Por Daniel Rocha
Antes da consolidação urbana de Teixeira de Freitas, no extremo sul da Bahia, a dinâmica de vida na região estava diretamente associada aos recursos naturais disponíveis — entre eles, o jacarandá. A espécie, hoje praticamente ausente da paisagem, desempenhou papel central no sustento de comunidades que habitavam o território antes mesmo da formação do povoado e, posteriormente, da cidade.
Utilizado por povos nativos, descendentes de povos originários, comunidades negras e também por fazendeiros, o jacarandá era matéria-prima essencial para diversas atividades do cotidiano. Sua madeira, reconhecida pela alta resistência a pragas e ao apodrecimento, era empregada na fabricação de utensílios domésticos, ferramentas agrícolas e estruturas fundamentais para o transporte e a moradia, como canoas, carroças, pontes e casas.

A espécie integrava o grupo das chamadas “madeiras de lei”, termo histórico utilizado no Brasil para designar madeiras nobres, duráveis e resistentes à umidade e a insetos. Durante o período colonial, o corte dessas espécies — como ipê, jatobá, cedro, imbuia, maçaranduba, pau-brasil e o próprio jacarandá — era controlado pela Coroa Portuguesa, dada sua importância econômica e estratégica.
No contexto regional, essas madeiras tiveram ampla aplicação nas estruturas rurais, especialmente nas casas de fazenda e unidades de produção, como as casas de farinha. Na Fazenda Cascata, atualmente preservada no espaço do Museu Quincas Neto, ainda é possível observar exemplares dessas construções.
A casa-sede, datada do século XIX, apresenta estrutura elevada sobre esteios de madeira de lei, incluindo o jacarandá, além de divisórias internas em taipa de mão e tijolo maciço — características que evidenciam técnicas construtivas tradicionais.
Outro exemplo relevante é a casa de farinha, também do século XIX, utilizada para o beneficiamento da mandioca e do café. Movida à tração animal, sua estrutura combina elementos de madeira de lei — como pequi, baraúna e outras espécies — com mecanismos engenhosos, como pilões e engrenagens, demonstrando o domínio técnico das comunidades locais sobre os materiais disponíveis.
Relatos de memorialistas da região reforçam a presença do jacarandá no cotidiano dessas populações. Segundo Domingo Cajueiro Correia, da Fazenda Nova América, era comum a utilização de lascas da madeira para acender fogões a lenha, devido à sua alta capacidade de combustão.
O uso também se estendia à marcenaria, com a produção de móveis duráveis, como berços e arcas familiares, alguns dos quais preservados como relíquias. A extração acontecia, mas de forma pontual, geralmente motivada por encomendas específicas.

Na comunidade Arara, na década de 1930, estruturas produtivas como as farinheiras eram quase integralmente construídas em madeira. Com exceção do forno, geralmente feito de ferro, todos os demais componentes — rodas, prensas, parafusos e suportes — eram confeccionados artesanalmente, refletindo tanto a dificuldade de acesso a materiais industrializados quanto a disponibilidade de madeira de qualidade na região.
Esse cenário evidencia que, até meados do século XX, o valor atribuído ao jacarandá estava diretamente relacionado ao seu uso. Ou seja, sua importância deriva da capacidade de atender às necessidades práticas das comunidades — conceito que, na economia política, é definido como “valor de uso”.
A partir das décadas seguintes, no entanto, esse padrão começou a se alterar. Com o avanço da exploração madeireira em larga escala, especialmente a partir da segunda metade do século XX, o jacarandá e outras espécies da Mata Atlântica passaram a adquirir maior relevância como mercadoria.
A grosso modo, o valor de troca — associado à comercialização e ao lucro — passou a se sobrepor ao valor de uso, intensificando a extração e contribuindo para o esgotamento dos recursos naturais.

Dessa forma, esse processo resultou em profundas transformações na paisagem e na dinâmica socioeconômica da região. A redução drástica da presença do jacarandá é um dos principais reflexos desse período, marcado pela exploração predatória e pela ausência de políticas ambientais efetivas.
No próximo texto, a série seguirá aprofundando os caminhos que ajudam a compreender a relação entre o jacarandá e a formação de Teixeira de Freitas. Irá abordar o início da exploração madeireira em larga escala na região , processo que contribuiu para o surgimento do povoado, e como, a partir desse momento, seus impactos passaram a ser sentidos no cotidiano das comunidades locais, que inclusive, é o assunto do nosso próximo texto.
Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
Contato: WhatsApp (73) 99811-8769 | E-mail: samuithi@hotmail.com. Acesse nossa Comunidade no Facebook
O conteúdo deste site não pode ser copiado, reproduzido, publicado no todo ou em partes, ou convertido em áudio ou vídeo sem autorização expressa do autor.
Deixe um comentário