Por Daniel Rocha

Entre o final da década de 1940 e o início dos anos 1950, consolidou-se no extremo sul da Bahia — incluindo o território que hoje corresponde a Teixeira de Freitas — um novo ciclo de exploração madeireira. 

De acordo com estudos da CEPLAC, esse período marcou a intensificação de uma atividade que já vinha sendo desenvolvida, mas que, a partir de então, ganhou escala, organização e impacto regional.

Foi nesse contexto que se instalaram empresas de grande porte, como a Elecunha S/A, em 1948, no município de Nova Viçosa, e a Brasil-Holanda , em Medeiros Neto. Essas companhias estruturaram a exploração da madeira, abriram estradas, organizaram rotas de escoamento e contribuíram diretamente para o surgimento de povoados ao longo dessas novas frentes de ocupação.

Com o aumento da circulação de mercadorias, trabalhadores e capital, começaram a surgir pequenos aglomerados populacionais. Entre eles, destacou-se o chamado “comércio dos pretos”, formado majoritariamente por trabalhadores negros e pequenos comerciantes. Esse núcleo é considerado um dos embriões do atual município de Teixeira de Freitas, que, em seus primeiros momentos, também era conhecido como Mandiocal.

A valorização do jacarandá — uma das madeiras mais cobiçadas no mercado nacional e internacional — teve influência direta na organização do trabalho e na vida cotidiana desse povoado. Ao lado das grandes empresas, desenvolveu-se uma economia paralela, baseada no pequeno comércio, na prestação de serviços e na intermediação de negócios. 

Nesse cenário, a população local não apenas acompanhou o processo, mas atuou ativamente, criando estratégias de sobrevivência e inserção econômica.

Para compreender melhor esse período, a memória oral tem desempenhado papel fundamental. O memorialista Domingos Cajueiro Correia reuniu relatos de antigos moradores, preservando experiências que, muitas vezes, não aparecem nos registros oficiais, mas são essenciais para a reconstrução do cotidiano da época.

Sobre a relação entre a exploração da madeira, a valorização do jacarandá da Bahia e o dia a dia dos primeiros moradores, Cajueiro registra um episódio amplamente conhecido entre os mais antigos:

“No caminhar dos anos de 1950/60, um senhor de nome (Manoel Jacarandá) de cor negra e bastante gordo, era muito conhecido no povoado por ser um grande comprador de Jacarandá. Segundo comentários que rolaram na época, os fazendeiros ficaram revoltados, pois esse senhor depois que conseguiu a confiança dos mesmos, comprou uma carga de Jacarandá e desapareceu, deixando os fornecedores no prejuízo.

Teixeria de Freitas 1967


Anos mais tarde ele retornou, um sr. de nome Aurestino (mestre de obra), o reconheceu, Manoel, encontrava-se em estado deprimente, com problemas mentais, perambulando pelas ruas ou vielas, portava uma lata de leite condensado na mão onde pedia um café ou uma cachaça, dependendo do horário, roupas esfarrapadas e curvado segurando a calça, digno de pena.”

Outra figura marcante desse período foi Francisco Silva, conhecido como Chico D’Água, apontado como um dos pioneiros do povoado. Mergulhador experiente, ele prestava serviços para a empresa Elecunha, atuando diretamente no processo de escoamento da madeira pelos rios da região.

Devido ao peso das toras de jacarandá, era comum que elas afundassem durante o transporte, especialmente no rio Peruípe. Nesses casos, cabia a Chico D’Água localizar, prender e fazer emergir a madeira, garantindo sua recuperação. Segundo relatos da época, tratava-se de um trabalho especializado e fundamental para evitar prejuízos às empresas. 

A análise desse conjunto de experiências revela que a exploração do jacarandá não se limitou a uma atividade econômica isolada. Trata-se de um processo mais amplo, que articulou interesses empresariais, transformações territoriais e práticas sociais diversas.

Se, por um lado, essa atividade impulsionou o crescimento econômico e contribuiu para o surgimento de Teixeira de Freitas, por outro, também deixou marcas profundas, como a degradação ambiental e a reprodução de desigualdades sociais.

Assim, ao observar a trajetória do “comércio dos pretos” e da exploração do jacarandá, torna-se evidente que economia, sociedade e meio ambiente estiveram, desde o início, profundamente interligados na formação do município. 

Longe de um processo linear, essa história é marcada por camadas, tensões e contradições — entre elas, a valorização de uma riqueza natural que, ao mesmo tempo, contribuiu para o esgotamento do próprio recurso que a sustentava. É justamente esse desdobramento que será aprofundado no próximo texto da série.

Daniel Rocha da Silva
Historiador graduado e pós-graduado em História, Cultura e Sociedade pela UNEB-X.
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