Por Daniel Rocha

O crescimento de Teixeira de Freitas nasceu no embalo dos grandes projetos de desenvolvimento que transformaram o Brasil na segunda metade do século XX. No coração do Extremo Sul da Bahia, a cidade surgiu em meio à abertura de estradas, ao avanço da exploração madeireira e à expansão das fronteiras econômicas, tornando-se símbolo de uma urbanização acelerada e intensa.

Movida pela valorização imobiliária, pela especulação fundiária e pela força do comércio regional, Teixeira cresceu rapidamente, redesenhando sua paisagem e seu território. Nesse caminho rumo ao progresso, porém, a natureza muitas vezes foi vista como algo a ser removido para dar lugar ao avanço urbano.

Mapa Teixeira de Freitas 1977 –
Fonte: SUDENE

Entre os exemplos mais simbólicos dessa dinâmica está o desaparecimento das três grandes lagoas — a do centro da cidade, no bairro Lagoa; a do bairro Jardim Caraípe; e a do bairro Vila Verde — que existiam no território urbano teixeirense até as décadas finais do século XX.

Hoje soterradas e quase apagadas da memória coletiva, essas lagoas revelam uma transformação geográfica e também um processo histórico de ruptura entre cidade e meio ambiente.

Os mapas cartográficos de 1977, tanto o original quanto o reconstituído por inteligência artificial, demonstram que a então jovem cidade possuía um sistema hídrico significativo, composto por três grandes lagoas cercadas por pequenas áreas alagadas.

Esses espaços funcionavam como ecossistemas naturais, abrigando aves, peixes, insetos e vegetação típica das áreas úmidas da Mata Atlântica. Ao mesmo tempo, influenciavam diretamente o desenho urbano da cidade, condicionando o traçado de ruas e avenidas.

Bairro da Lagoa, 1970. Foto restaurada por IA

A primeira dessas lagoas localizava-se na região onde posteriormente surgiria o bairro Alagoas, popularmente conhecido como “Lagoa”, no centro da cidade, nas proximidades do atual Teixeira Mall Center.

Sua drenagem iniciou-se ainda na década de 1970, impulsionada pelo avanço dos loteamentos urbanos e pelo interesse imobiliário sobre a área. O aterramento foi realizado, em grande parte, com resíduos de madeira provenientes das serrarias que operavam intensamente na região naquele período.

A prática constitui um exemplo claro de como o ciclo econômico da madeira participou não apenas do desmatamento regional, mas também da própria remodelação do espaço urbano de cidades do Extremo Sul baiano, como Teixeira de Freitas.
(Continua no próximo texto)

Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
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Fontes
A Urbanização Brasileira — Milton Santos. São Paulo: Edusp, 1993.
Além do Eucalipto: O Papel do Extremo Sul — José Koopmans. Salvador: CEPEDES, 2005.
CEPLAC. Diagnóstico Socioeconômico da Região Cacaueira da Bahia. Ilhéus: CEPLAC.
Mapa Teixeira de Freitas 1977 – Escala 1:100.000 Fonte: SUDENE

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