_Elder_Saggioro.pdf
FREYRE. Gilberto. Casa Grande e Senzala .
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