Por Daniel Rocha
(Continuação do texto anterior ) Diferentemente da lagoa que existia na região do antigo Shopping Velho, essa lagoa resistiu por mais tempo à expansão urbana, justamente por se localizar mais distante do núcleo central da cidade.
Como é possível observar nas fotografias da época, mesmo após a construção da rodoviária, parte da vegetação ainda sobrevivia ao redor da área alagada — uma coexistência temporária entre infraestrutura urbana e ambiente natural.
Contudo, o crescimento desordenado da cidade, associado ao despejo de entulhos e aos sucessivos aterramentos promovidos pelo poder público e pela população ao longo da década de 2000, acabou eliminando definitivamente o espaço.

Destino semelhante teve a terceira lagoa, localizada nas proximidades da BR-101 e da Avenida São Paulo,no bairro Vila Verde, — área onde posteriormente seria construído o Shopping PátioMix — e que também passou por um processo de desaparecimento mais tardio em comparação à lagoa central da cidade.
Distante do núcleo urbano original, sua vegetação e áreas alagadas sobreviveu até os anos 2000, quando a expansão comercial e imobiliária intensificou a ocupação da área. Antes mesmo da implantação dos grandes empreendimentos, a lagoa já sofria com loteamentos irregulares, despejo de resíduos e redução gradual de sua extensão natural.

Dessa forma, o desaparecimento dessas lagoas não pode ser interpretado apenas como consequência inevitável do crescimento urbano. Trata-se, sobretudo, da expressão local de um modelo nacional de urbanização consolidado entre as décadas de 1950 e 1970.
Inspirado em concepções desenvolvimentistas e fortemente influenciado pelo ideário da modernização conservadora brasileira, esse modelo priorizava a expansão econômica, a circulação de mercadorias e a valorização imobiliária em detrimento da preservação ambiental e da organização social do território. Em cidades de crescimento recente, como Teixeira de Freitas, essa lógica ocorreu de forma particularmente intensa.
A rápida valorização das áreas centrais e a ausência de planejamento ambiental adequado transformaram lagoas, córregos e áreas úmidas em obstáculos a serem eliminados em nome do progresso em diferentes partes da cidade.

Nesse sentido, a história ambiental de Teixeira de Freitas, assim como a trajetória de suas três maiores lagoas, eliminadas pela ocupação urbana, revela como o discurso do progresso frequentemente operou através do apagamento da paisagem natural e da construção de uma memória urbana voltada apenas para o crescimento econômico e para a urbanização.
Refletir sobre essas transformações, especialmente durante o aniversário de emancipação do município, significa compreender que a história urbana não é feita apenas de avenidas, asfaltamento,pavimentação, prédios e expansão comercial, mas também de perdas ambientais, silenciamentos e disputas sobre o uso do território.

Revisitar a memória das lagoas desaparecidas é, portanto, recuperar dimensões esquecidas da experiência urbana teixeirense e questionar os modelos de cidade que continuam sendo produzidos no presente.
Trata-se também de pensar formas de desenvolvimento urbano capazes de conciliar crescimento econômico, preservação ambiental e justiça social. Afinal, a história das cidades também é a história de suas águas, de suas paisagens e das escolhas políticas feitas ao longo do tempo.
Fontes
A Urbanização Brasileira — Milton Santos. São Paulo: Edusp, 1993.
Além do Eucalipto: O Papel do Extremo Sul — José Koopmans. Salvador: CEPEDES, 2005.
CEPLAC. Diagnóstico Socioeconômico da Região Cacaueira da Bahia. Ilhéus: CEPLAC.
Mapa Teixeira de Freitas 1977 – Escala 1:100.000 Fonte: SUDENE
Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
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